1 Vendida
Bridget
Encolhida no canto do porão, encaro o céu azul pela janela suja, me perguntando se algum dia terei a chance de ver o mundo lá fora novamente.
Fiz uma amiga aqui embaixo, graças a um pequeno buraco na parede de concreto. Uma cadela vem aqui todos os dias, procurando comida. Como não confio nas pessoas daqui, dou a comida para a cadela.
Quer dizer, a cadela não morreu, então acho que a comida está bem, mas na maioria das vezes parece que não é comestível.
Faço carinho na cadela. Ela é fêmea e a chamei de Rat, porque é pequena o suficiente para caber naquele buraco e come praticamente qualquer coisa que eu dou, igual a um rato.
A porta de madeira do porão se abre e um homem desce as escadas. Sei que ninguém aqui é humano. Provavelmente, exceto eu, é claro.
O homem coloca comida no pé da escada, olha para mim e depois para a cadela.
“Por que diabos tem uma cadela aqui dentro?”, ele pergunta, com os olhos ficando vermelhos.
“Ela... hum... entrou por um buraco em algum lugar”, respondo sem emoção.
“Aqui não é a casa dos seus pais”, ele dispara. “Você não tem o luxo de ter uma cadela.”
“Acho que ela nem gosta muito de mim, de qualquer jeito”, respondo calmamente. “Só vem aqui quando sabe que estou comendo.”
“Parece um rato maldito”, ele sibila.
“E qual é o problema de eu ter uma cadela?”, pergunto. “Você tem vários cães.”
O homem mostra as presas para mim com raiva antes de subir as escadas e bater a porta. É verdade, no entanto — esses vampiros têm lobisomens trabalhando com eles.
Acho que os lobisomens eram prisioneiros da alcateia inimiga, caso contrário não estariam aqui, porque a lenda diz que lobisomens e vampiros não se bicam.
Digo, estou baseando minha lenda em Twilight, mas, para ser sincera, não sei se é exatamente verdade.
Ao contrário de Twilight, porém, não tenho o luxo de ter um vampiro gostoso afim de mim, me protegendo, me salvando de qualquer problema humano que tente tirar minha vida. Seria legal, no entanto.
Empurro a comida para Rat e ela devora o hambúrguer sem problemas. Faço carinho em seu pelo áspero distraída, ainda encarando a janela.
A cadela termina e vai embora, me deixando com um copo de brócolis, já que isso claramente não é comestível. Mastigo o brócolis fresco até que meu captor desça.
Agora, nunca fui uma pessoa assassina, mas o pensamento nele inunda minhas veias com uma raiva quente. E acho que ele sabe disso também, porque ele dá um sorriso antes de ir até uma pia. Ele liga a água, verifica a temperatura, então caminha até mim e se abaixa.
“Tenho ótimas notícias para você, querida”, diz ele, seu hálito com cheiro de álcool atingindo minhas narinas. Franzo o nariz e me afasto para trás contra a parede de concreto frio.
“Você foi vendida”, diz ele, então cruza as mãos atrás das costas, andando de um lado para o outro. “E tenho que admitir, não gosto de quem te comprou. Quero dizer, ele é podre de rico e ganhamos um bom dinheiro por você, mas isso não significa que eu precise gostar dele, certo?”
Soa como uma pergunta retórica, então eu ignoro.
“Eu perguntei, precisa?”, a voz dele fica mais sombria.
“Não”, respondo baixo.
“Você parece ter coragem suficiente para ser atrevida com alguém acima de mim, mas não comigo?”, ele ri. “Com medo de que eu te foda de novo?”
Eu estremeço.
“Sabe, Bridget”, diz ele. “É melhor você parar de ficar aí sentada achando que seus pais adotivos bilionários vão te tirar daqui, porque eles não vão. Você não está mais em um pedestal, garota. Você vai ser uma escrava humana para um clã de vampiros. Acho que você não sabe que esse é o posto mais baixo de todos. Só um pouquinho abaixo de mim. Eu queria, por Deus, que você não tivesse sido vendida para ele. Eu queria que você não tivesse sido vendida de jeito nenhum.”
Eu também, amigo.
“Mas dinheiro é dinheiro, né?”, ele ri de novo. “Escute bem, patricinha.”
Eu o encaro com desdém.
“Este não é apenas um clã de vampiros comum — não, é um clã de vampiros da mafia”, ele diz, dando um sorrisinho com as próprias palavras. “O que significa que você precisa estar em perfeitas condições para ser apresentada.”
Eu o olho com uma expressão vazia. Estou longe de estar em perfeitas condições. Estou coberta de sujeira, fedendo porque não tomo banho há uma semana e meu cabelo provavelmente está tão oleoso que daria para fritar uma dúzia de ovos.
“É por isso que a água quente foi ligada”, diz ele, me dando um olhar afiado. “Sei que você é uma garota inteligente, então não vamos ser estúpidos, hein?”
Ele se inclina na minha frente. “Entendeu?”
Aceno em silêncio e ele dá tapinhas no meu rosto como se eu fosse uma criancinha.
“Boa garota”, ele diz, e então sobe as escadas fazendo barulho. “Trinta minutos, Bridget.”
Assim que a porta se fecha, encaro a água. Estou aqui embaixo há tempo suficiente para saber que o lugar todo cheira a enxofre e outros produtos químicos. Estou surpresa por ainda não ter morrido. Devo ter um fígado e um sistema imunológico fortes para conseguir me manter a salvo de tudo o que aconteceu comigo.
Lentamente, fico de pé e me limpo, mas não pelo cara que está me comprando, não. Por mim mesma.
Termino de me limpar e vou até o canto do porão onde nunca estive antes. Tenho medo de aranhas e não dá para ver porra nenhuma desse lado, e eu morreria se uma aranha caísse em mim.
Mas acho que, a esta altura, uma aranha deve ser a menor das minhas preocupações.
Pego algumas baterias de lítio e arranco as tampas com um pé de cabra. Dentro há lítio, lítio puro.
Tiro um pouco e coloco dentro da pia.
Da próxima vez que alguém girar essa torneira, vai levar uma baita explosão na cara. Guardo o resto das baterias e rastejo de volta para o meu canto habitual. Mas, primeiro, vou cobrir o buraco por onde Rat costuma passar, porque sou humana o suficiente para não matar uma cadela inocente durante minha fuga.
Meu captor volta com outro homem.
O homem tem olhos prateados e cabelos pretos. Eles percorrem o porão até pararem em mim. Ele sorri.
“Bem, uma bela fêmea ele comprou, não diria, Preston?”, ele pergunta ao meu captor.
“Sim, meu senhor, eu diria”, diz Preston, com uma cara de quem acabou de morder um limão.
“Hmm”, diz o homem de olhos prateados, aproximando-se de mim. “Você sabe que está vindo comigo, não sabe?”
Aceno lentamente.
“Bom”, diz ele, rindo. “Meu primo te comprou.”
Reviro os olhos e ele ri.
“Bem, Spitfire”, ele diz, olhando para Preston. “Acho que estamos prontos para ir.”
Passo a mão no rosto, deixando um rastro de sujeira.
O homem franze a testa e olha para Preston, que me dá um olhar furioso.
“Vou pegar um pouco de água para ela”, diz Preston, e eu me levanto rapidamente. Talvez meu desejo de vê-lo morto aconteça mais cedo do que o esperado.
Assim que a água atinge o lítio, ele explode, destruindo todo o pilar e jogando pedaços de concreto para todo lado. Abaixo-me no canto bem quando um pedaço atravessa o peito do homem. Ele cai no chão e seus olhos prateados reviram. Preston também está caído no chão, inconsciente ou morto.
Passo por cima do corpo enquanto outros produtos químicos entram em chamas, enchendo o cômodo rapidamente com fumaça. O plano não era me matar também.
Pego um pedaço menor de concreto, prendendo a respiração para não inalar os produtos químicos queimando, e então jogo o pedaço com toda a força que posso contra o vidro.
Ele se quebra em pequenos pedaços, e eu me iço para cima e através da janela.
Caio na grama assim que um frenesi começa no prédio, pessoas gritando e tentando desesperadamente encontrar uma maneira de apagar o fogo.
Corro por minha vida.