The Language of Betrayal
Maren Colt
As montanhas sangravam fogo esta noite.
O cheiro de pólvora ardia no fundo da minha garganta, misturando-se ao aroma de pinho úmido e ao gosto metálico de sangue. Atacamos o comboio dos Eksese pouco antes do anoitecer, quando a névoa pairava baixa e as elevações abafavam qualquer som. Era para ser uma operação de rotina, mas agora a floresta rugia com o fogo inimigo, e rastreadores verdes cortavam a vegetação como relâmpagos.
“Continuem se movendo!” A voz de Rhett cortou o caos, firme mesmo com metade da encosta explodindo ao nosso redor. Ele se agachou, seu rifle cuspindo calor, com o cabelo castanho-avermelhado colado na testa. Sempre o queridinho, liderando ataques como se tivesse nascido para isso. As marcas rasas em seu rosto não eram de idade, mas evidências do que esta guerra estava fazendo com os humanos.
Trent deslizou para o meu lado, ofegante, segurando firme seu chapéu de cowboy. “Colt, flanco esquerdo! Eles estão chegando rápido!”
Eu me levantei, saindo da cobertura, e girei para encarar meu alvo. Meu revólver disparou contra o sibilar do fogo alienígena. Um dos Eksese cambaleou, sua estrutura imensa desmoronando em meio a um jato de líquido verde doentio. Minha bala tinha encontrado a articulação sob sua placa peitoral de metal.
Um tiro, uma morte.
“Belo tiro”, murmurou Trent, com os olhos arregalados.
Eu não sorri; isso era guerra, e ninguém deveria gostar de matar. Isso era sobrevivência.
Engatilhei a arma novamente e me posicionei, vendo que o tiro só nos comprou um segundo. Eram muitos deles, sombras com cristas irregulares movendo-se através da fumaça. Já faziam três anos desde que as naves deles cobriram os céus, e eles ainda pareciam pesadelos feitos de carne e aço.
E eles nunca paravam de vir.
Rhett sinalizou bruscamente, e recuamos alguns metros sob seu comando. O plano tinha sido simples: atacar o comboio, pegar o que pudéssemos e desaparecer antes que os blindados chamassem reforços. Mas os planos falham rápido quando as botas do inimigo estão por toda parte.
Nós corremos. Por um tempo, foi quase limpo — trocas de tiros, corpos caindo e sangue encharcando o solo. Então, ouvi o grito atrás de mim: uma sequência de comandos guturais que eu não reconheci e, como uma armadilha sendo armada, um esquadrão desceu da linha das árvores para cortar nossa rota. Forcei mais, tropeçando em raízes, com os pulmões queimando, mas algo prendeu meu tornozelo — a voz de Rhett veio desta vez, não dando uma ordem, mas com urgência: “Droga, Colt! Se mexe!”
Eu fiz isso. Pulei e continuei correndo, revidando o fogo. Por um momento, pensei que conseguiríamos.
O rosto de Rhett no meio do caos disse o resto antes que ele pudesse falar. Alguns dos rapazes caíram, seus corpos deslizando pela encosta. Sua mandíbula estava travada como aço quando ele deu o sinal para o flanco, com a facilidade de um homem que podia fingir crueldade e levá-la a sério depois.
Todos se dispersaram — Trent e os outros homens — como havíamos combinado, como se fôssemos um rebanho de gado.
Só que o rebanho se dividiu.
Uma rajada atingiu o chão à minha esquerda. Girei, procurando pelo brilho da escopeta de Trent, pelo chapéu dele — qualquer coisa que me ajudasse a me localizar. Por um segundo, o mundo se resumiu a ruído e calor ardente. Meu tornozelo estava preso sob os escombros e eu não conseguia soltá-lo.
Quando a fumaça baixou, o caminho de volta estava bloqueado por rochas e pela linha escura de combatentes inimigos cortando nossa retirada. Uma mão agarrou meu ombro e puxou — com força — e eu vi Rhett, não me ajudando a fugir, mas arrancando minha mochila. Pensei que ele estava ajudando a carregar meu peso para que eu pudesse me recuperar… mas eu estava errada.
“Estou presa, ajuda—”
Os olhos dele passaram por mim como se eu já fosse um cadáver. “Vão!”, ele latiu, não para mim, mas para os outros. “Movimento! Agora!” Tentei segurá-lo, buscar apoio — qualquer coisa — e o cotovelo dele me empurrou. Sua boca se contorceu com um nojo evidente. Não foi confusão. Foi deliberado. “O pessoal precisa disso aqui. Você não. É assim que as coisas são.”
“Não—” Tentei dizer, com a garganta seca, mas uma rajada de fogo me jogou no chão.
Ele não me puxou com ele. Trent ajudou-o a subir na rocha; seu rosto brilhou na borda da minha visão, hesitando, mas ele também começou a correr.
Eles me deixaram.
A traição doeu mais do que qualquer bala. Eu queria cuspir, gritar, xingar todos eles — Rhett, Trent e cada homem que carregava aquele desprezo no rosto e chamava aquilo de trabalho em equipe. Eu queria arrastá-los de volta pelos colarinhos e fazê-los encarar o que tinham feito.
Em vez disso, tirei o pé da bota e tentei me arrastar para as árvores, mas uma rede — de fibras alienígenas viscosas — caiu sobre mim como uma cortina.
Mãos como ferro me jogaram no chão. Dedos afundaram na minha carne. A dor veio quando me bateram; senti o gosto de sangue e um medo frio e constante.
Os Eksese ao meu redor eram eficientes e silenciosos. Eles não zombavam. Eles não gritavam. Eles me cutucavam, inspecionavam e prendiam meus pulsos com uma faixa fria que cortava a pele. Cuspi em um deles, que sibilou com um som de pedra sendo triturada, antes de me dar um golpe nas costas da mão.
Um calor avermelhado escorreu pelo meu queixo. “É só isso que você tem? Com medo de bater em uma mulher, seu pedaço de merda de lagarto!” Outro golpe veio de outra direção, mas eu apenas ri. Eles não gostaram nem um pouco, revezando-se nos golpes até que...
Ele surgiu através da fumaça.
Mais alto que os outros, mesmo sem seu moicano preto, como o penacho de um legionário romano. Ele se movia como alguém nascido para comandar, e os outros soldados se alinhavam como se fossem puxados por cordas invisíveis. Só tínhamos visto ele — o Comandante — algumas vezes, mas ele sempre estava presente nas grandes batalhas. Ele era o portador da morte, um mau agouro se é que já existiu um.
Ele parou acima de mim, onde eu fora jogada na terra, e olhou para baixo. Seus olhos — brilhantes e predatórios como os de uma águia — me encaravam como se estivesse pesando um pedaço de carne. Eu deveria estar implorando. Deveria estar encolhida e silenciosa, mas o orgulho é um animal teimoso; ele manteve meu queixo erguido, com sangue e sujeira sujando meu rosto e um sorriso enquanto eu ria. Ele me observava com aquele desinteresse aguçado que me deixava tão furiosa que eu queria arrancar os olhos dele.
Ele inclinou a cabeça, e as saliências ósseas em suas maçãs do rosto captaram o luar. “Você tem espírito”, disse ele com aquele tom baixo e arrastado, o sotaque alienígena enrolando no inglês. A palavra não era uma misericórdia. Também não era uma condenação. Era uma moeda de troca. Ele olhou para os guerreiros ao seu redor, depois voltou para mim. “Levem-na”, ele ordenou.
Eles me levantaram como se eu não pesasse nada, com as mãos me empurrando para a frente. Enquanto me carregavam para além do desfiladeiro destruído, para além dos restos fumegantes pelo que tínhamos lutado, vi Rhett no topo da elevação, uma silhueta contra a luz do fogo. Ele não deu sinal nenhum. Ele apenas se virou.
Abandonada. Essa palavra queimou em mim mais do que qualquer algema que os Eksese tivessem colocado em meus pulsos. Fui deixada para morrer por pessoas ao lado de quem arrisquei minha vida. Essa seria uma dívida que eu cobraria com sangue, se eu voltasse um dia.