Capítulo 1
A porta do ônibus rangeu ao abrir, como se fosse um desafio.
Agarrei a alça da minha mochila e subi, com o coração batendo forte na garganta. Aquela deveria ser a minha chance de liberdade. Meu pai desafiou nosso Alpha para me enviar para cá, na esperança de que a Escola para Shapers me aceitasse e me ensinasse a usar as visões que herdei da minha mãe. Um dom, ele chamava. Uma maldição, a alcateia decidiu.
De qualquer forma, eu estava fora. E meu pai pagaria caro por isso.
Os degraus retiniram sob minhas botas. O calor e o cheiro de diesel me envolveram, agudos como uma marca de ferro. Lobos ocupavam as primeiras fileiras, esparramados pelos bancos, com vozes altas de quem se sente em casa. Eles viraram a cabeça quando passei.
Agarrei minha mochila com mais força e fiz uma promessa a mim mesma: Apenas sobreviva a esta viagem. Sem brigas. Sem erros. Sem humilhação. Se eu conseguisse completar uma viagem de ônibus sem a vergonha me consumir por dentro, talvez a Escola fosse um novo começo.
Essa esperança rachou quando uma sombra caiu sobre mim. Uma loba com o cabelo perfeito e um brasão de meia-lua bordado com destaque em sua jaqueta se inclinou, os lábios se curvando.
“Omega.” Ela disse isso como se fosse lixo. “Você não pertence a este lugar. Rasteje.”
Sua mão prendeu meu ombro, as unhas cravando, me forçando para baixo. Meus joelhos bateram no chão grudento, o calor queimando minhas bochechas enquanto risadas explodiam ao meu redor. Ela empurrou com mais força, tentando me achatar, me obrigando a ficar de quatro. Minha loba soltou um ganido, com o rabo entre as pernas e as orelhas baixas dentro de mim.
Aqui não. De novo, não.
Tentei me levantar e fui surpreendida; o peso sumiu de repente, arrancado por algo mais frio e mais pesado.
“Você está no meu caminho.”
As palavras deslizaram sobre mim como aço saindo da bainha, entediadas, mas com uma ponta de perigo.
Uma figura estava parada acima de nós, alto e de ombros largos, um capuz escondendo seu rosto. Sua mão esmagou o pulso da Beta, torcendo até que ela ofegasse. Eu não tinha percebido que havia mais alguém esperando o ônibus comigo.
Foi então que o cheiro me atingiu.
Sândalo e cedro, nítidos como madeira recém-cortada. Sob isso, algo mais antigo e sombrio — como o ar de inverno vindo de uma caverna que nunca viu o sol. Arrepiou minha pele, infiltrou-se nela, um sonho quase esquecido que me deixou abalada e desejosa.
Minha loba levantou a cabeça sem ser chamada, dividida entre o medo e o calor. Meu corpo me traiu, com uma faísca surgindo lá no fundo do meu estômago, vergonhosa e repentina.
“Você vai se sentar”, disse ele. Sem gritar, sem rosnar — apenas definitivo.
A Beta se soltou, com indignação brilhando nos olhos. “Derek—”
Ele se levantou de imediato. O corredor pareceu encolher ao redor dele, seu desprezo pressionando como uma tempestade. “Toque no que é meu de novo”, Derek rosnou, “e eu quebro você.”
O garoto de capuz não recuou. Em um borrão de movimento — rápido demais para meus olhos acompanharem — Derek foi arremessado contra a janela com um estalo que fez o vidro tremer. Ofegos cortaram as risadas.
Sem rosnados, sem demonstração de dominância. Apenas poder bruto e sem esforço.
O garoto o soltou, e Derek desabou no assento, pálido e silencioso, com os olhos brilhando de vingança prometida.
O garoto de capuz se virou sem dizer uma palavra, seguindo pelo corredor. Os lobos recuavam de seu caminho, com a cabeça baixa e os ombros curvados.
Finalmente consegui ver bem o meu salvador. Ele era alto, de ombros largos, com o capuz escondendo a maior parte do rosto. Sua presença me atingiu como um trovão. Eu não fazia ideia do que ele era — não era lobo, não era fae, não era nada que eu reconhecesse — apenas poder puro que fez minha pele arrepiar e minha loba encolher, mas meu coração dar um salto.
Fiquei paralisada, com o coração disparado, minha loba tremendo entre a humilhação e o desejo. Ao me proteger, ele não tinha apenas ferido o orgulho de Derek. Ele tinha me tornado cúmplice disso.
Mas eu podia ter esperança de que, agora, a vingança de Derek tivesse um alvo além de mim: o garoto de capuz. Embora eu soubesse que não seria assim. O ódio de Derek não cairia só sobre ele. Ao ficar na sombra da força dele, eu me tornei parte do problema. Eu pagaria por isso mais cedo ou mais tarde.
Segui atrás do garoto de capuz, procurando um lugar entre os lobos. Mochila após mochila atingia os assentos vazios, com corpos se esticando para me bloquear. Quando cheguei às fileiras do meio, minha pele zumbia com a rejeição. A mesma história da minha alcateia. O mesmo fim. Rejeição.
Deslizei para o primeiro assento vago junto à janela e pressionei a palma da mão no vidro quente. Lá fora, o Texas se estendia vasto e implacável, com o céu parecendo a tampa de um forno. Meu coração batia contra as costelas, uma coisa enjaulada.
Ele foi para a última fileira e se jogou no canto, tirando um livro surrado da mochila como se nada tivesse acontecido. O título em latim brilhou no reflexo da luz — De Occulta Philosophia. Ele o abriu, completamente absorto, como se o ônibus não estivesse prendendo a respiração ao redor dele.
Sorri por um momento; eu tinha conseguido. Sobrevivi sem ser humilhada... muito. Aquela era minha chance de liberdade. Tinha que ser.
Mesmo que ainda não parecesse.
O ônibus deu um solavanco de volta para a estrada, chacoalhando meu assento. Fiquei encarando os campos passando, fingindo não sentir o espaço vazio ao meu lado como um holofote. Ninguém queria sentar com uma Omega. Ninguém nunca queria.
Até que alguém quis.
Horas depois, ou o que pareceu isso, um garoto passou arrastando os pés pelo corredor, sua mochila cheia de remendos com símbolos estranhos e contorcidos. Cabeças se viraram, corpos ficaram tensos. Até os lobos recuaram como se a sombra dele queimasse.
Ele parou na minha fileira.
“Todos os outros lugares estão ocupados.” Sua voz era plana, quase quebradiça. Ele se sentou antes que eu pudesse responder, espremendo-se contra a borda do banco como se quisesse ocupar o mínimo de espaço possível.
O cheiro me atingiu — doce como mel, frio como geada. Fae.
Ele se sentou ao meu lado sem pedir, com os ombros curvados e os olhos fixos no chão. Os lobos duas fileiras à frente riram, como se ele tivesse acabado de confirmar tudo o que já pensavam sobre ele.
“Você não vai querer que eu sente aqui”, murmurou ele.
“Por que não?”
Ele hesitou, com o maxilar travado. “Porque eu sou Unseelie.”
Isso explicava por que os outros recuavam quando ele passava. Ainda assim, ele me olhou como se esperasse que eu me afastasse também.
Eu não me movi. “Então não comece por aí da próxima vez”, brinquei.
Ele franziu a testa, confuso.
“Você não deve a verdade a ninguém”, eu disse, com a voz baixa. “Às vezes, o único jeito de as Omegas sobreviverem é saber quando ficar caladas. Quando se esconder. Quando fazer as pessoas nos subestimarem.”
Uma sombra passou pelo rosto dele — suspeita, talvez esperança. “Mas eu... eu não consigo...”
“Então pratique comigo”, cortei. “Comece pequeno. Não me conte tudo de uma vez.”
Ele finalmente olhou para mim, olhou de verdade, como se aquele pensamento nunca tivesse passado por sua cabeça. “Você está... me ajudando?”
Dei de ombros, forçando um sorriso que eu não estava sentindo. “Por que não? Párias precisam ficar juntos.”
Algo mudou na expressão dele, como uma parede rachando apenas o suficiente para deixar um pouco de luz passar.
“Cybele”, eu disse, estendendo a mão.
Um segundo depois, seu aperto foi frio e cuidadoso. “Corin.”
Um silêncio se estendeu entre nós. Não confortável, não hostil. Apenas... real. E, pela primeira vez desde que subi no ônibus, eu não me senti completamente sozinha.
O ônibus freou bruscamente, com os freios rangendo enquanto parávamos em outro ponto. A poeira subiu com o vento quente lá fora, e uma garota alta subiu como se fosse dona da estrada.
Ela era de ombros largos, pele escura, com tranças balançando nas costas. Uma jaqueta grudava em seu corpo apesar do calor, com um remendo de presa de marfim costurado nela. Os lobos nas primeiras fileiras ficaram muito quietos quando ela passou, observando-a sem saber se deviam rir ou sair do caminho. Ela não lhes deu nenhuma das duas opções.
Seus olhos passaram por mim e por Corin, encolhidos no meio da fileira. Sua boca se curvou, cheia de diversão.
“Aww”, ela falou, com a voz subindo acima do zumbido do motor, “olhem só os pequenos perdidos ficando juntos. Isso é quase fofo.”
Minhas bochechas ficaram quentes. Corin ficou tenso ao meu lado.
Ela deu um sorriso sarcástico. “Relaxa. Se eu quisesse te esmagar, já teria feito isso.” Então ela se jogou no assento à nossa frente, esticando as pernas compridas no corredor como se fosse dona dele.
Engoli em seco, tentando parecer corajosa. “Você não é... loba?”
Ela deu uma risada seca. “Eu tenho cheiro de vira-lata cheia de pulgas para você? Não, querida. Eu sou Ganesha. Segundo ano.” Ela bateu no emblema da presa na manga. “Wererhino.”
A palavra ecoou pesada no ar. Eu nunca tinha nem ouvido falar de uma wererhino.
Corin encontrou a voz primeiro, cauteloso. “Ganesha? O que isso deveria significar?”
O sorriso dela aumentou. “Oh, docinhos. Primeiro ano. Vocês saíram fresquinhos do ensino médio. Vocês realmente não sabem porra nenhuma, sabem?”
Nós dois balançamos a cabeça.
“Bom”, ela disse, recostando-se como se estivesse se ajeitando para contar uma história, “sorte a de vocês que eu estou entediada e sou uma manteiga derretida. A Escola para Shapers é uma faculdade para que os diferentes tipos de shifters aprendam a dominar suas habilidades. Existem quatro Casas aqui: Fenris, Ganesha, Mythos, Sylvara. Se você tem presas e instintos de alcateia, os lobos vão te devorar vivo em Fenris. Se você é construído como eu, você ganha a força dos antigos em Ganesha. Se você nasceu de histórias — dragões, unicórnios, fênix — Mythos vai te reivindicar. E se você tem sangue trapaceiro, fae ou de outro tipo, Sylvara vai te mastigar e te cuspir.”
Seu olhar se tornou afiado, nos prendendo. “De um jeito ou de outro, as Pedras dirão a que lugar você pertence. E confiem em mim — assim que você tiver uma Casa, é melhor aprender as regras rápido. Ou você não vai durar o suficiente para aproveitar seu clube de párias fofinho.”
As palavras dela atingiram meu estômago como um peso. As Pedras dirão a que lugar você pertence.
Minha loba se agitou, inquieta. E se elas dissessem que eu não pertencia a lugar nenhum? E se até a magia me cuspisse, assim como a alcateia fez?
Forcei uma risada que não soou nada bem aos meus ouvidos. “Então é isso? Pedras decidem quem nós somos?”
Jada deu um sorriso malicioso, com os olhos brilhando. “Não só pedras, baby. As Pedras são mais velhas que seu Alpha, mais velhas que qualquer corte fae. Elas não cometem erros.”
Corin se mexeu ao meu lado, com as mãos se fechando com mais força no colo. “E o que acontece se você não gostar de onde elas te colocarem?”
O sorriso de Jada aumentou, revelando presas e dentes. “Então você aprende a gostar. Ou você é esmagado. Simples assim.”
O silêncio se estendeu, com o rosnado do motor preenchendo o espaço.
Olhei para Corin, notando a tensão em seu maxilar, o jeito que ele encarava fixamente a janela como se pudesse ver as grades da prisão se formando. Sem pensar, cutuquei o braço dele com meu cotovelo.
“Ei. Nós vamos dar um jeito”, sussurrei.
Ele piscou para mim, surpreso. “Você nem me conhece.”
“Ninguém mais conhece também”, eu disse. “Esse é o ponto. Nós decidimos o que eles vão saber.”
Seus lábios se abriram como se ele quisesse argumentar, depois se fecharam novamente. O menor lampejo de alívio passou pelo rosto dele.
Do outro lado do corredor, Jada bufou. “Fofo. Vocês dois podem até durar uma semana se continuarem assim.” Minhas bochechas arderam, mas não desviei o olhar de Corin. Eu quase acreditei no que acabei de dizer a ele.
Jada recostou-se, de braços cruzados, aquele sorriso nunca deixando seu rosto. “Vocês dois são verdes como a grama da primavera. Vão ser devorados vivos se alguém não ensinar as regras para vocês.” Seu olhar me varreu como uma lâmina. “A Omega aqui não vai durar um dia em Fenris.” Então ela lançou um olhar para Corin. “E você? Você tem essa cara de cachorro perdido que grita ‘alvo’ para qualquer casa que te escolher.”
O maxilar de Corin travou, mas coloquei a mão no braço dele antes que ele explodisse. “O que você está querendo dizer?” perguntei.
“Estou dizendo que vou manter vocês vivos o suficiente para aprenderem o jogo.” O sorriso de Jada se tornou mais afiado. “Mas nada é de graça. Quando eu pedir um favor, vocês fazem. O que for preciso para eu subir. Jada, a propósito.”
Foi dito como uma piada, mas o ar entre nós ficou pesado e expectante.
Corin inclinou a cabeça, os olhos se estreitando. “Então... um acordo? Você nos protege quando chamarmos, e nós ajudamos você a subir na escada, Jada?”
Jada bufou. “Claro, garoto. Um acordo. Eu ajudo vocês se vocês me ajudarem.”
Mas Corin não sorriu. Ele se inclinou para a frente, com a mão estendida. Jada piscou, confusa — então o instinto assumiu o controle e ela apertou a mão dele, firme e certa. No momento em que as palmas se tocaram, o ar estalou, agudo como eletricidade estática antes de uma tempestade.
A voz de Corin caiu em um ritmo que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. “Apertar de mão, palavra dada. O que foi dito, selado em nada. Favor devido, promessa real, Vinculado em palavra, de mim para você, afinal.”
As palavras latejaram no ônibus como algo mais antigo do que todos nós.
O sorriso dela desmoronou. “Que porra—”
“Você me deu seu Nome e ofereceu um pacto”, disse Corin suavemente, quase pedindo desculpas. “Agora ele está selado.”
Jada puxou a mão de volta como se tivesse se queimado, com os olhos arregalados. “Pelas divindades. Eu odeio minha natureza confiante.” Ela nos encarou, irritada. “Acidentalmente vinculada por um fae de primeiro ano. Só comigo mesmo.”
Corin encolheu um pouco sob a fúria dela, mas percebi um lampejo de triunfo em seus olhos.
Meu coração disparou. “Então é real? Você vai nos ajudar, Jada?”
Ela gemeu, mas a rigidez saiu de seus ombros. “É. Vou cuidar de vocês, pirralhos. Mas não se esqueçam — vocês me devem uma. Quando eu cobrar, vocês entregam. Algum de vocês sabe a penalidade por quebrar um geas? Não? Ótimo. Considerem essa a primeira lição. E Corin — tente fazer isso de novo, e eu transformo você em pasta.”
Corin abaixou a cabeça, um pequeno sorriso fantasmagórico em sua boca.
Pela primeira vez desde que entrei no ônibus, eu não me senti apenas uma pária. Eu me senti parte de algo — perigoso, frágil e real.
Mas meus pensamentos me traíram e voltaram para aquele garoto de capuz. Eu devia estar encarando, porque Jada tossiu desconfortável e disse: “aquele garoto é problema, se é que já vi um”.
Meu pulso trovejou, o calor se enrolando lá no fundo do meu estômago. Problemas sempre me encontravam. Passei a vida inteira tentando sobreviver a eles, fugir deles.
Mas, olhando para o garoto de capuz, com minha loba tremendo dentro do meu peito, eu soube a verdade.
Pela primeira vez, eu não temia apenas os problemas. Eu os desejava.