Chapter 1
Ano de 1997
Os sinos da Universidade de Bolonha badalaram ao meio-dia, profundos e solenes, ecoando pelos arcos centenários que coroavam o grande pátio. O sol de verão, radiante sem pedir licença, espalhou ouro sobre cada tijolo desgastado e cada formando que ria, banhando o momento em um calor que parecia mais antigo que o tempo. Era um dia de encerramentos, sim — mas, acima de tudo, era um dia de se tornar.
Jungkook, um rapaz de vinte e três anos, estava logo atrás do palco, sob a sombra suave das grandes colunas, com os dedos levemente cerrados na ponta de sua beca, o coração calmo, mas transbordando.
Ele vestia uma beca vermelha — não bordô, não grená, mas aquele tipo de vermelho que desafiava o sol a competir. Com um corte preciso, minimalista, porém inegavelmente marcante. A peça se ajustava ao seu corpo alto e curvilíneo com a confiança de alguém que aprendeu a habitar a própria pele; a suavidade juvenil dos anos passados fora substituída pela elegância de um homem que enfrentou a jornada e escolheu florescer, apesar de tudo.
Ele olhou para a multidão. As fileiras de cadeiras brancas se espalhavam pelo pátio de paralelepípedos como um conjunto de estrelas à espera do nascer do sol. E, na primeira fileira, exatamente onde seus olhos sempre encontravam conforto, estava sua família.
Suga — seu pai — era fácil de identificar. Ele vestia um blazer cinza macio, com as mangas levemente amassadas, e a câmera posicionada, pronta em seu colo. Seu cabelo escuro já mostrava fios brancos nas têmporas, mas seus olhos continuavam atentos, brilhando com algo que parecia suspeitamente com emoção. Ele era o tipo de homem que falava mais através de olhares e silêncios, mas, hoje, seu olhar dizia tudo.
Ao lado dele, a mãe de Jungkook, Jin, estava sentado segurando um buquê de peônias rosadas, os dedos nervosamente brincando com a fita enquanto ele sussurrava algo para seu marido e sorria para o palco.
Algumas cadeiras adiante, a irmã mais nova de Jungkook, Nabi, inclinou-se para frente e lhe deu um sinal de positivo discreto, sorrindo de orelha a orelha. "Não tropeça", ela articulou dramaticamente com os lábios.
E então — o momento chegou.
O reitor ajustou o microfone, sua voz suave e cerimoniosa soando por todo o pátio:
“Min Jungkook.”
As sílabas ecoaram pelos arcos, um som claro que pareceu congelar o tempo por um segundo sagrado.
Aplausos explodiram — educados, porém entusiasmados. Em algum lugar nas últimas fileiras, um amigo soltou um grito de comemoração sem vergonha nenhuma. Mas Jungkook só ouviu o clique suave da câmera.
Porque, naquele exato momento, Suga a levantou — firme, experiente — e, assim que Jungkook virou o rosto, um sorriso floresceu em seu rosto como um segredo que escapava.
Clique.
Capturado.
Seu nome ainda pairava no ar como perfume. Seu sorriso — largo, caloroso e espontâneo — brilhava diretamente para a lente de seu pai, para a história que estava sendo escrita.
Ele deu um passo à frente, cada pisada ecoando suavemente sob o sol, subindo os degraus curtos para receber seu diploma. O vermelho de sua beca brilhava como uma bandeira de vitória contra o fundo de pedra cor de creme. Ele fez uma reverência, uma mão firme ao lado do corpo, a outra segurando o certificado agora gravado com seu nome — aquele que viajara muito desde a infância para chegar ali.
Virando-se novamente, ele olhou para sua família. Os olhos de Jin estavam marejados agora, os dedos pressionados contra os lábios. Sua irmã mais nova parecia levemente deslumbrada. E Suga…
Suga apenas sorriu.
Aquele tipo raro — suave, real, o tipo que fazia a garganta de Jungkook apertar sem aviso.
Ali estava ele. Min Jungkook. Formado pela Universidade de Bolonha.
Vestido de vermelho, beijado pelo sol e moldado por cada sonho e desvio que o trouxeram até ali.
E ele nunca pareceu tão vivo.
"Parabéns, Koo!"
Jungkook mal tinha descido dois degraus do palco quando um pequeno vulto correu em sua direção. Nabi, com o cabelo esvoaçante e olhos brilhando, envolveu sua cintura antes que ele pudesse reagir. O abraço dela era apertado, do tipo que falava de momentos perdidos e orgulho profundo.
Jungkook soltou uma risada baixa, suave e ofegante, enquanto envolvia os ombros dela com um braço e dava um aceno gentil, com os olhos cintilando sob a luz dourada do sol.
"Você fez um excelente trabalho. Não poderia estar mais orgulhoso de você", disse a voz de Suga, firme e calorosa.
Jungkook virou-se a tempo de ser puxado para o abraço do pai — braços firmes ao redor de seus ombros, puxando-o para perto. Jungkook deixou a cabeça descansar contra o peito de Suga, apenas por um segundo.
A batida do coração de seu pai, que outrora fora a trilha sonora de sua infância, ainda parecia um lar. Ele podia ter crescido, mas, naquele momento, aninhado nos braços de Suga, ele ainda era o mesmo menininho que costumava adormecer no sofá do estúdio enquanto esperava o pai terminar de desenhar outra obra-prima.
"Meu bebê está lindo", comentou Jin ao lado deles, com a voz teatral e orgulhosa do jeito que só Jin conseguia ser. Ele se aproximou, apertando a mão de Jungkook levemente, com um sorriso caloroso que enrugava os cantos dos olhos. "Vermelho realmente combina com você."
Jungkook riu, com as bochechas coradas. “Você sempre me faz usar isso, mãe.”
Jin riu, era verdade. Para Jungkook, era sempre vermelho ou rosa, não tinha jeito.
"Ok, ok", disse Suga, interrompendo o momento com um sorriso, "vamos tirar uma foto de família antes que alguém roube você para mais uma dúzia de fotografias."
Ele entregou sua câmera — a velha Leica preta que sempre carregava em ocasiões especiais — para um dos estudantes próximos que acabara de sair do palco. "Apenas pressione suavemente", disse ele, sendo o fotógrafo cuidadoso de sempre. "Uma foto. Tiraremos o resto em casa."
A família se aproximou instintivamente, formando um arco. Jungkook ficou no meio, ainda segurando seu diploma, ladeado por sua mãe, Jin, de um lado, e sua irmã agarrada ao outro braço como um troféu. Suga se aproximou deles, estendendo as mãos para ajustar a inclinação do capelo de Jungkook. Tinha saído do lugar com toda a agitação.
“Pronto”, disse Suga calmamente, ajeitando a borla. “Perfeito.”
Jungkook sorriu novamente, desta vez um pouco mais suave, um pouco mais completo — um momento pego entre o riso e o amor.
Clique.
O obturador disparou, imortalizando a imagem de Min Jungkook, de pé, imponente em carmesim e ouro, cercado pelas pessoas que o moldaram, o elevaram e o amaram.
Apenas deles.
E, naquela imagem, eles não estavam apenas capturando uma formatura.
Eles estavam capturando tudo o que fez a jornada valer a pena.
Logo após a cerimônia desaparecer em fotografias e despedidas calorosas, a família de quatro pessoas seguiu em direção ao estacionamento atrás da praça principal da universidade. A cidade de Bolonha, com suas pedras aquecidas pelo sol e brisas sussurrantes, observou-os partir como uma família orgulhosa dando adeus.
Suga destravou o carro com um clique suave.
Era sua posse mais preciosa — um Rolls-Royce Silver Cloud azul-marinho, com seus detalhes cromados brilhando sob o sol italiano. O modelo vintage, carinhosamente preservado, ronronava com uma elegância digna que espelhava o próprio Suga. Não era chamativo, mas impunha respeito, um legado silencioso percorrendo cada rua por onde passava.
Jin entrou no banco do passageiro, ajeitando o buquê de flores que tinham recebido na cerimônia. “Ainda não consigo acreditar que acabou”, murmurou ele, os olhos percorrendo o campus enquanto o carro saía lentamente do estacionamento.
No banco de trás, Jungkook encostou a cabeça levemente contra a janela, sua beca vermelha agora um pouco amassada e o capelo descansando em seu colo.
Nabi tinha chutado os sapatos ao lado dele, com uma perna dobrada por baixo, enquanto olhava as fotos na câmera, sorrindo sempre que encontrava uma particularmente espontânea.
“Faremos uma pequena festa esta noite”, anunciou Suga enquanto dirigia o carro pela estrada cercada de árvores, o perfume de lilases de verão entrando pelas janelas abertas. “Apenas nós e nossos amigos mais próximos.”
“Sim”, acrescentou Jin, a voz tocada por carinho. “É um momento de celebração. Ainda me lembro do dia em que ele se mudou para o dormitório.”
Jungkook sorriu, olhando pelo espelho retrovisor para encontrar o olhar de seu pai. “Ainda me lembro de você chorando no corredor.”
“Eu não estava chorando. Tinha algo no meu olho”, Jin defendeu-se dramaticamente, o que lhe rendeu uma risada vinda do banco de trás — leve e fácil, o tipo de risada que só vinha quando o caminho à frente estava livre e o passado descansava confortavelmente no retrovisor.
“Eu não sei como oito anos passaram tão rápido”, Jin acrescentou mais baixinho desta vez, a voz tingida com algo mais suave, mais profundo — não exatamente tristeza, mas a dor do tempo vivido.
Suga assentiu em silêncio, uma mão no volante e a outra descansando sobre a mão de Jin no colo. Ele não dizia muito — raramente dizia — mas seus dedos batiam gentilmente ao longo da borda polida do volante, um ritmo silencioso que só ele conhecia. O tipo de ritmo em que você entra depois de anos criando um filho, vendo-o tropeçar, levantar e, finalmente, voar.
Eles passaram pelos amplos campos verdes e pelas padarias rústicas da cidade velha, as casas tornando-se mais espaçadas à medida que se aproximavam do campo, onde ficava sua casa — aninhada entre oliveiras, com varandas largas e um jardim no qual Jungkook adormecera muitas vezes.
Enquanto o carro fazia a última curva, a luz dourada do início da noite derramou-se sobre o para-brisa, alcançando as bordas da beca vermelha de Jungkook e fazendo-a brilhar com calor.
No silêncio, quebrado apenas pelo zumbido baixo do motor e o canto das cigarras, havia algo profundamente pacífico.
A sensação de que talvez, apenas talvez, tudo estivesse exatamente como deveria ser.
"Lar"
Jungkook respirou fundo ao cruzar o limiar familiar de casa, as pesadas portas de carvalho fechando-se suavemente atrás dele. O ar fresco lá dentro o recebeu com o perfume de sândalo e vestígios tênues de colônia.
Os pisos de mármore ecoaram levemente com os passos à medida que os funcionários se moviam eficientemente, quase como se tivessem ensaiado aquele momento. Uma das empregadas apressou-se para recolher o buquê das mãos de Jin com uma reverência educada, enquanto outra seguia em direção ao Rolls, já pegando a bagagem no porta-malas.
Jin soltou o lenço do cabelo enquanto se espreguiçava. “Vamos almoçar, então”, disse ele, já indo em direção à cozinha. “Vamos precisar de energia. Vai ser uma longa noite.”
Jungkook assentiu lentamente, seu olhar vagando para cima.
Ali — logo ao lado da escadaria alta, acima do aparador que guardava fotos de família emolduradas e algumas bugigangas antigas — estava Suga, ainda com seu blazer de dirigir.
Com precisão silenciosa, ele pendurava o certificado de formatura de Jungkook. Agora, ele ficava orgulhosamente ao lado de suas próprias conquistas emolduradas: um doutorado honorário, um prêmio por toda uma vida na pintura, uma fotografia empoeirada de seus velhos tempos.
Jungkook parou na base da escadaria, pego de surpresa pela visão. Havia uma ternura na maneira como Suga alisava o canto da moldura, como se não estivesse apenas pendurando um papel — ele estava consagrando uma jornada.
E em seu rosto, aquele raro orgulho ilegível brilhava sob a calma habitual.
Antes que Jungkook pudesse falar, uma voz soou atrás dele, leve e provocadora.
“Então… você vai sentir falta da sua universidade?”
Seu transe foi quebrado. Ele se virou para ver Nabi, encostada no corrimão da escada, com o cabelo preso frouxamente e um leve borrão de batom no lábio inferior por causa de todas as fotografias da cerimônia.
Ele balançou a cabeça e começou a subir a grande escadaria, com uma das mãos deslizando pelo corrimão polido. — Não — disse ele simplesmente.
Ela ofegou em um fingimento dramático. — Sério? Oito anos e nem uma lágrima sequer?
Ele deu um sorriso suave. — As lágrimas acabaram todas. Não sobrou mais nada.
Nabi revirou os olhos, seguindo atrás dele. — Sabe, eu basicamente vivi como uma princesa enquanto você esteve fora. O universo inteiro da mamãe e do papai girava ao meu redor. Você tem ideia de quantas coisas eu consegui fazer porque você não estava aqui para competir?
Jungkook riu — um som leve, rico em afeto. — Eu acredito.
E, no topo da escada, ele parou. — Vou me trocar e já desço. Só quero um banho rápido.
— Já? — Nabi fez um biquinho, seguindo-o por mais alguns degraus. — Não podemos sentar e conversar um pouco? Senti sua falta... de verdade.
Seu olhar suavizou-se e ele virou-se levemente para olhá-la.
— Também senti sua falta — disse ele, sincero. — Só me dê um tempo. Ainda sinto como se estivesse vestindo a cerimônia.
Nabi suspirou, mas assentiu. — Tudo bem. Mas não leve mais de uma hora. Estou contando o tempo.
Jungkook riu baixinho enquanto caminhava em direção ao seu quarto; o rangido familiar da porta se abrindo soou como música para seus ouvidos.
Jungkook entrou no quarto e deixou a porta bater suavemente atrás dele, com um baque abafado. A luz dourada filtrava-se pelas cortinas finas, projetando sombras longas e difusas sobre o piso de madeira.
Seu quarto estava exatamente como ele o deixara — limpo, arrumado, intocado. As prateleiras ainda guardavam seus antigos cadernos de desenho, uma fileira empoeirada de livros, romances e uma carta rabiscada à mão que Suga deixara em sua escrivaninha uma vez. Ele colocou seu capelo delicadamente sobre a mesa de cabeceira.
Ele estava em casa.
E, pela primeira vez em anos, não parecia um fardo.
Jungkook moveu-se em silêncio, os dedos trabalhando nos botões de sua toga carmesim, um por um, até que o tecido deslizasse por seus ombros e caísse no chão como seda em rendição.
Peça por peça, ele se desfez das vestes do dia — a celebração, os aplausos, as expectativas — até que restasse apenas a pele, nua e indefesa.
Ele entrou no banheiro, sentindo os azulejos frios sob os pés. O vapor subia do chuveiro, mas, antes de entrar, ele hesitou.
Seu olhar encontrou o espelho.
Ali estava ele, cercado pela luz suave e pelo zumbido tênue do silêncio, encarando seu reflexo não com vaidade, mas com algo mais próximo de reverência — e talvez um toque de tristeza.
Ele não era mais aquele garoto de dezesseis anos.
Não era o adolescente nervoso que partira de casa oito anos atrás com uma mala cheia de acusações e lágrimas silenciosas. Nem o garoto que costumava duvidar de cada passo que dava, que escondia as mãos trêmulas nas mangas do moletom, que ligava para casa e chorava nas noites em que o peso de se tornar alguém parecia insuportável.
Não.
Ele havia se tornado mais amplo e belo — não apenas no corpo, mas na alma. Seus ombros haviam alargado, seu maxilar estava mais definido, suas clavículas sobressaíam sob a pele dourada, e cada curva de seu corpo fora esculpida como a poesia de um grande artista. Ele cresceu forte com o tempo, com os desafios, com a experiência. Uma força silenciosa que não se aprende, apenas se conquista.
Seus dedos moveram-se, quase inconscientemente, traçando as linhas do seu peitoral, as curvas de seus braços, os contornos sutis dos músculos conquistados através de longos anos de disciplina. E então pararam — repousando gentilmente sobre o coração.
Ele exalou profundamente.
E foi então que aconteceu — suave e silencioso.
Uma única lágrima escorreu do canto do olho, trilhando o caminho pela bochecha como uma memória que não quer ser esquecida.
Ele não a enxugou.
Não era uma lágrima de tristeza.
Era outra coisa — um desabafo. Uma despedida do garoto que ele um dia foi. Uma homenagem silenciosa à jornada que o trouxe até ali. Às noites em que permaneceu acordado, às manhãs em que quase desistiu, às pessoas que o amaram.
Outra respiração.
E então ele entrou no chuveiro, deixando a água morna cair por sua pele, lavando a poeira do passado, os aplausos do presente e o peso de cada palavra não dita que vivia no espaço entre eles.
Amanhã, o mundo esperaria algo novo dele novamente.
Mas, por enquanto, ele se permitiu este momento — cru, real e inteiramente seu.
Depois de um longo banho revigorante, Jungkook voltou ao quarto e deixou o calor do lar envolvê-lo. Ele se vestiu de forma simples — uma camisola branca com babados, macia e solta em seu corpo, ainda úmida no pescoço devido ao cabelo molhado. Sem cerimônia agora, sem toga vermelha. Apenas ele.
O cheiro de comida caseira pairava no ar — alho e óleo de gergelim, a doçura suave dos vegetais refogados e o aroma reconfortante do arroz acabado de sair do fogo. Era o cheiro de pertencer.
Mas Jungkook não se mexeu. Ele caminhou até a cama e deitou-se encolhido sob o cobertor, com o rosto enterrado profundamente no travesseiro, como se isso pudesse abafar o barulho do mundo, ou pelo menos o tilintar distante de pratos e a voz alegre de Jin chamando todos para o almoço.
Ele tinha ouvido os passos lá fora, a batida suave, a insistência gentil —
— O almoço está pronto, Koo. —
...mas ele não respondeu.
Não era a fome que o consumia. Nem mesmo o aroma de comida caseira flutuando pelo corredor poderia tirá-lo do vazio em que estava afundando. O que ele desejava não era um prato de arroz quente ou risadas à mesa.
Era silêncio.
Imobilidade.
Esquecimento.
Sua mente parecia barulhenta demais, pensamentos atropelando-se como ondas que se recusavam a quebrar. Seu coração estava pesado com algo que ele não sabia nomear — algo entre exaustão e dor. Cada músculo de seu corpo implorava por libertação, por uma pausa, por um momento em que ele não precisasse ser nada nem ninguém.
Ele precisava bloquear tudo aquilo.
Só por um momento.
Ele fechou os olhos com força, soltando um suspiro lento e trêmulo. A luz que atravessava as cortinas parecia uma invasão, então ele se virou, puxando o cobertor sobre a cabeça. Talvez, se fingisse bem o suficiente, o mundo o deixasse em paz.
O sono era o único refúgio em que confiava agora. Não comida. Não conversa.
Apenas dormir. E foi o que fez.
Horas depois,
Jungkook não sabia quanto tempo tinha dormido.
O tempo escorrera entre seus dedos como areia em um sonho, dissolvendo-se no silêncio. Ele não se mexera quando Nabi abrira a porta silenciosamente mais cedo, sua batida leve mal sendo registrada na névoa em que ele mergulhara. Até Jin, que se esforçara para preparar seus pratos favoritos — barriga de porco apimentada, omelete enrolado e sopa quente — dera meia volta na porta, relutante em incomodá-lo.
O mundo seguiu seu curso lá fora, mas, dentro daquele quarto escuro e silencioso, Jungkook permaneceu intocado.
Até agora.
Seus olhos abriram-se lentamente para o brilho suave da noite filtrado pelas cortinas, lançando sombras delicadas pelo chão. Ele ficou ali por um momento, desorientado, piscando para o anoitecer enquanto tentava entender o silêncio. O ar estava parado. O cheiro de comida havia desaparecido, substituído pela fragrância suave de lírios do vaso perto da janela.
Com um suspiro baixo, ele sentou-se, o cobertor escorregando de seus ombros. Seu corpo parecia pesado, como se ele estivesse saindo de um sonho do qual não queria ter retornado.
Seu olhar desviou-se, parando na sacola de compras ao pé da cama — uma sacola de papel impecável com alças douradas elegantes. Ele inclinou-se para frente e puxou-a, espiando dentro. Aninhado em papel de seda delicado estava um vestido verde-esmeralda. Cetim. Ombro a ombro. Dobrado elegantemente como um segredo à espera de ser descoberto.
Suas sobrancelhas franziram levemente. Sua mãe deve ter escolhido aquilo para a festa.
Arrastando-se para fora da cama, Jungkook caminhou descalço pelo quarto até o espelho. Ele esticou os braços acima da cabeça com um bocejo silencioso, rolando os ombros para trás enquanto tentava sacudir a rigidez de seus ossos. Ele vestiu o vestido, o tecido fresco contra sua pele, deslizando por seu corpo como um sussurro.
Diante da penteadeira, ele sentou-se e alcançou a escova. Seu longo cabelo loiro, na altura da cintura, caía como uma cascata sobre os ombros. Com destreza, seus dedos começaram a entrelaçá-lo, prendendo-o em um coque volumoso e elegante — alto e majestoso, uma coroa de seda e fios digna de uma rainha. Ele aplicou a maquiagem em silêncio, cada traço sendo proposital, cada tom pintando compostura sobre a fadiga.
Mas, enquanto delineava os olhos, seu olhar desviou-se — capturado por algo quase esquecido.
Lá, na prateleira superior, empurrado bem para a borda, estava um livro. A poeira depositara-se ao longo da lombada como se o próprio tempo tivesse colocado a mão sobre ele.
Ele esticou a mão e o pegou.
Unmasked by the Marquess
Ele o segurou com as duas mãos, as bordas gastas da brochura macias sob as pontas dos dedos. Seu coração deu um leve e relutante solavanco. Lentamente, ele folheou as páginas, cada uma familiar, porém distante — como revisitar uma rua pela qual um dia caminhou em um sonho.
Página 167.
Ele não pretendia parar ali, mas seus dedos o fizeram, logo abaixo do parágrafo.
“Ele queria memorizar cada centímetro dela, cada curva e ângulo, a extensão forte de suas coxas e os ossos delicados de seus pulsos, guardando memórias contra um amanhã vazio e desolador. Mas não era assim que o amor funcionava. O amor não era uma soma investida com segurança. Não se podia evitar a tristeza futura capitalizando sobre a felicidade presente. Tudo o que podia fazer era ter aquele momento, extrair toda a alegria dele e, então, de alguma forma, continuar depois que terminasse.”
Não foi o parágrafo que atraiu a atenção de Jungkook, foi o nome escrito embaixo com um lápis.
Taehyung.
As letras haviam desbotado um pouco, mas não o suficiente para escondê-las.
Ele encarou o nome por um longo tempo. Seus dedos pairaram sobre ele, acariciando-o delicadamente, como se pudesse despertar se tocasse forte demais. Uma leve ardência surgiu atrás de seus olhos — mas ele a afastou piscando.
O momento passou.
Ele fechou o livro gentilmente e o devolveu ao seu lugar na prateleira, encaixando-o perfeitamente no canto onde estivera guardado por anos.
— Koo?
Uma voz suave quebrou o silêncio. Ele virou a cabeça e viu Nabi parada na porta, vestindo um traje azul-real que brilhava levemente sob a luz do lustre do corredor.
— A mamãe está perguntando por você — disse ela, entrando e analisando-o rapidamente. — Você está... bonito.
Jungkook assentiu silenciosamente, dando-lhe um sorriso tímido. Ele lançou um último olhar ao espelho — para a imagem cuidadosamente construída que o encarava — antes de se levantar.
Era hora de enfrentar a noite.
Mesmo que uma parte de seu coração ainda estivesse perdida em algum lugar entre a página 167...
e um nome que ele não pronunciava em voz alta há muito, muito tempo.
..continua..