Meu Eterno Inimigo

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Resumo

Eles se conheceram ainda crianças — e ele a odiou desde o primeiro momento. Ela só tentava sobreviver, mas, para ele, ela era a garota que não pertencia ao seu mundo. Quando seus caminhos se cruzam novamente anos depois, as faíscas entre eles são impossíveis de ignorar. Agora, ele precisa decidir: conseguirá deixar para trás os ressentimentos do passado, ou seu ódio de infância lhe custará a única mulher capaz de mudar tudo?

Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
4.3 7 avaliações
Classificação Etária
18+

Prólogo

Eu tinha oito anos quando percebi pela primeira vez que havia uma diferença entre mim e todo o resto.

A casa de Elizabeth sempre cheirava a biscoitos e amaciante, um perfume quente, doce e seguro que grudava na gente muito tempo depois de irmos embora. Minha mochila, grande demais para meus ombros pequenos e desfiando nas costuras, escorregou pelo meu braço enquanto eu subia os degraus da entrada.

A porta estava destrancada, como sempre. Empurrei-a com cuidado, parando para limpar meus tênis no capacho, embora eles já estivessem gastos e rachados de tanto andar por aí com roupas passadas de mão em mão.

Elizabeth estava na cozinha, com o cabelo preso num rabo de cavalo bagunçado e uma mancha de chocolate na bochecha, inclinada sobre a bancada. Ela estava fazendo biscoitos de novo, porque era isso que Elizabeth fazia depois da escola. A despensa da família dela vivia cheia de coisas esperando para serem transformadas em algo quente e perfeito.

“Skylar!” Ela se virou com um sorriso largo e acolhedor, o tipo de sorriso que me fazia esquecer, por um instante, que minhas meias não combinavam e que minha camisa um dia tinha pertencido a outra pessoa.

“Oi”, eu disse, segurando firme as alças da mochila.

“Você chegou na hora certa. A primeira fornada está quase saindo. Quer me ajudar a passar a cobertura?”

“Sim, por favor.”

Comecei a tirar os sapatos perto da porta quando uma voz cortou o corredor.

“Bela camisa, Sky. O brechó estava em promoção?”

Levantei a cabeça de um solavanco.

Alex Mercer estava no fim do corredor, com uma bola de basquete debaixo do braço e o cabelo caindo sobre os olhos. Ele não estava bravo. Ele nunca parecia bravo. Apenas convencido, como se soubesse de algo que eu não sabia, como se eu fosse a piada de um acontecimento do qual eu nunca participaria.

O calor subiu pelo meu rosto. Minha mão correu para alisar minha camisa, aquela que a mamãe dizia ser “praticamente nova” porque a mancha na gola “não era tão perceptível”.

Elizabeth se virou para ele, afiada como só ela conseguia ser. “Alex”, ela disparou, “cala a boca ou volta para sua casa, você fede de qualquer jeito.”

“O quê?” Ele deu de ombros, com uma falsa inocência. “É só uma camisa.”

Forcei um sorriso que não senti e minha voz saiu mais fina do que eu queria quando disse: “Está tudo bem.”

Não estava tudo bem.

Os anos seguintes passaram como flashes, parecendo vídeos caseiros em câmera rápida.

Tardes de verão no quintal dos Mercer, eu e Elizabeth jogadas na grama, sussurrando segredos sobre os garotos da nossa turma enquanto o sol queimava nossa pele. Alex e seu irmão gêmeo, Oak, jogando basquete na entrada da garagem, lançando comentários provocadores que fingíamos ignorar.

Exceto por mim. Ignorar o Alex sempre fora impossível.

“Você vai ficar sentada aí o verão todo, Sky, ou vai fazer algo útil?”

“Você vai tropeçar nesses chinelos um dia, sabia? Não que fizesse diferença, você não consegue correr nem para salvar a própria vida.”

Nunca era uma crueldade direta. Apenas afiado o suficiente para grudar, para me fazer engolir seco e me lembrar de manter a cabeça baixa.

Eu seguia a Elizabeth em todos os lugares, porque a casa dela parecia um lugar seguro. A minha casa... nem tanto. Lá, o dinheiro era sempre contado, as vozes eram sempre altas e, às vezes, o jantar era apenas cereal, porque era só o que tínhamos. Na casa da Elizabeth, sempre havia comida na mesa e risadas no ar.

Mas também havia o Alex.

Quando fizemos doze anos, eu já tinha aprendido a ficar invisível quando ele estava por perto.

Ele passava por mim no corredor sem nem olhar, a menos que tivesse algo a dizer. E quando dizia, era sempre algo que cutucava fundo o bastante para deixar uma marca.

“Esses sapatos de novo, Sky? O quê, não tinham nenhum do seu tamanho no brechó?”

Ou, pior: “Você devia mesmo deixar a Liz arrumar seu cabelo antes das festas da escola. Talvez assim alguém notasse você.”

Elizabeth sempre pulava em minha defesa. Ela o encarava e mandava ele crescer. Às vezes, Oak revirava os olhos e murmurava para o irmão calar a boca.

Mas não importava.

A ferroada sempre permanecia.

Lembro-me de uma tarde mais do que das outras.

Eu devia ter uns treze anos. Elizabeth e eu estávamos jogadas no chão do quintal dos Mercer, com música alta tocando no som portátil no canto. Elizabeth insistiu que queria pular no pula-pula deles e prometeu que o Alex não estaria lá. Oak tinha dito a ela que ele tinha treino de futebol naquela tarde.

“Por que ela está sempre aqui?”

Era o Alex.

“Porque ela é prima da Elizabeth. Elas são próximas”, disse a madrasta do Alex, com a voz ríspida.

“Ela vive pendurada aqui, comendo nossa comida, usando nosso Wi-Fi...”

“Ela é uma criança, Alex. Para de ser um babaca.”

Uma pausa, e então a voz dele novamente, mais baixa, porém mais cruel. “Ela só vive aqui porque a família dela é uma bagunça e ela quer as coisas de graça.”

O fôlego me faltou. Minhas mãos congelaram no cabelo da Elizabeth, a trança que eu estava fazendo se desfez.

Esperei, rezando para que ela dissesse algo, qualquer coisa, para fazê-lo calar a boca. Mas o silêncio se estendeu demais, e a vergonha ardeu quente e pesada no meu peito.

Não esperei que a Elizabeth notasse. Murmurei algo sobre ter esquecido minha mochila na casa dela e saí correndo, com o rosto em chamas e a garganta apertada.

Quando cheguei ao quarto dela, fiz uma promessa a mim mesma: Alex Mercer nunca, jamais, me veria quebrar de novo.

Fiquei longe por quase duas semanas depois disso. Elizabeth me ligava todos os dias, deixando mensagens na secretária eletrônica quando eu não atendia. Deixei que elas se acumulassem, dizendo a mim mesma que era melhor assim. Era melhor não ter que sentar na cozinha perfeita dela, com suas bancadas impecáveis e tigelas de frutas frescas, enquanto Alex ficava por perto, pronto com outro sorriso sarcástico ou outro comentário que cortava minha pele como papel.

Se ao menos os Mercer se mudassem para bem longe, talvez assim eu me veria livre da presença dele.

Quando finalmente voltei, nada tinha mudado na superfície. Elizabeth me envolveu em um abraço como se nenhum tempo tivesse passado, tagarelando sobre tudo o que eu tinha perdido. Oak perguntou se eu queria jogar basquete, mesmo sabendo que eu era péssima.

E o Alex?

Alex mal olhou para mim.

Talvez isso devesse ser um alívio. Mas não foi. Não quando eu ainda podia ouvir a voz dele naquele dia, baixa e firme, me acusando de usar a única família que tinha me feito sentir segura.

Depois daquilo, construí muralhas. Silenciosas. Eu ria quando deveria, participava dos jogos quando Elizabeth implorava, mas parei de ficar enrolando na cozinha, parei de me permitir imaginar que a casa deles também era a minha.

No ensino médio, eu já era boa em fingir.

Elizabeth desabrochou cedo, alta, confiante, o tipo de garota que podia sorrir para qualquer um e fazê-lo se sentir notado. Ela me puxava para sua órbita, querendo eu ou não, me arrastando para jogos de futebol americano, fogueiras e lanches tarde da noite na lanchonete.

Aprendi a me enturmar, a sorrir quando as pessoas faziam comentários sobre meus jeans de brechó ou sobre o fato de meu celular ser dois modelos mais antigo que o de todo mundo.

Alex nunca dizia muito naquela época. Pelo menos não em voz alta.

Mas, de vez em quando, eu o pegava me observando, com algo afiado e indecifrável no olhar antes de desviar o rosto.

Houve uma noite, numa festa na casa de um amigo do Oak, que ficou marcada em mim por anos.

Eu tinha pegado um vestido emprestado com a Elizabeth, um que me fazia sentir quase bonita, se eu não pensasse muito sobre o fato de não ser meu. Estávamos na cozinha, conversando com um grupo de amigas dela, quando Alex entrou com Oak e alguns caras do time de basquete.

O olhar dele varreu a sala, pousou em mim, e senti um arrepio gélido na espinha.

“Não sabia que tinham aberto a festa para casos de caridade”, ele disse casualmente, como se estivesse comentando sobre o tempo.

A sala ficou em silêncio.

Elizabeth engasgou, pronta para intervir, mas eu fui mais rápida. Sorri, com um ar afiado e frágil. “Não se preocupe, Alex. Eu não vou ficar. Não gostaria de desvalorizar o imóvel.”

E então fui embora, de cabeça erguida, como se ele não tivesse acabado de me destruir por dentro.

Chorei naquela noite, no quarto da Elizabeth, com a porta trancada e as luzes apagadas, lágrimas silenciosas encharcando o travesseiro para que ela não ouvisse.

Aquela foi a noite em que prometi a mim mesma, de novo, que Alex Mercer nunca me veria fraca.

Depois disso, eu o evitava sempre que podia.

Ficou mais fácil conforme crescemos. Ele estava ocupado com a escola e o basquete, e depois com o trabalho que conseguiu após a formatura. Eu fui para a faculdade em outro estado, me afundando nos estudos e em trabalhos de meio período para pagar tudo o que eu não podia bancar. A distância ajudou a suavizar as bordas afiadas das lembranças, mas nunca as apagou.

Toda vez que eu voltava para casa nas férias ou para uma visita de fim de semana, lá estava ele, mais alto, mais largo, mais velho, mas ainda o Alex. Ainda de gênio forte, ainda indecifrável.

Às vezes ele me ignorava completamente. Às vezes, ele acenava com um reconhecimento silencioso, como se fôssemos apenas conhecidos. E uma vez, durante uma festa de Natal, quando a casa estava barulhenta demais e eu estava cansada demais para manter as muralhas, ele pressionou uma caneca de chocolate quente em minhas mãos sem olhar para mim e murmurou: “Você parece estar com frio.”

Eu não soube o que fazer com aquilo.

Então fiz o que sempre fiz.

Não disse nada.

Olhando para trás, aqueles anos foram uma colcha de retalhos de calor e dor.

Elizabeth era a constante, meu lugar seguro, minha pessoa, aquela que me lembrava de que nem todo mundo me via como alguém a ser lamentado ou descartado.

Mas Alex era o fio que costurava tudo, não importava o quanto eu tentasse ignorar. Ele era o garoto que me desafiava, me humilhava e, às vezes, quando achava que ninguém estava olhando, fazia coisas pequenas e silenciosas que não combinavam com a versão dele que eu carregava na minha cabeça.

Eu dizia a mim mesma que aqueles momentos não importavam. Que não significavam nada.

Mas significavam.

Nota da autora

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