Pessoas de Domingo

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Resumo

Todo domingo, Savannah observa a vida passar do seu canto favorito no café — mesmo cappuccino, mesma mesa, mesmo cara gato com um cachorro com quem ela nunca vai falar. Até que, um dia, ele fala. Agora, Derek — modelo, dono de cachorro, um colírio em forma de homem — está mandando mensagens, acompanhando-a até em casa e convidando-a para as partes silenciosas da sua vida que ninguém mais consegue ver. Definitivamente, não é um relacionamento. É mal é uma amizade. Mas é algo.

Status
Completo
Capítulos
25
Classificação
4.9 47 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Savannah

Faça chuva ou faça sol, eu estou aqui. No mesmo lugar todos os domingos — na esquina da rua 86, do lado de fora daquele café que tenta parecer que não está se esforçando tanto. Tem plantas em vasos por toda parte, com trepadeiras que parecem estar tentando dominar o ambiente. Uma vitrola fica no meio do salão como uma relíquia sagrada, cercada por vinis gastos em capas rachadas. Se você for corajoso, pode colocar um disco para tocar. A maioria das pessoas não é.

Lá dentro, caras de óculos redondos falam sobre grãos de origem única como se fossem sommeliers. Garotas com vestidos longos e fluidos dão aulas sobre chakras, lua cheia e mercúrio retrógrado. Eu não escuto. Apenas tomo meu cappuccino e deixo o dia passar.

Faço isso há três anos. O mesmo assento, a cerca de ferro à minha direita e um guarda-sol grande cobrindo tudo. Algumas horas de nada. Sem pressa, sem barulho. Só a vida acontecendo.

E todo domingo, ele aparece.

Não sei o nome dele. Só sei que começa com D. Ele tem um cachorro — daqueles pequenos e fofos que parecem ter ansiedade se ficarem sozinhos por muito tempo. Ele pede americanos gelados, sempre. E ultimamente ele tem saído com uma garota — também não sei o nome dela, mas ela é... intensa.

Do tipo de beleza que faz todo o resto desaparecer quando ela entra no ambiente. O tipo de pessoa que provavelmente tem cartões de agência na bolsa e sabe exatamente qual ângulo do SoHo deixa seu maxilar com a melhor luz. Ela se move como se estivesse sempre prestes a ser fotografada. Ela não se esforça para parecer elegante; ela simplesmente é.

Talvez ele também seja modelo. Honestamente, é suspeito se não for. Aquele maxilar poderia cortar tecido, e o jeito que o cabelo dele cai — despojado, mas claramente planejado — grita algo como "dinheiro antigo" misturado com uma campanha da Ralph Lauren. Existe uma confiança no jeito que ele usa aquelas camisetas justas, como se soubesse exatamente o efeito que elas causam nas pessoas. E, se o corte dos braços dele servir de indício, ele pega pesado na academia — rosca direta, levantamento terra, shakes de proteína, o roteiro completo.

E que me processem — ele é gato. Objetivamente, universalmente, o tipo de gato que faz você parar no meio da frase. Tente agir naturalmente quando alguém assim está na sua visão periférica todo domingo. Eu duvido que você consiga.

Nunca nos falamos. Apenas algumas trocas de olhar, rápidas e discretas. Eu, fingindo ler. Ele, meio distraído — com o cachorro, o celular, a garota. Nunca tomei iniciativa. Nem um sorriso tímido. Qual seria o sentido? Ela existe como um destaque de filme. Eu... sou mais um figurante. Ela não está apenas fora da minha liga; ela está fora do meu algoritmo.

Ainda assim, eu observo.

Não de um jeito estranho. Mais como assistir a uma cena familiar em um filme. Você sabe o que vai acontecer, mas assiste mesmo assim. Eles têm um ritmo. Ele sempre chega primeiro. Pede a bebida, se instala com o cachorro. Ela chega cinco, talvez dez minutos depois, sempre com algo fluido, perfeito e, de alguma forma, sem um amassado sequer.

Algumas semanas eles riem. Ele se inclina, ela joga a cabeça para trás, com aquele tipo de risada que ocupa todo o espaço. Outras semanas, é mais silencioso. Ela fica no celular. Ele cutuca o rótulo do copo. Uma vez, ela foi embora antes mesmo de o barista chamar o nome dela.

Eu notei.

Mas não fiquei encarando. Virei a página, como sempre. Tomei um gole. Deixei o momento passar, do mesmo jeito que deixo quase tudo passar. Esse é meu ritual aqui. Eu observo. Tomo meu cappuccino. Vejo a cidade se mover sem mim.

Virou uma espécie de hobby voyeurista. Uma fuga suave e silenciosa. Eu — vinte e seis anos, entediante, a Savannah cronicamente mediana. Cabelo cacheado que nunca obedece. Um trabalho que paga apenas o suficiente para eu continuar aparecendo. Uma agenda cheia de lembretes para comprar leite de aveia e responder minha mãe. Não sou trágica nem dramática, só... comum.

E do outro lado da calçada, do outro lado do vidro, está tudo o que eu não sou.

Aquela vida — o namorado modelo, a namorada perfeita, o cachorro com nome da moda, a risada que parece espontânea, até cinematográfica — não parece real. Parece algo editado, brilhante. Como algo arrancado de uma revista de estilo de vida. Mas, mesmo assim, eu observo como se fosse minha. Ou como se pudesse ser, em uma versão diferente da minha vida, onde eu tivesse feito escolhas diferentes ou nascido com outra estrutura óssea.

Tem algo neles, nele especialmente, que atrai meu olhar. Não só porque ele é bonito — embora, sejamos sinceros, ele é absurdamente bonito —, mas porque ele parece alguém que pertence à cidade de um jeito que eu nunca pertenci. Como se ele não precisasse se esforçar para existir aqui. Ele simplesmente existe. Confiante. Confortável. Visto.

Enquanto eu desapareço. No assento, na calçada, nas páginas do meu livro. Sempre observando, nunca protagonizando.

Então, sento-me aqui, semana após semana, uma observadora passiva da energia de protagonista de outra pessoa. E talvez isso seja triste. Ou talvez seja seguro. Porque nada dói quando acontece com outra pessoa.

Mais um domingo. Como um relógio.

Entro no café — a mesma porta rangendo, o mesmo perfume terroso de café expresso e leite vaporizado, a mesma playlist de soul retrô em volume baixo, como se os alto-falantes soubessem não atrapalhar o clima. Vou direto para o meu lugar habitual do lado de fora, sob o guarda-sol grande perto da cerca de ferro enferrujada. Meu cantinho na cidade onde posso ficar parada enquanto tudo mais se move.

Não preciso do cardápio. Nunca preciso. Um cappuccino — bem quente, com espuma como uma nuvem. Sento-me, com o Kindle na mão, e retomo meu suspense. Um detetive caçando um assassino por becos europeus com neblina. Berlim? Praga? Quem sabe. Meus olhos percorrem as palavras, mas a história não prende muito. Minha atenção não está no livro. Está no ar. No ritual.

E então, na hora marcada, ele aparece.

Ele vem do lado leste, como sempre. Com o mesmo jeito confiante. O mesmo estilo sem esforço que, de alguma forma, ainda parece editorial. O cachorrinho dele caminha ao lado, com a guia frouxa, as orelhas balançando a cada passo. Como se fossem personagens de um filme que só passa aos domingos.

Ele vai ao balcão, pede um americano gelado — sem hesitação, sem conversa fiada. Eficiente, familiar. Mas hoje… ele está sozinho.

Sem vestido longo roçando o piso. Sem o brilho de óculos escuros gigantes ou o lampejo de pele pronta para o Instagram. Só ele. E o cachorro.

Meus olhos se levantam, por instinto. Depois voltam para baixo. Depois sobem de novo.

Ele parece o mesmo. Tecnicamente. Mas algo está diferente. O jeito que ele mantém os ombros, talvez. A ausência de expectativa. Ele não varre o salão. Não checa a porta. Ele só fica ali, quietinho, como alguém que levou um bolo. Ou que finalmente parou de esperar.

Será que brigaram? Será que ela foi embora? Será que ela só… sumiu do quadro?

Eu não deveria me importar.

Mas eu me importo.

Não de uma maneira triunfante. Não quero drama. Só sinto a mudança. A batida perdida no ritmo de sempre. O roteiro deixado incompleto. É a primeira vez em três anos que o vejo totalmente sozinho, e de repente este domingo parece menos um ritual e mais uma pergunta.

Viro outra página, com os olhos vidrados, o cappuccino esfriando.

E eu observo.

Um pouco mais do que costumo me permitir.

Ele toma seu café, faz carinho no cachorrinho — coça atrás das orelhas como se tivesse feito isso mil vezes — e então rola a tela do celular com aquela expressão vazia que as pessoas usam quando não estão realmente lendo, só preenchendo espaço. Olho para o meu Kindle de novo, finjo ler um parágrafo que já li duas vezes.

Então ele olha para cima.

E, pela primeira vez, ele olha na minha direção. Não para além de mim. Não através de mim. Para mim.

Como se estivesse percebendo agora que sempre houve alguém escondido neste canto, junto à cerca de ferro. Alguém que esteve aqui tantas vezes quanto ele.

Nossos olhos se cruzam.

Ele faz um aceno educado. Simples. Casual. Sem flerte, sem estranheza. Apenas um reconhecimento silencioso.

Por um segundo, presumo que não seja para mim. Talvez alguém esteja andando atrás de mim, talvez a ex dele esteja desfilando pela calçada com uma cara de vingança. Olho para trás por puro instinto.

Ninguém.

Quando volto a olhar para ele, ele está sorrindo. Bem pouco. Mas está lá. Um sorriso torto que diz: te peguei.

E antes que eu possa pensar demais, respondo com um aceno. Desajeitado. Atrasado.

Não é nada. Um detalhe. Um lampejo de contato em um mar de espuma de café e barulho de calçada.

Mas é mais do que qualquer coisa que já compartilhamos.

E de repente, este domingo não parece igual aos outros.

Seguimos caminhos diferentes como se nada tivesse acontecido. Sem palavras, sem olhares demorados. Apenas um aceno compartilhado sobre bebidas mornas e o zumbido silencioso de uma cidade que nunca para de verdade.

Mas, de alguma forma, isso fica comigo.

Pelo resto da semana, pego-me pensando nisso — muito mais do que deveria. Esse momento, num piscar de olhos, em que o Cara Modelo Gostoso (esse é o título oficial dele agora, obviamente) reconheceu minha existência. Eu. A garota no canto com um cappuccino e um Kindle, usando a mesma rotação de jeans e suéteres grandes como uma personagem de desenho animado.

É absurdo, eu sei. Eu trabalho em um banco, pelo amor de Deus. Passo a maior parte dos dias em uma cadeira dura atrás de um vidro à prova de balas, perguntando às pessoas se elas querem notas pequenas ou grandes. Minha maior emoção esta semana foi alguém depositar um cheque amassado com glitter. Esse é o nível em que estou operando.

E ainda assim, lá estou eu — no horário de almoço, viajando na maionese, mexendo um iogurte que nem quero, fantasiando sobre como os olhos dele se enrugaram levemente quando ele sorriu. Como aquele aceno foi casual. Como aquilo, de alguma forma, entreabriu uma porta que eu nem sabia que existia.

Repasso tudo na minha cabeça como uma cena de uma série pela qual estou secretamente obcecada. Aquela em que a garota comum chama a atenção do cara inalcançável. Nada dramático. Sem trilha sonora subindo. Apenas um momento. Uma pausa. Um “e se”.

Ridículo, eu sei. Não sou delirante — sei que ele provavelmente já esqueceu que existo. Provavelmente já participou de dois ensaios, três festas e pelo menos um bar na cobertura desde aquele aceno.

Mas ainda assim.

É incrível o que um pequeno momento pode fazer com uma semana que seria completamente comum.

“Está saindo com alguém?”, pergunta Betty, sem desviar os olhos da mesa. Ela digita com dois dedos, agressivamente. Betty está na casa dos cinquenta, trabalha neste banco há mais tempo do que eu estou viva, mora no Brooklyn e jura que nunca vai sair de lá — mesmo que o Trader Joe’s abra do outro lado da rua e destrua a alma do bairro.

“O quê?” Olho para ela, pega de surpresa.

“Claro que não.”

Ela cantarola, nada impressionada. “Você tem flutuado por aqui como se alguém tivesse te mandado flores. Não minta para mim, Savannah. Eu já vi esse olhar antes.”

“Não tem olhar nenhum”, digo, o que, claro, significa que com certeza tem.

Betty faz uma pausa. Gira a cadeira lentamente para me encarar. “Deixa eu adivinhar. Ele é alto, provavelmente tem um casaco bonito e nem sabe que você existe.”

Eu pisco.

“Jesus”, ela murmura. “É pior do que eu pensava.”

Eu rio, apesar de mim mesma. “Não é nada. Só um cara no café que eu frequento. Nós nunca nem conversamos.”

Ela levanta uma sobrancelha. “Então você está me dizendo que se apaixonou por uma fantasia.”

“Não me apaixonei por nada”, digo. “Ele deu um aceno. Só isso.”

Betty me dá um olhar longo e de pena, como se estivesse vendo alguém entrar no trânsito de propósito. “Um aceno. Uau. É isso que conta como romance hoje em dia?”

“Eu trabalho em um banco, Betty. Estou aqui desde os vinte e dois. Você acha que estou nadando em oportunidades românticas?”

Ela funga. “Justo.”

Volto a olhar para a tela, mas a planilha são apenas números. Ainda estou pensando no aceno. No sorriso. Em como ele olhou direto para mim, como se eu não fosse apenas ruído de fundo.

É estúpido.

Mas não sai da minha cabeça.

Mais um domingo chega, e estou mais ansiosa do que gostaria de admitir.

Será que ele vai acenar de novo? Talvez dizer algo? Talvez — Deus me livre — algo realmente aconteça?

Não sei. Digo a mim mesma que é estúpido, que foi apenas um olhar, um aceno, uma falha na matriz da rotina. Mas ainda assim, passo um gloss antes de sair de casa.

Não por ele, obviamente. Só… no geral. Porque hidratação. Porque autocuidado. Porque sim.

Entro. O café tem o mesmo cheiro. Leite quente, grãos torrados, canela se alguém pediu o chai. Faço o de sempre — peço meu cappuccino sem olhar o cardápio, dou um aceno para o barista que já me reconhece, talvez até conheça meu pedido melhor do que eu.

Vou para fora, para o meu lugar. O mesmo assento. O mesmo guarda-sol. A mesma cerca de ferro. Sento a bunda ali como se fosse um ritual que impede o universo de desmoronar. Pego meu Kindle, abro o livro, releio o mesmo parágrafo três vezes.

E então eu o vejo.

Ele caminha da direção de sempre, o mesmo passo leve, o mesmo cachorrinho trotando lealmente ao lado dele.

Mas tem mais uma coisa.

Uma garota. A garota. Modelo. Maçãs do rosto perfeitas.

Entrelaçada no braço dele, colada como se pertencesse ali. Ela está rindo de algo que ele está dizendo — ou talvez ele nem esteja dizendo nada, talvez ela apenas goste de ouvir sua própria alegria. Ela usa um daqueles looks despojados que provavelmente custam mais que meu aluguel, com óculos escuros presos no alto da cabeça como uma coroa.

E, assim, meu pequeno e estúpido delírio se esvazia.

Então. Eles estão juntos.

Encaro meu cappuccino. A espuma já começou a baixar.

Tento me concentrar no livro de novo, mas as palavras ficam borradas. Viro uma página só para sentir que estou fazendo algo, mas não sei o que está acontecendo na história. O detetive poderia estar morto, pelo que eu sei.

É por isso que não me deixo ficar esperançosa. Esperança é uma armadilha. É apenas desapontamento usando gloss, fingindo que tem planos.

Eles sentam algumas mesas adiante, conversando animadamente, pura energia e linguagem corporal leve. Não consigo ouvir o que dizem — graças a Deus —, mas consigo ver tudo o que preciso. A mão dela roçando o braço dele como se fosse instinto. O sorriso dele, relaxado. Aquele tipo de intimidade que não tenta forçar nada porque não precisa.

Olho para o meu cappuccino. A espuma desapareceu. Apropriado.

No que eu estava pensando mesmo? Que esse cara — esse cara com cara de modelo de capa — acenou para mim porque… por quê? Ele achou que eu era fofa?

Por favor.

Ele provavelmente estava sendo educado. Ou entediado. Ou achou que eu tinha um rosto familiar. Talvez eu estivesse com espinafre no dente e ele estava tentando não rir.

Caras como ele não se interessam por garotas como eu.

Eles não se interessam pela caixa de banco de jeans genérico que passa as manhãs de domingo tomando cappuccino e relendo suspenses no Kindle, como se fosse uma divorciada de meia-idade com três gatos e um caso crônico de ilusão.

Eles gostam do brilho. Do luxo. Do tipo de beleza que é descoberta no Whole Foods e possui pelo menos duas calças de couro. Garotas com rostos que não precisam de filtros e vidas que vêm com narrativas prontas para relações públicas.

Me mexo na cadeira. Considero ir embora. Mas isso parece dramático demais, como sair batendo o pé num filme onde ninguém está assistindo.

Então eu fico.

Leio uma página. Não absorvo nada.

Tomo um gole da bebida. Queimo a língua um pouquinho.

Lembro a mim mesma que eu não estava envolvida em nada, para começo de conversa. Você não pode ter o coração partido por causa de um aceno.

Ainda assim… eu queria que ele não tivesse sorrido daquele jeito.