Antes que Você Diga

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Resumo

Algumas pessoas pertencem ao verão, à brisa do oceano e aos segredos escondidos em cidades pequenas. Ridge parece ser uma delas. E, contra o meu bom senso, sinto-me atraída por ele a cada olhar silencioso e a cada palavra que insiste em ficar. Mas Avery é minha melhor amiga, minha única constante. E sei que desejá-lo significa perdê-la. Ainda assim, toda vez que olho para Ridge, pergunto-me: será que já é tarde demais para parar?

Status
Completo
Capítulos
19
Classificação
4.5 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 | Agora

O ar tinha cheiro de salitre e pinho, fresco e revigorante. Uma névoa espessa, vinda do mar, suavizava o brilho amarelo dos postes, dando ao mundo um aspecto quase etéreo. Tudo ali parecia diferente da nossa cidade na Califórnia, mesmo não sendo tão longe assim. A umidade colava na minha pele e eu fiquei na dúvida se prendia o cabelo, com medo de que ficasse armado. A umidade já tinha transformado meus fios castanho-claros em ondas que caíam logo abaixo das costelas. Eu adorava o comprimento, na maior parte do tempo. 

O silêncio do trajeto era relaxante, algo raro quando Avery Brooks estava no carro. As ondas loiro-mel de seu cabelo emolduravam um rosto cheio de energia. Seus olhos azuis brilhantes transmitiam vivacidade, apesar da névoa sombria e dos pinheiros imensos ao nosso redor. Aquela era Harbor Pines, a pequena cidade aninhada na costa do Noroeste Pacífico onde Avery nasceu.

Paramos em frente à livraria mais fofa que eu já tinha visto. Uma placa grande, marrom-chocolate com letras creme, dizia Nutmeg’s Book Loft. Uma luz quente escapava pelas janelas, iluminando pilhas de livros organizadas nos peitoris. Lírios-tigre floresciam em vasos de marfim de cada lado das portas francesas cor de caramelo.

“A primeira impressão é a que fica”, declarou Avery, com os olhos brilhando de empolgação. “E esta é a introdução perfeita para Harbor Pines. A Nutmeg’s é a sua cara, Mia. Sinceramente, fico com medo de saber o que acontece se você passar mais um dia sem um livro.” Ela me deu uma piscadela.

“Parece uma cabana de contos de fadas”, sussurrei, maravilhada.

Avery deu um sorriso largo enquanto abria a porta, fazendo o sininho acima dela tocar suavemente. “Eu só vinha aqui para comprar livros das aulas de inglês”, admitiu ela, me puxando para dentro. “Mas preciso dizer: não tem aquele cheiro de papel velho aqui! Odeio aquele cheiro.”

Lá dentro, o assoalho de madeira rangia sob nossos pés. Uma garota na idade da faculdade, com a pele clara, estava sentada atrás do balcão, digitando em seu notebook. Ela olhou para cima, ofereceu um sorriso tímido e voltou para a tela. Um jazz suave flutuava no ar, nos envolvendo como um abraço caloroso.

A voz de Avery quebrou meu devaneio. “Olha! Leituras de verão.” Ela ergueu The Covenant of Water com um sorriso triunfante, seu cabelo balançando conforme ela se virava.

Mesas enfileiradas na frente da loja estavam cobertas por panos em tons neutros. Pilhas de The Summer I Turned Pretty e People We Meet on Vacation repousavam sobre uma mesa de marfim, com placas escritas à mão que diziam “Best-sellers de Verão”.

Avery pegou um livro da mesa, folheando as páginas com um sorriso antes de puxar minha manga. “Vamos, vamos encontrar algo que vá deixar você obcecada por semanas.” Ela nos guiou em direção a uma estante altíssima perto da janela. Suas sandálias batiam suavemente contra as tábuas do chão que rangiam.

Minha mão tocou a placa de “Romance” pintada à mão; as letras em vermelho-cereja combinavam perfeitamente com meu esmalte. Deixei meus dedos deslizarem pelas lombadas — um desfile de histórias esperando para serem escolhidas — até que pararam em The Light We Lost. O título puxou algo dentro de mim, como uma faísca ou uma lembrança pela metade.

“Mia.”

O sussurro de Avery me trouxe de volta. Virei-me e a encontrei agachada perto de uma prateleira baixa, com um sorriso travesso nos lábios e um livro nas mãos que ela claramente não pretendia comprar. “Aqui.”

“O que você está fazendo?”, perguntei num sussurro, agachando ao lado dela, meus olhos correndo para o balcão. “Estamos parecendo loucas.”

“Dá uma olhadinha”, ela soltou um gritinho, mordendo o lábio para segurar o riso, os ombros sacudindo.

Revirei os olhos, mas me inclinei para espiar pela ponta da prateleira. Um rapaz estava parado perto do expositor de “Favoritos Locais”, folheando um livro de capa dura com naturalidade. Ele era alto, e seu cabelo castanho estava bagunçado, como se ele tivesse acabado de passar a mão nele — ou como se o vento tivesse tentado domá-lo e falhado.

Antes que eu pudesse me esconder de volta, ele levantou o olhar.

Nossos olhos se encontraram. Verdes profundos, como lagos refletindo o sol, calmos na superfície, mas escondendo algo mais profundo.

Uma eletricidade percorreu minhas veias, me deixando paralisada.

Um sorriso lento e cúmplice surgiu em sua boca, formando duas ruguinhas nos cantos. Meu coração falhou uma batida, preso entre o pânico e a curiosidade.

Ele inclinou a cabeça, como se soubesse de uma piada que eu ainda não tinha contado.

Abaixei-me novamente ao lado de Avery, meu cabelo caindo sobre o rosto enquanto eu abraçava meus joelhos. “Ele me viu”, sussurrei, com as bochechas ardendo.

“Ele não é um gato?”, o sorriso de Avery era pura malícia. “Totalmente seu tipo, Mia. Vamos falar com ele!”

“O que pode acontecer de pior?”, implorou ela, com os olhos arregalados enquanto apertava meus dedos. “Só estamos aqui para o verão. Vamos! Não é como se fôssemos vê-lo de novo.”

Antes que eu pudesse protestar, uma voz grave e rouca soou acima de nós.

“Vocês duas estão encontrando tudo o que precisam?”

Meu coração disparou quando seus olhos verdes se cravaram nos meus novamente.

“Agora estamos”, disse Avery com um tom provocante, suas ondas loiro-mel balançando quando ela se virou para ele. “Esta é minha linda melhor amiga, Mia. Ela está aqui para o verão e precisa de algo para ficar obcecada enquanto estivermos na cidade.”

Senti o olhar dela voltar para mim.

“Eu sou a Avery”, continuou ela, estendendo a mão com um sorriso confiante. “Nascida e criada aqui mesmo em Harbor Pines. Moro na Califórnia agora, mas sempre volto para os verões — caso você estivesse curioso.”

Os olhos dele permaneceram nos meus por um segundo a mais antes de se voltarem para a mão estendida de Avery. Ele a cumprimentou, puxando-a gentilmente para se levantar.

“Mia”, disse ele, meu nome soando rico e suave em sua voz — como se ele já o conhecesse.

Então ele estendeu a mão para mim, e minha respiração falhou. Meus dedos tremeram ao deslizar minha mão na dele. O aperto dele era firme e quente.

“É, então... você trabalha aqui?”, Avery inclinou a cabeça, um sorriso brincalhão surgindo nos lábios. “Porque esse visual não grita ‘funcionário de livraria’.”

Ele deu uma risada baixa e envolvente. Seu moletom verde-escuro e o short esportivo preto davam a ele o ar de quem estava pronto para uma corrida — não para dar recomendações literárias.

“Talvez eu não esteja de serviço”, disse ele, um sorriso acentuando as marcas irresistíveis nos cantos de sua boca. “Mas ainda adoraria ajudar sua linda melhor amiga a encontrar a leitura de verão perfeita.” Seu olhar voltou para mim. “Como está sendo sua viagem até agora?”

Minha boca se abriu, mas nenhuma palavra saiu.

“Nós acabamos de chegar”, Avery respondeu por mim, dando um passo à frente de modo que nossos ombros se tocaram. “Primeira parada depois de desfazer as malas. Estou ajudando a Mia a causar uma boa primeira impressão.” Ela sorriu. “Aliás, você não nos disse seu nome.”

“Desculpe por isso.” Sua risada ecoou, suave e consciente. “Eu sou o Ridge.”

Ridge.

Minha respiração travou. O nome parecia pertencer ao ar ao nosso redor — nítido, limpo e cheio de peso.

“Eu adorei”, sussurrei antes que pudesse me controlar. Minhas bochechas coraram enquanto pigarreei. “Harbor Pines, digo. Até agora, está sendo… ótimo.”

Seu sorriso se abriu, lento e seguro. “Bom saber.” Ele gesticulou em direção às estantes. “Vamos tornar tudo melhor. Que tal se eu ajudar você a encontrar algo perfeito para uma noite tranquila à beira-mar?”

“A menos que você já tenha um favorito?”, seu olhar desceu para o livro em minha mão.

Ergui The Light We Lost, a lombada gelada contra meus dedos.

Ele se aproximou, envolvendo a parte superior do livro com a mão levemente. “Uma história sobre amor, destino e perda?”, sua voz tornou-se quente, provocante. “Escolha ousada. Devo me preocupar?”

Antes que eu pudesse responder, ele tirou um marcador de página branco do bolso, sua mão movendo-se rapidamente para uma mesinha.

“Política da loja”, murmurou ele, deslizando o marcador entre minhas páginas. “Nenhum cliente sai sem um.”

Fiquei paralisada, o peso daquele gesto me atingindo em cheio.

A mão de Avery disparou, jogando meu livro sobre o balcão.

“Avery!”

“De jeito nenhum.” Ela pressionou a palma da mão sobre a capa, triunfante. “Este é um presente. Sem discussões.”

O atendente arqueou uma sobrancelha, divertido.

“Ela tem razão”, disse Ridge, com a voz carregada de um sorriso.

Antes que eu pudesse protestar, ele se inclinou o suficiente para que seu calor roçasse minha pele.

Avery sorriu. “A Mia vai guardar isso para sempre. Confie em mim.”

“Bem, Ridge”, ela acrescentou, me puxando em direção à porta, “obrigada por tudo.”

Meu coração deu um salto.

Ele deu um sorriso de lado, as ruguinhas ficando mais profundas.

Minhas bochechas queimaram enquanto o sino tocava.

O ar lá fora estava frio, cortante.

“O que foi aquilo?”, a mão de Avery deslizou para o meu pulso enquanto o sino da porta soava suavemente atrás de nós.

“Não faço ideia”, murmurei, ainda de olhos arregalados enquanto Avery nos guiava em direção ao seu carro.

“O marcador!”, ela quase gritou, saltitando na ponta dos pés. “Mia, olha o marcador!”

Antes que eu pudesse reagir, ela o arrancou das páginas. Seus olhos correram por ele e um suspiro de alegria rompeu a noite.

“O número dele! Mia, ele te deu o número dele!”

Ela se virou, apertando meu braço. Sua empolgação era algo vivo e contagiante.

Meu coração despencou direto para o estômago; uma onda de descrença me atingiu. Ninguém nunca tinha feito algo parecido. Um calor subiu pelo meu pescoço, incendiando minhas bochechas. Minha mão apertou o pulso dela sem nem pensar.

“Você tem que ligar para ele.” Seus olhos estavam arregalados, brilhando com uma excitação genuína. “Ele é tão gato, Mia.” Um sorriso largo se abriu em seu rosto enquanto ela se encostava no carro, uma luz brincalhona brilhando em seu olhar. “Viu? Eu disse que a gente ia encontrar algo para te deixar obcecada lá dentro.”

Fiquei paralisada junto à porta do carro, o livro pesado na mão, a respiração falhando enquanto os últimos minutos se repetiam em minha mente.

O sorriso cúmplice. As ruguinhas nos cantos da boca. O puxão lento e magnético de seu olhar.

Avery estendeu o marcador em minha direção, o braço esticado como uma bandeira triunfante.

Eu o peguei, com os dedos trêmulos. A caligrafia dele se inclinava pelo papel com uma tinta ousada e confiante.

Abri a porta do carro e entrei, sentindo um arrepio — metade fascínio, metade pânico — percorrer minha pele. O número dele me encarava, cada dígito gravado com audácia e possibilidades.

Meu polegar pairou sobre a tinta, traçando-a levemente, como se aquele pequeno ato pudesse torná-lo mais real.

“Ai meu Deus”, sussurrou Avery. “Eu sabia! Você tem que ligar para ele.”

Meu coração batia forte contra as costelas enquanto eu olhava para os números. Nenhum cara tinha me dado o número dele antes — ainda mais um que parecia com ele.

“Você está se adiantando demais.” Fiquei torcendo o marcador entre os dedos, dobrando-o nervosamente. “Ele provavelmente faz isso o tempo todo.”

“Você não acredita nisso.” Ela me deu um sorriso cúmplice. “Ele nem trabalhava lá”, disse ela, rindo. “Era óbvio. Ele só estava tentando encontrar um motivo para falar com a gente — com você.” Seus olhos brilhavam de alegria. “Ainda bem que eu estava lá. Você mal disse alguma coisa!”

“Sério?” Minha voz saiu suave, quase um sussurro.

Agora, sentada no carro, parecia evidente demais.

“Eu vi o jeito que ele olhou para você.” Ela girou a chave na ignição, e o carro ganhou vida. “Ele gostou de você. Sou especialista nessas coisas.”

Meus dedos tamborilavam nervosamente contra a capa do meu livro enquanto eu olhava pela janela. Os pinheiros imensos passavam como um borrão, suas sombras verde-escuras balançando sob a luz dos postes.

O tremor inquieto em meu peito não queria passar.

Será que ele — Ridge — poderia estar realmente interessado em mim?