Antes da Tempestade

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Resumo

Abandonada no dia de seu casamento, Annie tornou-se uma reclusa. Forçada a ir à cidade, ela se depara com um anúncio de mail order bride e decide responder.

Status
Completo
Capítulos
38
Classificação
4.7 27 avaliações
Classificação Etária
13+

Prólogo

Texas, Lone Ridge 1852

“Deus, por quê?”, questionou Anna Williams, ou Annie para os seus entes queridos, enquanto as lágrimas embaçavam sua visão, escorrendo por suas bochechas macias.

Hoje, pela primeira vez em sua curta vida, ela percebeu que tinha menos pessoas que a amavam do que acreditava. Como as coisas chegaram a esse ponto? Ela não tinha feito nada para merecer tanta dor, tanto sofrimento.

“Nunca mais vou confiar em outro homem enquanto viver”, declarou Annie com a voz embargada. Sua mão apertava o local da dor que rasgava impiedosamente o seu íntimo, enquanto ela estava de pé no meio do campo, em sua fazenda.

Como a sua confiança pôde ser traída de forma tão profunda? Por que alguém que dizia amá-la por tantos anos achou tão fácil descartá-la? Será que ela era tão indigna? Será que o amor que compartilharam por tanto tempo não significava nada?

Sua mente, destruída, tentava encontrar algum sinal que ela pudesse ter deixado passar, mas não encontrava nada. O dia tinha começado bem. Com o sol da manhã iluminando tudo, como se fosse o primeiro dia criado por Deus. Os raios dourados brilhavam através da janela do seu quarto enquanto ela se arrumava.

“Você será uma noiva tão linda quanto sua mãe foi no dia dela”, disse a Velha Ma, com um sorriso banguela. Ela estava sentada na única cadeira junto à janela, observando os jardins floridos lá embaixo.

Annie girou diante do espelho e um sorriso largo iluminou seu rosto radiante. “Sério?”, perguntou ela, com o prazer transbordando em sua voz.

“Sim, minha querida”, respondeu a Velha Ma, o sorriso em seu rosto marcado pelo tempo suavizando-se, seus olhos velhos brilhando com o calor do amor ao olhar para Annie. “Sua mãe era doce. E ela era linda, exatamente como você, menina.”

“Não me faça chorar hoje, Vovó, a senhora sabe que não fico bonita depois de chorar.”

“Bobagem, chorar é coisa de gente boba, eu não criei nenhuma tonta.” Annie olhou para ela através do espelho e viu a expressão que esperava. O cabelo de sua avó estava todo branco, mas seus olhos cinzentos continuavam tão afiados e penetrantes como sempre. Ela sentava com as costas perfeitamente retas. Annie nunca a tinha visto curvada em toda a sua vida, e ela sempre insistiu que Annie aprendesse aquela postura. “Agora, termine logo. Seu pai vai chamá-la em breve.”

“Sim, senhora”, respondeu Annie, com um sorriso na voz ao reconhecer o amor no tom ríspido da avó.

Annie voltou-se para o espelho e se analisou criticamente. Ela estava bonita, se é que podia dizer isso. Seu cabelo castanho-avermelhado estava em tranças complexas, como convinha a uma noiva. Rosas brancas, que eram o orgulho e a alegria de seu pai, estavam entrelaçadas, junto com algumas flores silvestres que sua avó adorava.

Ela usava o vestido de noiva de renda da sua mãe. Sua mãe tinha feito à mão aquela renda detalhada durante o ano em que seus pais estiveram noivos. Embora ela tivesse falecido quando Annie era muito pequena para se lembrar, o vestido a fazia sentir como se estivesse com ela.

Annie teve uma boa vida; sua avó assumiu o papel de mãe, então não lhe faltou nada. Mas saber que sua mãe estava morta, às vezes, a fazia sentir falta daquele vínculo. Havia coisas que sua avó sempre fora velha demais para fazer, e isso deixava Annie imaginando se sua mãe as teria feito com ela. E quando via outras pessoas com irmãos, doía-lhe saber que sua mãe estava morta e que ela nunca tivera um.

Hoje, no entanto, ela estava feliz demais para pensar nisso. Hoje, tudo estava perfeito.

Como se tivesse ouvido a declaração de sua avó, seu pai a chamou. “Annie, está na hora de irmos. Não podemos fazer o noivo esperar.”

Com mais pressa do que a elegância permitia, Annie saiu correndo do quarto e desceu as escadas. Hoje, ela se casaria com o amor da sua vida, o rapaz por quem era apaixonada desde os treze anos. O único motivo de não terem se casado antes era que seus pais diziam que eles eram jovens demais.

Seu pai a esperava no pé da escada, vestindo seu melhor terno de domingo e mantendo-se ereto. Annie herdara dele os olhos castanhos e a silhueta esguia. Ele raramente sorria, mas quando olhava para ela, ela sabia que era amada.

“Você está linda”, ele elogiou, passando a mão pela borda do chapéu que segurava, um hábito seu.

“Obrigada, papai.” Ela sorriu para ele, um sorriso largo que lhe doía as bochechas. “Agora, podemos ir? Não quero chegar atrasada.”

Seus lábios se contraíram, seus olhos brilhando com diversão antes que ele abrisse a porta para ela. Do lado de fora, a carroça coberta estava estacionada perto da entrada, com o capataz sentado no banco do motorista. Ela estava decorada com flores e parecia muito melhor do que o habitual.

Levando-a até lá, seu pai abriu a porta e a ajudou a entrar. Annie sentou-se no banco interno, e seu pai entrou logo depois dela, seguido pela avó. A fazenda deles não ficava longe da cidade, e era possível ver o campanário da igreja de lá.

Ela conseguia visualizar o prédio de pedra e madeira que era o centro da cidade. Ele estava desgastado pelo sol forte do Texas e pelas tempestades ocasionais, mas ainda permanecia firme e resistente, o baluarte daquela comunidade. Hoje, todos se reúnem para o grande dia dela.

Logo seu pai a ajudou a descer e a entrar nos fundos da igreja. Annie franziu a testa com isso. Ela deveria entrar pela frente. Aquilo deveria ter sido um aviso, mas ela estava empolgada demais e sentou-se para esperar. E esperou.

“Por que estamos esperando nos fundos?”, ela perguntou ao pai, com a voz confusa.

“Seu noivo ainda não chegou”, explicou o pai.

A preocupação tomou conta dela. Annie começou a se perguntar se algo tinha acontecido com ele. Andrew nunca a decepcionara antes; apenas algo terrível poderia tê-lo impedido de vir. Mas, enquanto a hora passava, ela não ouviu nada, e a congregação começou a ficar inquieta.

Então, o jovem que trabalhava na fazenda da família dele entrou e lhe entregou o bilhete. O mesmo bilhete que ela agora apertava na mão, todo amassado.

Sinto muito, Annie, não posso fazer isso.” As palavras que ele escreveu covardemente ecoaram em sua mente mais uma vez, estilhaçando seu coração. Ela caiu de joelhos, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Por que, Deus?”, ela sussurrou, com a voz embargada. “Por que o Senhor permitiu que isso acontecesse? Tudo o que eu queria era ser esposa e mãe. O Senhor me abandonou?”

Atrás dela, o sol se pôs, projetando longas sombras sobre ela, refletindo a escuridão que agora consumia sua alma. Annie segurou a cruz em seu pescoço, buscando conforto em sua fé, mas encontrou apenas vazio e desespero.