Clube dos Corações Partidos

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Dois vizinhos. Dois términos. Uma máquina de venda automática quebrada. O manual do término de Kristen é simples: mantenha-se ocupada, continue sorrindo e nunca deixe ninguém saber que você passou as noites encarando o teto. O de Liam é ainda mais simples: trabalhe de casa, evite conversas fiadas e ignore a pilha de roupas sujas até que ela se torne um risco estrutural. Os caminhos deles se cruzam na lavanderia do prédio às 23h45, quando a vontade de comer doce de Kristen encontra as teorias da conspiração de Liam sobre a máquina de venda automática. O que se segue é uma amizade acidental construída à base de Skittles, diálogos sarcásticos e a sobrevivência mútua pós-término. De idas noturnas à conveniência a compartilhar vinhos baratos no sofá, Kristen e Liam estão provando que você não precisa de jantares à luz de velas ou grandes gestos para construir algo que valha a pena. Porque, às vezes, a pessoa que dobra suas roupas pode ser justamente aquela que te ajuda a se recompor.

Status
Completo
Capítulos
20
Classificação
5.0 23 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

Kristen — Terça-feira, por volta das 16h

"Então, como você está lidando com isso?"

Meu Deus, como eu odeio essa frase. Nem é uma pergunta de verdade; é só um jeito socialmente aceitável de checar se eu estou chorando copiosamente no banheiro.

"Bem", respondo para a Marjorie, minha colega de baia e fofoqueira oficial do escritório. Foi ela quem "acidentalmente" descobriu sobre o meu término, o que, no linguajar da Marjorie, significa que ela ouviu, digeriu e requentou a história três vezes antes de servir para o andar inteiro.

Pois é. Três anos. Jogados no lixo. Acontece que a ideia do meu ex sobre "reuniões de negócios" e "eventos de networking" — que ele dizia detestar — eram apenas uma desculpa para foder com qualquer mulher num raio de dezesseis quilômetros que tivesse pulso e um péssimo julgamento. Motéis. Apartamentos aleatórios. Provavelmente o banheiro de um posto de gasolina, se as avaliações no Yelp fossem boas o suficiente.

Eu descobri porque ele me pediu para enviar um documento para um colega de trabalho dele. O laptop dele estava descarregado, então fui usar o celular. E lá estava — o Tinder, orgulhosamente exibido na tela inicial como se pertencesse àquele lugar. Aquele logozinho de chamas, vermelho vivo e pretensioso. Eu abri. Rolei a tela. Descubri coisas que ninguém deveria saber sobre as... atividades extracurriculares do próprio namorado.

Quando ele chegou em casa, eu já sabia que ele gostava de "longas caminhadas na praia", "vinho bom" e, aparentemente, de mulheres chamadas Brittany, com exatamente dois T’s e uma queda por selfies no espelho do banheiro.

Eu não chorei. Só entreguei o celular dele e disse: "Suas Brittanys estão explodindo suas notificações."

Depois veio o processo lento e miserável de separar nossas vidas. Não houve momentos dramáticos de filme — nada de lágrimas na chuva ou gritaria na garagem — apenas aquele purgatório burocrático de decidir quem fica com a torradeira.

Brigamos por eletrodomésticos como dois guaxinins famintos disputando um saco de lixo. Ele queria a fritadeira elétrica "porque eu uso mais", o que era hilário, já que, para ele, temperar comida significava adicionar ketchup. O contrato de aluguel foi outro campo de batalha; meses de negociações estranhas que pareciam menos com a divisão de um lar e mais com a negociação da rendição de um pequeno país europeu.

As finanças foram a verdadeira guerra de trincheiras. Solicitações no Venmo voavam para lá e para cá como tiros de atirador: 42 dólares pela "sua metade das compras do Costco", 15 dólares pelo "vinho que você bebeu quase todo", 8 dólares pelo "varão da cortina do chuveiro que você insistiu que precisávamos".

Foi exaustivo. Feio. Estúpido. E a pior parte? Esse era um homem que eu um dia imaginei ao meu lado de terno, fazendo votos, possivelmente chorando. Eu costumava pensar em nós escolhendo nomes para bebês, e agora estava discutindo com ele se o liquidificador contava como um "investimento conjunto".

Acontece que nada mata o romance como gritar "então leve você essa porra de Crock-Pot" para alguém que você um dia considerou o amor da sua vida.

A Marjorie se inclina para frente, como se estivesse prestes a revelar a Área 51. "Sabe, eu sempre achei que ele tinha uma cara... suspeita."

Claro que achou. As pessoas sempre "sempre acharam" coisas depois que é tarde demais para a informação ser útil.

Forço um sorriso que mereceria um adicional de insalubridade. "Anotado. Vou adicionar ao meu álbum de recortes pós-término. Logo ao lado de 'você merece coisa melhor' e 'pelo menos agora você está livre'."

A Marjorie parece levemente ofendida, o que tudo bem. A verdade é que minha capacidade emocional para conversa fiada de escritório está no nível de um "fax desligado", e se eu ouvir mais uma pessoa perguntando como estou "lidando com isso", talvez eu comece a responder que me juntei a uma seita, vendi todos os meus móveis e agora moro em uma barraca.

Levanto-me da cadeira e vou em direção à copiadora, totalmente no piloto automático. A máquina zune, cospe papel e, por um segundo, penso em ficar ali olhando até a aposentadoria. Mais algumas cópias e termino por hoje.

Quando chega às 5 da tarde, não estou exatamente correndo para a porta. Não que eu queira ficar aqui — Deus me livre —, mas minha casa também não é exatamente um farol me chamando de volta.

Meu prédio é... vamos chamar de "cheio de personalidade". Velho, barulhento, um pouco encardido de um jeito que não dá para limpar direito. Escolhemos porque o aluguel era barato e ficava perto o suficiente do trabalho para você sair da cama e ainda chegar a tempo se pulasse o rímel.

A situação da lavanderia é digna de um filme de terror de baixo orçamento. Nada de máquinas no apartamento, apenas um subsolo bizarro com luzes fluorescentes piscando, fileiras de máquinas de lavar que funcionam com moedas e uma máquina de vendas que não é atualizada desde o governo Clinton. Você tem que inserir moedas e torcer para que ela não engasgue enquanto cospe algo com um formato vago de Snickers.

Era nosso lugar de "transição" — temporário, uma plataforma de lançamento. O plano era: economizar, casar, comprar uma casa. Sabe, aquela vida de folheto padrão. Mas agora só tem eu nesse ponto de parada desbotado, como se alguém tivesse esquecido de mover a peça do jogo para a frente.

O corredor cheira levemente a repolho cozido e talvez a arrependimento. Eu costumava imaginar que riríamos disso um dia, contando para os amigos: "Lembra do nosso apartamentinho de começo de vida?". Agora a piada é comigo — continuo nele, na fase inicial por tempo indeterminado.

Faço o trajeto infernal para casa — quarenta minutos de ar viciado de ônibus, fios de fone de ouvido se emaranhando em nós insolúveis e um cara no corredor fazendo um FaceTime em voz alta com o que suponho ser seu advogado de divórcio. Quando chego arrastando os pés ao quarto andar, minha chave parece pesar um quilo e meio.

Entro e imediatamente começo a marcar os itens da lista de "coisas que um adulto funcional faz", como se o ato por si só enganasse meu cérebro para acreditar que estou prosperando. Banho. Check. Dou uma olhada na geladeira e no freezer como se estivesse navegando em um aplicativo de namoro muito triste — não tem nada que eu queira, mas tecnicamente existem opções. Um saco de espinafre murcho, um pote de picles e algo em uma Tupperware com o qual evito contato visual há duas semanas.

Finjo que estou bem. Ando de um lado para o outro, dobrando roupas que nem precisavam ser dobradas, limpando a bancada da cozinha mesmo estando limpa. Em certo momento, fervo macarrão — não porque eu queira, mas porque ferver macarrão parece um sinal de progresso.

De fora, provavelmente parece estável. Normal. Como se eu tivesse dominado a arte da "mulher solteira que segura as pontas". Mas por dentro? É uma performance. Sou apenas uma atriz em uma peça agressivamente entediante chamada Viu? Ela Está Totalmente Bem.

Depois de rolar o catálogo da Netflix sem muita vontade — trinta minutos passando sem rumo por documentários de crimes, programas de culinária e algo estrelado por um australiano vagamente familiar — me decido por algo objetivamente terrível. Não o terrível "tão ruim que é bom". Apenas ruim o suficiente para ser um ruído de fundo inofensivo enquanto eu me transformo lentamente em parte da mobília.

Me jogo no sofá como se estivesse fazendo um teste para um comercial de colchão. Me viro. Afofo o travesseiro. Ajusto o cobertor. Fico assistindo por uns três minutos antes de perceber que não absorvi nem um único segundo do que estava na tela.

Então vem o desejo. Aquele impulso profundo e primitivo por algo doce. Não um "ah, uma fruta seria legal" doce. Quero dizer açúcar que faz seus dentes doerem e seu pâncreas escrever uma carta de demissão. Bolo, biscoitos, algo que vem em embalagem plástica e não tem nenhuma relação com nutrição real.

Faço um inventário mental da cozinha. Deve ter talvez uma colher de sorvete sobrando, dura como pedra no freezer porque sou preguiçosa demais para descongelar direito. Também tem meio pacote de Oreos, a menos que eu esteja lembrando errado e tenha comido tudo durante o apocalipse emocional da semana passada.

O desejo cresce. Não consigo mais me concentrar na série ruim porque meu cérebro decidiu que o único enredo que importa é Será que ela vai conseguir a sobremesa? Spoiler: sim, mas com o máximo de drama possível.

Revisto os armários como um guaxinim com o aluguel atrasado — abrindo portas, fuçando atrás de latas de grão-de-bico e garrafas empoeiradas de vinagre que possuo desde que Obama era presidente. Nada doce à vista, exceto por um saco de açúcar puro, que considero brevemente comer com uma colher antes de decidir que essa é uma linha que não estou emocionalmente pronta para cruzar.

O relógio marca 23h41. A mercearia mais próxima fica a três quarteirões e eu não tenho absolutamente nenhum interesse em virar uma nota de rodapé no noticiário local: Mulher sai de casa para comprar um bolinho, nunca mais volta.

O que me deixa com uma opção sombria: a máquina de vendas na lavanderia. A máquina que é mais velha que a maioria dos meus colegas de trabalho. A máquina que zumbe de um jeito sinistro e pisca seus preços digitais em vermelho como se estivesse desafiando você a confiar nela. Metade dos lanches lá dentro parece ter sobrevivido a pelo menos um mandato presidencial, talvez dois.

Ainda assim... tem um Snickers ali. Ou algo que afirma ser um Snickers. E a esta hora, meus padrões estão baixos o suficiente para considerar isso uma escolha de vida perfeitamente razoável.

Pego minhas chaves, já me arrependendo da decisão, mas longe demais para voltar atrás. Essa é a minha vida agora — 23h45, sem calças com elástico e um encontro marcado com uma barra de chocolate que pode ou não sobreviver à digestão. O subsolo, claro, está iluminado como a cena de abertura de um programa policial.

Seis lances de escada para baixo — porque, claro, o elevador está quebrado de novo — e ouço o zumbido fraco de uma secadora. Ótimo. Uma testemunha. Perfeito. Porque nada grita "mulher solteira bem-sucedida" como eu de calça de moletom larga, uma camiseta desbotada da faculdade e pantufas de coelho com uma orelha permanentemente caída.

Ando pelo corredor estreito, empurro a porta da lavanderia e lá está ele: um cara que tenho quase certeza de que mora no meu andar. Nos cruzamos umas três vezes, o suficiente para aquele meio sorriso de reconhecimento. Hoje à noite, porém, ele parece... bem, igualmente trágico.

Barba longa, quase estilo mago, cabelo naquele estado em que é comprido o suficiente para te irritar, mas não o suficiente para parecer intencional. Moletom com uma mancha suspeita bem na frente, shorts de academia que podem ser mais velhos que nós dois e chinelos. Chinelos. Pelo menos não sou a única desfilando a coleção de "fundo do poço chic".

Ele está parado naquele banco bambo ao lado da máquina, comendo metodicamente um pacote de M&M’s como se fosse uma tábua de frios gourmet. Há uma garrafa de Mountain Dew meio vazia aos pés dele. O homem claramente se instalou para uma longa estadia, como se essa lavanderia de subsolo fosse um point de sexta-feira à noite.

E, de repente, me sinto menos como a protagonista de um lanche vergonhoso da meia-noite e mais como se tivesse tropeçado em um bar clandestino para pessoas sem motivação nenhuma.

Vou até a máquina de vendas, já focada no meu prêmio. Ali está ele — Snickers, espaço B4, brilhando sob a luz fluorescente trêmula como um Santo Graal de junk food. Pego uma nota amassada no bolso, insiro na máquina, e ela a suga com aquele zumbido pretensioso. Meu dedo paira sobre o botão.

"Não vá no Snickers", diz ele.

Viro-me, lentamente. "O quê?"

"É uma armadilha", ele diz, super sério, como se estivesse me avisando sobre areia movediça ou a máfia. "A mola não solta. Já perdi quatro dólares."

Pisco para ele. "E você está só... sentado aí? Assistindo as pessoas cometerem o mesmo erro?"

Ele dá de ombros, coloca outro M&M na boca. "Acho que elas deveriam saber a verdade."

Olho para o Snickers novamente. Ele continua lá, prepotente, atrás de sua pequena prisão de metal. Um vigarista em forma de barra de chocolate. "Então você está me dizendo que essa coisa está... mantendo os lanches das pessoas como reféns?"

"Pois é." Ele dá um gole no Mountain Dew como se aquilo fosse uma guerra e ele já tivesse aceitado as baixas. "Aconteceu comigo duas vezes. Voltei para lavar roupa, pensei que talvez tivesse se consertado sozinha. Não consertou."

Eu suspiro. É claro que minha noite termina em um impasse com uma máquina de vendas dos anos 80 e um homem que parece ter sido pessoalmente injustiçado por ela.

Digito outro código — C7, Skittles amarelo vivo — porque tudo bem, eu sou adaptável. A máquina dá um gemido mecânico, a mola gira e eles caem com um clunk satisfatório.

"Esperta", diz ele, como se eu tivesse acabado de superar um golpista experiente.

"Acho que serve", respondo, rasgando o pacote. O ar cheira levemente a roupa quente e detergente industrial.

Ele acena com a cabeça como se tivéssemos acabado de compartilhar um momento de sobrevivência mútua. "Sou o Liam, a propósito. Acho que moramos no mesmo andar."

Eu confirmo com a cabeça. “Kristen. Isso. Você mora no 3C?”

“4C”, ele corrige, “bem na sua frente. A minha porta é a que tem o olho mágico quebrado.”

Ah, sim — a porta misteriosa que eu sempre presumi pertencer a um aposentado viciado em cigarros ou a um cara que tinha um negócio ilegal de resgate de répteis. “Legal”, eu digo, porque o que mais se pode dizer a alguém que acabou de compartilhar o maior defeito da sua porta?

Ele dá de ombros, joga mais um punhado de M&M’s na boca e mastiga como um homem que aceitou que o açúcar é, ao mesmo tempo, o problema e a solução.

Ficamos ali em um silêncio desconfortável, com o som constante de whump-whump-whump da secadora preenchendo o ambiente como uma trilha sonora para uma cena que nenhum de nós sabe como interpretar.

“Quantas pessoas você acha que tentaram pegar o Snickers?”, eu pergunto. Não sei bem por quê — talvez porque voltar para o meu apartamento para comer um doce de máquina de venda sozinho pareça o final mais triste possível, e conversar fiado com o Hoodie McMountainDew seja um pouco menos trágico.

“Aposto que esse é o truque”, ele diz sem hesitar. “Eles quebram de propósito a gaveta do Snickers. É assim que eles pagam a máquina.”

Eu olho para ele, com as sobrancelhas arqueadas. “Então, o quê — você acha que existe uma máfia clandestina de máquinas de venda operando na nossa lavanderia?”

Ele acena, falando super sério. “Não me surpreenderia. Você já viu o cara que vem abastecer isso aqui? Não. Porque ele não existe. O doce apenas... aparece. É tudo parte do golpe.”

“Isso é deprimente”, eu digo, sacudindo uns Skittles na palma da mão. “Então, basicamente, estamos vivendo dentro de uma tramoia.”

“Bem-vinda ao prédio”, ele diz, como se tivesse acabado de dar o discurso de boas-vindas.

Coloco o doce na boca e me encosto na parede. Por um segundo, a sensação é quase de companheirismo — dois estranhos isolados no brilho triste e zumbidor de um porão, criando um laço através da desconfiança compartilhada por um Snickers de 1,50 dólar.

Eu sacudo mais alguns Skittles na palma da mão e dou uma olhada nele. “Então, essa é... sua rotina normal de meia-noite? Ficar aqui embaixo, avisando as pessoas sobre o Snickers?”

Ele dá um sorriso de lado — bem discreto. “Às vezes eu mudo. Aviso as pessoas sobre os Doritos se estiverem murchos.”

“Serviço comunitário”, eu digo. “Muito nobre.”

“A gente tem que retribuir de alguma forma”, ele diz, encostando-se na parede como se tivesse sido eleito o prefeito do porão. “E você? Costuma rondar a máquina de venda à meia-noite?”

Eu dou de ombros. “Primeira vez. Medida de desespero.”

Ele acena com sabedoria, como se eu tivesse acabado de passar por um rito de passagem. “É sempre o desespero que traz as pessoas para cá depois das onze. Fome, emergências com lavagem de roupa, esconder-se de um colega de quarto — escolha o seu motivo.”

“Ou evitar o seu próprio apartamento”, eu digo antes que consiga me conter.

Os olhos dele encontram os meus, curiosos, mas sem pressionar. “É. Essa também é popular.”

Deixamos a secadora preencher a pausa. Não é exatamente confortável, mas também não é ruim — apenas duas pessoas no zumbido silencioso de um lugar que costuma ficar vazio, falando sobre nada e, talvez, sobre tudo ao mesmo tempo.

A secadora entra no ciclo de resfriamento, o zumbido diminui e, por alguma razão, isso faz o silêncio parecer mais pesado.

Liam estica as pernas, os chinelos batendo no chão. “Então, Kristen-do-apartamento-da-frente — qual é a sua história?”

“Minha história?”, eu repito. “Tipo... na vida?”

Ele dá de ombros, mastigando outro doce. “Pode ser da vida. Ou por que você está usando pantufas de coelhinho em público.”

Eu olho para baixo. Uma orelha está caída, como se tivesse desistido da vida por volta de 2019. “Essas aqui são veteranas de guerra. Sobreviveram a três apartamentos, um término e pelo menos dois derramamentos de vinho. Não desrespeite as veteranas.”

Ele sorri — um sorriso pequeno. “Término, é?”

“É”, eu digo, comendo outro Skittle. “Três anos. Acabou de uma maneira... vamos chamar de altamente educativa.”

Ele acena como se entendesse, embora ambos saibamos que ele não conhece os detalhes. “Bom, se ajuda, você não parece alguém cuja vida está desmoronando.”

“Belo elogio vindo de um homem de chinelos à meia-noite”, eu digo, e ele realmente ri — uma risada de verdade, rápida e sem polimento.

Por um momento, a lavanderia não parece um espaço de transição deprimente. Parece... não sei. Menos vazia.

“Não estou sozinho”, ele diz depois de um tempo, com os olhos fixos no chão. “Cinco anos para mim. Ela precisava se tornar ‘outra pessoa’.” Ele faz as aspas com os dedos sem olhar para cima.

Eu inclino a cabeça. “Outra pessoa, tipo... uma nova carreira, ou tipo... corte de cabelo diferente, novo namorado, do nada interessada em cristais?”

Ele bufa. “Tudo isso junto, eu acho. Pediu demissão, pintou o cabelo de roxo, mudou para Portland com um cara que faz móveis de madeira de deriva.”

“Nossa”, eu digo. “Ela se comprometeu mesmo com a mudança de marca.”

“Pois é.” Ele joga o pacote vazio de M&M’s no lixo com um arco perfeito. “Eu era, aparentemente, parte da sua ‘vida antiga’ que ela precisava descartar. Como pele morta. Ou TV a cabo.”

Eu lanço a ele um olhar compreensivo enquanto como meus Skittles. “Duro. Mas pelo menos você não foi substituído pelos móveis do cara da madeira. Poderia ter sido pior.”

Ele dá um sorriso de lado. “Você está falando como se conhecesse o cara da madeira.”

“Estou falando como quem conheceu vários caras da madeira. Todos eles têm cheiro de cedro e decepção.”

Por um segundo, ele ri — ri de verdade — e o som ecoa pelas paredes de azulejo de uma maneira que faz o espaço parecer mais acolhedor do que deveria.

Ele se recosta no banco, com os braços esticados ao longo do encosto, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

“Então, três anos para você, cinco para mim”, ele diz. “Basicamente, somos... um tribunal de divórcio sem as alianças.”

“Sim”, eu digo, sacudindo mais Skittles na mão. “Bem-vindo ao grupo de apoio. As reuniões acontecem sempre que ficamos sem lanches.”

Ele dá um sorriso largo, depois inclina a cabeça. “Então, qual foi o grande motivo do seu ex?”

Eu suspiro, encostando a cabeça na parede fria de blocos de concreto. “Ah, você sabe. O clássico: reuniões de negócios que acabaram sendo encontros do Tinder. Um gênero muito específico de traição.”

“Nossa.” Ele faz uma careta teatral. “Eu quase preferiria o cara da madeira. Pelo menos é... artesanal.”

“É, bem, o meu é mais estilo ‘produção em massa’.” Jogo um Skittle para o alto e o pego. “Provavelmente é mais barato de fabricar também.”

Nós dois rimos, mas é aquela risada que tem um pouco de amargura, a que diz pois é, foi uma merda.

A secadora apita, alto e abrupto, fazendo nós dois nos assustarmos. Nenhum de nós se move imediatamente.

“Sabe”, ele diz, “esta é a conversa mais longa que tive com outro ser humano em... semanas.”

“Nossa”, eu digo com ar de deboche. “E eu aqui achando que você estava dando palestras TED sobre a corrupção nas máquinas de venda.”

Ele ri de novo, e pela primeira vez a noite toda, o porão parece um lugar onde não me importo de estar.

A secadora solta aquele suspiro longo e sibilante, como se tivesse acabado de correr uma maratona que não queria ter começado.

“Acho que deveria tirar isso”, ele diz, olhando para a máquina como se, talvez, se a ignorasse por tempo suficiente, as roupas se dobrassem sozinhas.

Eu faço um gesto em direção à máquina. “Não vou te impedir de viver a sua verdade.”

Ele dá um sorriso, levanta-se e vai caminhando com seus chinelos, que fazem aquele barulho úmido de slap-slap no azulejo. Ele abre a porta da secadora e uma lufada de ar quente, com cheiro de amaciante, escapa, fazendo o ambiente parecer, imediatamente, 3% menos deprimente.

Ele começa a tirar um emaranhado de moletons e calças de moletom — tudo em tons de preto e cinza, como se suas roupas estivessem ativamente de luto. “Você tem cara de quem prefere usar a secadora do que a lavadora”, eu digo.

Ele olha por cima do ombro. “Como assim?”

“Significa que você provavelmente espera até não ter absolutamente nada para vestir, então faz uma carga enorme que poderia vestir uma vila de tamanho médio.”

Ele ri, jogando um moletom no banco ao meu lado. “E você tem cara de quem só lava roupa quando acaba o estoque de pijamas limpos.”

Eu levanto minhas pantufas de coelhinho. “Culpada. E, tecnicamente, essas nem estão limpas. Estão apenas... temperadas.”

Ele sorri, balançando a cabeça, e volta a dobrar — ou qualquer aproximação de dobrar que ele esteja fazendo.

O zumbido da máquina de venda preenche o silêncio, e percebo que não estou com pressa de subir.

Ele tira um par de shorts de ginástica que parecem ter passado por pelo menos dois desastres naturais e os coloca no colo de uma maneira que não poderia, sob nenhuma definição, ser chamada de dobrar.

“Você está apenas... amassando eles em novas formas”, eu aponto.

“É uma técnica”, ele diz, com a cara mais séria. “Passada através de gerações de homens que não se importam com rugas.”

Eu arqueio uma sobrancelha. “Linhagem impressionante.”

Ele dá um sorriso de lado, então levanta um moletom, semicerra os olhos como se estivesse debatendo se está limpo o suficiente para pular a dobra, e então apenas... enrola-o em uma bola. “Viu, agora isso? Isso é avançado.”

Eu balanço a cabeça, mas não saio do meu lugar no banco. De alguma forma, vê-lo cometer crimes contra a lavanderia é estranhamente divertido. “Sabe, eu poderia ajudar”, eu ofereço, embora meu tom deixe claro que não estou morrendo de vontade.

Ele olha de lado, fingindo suspeita. “Você tem cara de quem é do time ‘cabide’. Organizada, simétrica. Você estragaria o meu sistema.”

“Oh, eu estragaria o seu sistema, sim”, eu digo, colocando o último Skittle na boca. “Essa é a ideia.”

Ele ri de novo, joga outro moletom no banco ao meu lado como se fosse um convite. “Tudo bem, Kristen-do-apartamento-da-frente. Vamos ver do que você é capaz.”

E, assim, quase meia-noite em um porão encardido, estou dobrando as roupas de algum vizinho enquanto ele finge que suas teorias da conspiração sobre a máquina de venda são mais interessantes do que realmente são.

De alguma forma, não parece patético. Apenas parece... natural.

Trabalhamos na pilha, eu dobrando de verdade e ele “ajudando” ao segurar algo ocasionalmente como se estivesse no The Price Is Right. De vez em quando, ele solta uma teoria meio absurda sobre monopólios de máquinas de venda ou “por que as meias desaparecem”, o que me faz revirar os olhos, mas não peço que ele pare.

Quando a última camiseta está empilhada — meu retângulo organizado ao lado dos seus tristes bolinhos de roupa —, ele joga tudo em uma cesta e a carrega sob o braço.

“Bom”, ele diz, “esta foi a sessão de lavanderia mais social da minha vida.”

“Nível baixo”, eu aponto, pegando minhas chaves.

“Verdade”, ele diz, indo em direção à porta.

Subimos juntos, a escadaria escura e ecoante. Nenhum de nós está com pressa, o que é estranho, já que passamos boa parte de uma hora em um porão que cheira fracamente a mofo.

No quarto andar, paramos na frente da minha porta. A dele fica a poucos passos do outro lado do corredor, aquela com o olho mágico quebrado.

“Obrigado pela aula de dobrar roupas”, ele diz, ajustando a cesta no quadril.

“E obrigada por me salvar do golpe do Snickers”, eu digo. “Você é um verdadeiro herói.”

Ele dá um sorriso de lado, faz uma continência em tom de brincadeira e segue para a sua porta. Eu destranco a minha.

O corredor está silencioso, exceto pelo leve ranger das dobradiças dele ao entrar.

Por um segundo, fico ali parada, com as chaves ainda na fechadura, me perguntando por que me afastar do porão parece como deixar um lugar quente para um mais frio — mesmo que o meu apartamento seja o que está com o aquecedor ligado.