Prólogo – A Promessa da Órfã
O mundo tinha dado errado.
Selena pressionava as palmas das mãos contra as paredes de pedra bruta do abrigo da alcateia, com o coração batendo como o de um pássaro preso. O ar estava pesado de medo, com o cheiro forte de corpos demais amontoados — crianças agarradas às mães, anciãos sentados com as costas rígidas e olhos vazios. Cada rangido lá fora parecia se infiltrar por baixo da porta.
Ela tinha apenas sete anos, mas mesmo assim sabia que a guerra tinha chegado até eles.
“Fiquem aqui”, disseram os guerreiros enquanto levavam os jovens e os mais fracos para o abrigo. “Fiquem em silêncio. Não abram a porta.”
Ela tinha tentado. Ela realmente tinha. Mas quanto mais o silêncio se prolongava, mais as paredes pareciam se fechar. Seus pais estavam lá fora. Lutando. Sangrando. Talvez —
“Nem ouse.”
A voz de Vexa ecoou dentro dela como um trovão, afiada o suficiente para acalmar suas mãos trêmulas. Sua loba ainda era pequena, ainda nova, mas sua presença preenchia cada canto do peito de Selena, feroz e inabalável.
“Nem pense em sair, filhote. Estamos seguras aqui. É onde devemos ficar.”
O lábio de Selena tremeu. “Mas a mamãe e o papai—”
“São guerreiros.” O tom da loba foi brusco, protetor. “Eles lutam porque você está aqui. Se você sair, vai desonrá-los.”
Selena se encolheu mais contra a parede, com os joelhos junto ao peito, observando os outros. Um menino chorava baixinho no colo da avó. Um par de gêmeos sussurrava, assustados demais até para levantar os olhos. Todos estavam esperando. Esperando a guerra acabar ou a morte encontrá-los.
Mas a espera era pior do que o barulho.
A batalha tinha rugido lá fora por horas, gritos e uivos rasgando as árvores, aço colidindo, rosnados cortando a noite. Então, de repente — silêncio.
Foi o silêncio que a quebrou.
A respiração de Selena falhou, seus pequenos punhos se cerraram. “E se eles estiverem—”
“Não.” O rosnado de Vexa sacudiu seus ossos. “Não termine esse pensamento. Confie neles. Confie em mim.”
Mas a confiança não fazia nada para acalmar a dor em seu peito, a coceira inquieta em suas pernas. O silêncio pressionava com mais força, e com ele veio o sussurro de algo escuro e pesado flutuando para além das paredes. Não era som. Não era cheiro. Era algo mais — um vazio que puxava seu coração.
Ela não conseguia mais ficar parada.
Ela rastejou em direção à porta, cada passo soando alto em seus próprios ouvidos.
“Selena!” Vexa latiu dentro de seu crânio, garras de aviso arranhando sua mente. “Não. Sente-se. Agora.”
Mas sua mão já estava fechando na tranca.
A porta cedeu com um gemido baixo, e o ar frio da noite entrou, com gosto de cinzas e ferro.
Ela escapou antes que alguém pudesse notar.
O pátio estava vazio. Vazio demais. O cheiro de sangue a atingiu em uma onda sufocante.
Os pés descalços de Selena caminhavam pela terra, agora escura e pegajosa. Seu corpo pequeno tremia enquanto ela tropeçava, os olhos buscando nas sombras. Armas quebradas estavam espalhadas como ossos, o metal manchado com coisas que ela não queria nomear. Uma bandeira rasgada tremulava fracamente em um poste, com as bordas queimadas.
“Mamãe?” Sua voz falhou. “Papai?”
Ninguém respondeu.
Seu peito apertou. O silêncio não era nada seguro — era um grito engolido pela noite.
“Volte. Agora!” O rosnado de Vexa chacoalhou seu crânio. “Você não deveria ver isso.”
Mas Selena não conseguia parar. Cada parte dela gritava para correr de volta, mas seu coração a arrastava para a frente. Ela precisava encontrá-los. Ela precisava.
Seu pé prendeu em algo, e ela caiu para frente, com as palmas das mãos batendo no chão. Seus dedos se fecharam em couro.
Ela olhou para baixo.
Era um escudo. Partido exatamente ao meio.
O escudo de seu pai.
O grito que saiu de sua garganta foi silencioso, engolido pelo ar da noite.
“Selena, não — não olhe mais. Por favor.” Pela primeira vez, a voz de Vexa falhou, com desespero sangrando através de seu habitual aço. “Volte. Nós não podemos—”
Mas ela se empurrou para cima, limpando o nariz com as costas da mão, piscando lágrimas quentes. Suas pernas continuaram se movendo, bambas e fracas, até que ela chegou ao centro do pátio.
Corpos jaziam ali.
Muitos. Retorcidos, quebrados, o ar pesado com a picada de cobre do sangue. Ela era pequena demais para dar nome aos ferimentos, jovem demais para entender a estratégia, mas sabia o que estava vendo.
E entre eles — duas formas familiares.
A trança de sua mãe, escura e emaranhada de terra. Os ombros largos de seu pai, imóveis.
Selena congelou. O mundo inclinou. Seu coração gritava para eles se moverem, respirarem, provarem que ela estava errada.
“Não olhe. Filhote, não olhe—” A voz de Vexa estava crua, frenética.
Mas Selena não conseguia parar. Ela cambaleou para mais perto, com a garganta rasgando em um soluço.
“Mamãe! Papai!”
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio.
A criança desabou ao lado deles, com as mãozinhas tateando os braços deles, tremendo, implorando. “Por favor! Por favor, acordem!”
Suas lágrimas atingiram a pele deles, misturando sangue com água salgada.
A conexão dentro dela uivou, Vexa lamentando uma dor que não era apenas dela para carregar. A voz da loba se enrolou em torno dela como vidro quebrado, feroz e trêmula. “Eu lhe disse para não vir. Eu avisei.”
Mas não restava raiva, apenas dor.
Selena se encolheu entre os corpos imóveis de seus pais, pressionando o rosto contra as roupas manchadas de sangue. A noite se fechou, pesada e sem fim.
E então—
Passos.
O chão tremeu levemente sob um peso que se aproximava. Uma sombra caiu sobre ela, alta e nítida.
Selena levantou seu olhar embaçado pelas lágrimas.
O Alfa Marcus Blackthorn estava ali, com olhos vazios, seu peito arfando como se carregasse o peso dos mortos em seus ombros.
Ele olhou para a criança agarrada aos guerreiros caídos e não falou por um longo tempo.
Finalmente, sua voz quebrou o silêncio.
“Selena.”
O nome dela saiu arranhado em sua garganta, um voto e uma ferida ao mesmo tempo.
Os lábios da menina tremeram. “Eles estão… eles não estão—”
A mão dele, pesada e quente, pousou em seu ombro pequeno.
“Eles morreram pela alcateia”, ele disse, com a voz crua pela mentira de conforto. “Por você.”
O soluço de Selena falhou. Ela enterrou o rosto contra ele enquanto ele a levantava, deixando o campo de batalha para trás.
O sussurro de Vexa se enroscou baixo em sua alma, feroz apesar da dor: “Eu não vou deixar você cair, filhote. Mesmo que o mundo queime, eu não vou.”
As portas do abrigo abriram com um gemido que pareceu alto demais no silêncio do luto.
Marcus carregava Selena em seus braços, seu corpo pequeno tremendo contra o peito dele, o rosto manchado de lágrimas enterrado fundo para se esconder do mundo. O cheiro de cinzas e sangue grudava em seu cabelo, chocando-se com o calor familiar da presença de seu Alfa.
O abrigo se esvaziou lentamente conforme os sobreviventes emergiam, com olhos vazios, procurando pelos entes queridos que nunca voltariam. Mães agarravam os filhos, pais se apoiavam uns nos outros, os idosos caminhavam arrastando os pés em um silêncio cansado. Cada olhar se voltava para o Alfa… e para a pequena menina que ele carregava.
Sussurros subiam como fumaça.
Ela é a única que sobrou…
Essa é a filhote de Blackthorn agora.
A órfã.
Selena ouvia cada palavra. Não pelos ouvidos, mas pelo peso dos olhares deles pressionando sua pele, cortando mais fundo que garras.
“Ignore-os”, Vexa murmurou ferozmente dentro dela. “Eles não conhecem seu coração. Eles não conhecem o nosso.”
Mas nem mesmo a rebeldia de sua loba podia suavizar a verdade. Seus pais tinham ido embora, e nada que Vexa sussurrasse poderia trazê-los de volta.
Marcus a colocou gentilmente no chão. Seu rosto era duro como as paredes de pedra, mas sua mão permaneceu em seu ombro, mantendo-a firme.
“Selena”, ele disse baixo, para que só ela pudesse ouvir. “Deste dia em diante, você não ficará sozinha. Eu juro.”
Sua garganta se fechou. As palavras não consertavam o vazio onde seus pais deveriam estar. Mas elas se enraizaram dentro dela como uma semente, silenciosas e afiadas.
O Alfa se levantou para encarar a alcateia, sua voz carregada pelos destroços. “A batalha foi vencida. Mas o custo—” Sua mandíbula travou. Ele não terminou.
Ninguém precisava que ele terminasse.
Selena se afastou para a beira da sala, pequena demais em meio a tanta dor. Ela envolveu os braços em torno de si mesma e deslizou para um canto, com os olhos embaçados por lágrimas que ela não conseguia parar. O ar tinha gosto de perda, espesso e amargo.
“Respire, filhote”, Vexa insistiu. “Eu estou aqui. Sempre.”
Selena fungou, pressionando a testa contra os joelhos. “Mas eles não estão…”
O silêncio se instalou entre elas, quebrado apenas pelo pulsar suave do coração da loba junto ao dela.
“Selena.”
Sua cabeça se ergueu ao som de seu nome.
Adrian estava ali, apenas um ano mais velho que ela, mas já alto para sua idade, seu cabelo escuro caindo sobre olhos dourados que brilhavam com algo sem defesa — dor, sim, mas também determinação.
Ele se ajoelhou na frente dela, baixando-se até que seus olhares se encontrassem. “Sinto muito”, disse ele simplesmente.
Seus lábios tremeram. Ela não queria “sinto muito”. Ela queria a risada da mamãe, o abraço quente do papai. “Sinto muito” era vazio.
Mas Adrian não recuou quando suas lágrimas caíram novamente. Ele estendeu a mão, tomando a mãozinha dela na dele, segurando-a com firmeza mesmo quando ela tentou puxar.
“Você não está sozinha”, ele disse, com a voz firme de um jeito que as vozes das crianças raramente eram. “Eu vou cuidar de você. Um dia, quando eu for Alfa, vou fazer de você minha Luna. Você nunca mais será deixada para trás. Eu prometo.”
As palavras mergulharam fundo, quentes e pesadas. Ela piscou para ele, sem entender completamente o peso do voto, mas se agarrando a ele como uma corda no escuro.
Sua loba se agitou, quieta e pensativa. “Uma promessa feita na dor não é facilmente quebrada.”
Selena engoliu em seco, sussurrando: “Você promete?”
Adrian assentiu, com os olhos dourados ardendo com uma certeza que nenhuma criança deveria carregar. “Eu prometo.”
Mas eles não estavam sozinhos.
No fim do corredor, uma sombra permanecia. Lila Carrington, filha do Ancião Elias, estava meio escondida na porta. Seus pequenos punhos cerrados ao lado do corpo, seu rosto pálido e imóvel.
Ela tinha visto Adrian se ajoelhar. Tinha ouvido seu voto.
Seu estômago se revirou, azedo e afiado. Aquela promessa não era para Selena. “Ela não é uma de nós”, Lila pensou amargamente. “Ela não pertence a este lugar.”
Seu olhar pairou sobre Selena, encolhida e chorando, mas de alguma forma já atraindo simpatia, já puxando os corações para ela.
Algo dentro de Lila endureceu.
Ela se virou, silenciosa, mas a semente do ciúme já tinha sido plantada.
Selena não a viu sair. Ela apenas sentiu o calor da mão de Adrian na sua, o eco fraco da presença constante de Vexa dentro de sua mente.
Pela primeira vez desde que pisou no campo de batalha, ela se permitiu respirar. Apenas um pouco.
Mas, lá no fundo, Vexa se agitou inquietamente.
“Uma promessa é uma corrente, filhote”, sussurrou a loba. “E correntes sempre têm um custo.”










