Capítulo 1
Kane
“Que porra deu na sua cabeça, Kane?!” A voz do meu pai ecoa pelo quarto de hospital branco e estéril.
“Foi só um acidente. Ninguém morreu.” Eu respondo, bufando, enquanto coloco um dos braços sobre os olhos para me proteger da luz forte.
“Você estava dirigindo embriagado! Jogou o nome da nossa família na mídia DE NOVO! Por que você insiste tanto em destruir tudo o que seu avô e eu passamos a vida construindo?!” Eu sabia que ele estaria furioso, mas isso é exagero demais.
“Eu já disse que sinto muito! O que mais você quer de mim?!” Raramente levanto a voz para o meu pai, mas sinto que desta vez tenho motivos.
“Eu quero que você cresça! Você vai ficar aqui por pelo menos mais uns dois dias, mas, assim que sair, ou você toma jeito, ou pode dar adeus ao seu futuro na empresa. Acabou, Kane. Não aguento mais. A equipe de relações públicas não pode continuar limpando suas merdas. Suas bebedeiras, festas, jogatinas, rachas ilegais e foder com qualquer mulher que cruza o seu caminho, não importa se ela é casada ou não...” Tiro o braço dos olhos bem a tempo de ver as costas dele enquanto ele sai do quarto e vira no corredor. Eu sabia que ele ficaria irritado com minhas palhaçadas, mas isso era muito pior. Suspiro frustrado enquanto as palavras do meu pai afundam e criam raízes. Sou conhecido como a ovelha negra da família desde a adolescência. Sou o rebelde, o playboy e o bastardo sem coração. Como diabos ele espera que eu mude quem eu sou em dois dias? Estou me afogando nos meus pensamentos quando ouço a voz de um homem do lado de fora da porta.
“Não houve melhoras. O estado dele é estável, mas, a esta altura, são as máquinas que o mantêm vivo. Acho mesmo que está na hora de considerar a qualidade de vida. Seria isso o que o Matthew iria querer?” O homem entra no meu campo de visão e vejo a pequena ruiva com quem ele falava.
“Tem que haver algo que vocês possam fazer. Não podemos simplesmente desistir dele! Ele pode não querer isso, mas sei que também não iria querer morrer!” Encosto a cabeça para trás e torço em silêncio para que eles vão embora.
“Não é uma questão apenas do que nós podemos fazer, é uma questão do que você pode pagar. Você já está se afundando em dívidas médicas e o buraco só fica mais fundo a cada dia. Você precisa pensar em algo além do Matthew agora.” Embora eu queira que eles calem a boca, admito facilmente que esse médico parece um idiota.
“E você precisa fazer o seu maldito trabalho! Tenho feito meus pagamentos em dia e continuarei fazendo. Minhas finanças não são da sua conta, mas o Matthew é!” Ah, ela é esquentada.
“Srta. Carter, a senhora precisa entender que não podemos simplesmente prestar tratamento quando há poucas chances de pagamento...” Estou esperando o médico terminar quando o som alto de pele batendo em pele chama minha atenção. Movo meu braço e, pelo jeito que o médico segura a bochecha e os ombros dela sobem e descem rapidamente, fica claro que ela acabou de dar um tapa nele. Ela se vira, ficando de frente para mim através da porta aberta, com os olhos azuis brilhando de lágrimas. Ela respira fundo, tremendo. Os olhos dela encontram os meus de repente; ela limpa as lágrimas rapidamente e volta a olhar para o médico, que ainda está em choque.
“Doutor, por favor, apenas cuide dele e eu me preocupo com o resto.” Ela sai correndo pelo corredor e, depois de balançar a cabeça, o médico sai na direção oposta. Após a interação estranha do lado de fora da porta, finalmente consigo encontrar o sono que tanto almejo.
Braylee
Sentada no quarto de hospital branco e frio que se tornou minha segunda casa, não consigo parar de repetir as palavras do médico na minha cabeça. Seguro a mão do Matthew, notando como o corpo dele ficou frágil nos três meses em que ele está aqui.
“O que eu devo fazer? Eu não posso te perder.” Apoio a cabeça sobre a mão dele e deixo as lágrimas rolarem. Faz três meses desde o acidente que tirou a vida do meu pai e deixou meu irmão, Matthew, no hospital. Ele foi diagnosticado com uma lesão cerebral traumática e, em três meses, não mostrou nenhum sinal de melhora. Sei que é egoísmo da minha parte mantê-lo assim, mas como posso deixá-lo partir? Ele é a única pessoa que me resta. Seguro a mão dele e, logo, sinto meus olhos pesarem conforme o sono me domina mais uma vez.
Acordo com o som de uma discussão no corredor e vou caminhando lentamente até a porta. Vejo o homem que presenciou meu surto do hospital parado no corredor, discutindo com uma das enfermeiras. Verifico as horas no meu celular e decido que preciso tomar um café. Saio devagar, fecho a porta e tento ao máximo passar despercebida pelos dois.
“Eu sou perfeitamente capaz de pegar minha própria bebida e eu quero um café! Me disseram que estavam preparando minha alta há mais de uma hora e meia; estou cansado, com fome e só quero uma maldita xícara de café!” O homem alto, moreno e bonito, vestindo um avental de hospital, grita com a enfermeira.
“A última coisa que soube foi que o médico disse que você não pode tomar cafeína, Sr. Phillips.” A voz esnobe dela e o modo como ela quase cuspiu o nome dele como se fosse veneno me fazem diminuir o passo. Será que todo mundo aqui é um idiota? Sigo até a sala de espera onde fica a máquina de café, pego rapidamente duas xícaras e dou uma espiada no corredor para garantir que eles foram embora antes de sair da sala e seguir sorrateiramente pelo corredor. Percebo que a enfermeira do posto está ocupada com o celular, então entro no quarto do homem alto. Ele está sentado na beira da cama me olhando quando entro, com uma cara de quem viu um fantasma.
“Pensei que você gostaria de um café, já que a enfermeira nazista do inferno te recusou.” Entrego a ele e me viro para sair, mas a voz grave dele me envolve, parando meus passos.
“Obrigado.” Dou um leve aceno de cabeça por cima do ombro e saio do quarto para voltar para o lado do meu irmão. Passo a maior parte do dia segurando a mão dele e contando sobre todas as coisas que mudaram na sua ausência, secretamente esperando que ele abra os olhos, mas alguém como eu nunca teria tanta sorte.
“Posso entrar?” A voz grave me tira dos meus pensamentos sufocantes, fazendo-me encarar o homem do corredor, só que agora ele está totalmente vestido com um terno bem cortado.
“Hum, sim. Desculpe, eu estava... eu estava perdida nos meus pensamentos.” Ele sorri, mas não fico olhando tempo demais para apreciar a cena, voltando minha atenção para o meu irmão.
“Eu queria te agradecer por ter trazido o café para mim, mas não tive coragem de dar a ninguém aquela porcaria que servem aqui, então comprei um para você na loja a alguns quarteirões daqui.” Viro-me para ele e vejo que segura uma xícara de café nas mãos.
“Que gentil da sua parte, mas não precisava ter feito isso. Então, você recebeu alta?” Ele acena enquanto se aproxima e me entrega a xícara.
“Graças a Deus, sim. É por isso que não entendi o problema da enfermeira sobre eu tomar café, já que tecnicamente eu era um homem livre. Então, há quanto tempo vocês dois estão aqui?” Respiro trêmula, sentindo-me desconfortável por ser abordada por qualquer um aqui.
“Eu fui paciente por nove dias. O Matthew está aqui há três meses, uma semana e dois dias.” Os olhos dele se arregalam e eu o pego dando uma olhada rápida no Matthew antes de voltar a olhar para mim.
“Eu mal aguentei as 36 horas que passei aqui. Você deve ter a paciência de uma santa.” Dou um sorriso fraco para ele, ainda segurando a mão do meu irmão com uma das mãos e o café na outra.
“Não tenho dinheiro para transferi-lo para outro hospital. Mal consigo pagar para mantê-lo aqui.” Baixo os olhos enquanto sinto a vergonha me dominar.
“O atendimento médico é uma piada. Cobram mais do que qualquer pessoa pode pagar e ainda oferecem um cuidado mínimo. Você tem convênio, pelo menos?” Balanço a cabeça, com os olhos ainda baixos.
“Não. Tenho dois empregos de meio período, mas nenhum oferece plano de saúde. Mal pagam o suficiente para cobrir os pagamentos mensais daqui e a hipoteca da casa, mas eles me permitem trabalhar em horários que me deixam estar aqui com o Matthew.” Olho para cima e vejo a expressão que tantas pessoas fazem quando descobrem minha situação, uma expressão que eu odeio... pena.
“Sinto muito. Eu...” Uma voz profunda e rouca o interrompe e nos faz voltar a atenção para a porta.
“Kane, está pronto para ir, filho?” O homem mais velho, de cabelos grisalhos e terno caro, chama.
“Sim, pai. Obrigado de novo pelo café mais cedo. Espero que as coisas dêem certo para você.” Aceno e observo ele sair, sem deixar de notar que o pai dele demora um pouco mais no batente da porta, olhando para mim, ou talvez os olhos dele estejam focados no Matthew? Ele dá um meio sorriso e depois vai embora, seguindo o filho. Olho para o meu irmão e mergulho lentamente em um labirinto de memórias e arrependimentos.