Sua Parceira de Sangue

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Resumo

Nicolai Dracul caminha pela terra há mais de seis séculos, príncipe de uma dinastia de vampiros, mestre do autocontrole e prisioneiro de sua própria imortalidade. Os anos embotaram tudo, exceto sua fome, e a companhia dos humanos perdeu o encanto há muito tempo. Até ela. A princesa Alisa Petrov, herdeira de um poderoso império humano, está celebrando seu décimo oitavo aniversário quando Nicolai a vê pela primeira vez. Ela é sagaz, reservada e totalmente alheia ao vínculo ancestral que desperta entre eles. Para Nicolai, ela é inconfundível: sua *blood mate*. Mas Alisa não sente isso. Ainda não. Preso por política e legado, Nicolai precisa manter distância enquanto o vínculo ferve sob a superfície. À medida que Alisa começa a desvendar a verdade sobre quem ela é e o que significa para ele, a conexão entre eles se aprofunda em algo perigoso, íntimo e impossível de ignorar.

Status
Completo
Capítulos
26
Classificação
4.8 17 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

POV de Nicolai

Sento-me na penumbra do clube subterrâneo, um refúgio para o sobrenatural e para os condenados. Aqui, a política e o preconceito são deixados na porta, pelo menos em teoria. Na prática, é só mais um poço de fingimento e desespero. Eu não viria a este lugar nem morto se não fosse por Sergei, que insiste para que eu apareça. Aparências, ele diz. Como se eu desse a mínima.

Mais de seis séculos nesta terra e há muito perdi o gosto pela vida noturna. A música irrita, o sangue é velho e a companhia? Previsível.

Tatiana se enrola no poste como fumaça, com os olhos fixos em mim com aquele mesmo brilho faminto que ela ostenta há um século. Ela se esforça demais: quadris balançando, lábios entreabertos, olhar suplicante. Eu a transformei há cem anos, depois que Sergei a deixou quase sem sangue em um beco como uma presa descartada. Ela tem me perseguido desde então, convencida de que aquele ato significou algo mais do que apenas misericórdia.

Meu pai reina como rei entre os vampiros; nossa linhagem remonta diretamente ao Primeiro, antiga, ininterrupta e reverenciada. Sergei nunca se cansa de me lembrar que o príncipe precisa ser visto, precisa provar que os nobres estão dispostos a descer de seus pedestais e se misturar à ralé. Como se séculos de poder pudessem ser suavizados por algumas aparições públicas e sorrisos forçados.

Tatiana senta no meu colo como se fosse dona dele, fedendo a perfume barato e ao cheiro metálico de sangue velho. O perfume gruda na minha garganta, azedo e enjoativo, e já me arrependo de não ter ido embora antes. Lanço a Sergei um olhar afiado e definitivo. Chega para mim.

“Estou pronta para ir se você estiver, Nicolai”, ela ronrona, com a voz carregada de esperança e desespero. Ela está tentando me levar para a cama de novo, convencida de que esta noite pode ser a noite em que ela me conquista. Não será. Nunca será.

Tornei-me indiferente às investidas delas ao longo das décadas. Cada uma pensa que pode conseguir a coroa, sonhando em se tornar rainha. Mas esse título não é conquistado através de sedução ou lisonja. É selado com sangue.

Para nós, não é como para os lobos com suas almas gêmeas abençoadas pela lua e destino divino. Eles falam de destino, de uma única parceira escolhida pela deusa deles. Tolice romântica.

Nosso vínculo é genético. Brutal. Vinculante. Quando acontece, é absoluto, sem espaço para mais ninguém. Só então podemos nos reproduzir, só então a linhagem continua. Até que esse par seja encontrado, o resto é apenas barulho.

“Tatiana, não estou no clima”, digo, com a voz firme como pedra. Sem calor. Sem convite. Apenas a esperança de que ela entenda a dica sem me forçar a usar meu poder contra ela.

Ela não entende.

“Você nunca está no clima, querido”, ela ronrona, aproximando-se. “Eu poderia fazer você se sentir tão bem.”

Duvido. Faz séculos que qualquer toque não desperta nada em mim. Meu pai afirma que é o sangue, o meu procurando pelo par. Ele diz que vou reconhecê-la pelo cheiro, que meu sangue vai reconhecer o dela e responder.

Que grande bobagem.

A mão dela desliza em direção ao meu pênis.

“Se você não tirar as mãos”, digo bruscamente, com os olhos como gelo, “eu as removo do seu corpo.”

Ela recua como se eu a tivesse marcado com fogo, saindo do meu colo em silêncio. Ela deveria se considerar sortuda. Ser transformada por um nobre é a única razão pela qual ela caminha sob a luz do sol. Esse dom, por si só, deveria ter lhe ensinado respeito.

Levanto-me do meu assento, atravessando o clube como uma lâmina na fumaça. Olhos me seguem, famintos, desesperados, agarrando-se à esperança. Patético. Eles não veem um príncipe. Eles veem um prêmio.

Lá fora, entro no meu carro. A porta mal fecha e Tatiana desliza para o banco do passageiro, sem ser convidada. Ela ainda não entende.

Viro-me para ela, agarro seu queixo com força suficiente para fazê-la estremecer. A dor cintila em seus olhos, mas ela não desvia o olhar. Deveria.

Deixo minha aura sangrar no espaço entre nós, fria e sufocante. “Você vai me deixar em paz”, digo, com a voz baixa e letal. “Toque-me de novo e acabarei com sua existência miserável.”

Ela sai do carro antes mesmo de eu terminar a última palavra, correndo como uma presa que acabou de perceber que foi encurralada.

Eu expiro, lenta e profundamente. Finalmente, silêncio.

Não vou para a cobertura esta noite. A ideia de paredes de vidro, luzes da cidade e o zumbido constante da vida humana me faz arrepiar. Em vez disso, viro o volante em direção à propriedade dos meus pais, uma extensão de terra intocada pelo tempo, escondida atrás de portões de ferro e árvores antigas. É privado. Isolado. Um lugar onde o mundo se esquece de invadir.

A propriedade é tranquila, esculpida no velho mundo e deixada para respirar em seu próprio silêncio. Sem drones de vigilância zumbindo acima. Sem olhos digitais observando cada movimento meu. Apenas corredores de pedra, luz de velas e o cheiro de terra e memória. Aqui, posso existir sem precisar fingir.

Sinto falta da Idade Média. Naquela época, o mundo era mais sombrio, sim, mas mais simples. Sem sirenes estridentes. Sem poluição sufocante. Sem fluxos intermináveis de dados catalogando cada respiração nossa. Nós nos alimentávamos em silêncio, desaparecíamos nas sombras. Ninguém questionava um aldeão desaparecido. Ninguém rastreava rastros de sangue. Era mais limpo, à sua maneira. Mais honesto.

Agora, bebemos de bolsas estéreis, fingindo que é o suficiente. Fingindo que satisfaz. Não satisfaz. O sangue é frio, sem vida, despojado do pulsar, do medo, do fogo. Trocamos o instinto pela conveniência, a fome pelo protocolo. Tudo em nome da paz.

Mas a paz é uma mentira. É apenas silêncio com regras.

O rei humano governa este continente com uma coleira de veludo; sua influência se estende por fronteiras como uma sombra. Ele mantém nossa existência enterrada sob mitos e silêncio, garantindo que o sobrenatural não passe de folclore para as massas. Quando um de nós desliza, quando o sangue derrama de forma muito pública ou um corpo aparece mutilado demais, tudo é varrido com um sussurro e uma manchete: Ato de Deus.

E os humanos acreditam. Criaturas ingênuas, ansiosas para engolir qualquer ficção que lhes damos. Eles se agarram às suas ilusões como tábuas de salvação, sem nunca questionar o preço.

Então, o que o rei ganha em troca de sua lealdade? Poder. Legado. Sua linhagem usa a coroa desde que meu pai reivindicou o domínio sobre os vampiros há quase oito séculos. Um arranjo silencioso, selado em sangue e discrição. Nós governamos das sombras. Ele governa na luz. E juntos, mantemos o mundo cego.

Paro no portão e digito o código. O ferro range ao abrir, lento e deliberado, o rangido cortando a imobilidade como um aviso. A propriedade se ergue à frente, envolta em silêncio e sombra.

“Niki!” Valentina irrompe pela porta da frente, descalça e com os olhos selvagens, sua voz quebrando o sossego. Ela tem dez anos agora, um milagre inesperado em nossa linhagem que tinha quase desistido. Meus pais pararam de ter esperança séculos atrás. Vampiros nobres raramente se reproduzem. Parceiros de sangue são raros e, sem esse vínculo, a concepção é impossível. Alguns se contentam em transformar humanos, para preencher o vazio com algo que se aproxime disso.

Mas Valentina não é um substituto. Ela nasceu, não foi feita. Carne da nossa carne. Prova de que a magia antiga ainda cintila em nossas veias.

Saio do carro e a pego nos braços, girando-a até que sua risada ecoe pelo pátio. Ela se agarra a mim, rindo, radiante.

Ela parece exatamente com nossa mãe: olhos verdes afiados como vidro, cabelos pretos como a corvo caindo pelas costas, maçãs do rosto esculpidas com elegância e perigo. Linda. Letal. Uma verdadeira herdeira.

“Olá, pequena”, digo, com a voz baixa ao encontrar seus olhos. “Tem se mantido longe de problemas?”

“Sempre, Niki”, ela responde, com travessura dançando atrás do sorriso. Ela é a única que me chama assim. O nome soaria bobo vindo de qualquer outra pessoa, doce, familiar, imerecido. Mas, vindo dela, combina.

Ela pega minha mão e me puxa para dentro de casa, descalça e ofegante. “Papai me deu um cachorrinho”, ela anuncia, com os olhos brilhando. “Venha ver.”

Valentina me puxa pelo saguão principal, sua mão pequena quente na minha, sua empolgação vibrando a cada passo. A propriedade é silenciosa, envolta em seu silêncio habitual, mas sua risada enche os corredores como a luz do sol, rara, dourada, impossível de ignorar.

“Ele está no solário”, ela diz, sem fôlego. “Papai disse que ele é meu, todo meu.”

Dobramos a esquina e lá está ele, encolhido em uma mancha de luz no chão de mármore, uma pequena criatura com patas grandes demais e pelos da cor de cinza e luar. Suas orelhas se mexem com nossa aproximação, e ele levanta a cabeça, piscando para mim com olhos sábios demais para algo tão jovem.

Valentina cai de joelhos ao lado dele, envolvendo-o com seus braços. “Ele não é perfeito?”, ela sussurra, como se tivesse medo de que o momento desaparecesse.

Abaixo-me ao lado deles, estudando o filhote. Ele treme um pouco, inseguro, mas não se afasta. Estendo a mão e deixo que ele cheire. Ele se inclina para o meu toque.

“Ele é corajoso”, murmuro. “Ou tolo.”

Valentina ri. “Ele é meu.”

Olho para ela, os olhos verdes brilhando, o cabelo cor de corvo caindo sobre os ombros como uma coroa.

O filhote lambe sua bochecha e ela solta um gritinho de alegria. Por um momento, os séculos desaparecem. Sem política. Sem linhagens. Apenas minha irmãzinha, seu cachorro e o milagre silencioso de algo novo.

Meu pai entra na sala e o filhote rosna, um som baixo e incerto que arranca uma risada sombria do rei. Ele está vestido de preto da gola aos punhos, seu cabelo negro penteado para trás com precisão, olhos azuis brilhando como geada ao pousarem em mim.

“A que devemos o prazer, Nicolai?”, ele pergunta, com a voz suave, mas carregada de algo mais afiado.

Levanto-me e aperto sua mão, o gesto formal, praticado. “Achei a cidade irritante ultimamente.”

Ele dá um sorriso de lado. “Finalmente decidiu que o barulho não vale a pena?”

“Minha paciência para isso está se esgotando.”

“Venha”, ele diz, virando nos calcanhares. Uma ordem, não uma sugestão. Não há espaço para recusa.

Enquanto se afasta, ele lança um olhar por cima do ombro. “Vivi, alimente seu animal de estimação.”

“Você me poupou um telefonema, filho”, meu pai começa, com a voz suave, mas ponderada.

Ergo uma sobrancelha, esperando.

“A filha de Dimitri faz dezoito anos na próxima semana. Eles estão dando uma festa e fomos cordialmente convidados.”

Claro que fomos. Suprimo um suspiro.

Rei Dimitri, sempre ansioso para exibir sua linhagem, sempre buscando relevância. Odeio o homem. Seu sorriso é polido demais, sua ambição barulhenta demais. Mas o filho dele... ele é diferente. Quieto. Distante do circo de seu título. Ele não deseja os holofotes, o que o torna tolerável. Quase.

“Deixe-me adivinhar”, digo, com o amargor nítido na língua. “Espera-se que eu compareça a essa reunião.”

“Você comparecerá”, responde meu pai, com a voz curta e definitiva. “E parecerá que está aproveitando cada momento.”

Uma ordem, não um pedido. Como sempre.

A ideia de participar da festa de Dimitri me dá náuseas.

Dezoito anos, mal saiu da infância, e eles já vão vesti-la como um prêmio, desfilando-a na frente das famílias antigas, na esperança de chamar a atenção de alguém com status. Não é uma celebração. É uma transação embrulhada em seda e sorrisos.

Já consigo ouvir a música, alta demais, moderna demais. O cheiro de sangue mascarado por perfume e desespero. O desfile interminável de bajuladores, cada um ansioso para me lembrar de sua linhagem, suas ambições, suas filhas.

Odeio essas reuniões humanas. As risadas forçadas. Os brindes vazios. Meu pai espera que eu sorria. Que eu seja encantador. Que eu desempenhe o papel de herdeiro com graça e equilíbrio. Mas não sinto nada disso. Nenhum calor. Nenhum interesse. Apenas o peso dos séculos pressionando meus ombros e o sabor amargo da obrigação.

Deixe que eles comemorem. Deixe que eles dancem. Estarei lá, como ordenado. Mas não vou aproveitar. Nem por um segundo.