Do Mundo para Nós

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Resumo

Uma noite. Sem nomes. Sem promessas. Apenas dois estranhos atraídos um pelo outro por uma cidade que nunca dorme — e uma faísca que eles não conseguem esquecer. Evelyne Shamma é uma jornalista que vive sob uma única regra: nunca se envolver com a pauta. Extremamente independente, dedicada à verdade e alérgica a qualquer coisa que se pareça com um conto de fadas, ela construiu seu mundo baseada em clareza e controle. Ativista. Escritora. Defensora dos oprimidos. E se isso significa que sua vida amorosa é uma sequência de frases inacabadas... que assim seja. Mas, ao conhecer um homem sob a névoa da música e da meia-noite no clube mais secreto de Nova York, algo se quebra. Ele a escuta. Ele a olha como se ela fosse a única coisa que faz sentido. E, por uma noite, ela abandona todas as regras que sempre seguiu. Sem nomes. Sem histórico. Sem amanhã. Até que o amanhã colide com sua realidade — e ela descobre exatamente quem ele é. William Barry. A figura política em ascensão com uma vida perfeita, um sobrenome poderoso e uma namorada que estampa capas de revista. Agora, Eve está dividida entre tudo o que ela defende e tudo o que ela sentiu. E William? Ele a procura desde aquela noite. Mas como encontrar uma mulher que desapareceu sem deixar nome — quando o mundo inteiro conhece o seu? À medida que os segredos vêm à tona, as manchetes aumentam e o desejo se recusa a desaparecer, Eve e William são forçados a enfrentar a pergunta mais difícil de todas: Foi apenas uma noite? Ou foi tudo? Do Mundo para Nós é um romance *slow-burn* e emocionalmente carregado sobre duas pessoas em lados opostos do poder e a verdade que eles não conseguem ignorar — um ao outro.

Gênero
Romance
Autor
NanoRead
Status
Completo
Capítulos
26
Classificação
5.0 14 avaliações
Classificação Etária
18+

From The NewYorker to the Éclipse

Em uma cidade que nunca dormia de verdade — apenas brilhava, fervilhava e, de vez em quando, soltava um suspiro —, Evelyne Shamma movia-se com uma precisão silenciosa. Nova York não oferecia calmaria, apenas intervalos entre o barulho, e Eve aprendera a deslizar por eles como um fantasma com um prazo a cumprir.

Aos vinte e oito anos, ela tinha construído uma reputação no The New Yorker. Uma colunista política em ascensão, com um olhar perspicaz para a hipocrisia e um talento para transformar o caos em clareza. Seus textos atingiam como cortes de bisturi: limpos, precisos, impossíveis de ignorar. Ela escrevia a verdade como se a verdade lhe devesse algo, e muitas vezes era o que acontecia.

Mas Eve não era apenas uma jornalista. Ela era uma idealista camuflada de cinismo. Filha de uma professora imigrante e de um taxista que sempre deixava o rádio ligado em comentários políticos, Eve cresceu entre cantos de protesto e panfletos sindicais. Sua adolescência foi marcada por greves e editoriais. Ela tinha fogo nas veias e tinta nas mãos muito antes de sentar atrás de uma mesa de redação. O ativismo não era um hobby — era sua linhagem, seu legado, sua arma. Ela não apenas escrevia contra o sistema; ela vivia sua resistência todos os dias, desde as causas que defendia até as matérias pelas quais sangrava.

O amor sempre ficou em segundo plano diante de seus objetivos. E, mesmo quando não ficava, raramente as coisas se alinhavam. Alex era a prova disso. O relacionamento deles tinha sido seguro, lógico — um cobertor quente que nunca a cobria por completo. Três anos de respeito mútuo e afeição moderada, mas nada de paixão. Nada de fome desenfreada. Nada daquele tipo de intimidade que a fazia esquecer onde ela terminava e onde o outro começava. Até o sexo — funcional, previsível — tinha se dissipado lentamente em silêncio. Ela parou de pensar no que precisava, no que gostava, porque deixou de acreditar que qualquer uma dessas vontades seria atendida.

Fazia dois meses desde que Alex — três anos de chaves compartilhadas e rotinas de domingo — arrumou uma mala de viagem e foi embora, com aquela mistura irritante de sinceridade e autopreservação.

“Você é séria demais”, ele dissera, evitando seu olhar. “Você nunca relaxa.”

Não foi um caso. Não foi uma traição. Foi algo muito pior.

Foi o tipo de rompimento que a fez questionar não apenas ele, mas a si mesma. Cada escolha. Cada momento de defesa. Cada centímetro da armadura que ela pensava que a tornava forte.

Mas o pior veio depois. Duas semanas após Alex sair de sua vida com uma bolsa de ginástica e um adeus morno, Eve descobriu através de Malik — cujo silêncio falava mais alto que a raiva — que Alex tinha dormido com Clara. A Clara de Malik. A mesma Clara que um dia chamou Eve de irmã em solidariedade. Tecnicamente, não foi traição. Tecnicamente, ele não fez nada de “errado”. Mas tecnicalidades não impediram que a traição cortasse fundo.

Clara já tinha partido o coração de Malik e agora girava a faca com o ex de Eve. A traição doía ainda mais porque era pública, como uma cicatriz que ela não merecia. Eve não conseguia parar de imaginar se os dois — Alex e Clara — estavam flertando o tempo todo, bem debaixo de seus narizes. Se eles trocavam olhares enquanto dividiam mesas de jantar, com uma linguagem codificada disfarçada de amizade.

Se havia uma coisa que Eve desprezava mais do que políticos de terno, era a infidelidade. Ela nunca entendeu por que as pessoas traíam — por que precisavam de segredos para se sentirem vivas. Ela construiu sua vida no oposto: transparência, integridade. A honestidade era sua bagagem de mão. Talvez tenha sido por isso que Alex foi embora. Quando ela perdeu o interesse em quem ele era — quando ele aceitou aquele emprego no conglomerado de petróleo —, ela não conseguiu fingir. Ele estava escolhendo conforto em vez de convicção, salário em vez de princípios. Seguindo regras, participando de um sistema que ela passava os dias destruindo com tinta e fogo.

E a verdade era que a intimidade deles tinha diminuído muito antes da última porta se fechar. Ela não se sentia desejada. Ela não desejava. Seu corpo, sua fome — tudo tinha silenciado. Como se o desejo tivesse se encolhido em algum lugar dentro dela e parado de respirar.


“Você não é mais uma garota de bar de vinhos.”

Jo Menard apareceu na beira da mesa de Eve como um furacão de coturnos. Cachecol brilhante, delineador carregado e atitude suficiente para aterrorizar a maioria dos editores sêniores. Ela depositou um expresso com a delicadeza de um trovão e observou o campo de batalha pós-editorial com desdém.

A redação fervilhava ao redor delas — jornalistas murmurando ao telefone, revisores semicerrando os olhos sob a luz fluorescente, o ritmo da indústria e do idealismo colidindo. Era sexta-feira, e o prédio vibrava com aquela energia inquieta, típica de uma cidade que sabia que o fim de semana estava chegando. Do seu posto perto da janela de canto, Eve conseguia ver o brilho do Hudson, ofuscado pela névoa de fevereiro e pela luz do sol. Uma cidade grande demais para o luto e rápida demais para a nostalgia, já inclinada ao pulsar da noite de sexta-feira em Nova York.

Jo tomou um gole. “Você sabe que a Carla está saindo com alguém de novo, né?”

Eve não tirou os olhos do laptop. “Bom para ela.”

“Algum cara da tecnologia com um Porsche e uma startup com nome de espirro escandinavo. Plnk. Ou Prrq.”

Eve continuou digitando.

Jo inclinou-se. “Você não está brava?”

“Por que eu estaria?”

Jo lançou-lhe um olhar significativo.

Eve suspirou. “Porque ela traiu o Malik — com o meu ex — depois que terminamos. E porque o Malik está fingindo que nada aconteceu. E porque todos nós estamos fingindo que está tudo bem.”

Ela parou de digitar.

“Exatamente”, disse Jo, satisfeita. “Agora vamos parar de fingir. Já fazem dois meses. Você precisa sair desse apartamento. Você precisa flertar. Você precisa beijar alguém terrível e dançar como se sua dignidade dependesse disso.”

Eve arqueou uma sobrancelha. “Eu não faço o tipo 'terrível'.”

Jo deu um sorriso irônico. “E esse é o problema.”

O celular de Jo vibrou. Ela olhou para baixo e sorriu. “Falando no diabo. A Dani acabou de mandar mensagem no grupo. Ela conseguiu um passe VIP para quatro pessoas em um lugar underground da alta sociedade — Éclipse. Já ouviu falar?”

Eve arqueou uma sobrancelha. “Parece uma dor de cabeça superfaturada.”

“Ou”, disse Jo, inclinando-se, “uma oportunidade cósmica para dizer sim. Sim para saltos altos. Sim para coquetéis. Sim para decisões imprudentes e para fingir que o amanhã não existe.”

“Eu não sei...”

“É exclusivo, Eve. Daquele tipo com corda de veludo, sem fotos permitidas e sussurrando uma senha na porta. Dani disse que é metade máfia da moda, metade filhos de políticos que bebem como se seus escândalos ainda não tivessem sido escritos. Você adora ver os poderosos se desfazendo.”

Eve piscou para ela, dividida entre a diversão e o protesto. “Eu ia lavar roupa.”

“Lavar roupa é para as terças-feiras. A sexta-feira é para o renascimento. E este é o seu momento de crisálida. Saia do outro lado de salto alto e cheia de arrependimentos.”

Eve riu, apesar de si mesma. “Você é implacável.”

Jo deu de ombros. “Você vai. Você já disse sim — só não sabe disso ainda.”

E, naquele momento, algo em Eve suavizou. Algo se abriu apenas o suficiente.

“Ok”, ela disse baixinho. “Vamos ao Éclipse.”

Às 20h43, o apartamento de Eve parecia ter sido saqueado por fantasmas fashionistas.

Três vestidos jaziam derrotados sobre a cama, um estava pendurado na cadeira da sala e um par de saltos agulha pretos espreitava de forma ameaçadora sob o Maximus, que tinha tomado o sofá com a expressão solene de um terapeuta crítico.

Maximus entrara na vida de Eve há dois anos, um resgatado de um abrigo no Bronx. Uma parte de veludo, duas partes de atitude, ele tinha o hábito de piscar lentamente em momentos de crise emocional — como se estivesse sussurrando silenciosamente: se controla, mulher.

Eve estava de roupão, cabelo meio cacheado, expressão resignada.

“Isso é uma causa perdida.”

Jo, radiante em um minivestido dourado e um top rosa choque sem medo de ser feliz, surgiu do closet empunhando algo sedoso e preto como se fosse a Excalibur. Seu batom fúcsia brilhava sob a luz do quarto, e seus brincos de argola enormes balançavam com um charme dramático. “Correção: isso é perfeito.”

“Isso não é um vestido. Isso é uma sugestão de seda.”

“Exatamente.” Jo jogou o vestido nela. “Você prometeu. Uma noite dizendo sim.”

Eve pegou a peça. “Eu disse que ia sair. Não disse que ia ser presa.”

Jo piscou. “Ainda não.”

Havia algo magnético em Jo — uma força da natureza vestindo roupas de brechó. Nascida e criada em Flatbush, filha de imigrantes haitianos, o fogo de Jo vinha de ver o mundo tentando silenciar vozes como a dela e decidir, bem cedo, que a sua só ficaria mais alta. Ela escrevia sobre arte da mesma forma que Eve escrevia sobre política — com propósito, raiva e um amor quase doloroso.

Elas se conheceram no terceiro dia de orientação no The New Yorker, quatro anos atrás, quando Eve deixou cair uma pilha de papéis no chão do corredor e Jo, sem hesitar, ajudou a recolhê-los com uma mão enquanto tomava café com a outra. “Ou você é brilhante ou cronicamente sobrecarregada”, disse ela. Eve riu. Desde então, foram inseparáveis.

A amizade delas era o tipo em que as pessoas não acreditavam mais. Construída em longas viagens de metrô e discussões mais altas. Em brincos emprestados e ex-namorados péssimos. Em conhecer os silêncios da outra tão bem quanto as piadas internas. Jo amava Eve como uma irmã, como um espelho, como um farol. Ela nunca dizia isso em voz alta, mas vivia em cada defesa que levantava por Eve, em cada expresso que deixava em sua mesa, em cada verdade dura e lealdade feroz.

Em um mundo que muitas vezes parecia estar se desfazendo pelas costuras, Jo Menard era a única pessoa a quem Eve nunca precisava se explicar. E esse tipo de amor? Tão raro quanto uma rua silenciosa em Manhattan.

O vestido não sussurrava. Ele rugia. Ele se agarrava a Eve como um segredo que ela nem sabia que tinha.

Ela saiu do banheiro, e Jo soltou um suspiro dramático. Maximus piscou uma vez e virou as costas.

“Você parece a própria vingança”, Jo murmurou. “Uma vingança sexy e cara.”

“Eu pareço alguém que vai se arrepender de ter bebido tequila.”

“É a mesma coisa.”

Diante da penteadeira, Eve buscou seu básico: um batom nude. Discreto. Seguro.

Jo interceptou. “Larga isso.”

“O quê?”

“Nada de bege hoje. Vermelho.”

“Jo…”

“Vermelho significa poder. Vermelho significa sim. E você, minha querida, está precisando de um sim há muito tempo.”

Eve encarou seu reflexo. Seus dedos pairaram sobre o batom.

E, pela primeira vez em muito tempo, ela buscou o fogo em vez da névoa.

O Uber já esperava lá embaixo quando elas entraram.

Dani, radiante em um vestido de lantejoulas prateadas e uma alegria contagiante, cumprimentou Eve com um abraço brilhante no banco de trás. De voz suave, mas apaixonada e sem desculpas, Dani tinha um calor que suavizava qualquer ambiente em que entrava. Ativista e designer gráfica coreano-americana, ela equilibrava uma energia gentil com uma convicção radical. Ela e Eve se conheceram em Boston durante um protesto estudantil no segundo ano da faculdade — gás lacrimogêneo no ar, cartazes de papelão borrados de esperança. As duas gritavam sobre a mesma causa em cantos diferentes do campus e, ao cair da noite, estavam dividindo lanches e trocando filosofias de vida na calçada.

Malik estava no banco da frente, distribuindo chiclete como um motorista da rodada que nunca se candidatou ao cargo. Documentarista de profissão e observador silencioso por natureza, Malik tinha o jeito de capturar a humanidade em suas formas mais cruas — seja através de sua câmera ou de seus silêncios. Criado no Harlem, ele construiu sua carreira desde bolsas de estudo até festivais globais, contando histórias que a maioria das pessoas tentava esquecer. Ele conheceu Eve através de Dani anos atrás, em uma galeria independente no Lower East Side. Ambos estavam lá para a exibição de um dos primeiros trabalhos de Malik — um filme sobre segurança alimentar no Bronx que deixou Eve paralisada de silêncio. Desde então, os três formavam um triângulo inabalável, unidos antes mesmo de Jo entrar na história. Malik e Eve compartilhavam um vínculo leve — respeito mútuo temperado com um entendimento tácito.

Jo entrou por último, batendo a porta. “Vamos quebrar corações e perder as inibições.”

Malik gemeu. “Deus nos ajude.”

Jo passou mini shots de sua garrafa térmica. “Não preciso Dele. Eu trouxe tequila.”

Elas beberam. Elas riram. Elas deixaram a cidade passar como um borrão em faixas de luz amarela e barulho de concreto.

“Pronta?”, Malik perguntou, olhando para Eve pelo retrovisor.

Ela deu um sorriso malicioso. “Não.”

“Ótimo”, disse Dani, ajustando seus brincos. “Significa que você está viva.”

Éclipse não era apenas uma boate. Era uma atmosfera. Um caos curado envolto em paredes espelhadas, linhas de baixo pulsantes e o tipo de iluminação que fazia todos se sentirem uma versão melhor de si mesmos.

Lá fora, a fila serpenteava pelo quarteirão — pessoas incrivelmente lindas em casacos de pele e muita atitude. Mas Dani, sempre a força silenciosa por trás de coisas deslumbrantes, deu um passo à frente. Ela explicou que tinha feito um trabalho criativo para a campanha publicitária do clube e recebeu um passe VIP para quatro pessoas. O segurança sorriu, checou a lista e as deixou entrar sem hesitação.

E, assim, as portas se abriram.

A música atingiu como um batimento cardíaco. O calor e a cor de cem histórias se desenrolando ao mesmo tempo. O neon beijou sua clavícula. O sintetizador envolveu sua cintura. E Eve — realçada pelos lábios vermelhos, envolta em seda, ladeada por alegria e amizade — entrou.

Ela ainda não sabia, mas esta foi a noite em que o mundo saiu dos eixos.