Capítulo 1
MAE
Desabei em uma mesa de canto naquele café pequeno, tentando me encolher no estofado de vinil rasgado, como se isso pudesse fazer o mundo esquecer que eu existia. Meu reflexo na janela — um rosto pálido manchado pelo cansaço, olhos castanhos claros e fundos emoldurados por um cabelo ruivo sujo — encarava-me de volta, em tom de acusação.
Meu estômago deu um nó, sentindo uma pontada aguda, mas eu ignorei. O cheiro de café e de pães de canela flutuava no ar, um lembrete cruel do que eu não podia pagar. Abracei minha mochila desbotada com força, a única coisa que consegui agarrar antes de fugir. Dentro, havia alguns livros de bolso gastos, uma muda de roupa e uma fotografia que eu não suportava olhar.
— Ei.
Um rapaz com um avental amarrado na cintura estava de pé ao meu lado, com os braços cruzados. Ele tinha cara de quem odiava o emprego e, um pouco mais, a mim. Seu cabelo loiro estava escondido sob uma touca de cozinheiro, mas alguns fios escapavam.
— Já terminou ou vai ficar aí? — perguntou ele. — Isso aqui não é um abrigo.
Senti o calor subir pelo pescoço e me obriguei a encarar o olhar dele. O tom era ácido, e o desdém era evidente.
Antes que eu pudesse gaguejar um pedido de desculpas ou uma desculpa, uma voz surgiu atrás do balcão: — Tim, não seja grosseiro.
A porta da cozinha se abriu e uma moça linda saiu de lá. Ela tinha cabelos castanhos-mel que caíam sobre os ombros e olhos azuis brilhantes, que suavizaram ao pousarem em mim. Ela devia ter a minha idade. Talvez fosse mais velha.
— Sinto muito por ele — disse ela, oferecendo um sorriso de desculpas. — Ele está tendo um dia ruim. Perdoe-o.
Sabendo que eu estava errada por ocupar uma mesa sem pedir nada, abaixei a cabeça, atrapalhada e lutando para encontrar palavras. Antes que eu pudesse falar, meu estômago soltou um ronco alto. O som foi humilhante, alto o suficiente para fazer com que os poucos clientes virassem o rosto na minha direção.
O sorriso dela se alargou e ela deu uma risada suave, um som que, de alguma forma, pareceu gentil. — Você está com fome, querida?
Minha garganta estava apertada demais para falar, então apenas acenei com a cabeça.
— Certo, espere um pouco. Já volto. Como você se chama...?
— Mae — consegui articular com a voz rouca. — Pode me chamar de Mae.
Com um aceno, ela desapareceu na cozinha. O lugar parecia precisar de alguns reparos, mas, fora isso, era aconchegante e convidativo. Fiquei encarando a superfície arranhada da mesa, meus dedos traçando os sulcos gastos. Eu odiava me sentir assim. Indefesa, exposta, mas quando pensava no que eu havia deixado para trás, aquilo parecia melhor.
Será que parecia mesmo?
Pelo menos em casa eu tinha comida, um teto sobre a cabeça e uma família que me tratava pior do que chiclete grudado no sapato. Só de pensar neles, minhas unhas lascadas cravavam na palma das minhas mãos. Eu havia prometido nunca mais deixar ninguém me ver tão vulnerável, mas lá estava eu, à mercê de uma estranha bonita. Eu não conseguia nem pagar por uma refeição.
Onde eu iria dormir? O que eu estava pensando quando fugi?
A moça retornou minutos depois, trazendo um prato fumegante de ovos mexidos, torradas com manteiga e bacon. O cheiro me atingiu como um soco, e meu estômago revirou de expectativa. Ela colocou o prato na minha frente com um sorriso.
— Aqui está, Mae. Coma tudo.
A educação exigia que eu perguntasse o nome dela, mas comer era minha prioridade agora. Murmurei um "obrigada" trêmulo e ataquei a comida. Tentei controlar o ritmo, mas a primeira garfada quebrou algo dentro de mim. O resto desapareceu em minutos, e outro prato foi colocado ao lado do vazio. Comi o segundo bem mais devagar, aproveitando cada pedaço, porque não sabia quando voltaria a comer.
Algo úmido tocou minhas bochechas. Não percebi que estava chorando até sentir o gosto de sal. A moça me observava com uma simpatia silenciosa, com os braços cruzados gentilmente sobre o avental.
Quando larguei o garfo, ela perguntou: — Sente-se melhor?
Melhor do que nos últimos dias. Limpei minhas bochechas. — Muito obrigada. Não sei como poderei retribuir.
O sorriso dela vacilou por um instante antes de retornar, um pouco menor agora. — Não se preocupe com isso. Fico feliz em ajudar.
Um silêncio confortável pairou entre nós. Era minha deixa para ir embora. Ela havia me coberto de bondade, mas... eu hesitei, e as palavras que eu precisava dizer ficaram presas na garganta.
— Desculpe incomodar, mas, por acaso... vocês têm alguma vaga de emprego? — sussurrei. Ela tinha o cheiro típico de uma loba, então eu sabia que ela podia me ouvir, não importa quão baixo fosse minha voz. — Estou disposta a fazer praticamente qualquer coisa.
Uma sombra de piedade brilhou nos olhos dela, e eu soube a resposta antes mesmo que ela falasse. — Sinto muito, Mae. Somos apenas um lugar pequeno, então não precisamos de muita ajuda.
Um nó se formou na minha garganta e eu engoli em seco. Eu me ofereceria para trabalhar de graça, mas precisava desesperadamente de um lugar para ficar.
— Ah, entendo. De qualquer forma, obrigada. — Já de pé, ajustei as alças da mochila e a joguei nos ombros. — E obrigada pela comida também. Significa mais do que você pode imaginar.
— De nada.
Lágrimas ameaçaram transbordar dos meus olhos, mas me forcei a não implorar. Eles já tinham feito favores demais me dando dois pratos de comida. Mas a vontade de pedir para ficar, nem que fosse para dormir no chão, só crescia. Corri para a entrada antes que eu fizesse alguma estupidez.
Alguns olhos estavam voltados para mim, então mantive a cabeça baixa. Ninguém naquela cidade poderia me conhecer, mas eu não podia arriscar que alguém da minha alcateia descobrisse e alertasse minha família.
Será que eles se importariam se soubessem? Será que notaram que sua única filha desapareceu? E se notaram, não comemorariam? Uma filha que só trouxe vergonha ao nome da família não era alguém que valesse a pena procurar.
Quando eu estava prestes a empurrar a porta, a moça sussurrou: — Boa sorte, Mae. Espero que consiga o que está procurando.
Não havia nada a dizer, então saí sem responder. O sol começava a se pôr, pintando as ruas do Condado de Maplecrest com um dourado crepuscular. O ar frio cortava minha pele e apertei as alças da mochila com mais força. Eu realmente não tinha planejado meus passos com cuidado, e isso estava ficando evidente. Caminhei sem rumo, meus pés estalando contra o pavimento coberto de neve. Comparado à alcateia de Eastwood, Maplecrest parecia vazio e pequeno. Mas talvez fosse por isso que as pessoas ali eram mais gentis e acolhedoras. Meus pensamentos continuavam a rodopiar. Onde eu dormiria hoje à noite? Será que eu conseguiria sobreviver a mais uma noite?
A fome tinha passado, substituída por uma dor no peito que eu não conseguia ignorar. Os rostos da minha família passavam pela minha mente, lembretes indesejados das pontes que queimei e das portas que fechei. Não havia como voltar atrás agora.
— Parece que você precisa de um lugar para ficar.
A voz desconhecida me assustou, mas eu estava acostumada a ser surpreendida, então mantive a calma e me virei lentamente.
Será ele um ladrão? Ele não parecia um, mas apertei minha mochila contra o peito. Minha ação fez com que os lábios dele se curvassem em um sorriso mínimo. Ele estava a alguns passos de distância, com as mãos casualmente enfiadas nos bolsos do casaco. Pela aparência, presumi que tivesse uns vinte e poucos anos.
Cabelos negros como a noite caíam sobre as orelhas, e seus olhos cinzentos e indecifráveis estavam fixos em mim. Será que ele era de Eastwood? Só de pensar que meu pai poderia ter enviado alguém para me encontrar, quase me esqueci das memórias dos horrores que tive que suportar.
— Não, eu não...
— Não se dê ao trabalho de mentir — interrompeu ele. Ele encurtou a distância entre nós em três passos. — Você não é exatamente difícil de decifrar.
O tom dele soava como um presságio, então recuei. — Estou bem.
— Claro que está — debochou ele. — É por isso que você está circulando o mesmo quarteirão há dez minutos.
Será que ele estava me seguindo?
— Olha — começou ele, notando minha suspeita. Ele também era um lobisomem, mas o fato de ser da mesma espécie que eu não o tornava confiável. Um lampejo de diversão cruzou seu rosto, mas eu não sabia o que ele achava tão engraçado em encurralar uma garota indefesa. — Olha, eu tenho um lugar com um quarto extra. Você pode ficar lá hoje à noite.
— É, sei.
— Sem compromissos — acrescentou ele.
— Obrigada, mas não preciso de um lugar — disse eu, rígida, jogando a mochila de volta nos ombros. — Preciso de um emprego.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso pequeno e cúmplice. — Ainda bem que posso lhe oferecer os dois. O que me diz?
Havia algo de inquietante na confiança dele, mas eu estava cansada e desesperada demais para afastá-lo.
— Por que você me ajudaria? — perguntei.
Ele deu de ombros. — Digamos apenas que já estive onde você está.
A sinceridade na voz dele foi inesperada. Por um momento, pensei em dizer não. Mas, conforme o vento frio cortava minhas bochechas e o peso da mochila pressionava meus ombros doloridos, a palavra morreu em meus lábios.
— Está bem — disse, finalmente.
Ele assentiu. — Siga-me.
E com isso, dei o primeiro passo em direção a um futuro que eu ainda não podia ver — um que mudaria tudo.
Nota da Autora
Olá, Rainhas! Obrigada por escolherem TFA. Espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever.
Conforme avançarem na história, não se esqueçam de deixar um curtir, comentário ou avaliação. É a única forma de eu saber que vocês estão gostando da história, e é uma motivação extra para continuar. Mais importante ainda, isso deixará meu coraçãozinho de escritora muito, muito feliz.
Obrigada desde já e boa leitura!
Início: 7 de abril de 2025
P: Em que dia você começou a ler? (Deixe sua resposta na seção de comentários).






April 11, 2026!
May 8, 2026 Hi @QueenArinola! I just finished The Broken Hearted King and loved it. So here I am to read another.
August 7, 2026😝