Prólogo
Arabella
Eu tinha três anos no dia em que tudo me foi roubado, mas a lembrança parece emprestada; como se pertencesse a outra pessoa, alguém mais velha, alguém que compreendia o perigo que eu era jovem demais para ver. Quando tento recordar, as imagens voltam tortas e quebradas, como cacos de um espelho estilhaçado. Algumas peças estão nebulosas demais para serem confiáveis. Outras, afiadas demais para serem esquecidas.
Ainda assim, a memória começa da mesma forma todas as vezes. Com calor.
A casa estava viva naquela manhã, preenchida pelo estalar suave da lareira e pelo cheiro doce de cobertura de baunilha. Meu bolo de aniversário de três anos estava sobre a mesa, torto e colorido, algo que minha irmã insistia, orgulhosa, que tinha decorado sozinha. Lembro-me das pequenas estrelas de açúcar pressionadas de forma irregular na cobertura. Eu as amava porque foi ela quem as fez.
Alayna pairava ao meu redor com sua habitual seriedade de seis anos, escovando meu cabelo com uma delicadeza excessiva para uma criança da sua idade.
“Você precisa ficar quieta”, disse ela, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. “Você tem três anos agora. Isso significa que você já é praticamente adulta.”
Eu não sabia como ser uma criança de três anos. Eu não sabia como ser adulta. Mas eu sabia como sorrir para ela. Eu sempre sorria para ela.
A voz da mamãe flutuava pela cozinha, cantarolando aquela canção de ninar secreta que ela nunca cantava fora de casa. Mais tarde, eu aprenderia que a melodia vinha de algum lugar muito mais antigo, muito mais sombrio; mas naquele dia, era apenas a voz da mamãe: quente, suave e segura.
Papai movia-se pelo cômodo com um propósito silencioso, arrumando os pratos, acendendo as velas, bagunçando meu cabelo com mãos que cheiravam a pinho e serragem. Ele tinha estado trabalhando em sua pequena oficina mais cedo. Eu sempre sabia, porque ele trazia a floresta e a terra consigo.
Parecia um dia perfeito. Um dia normal. Um dia que deveria ter terminado com risadas, bolo e dedos pegajosos.
Mas havia uma tensão no ar; sutil, como o fôlego que o mundo prende antes de uma tempestade. Eu não aprenderia a reconhecer aquela sensação até muito mais tarde. A maneira como a luz diminuiu rápido demais. A maneira como as sombras não caíam onde deveriam. A maneira como o cantarolar da mamãe falhou por um único segundo trêmulo.
Ninguém mais percebeu. Nem a criança que eu era. Nem a irmã que me amava. Nem o pai que pensava que poderia nos proteger.
A mamãe percebeu, mas não disse nada. Ainda não.
Lembro-me do momento em que tudo mudou. Não com barulho, mas silenciosamente; como uma expiração que lentamente se transforma em um grito.
As velas do meu bolo piscaram, apenas uma vez. Depois outra, com mais força. E então, de repente... elas se apagaram. Mas nenhum vento as havia tocado.
Lembro-me de franzir a testa, confusa. Lembro-me de Alayna congelar no meio de uma risada, com os olhos voltados para a janela. Lembro-me da mamãe ficar imóvel, completamente imóvel. Como um cervo sentindo o cheiro de um predador.
E então aconteceu. Um som que não pertencia a nenhuma casa ou a qualquer mundo.
Um rosnado baixo e estrondoso; profundo demais para ser humano, frio demais para ser animal. Ele arranhou as paredes, chacoalhou os pratos, deslizou sob a minha pele como gelo.
Meu pai praguejou baixinho. Minha mãe sussurrou meu nome: “Arabella…”
Então, mais alto, mais agudo, urgente: “Arabella, corra!”
Alayna agarrou minha mão com tanta força que doeu. Ela me puxou da cadeira, arrastando-me pelo chão de madeira enquanto o rosnado se transformava em um rugido; violento e capaz de abalar os ossos, o tipo de som que rasga o ar.
Meu bolo caiu, a mesa tremeu. As estrelas de açúcar se espalharam como pequenas promessas quebradas.
A porta da frente se abriu com um estrondo e o vento gritou pela casa. As sombras surgiram como coisas vivas.
Eu ainda não entendia o medo; não o medo real, não aquele que vivia nos olhos dos meus pais.
Mas eu entendia a mão da minha irmã tremendo junto à minha, eu entendia a voz da mamãe falhando, eu entendia o meu pai buscando por algo; algo que ele mantinha escondido no alto de uma prateleira. Eu entendia o perigo.
Alayna me puxou pelo corredor, tentando proteger meu corpo com o dela, embora ela fosse pequena, estivesse tremendo e aterrorizada. Lembro-me dela sussurrando.
“Está tudo bem, Bella. Não chore. Não chore.”
Mas eu não estava chorando, ainda não.
Um clarão de luz, afiado e ofuscante, explodiu atrás de nós. O rugido tornou-se mais alto, mais próximo, errado.
E então, o momento do qual nunca consigo escapar, nem mesmo nos sonhos. A mão de Alayna escorregou da minha; não gentilmente, não por acidente. Arrancada de mim.
Ela gritou meu nome enquanto algo — algo frio, algo sombrio — a arrastava para trás. Lembro-me de seus dedos arranhando o chão. Lembro-me do terror em sua voz. Lembro-me da escuridão impossível engolindo-a por completo.
A mamãe correu em direção a ela, mas uma segunda sombra a pegou; mais rápida, mais forte. O grito da minha mãe foi cortado no meio da respiração.
E o papai; sua voz rugiu atrás de mim. “Bella, não olhe!”
Mas eu olhei. Eu vi a escuridão levá-los, vi minha família ser devorada por uma noite que não deveria ter existido.
E então fui içada, apanhada por braços que tremiam de medo. Papai correu, saindo pela porta dos fundos, para o frio, longe das sombras. Enterrei meu rosto no ombro dele. Lembro-me do seu coração — selvagem, irregular, aterrorizado.
Quando chegamos à floresta, a casa atrás de nós ficou silenciosa. Completamente silenciosa. Como se o mundo tivesse parado.
Não me lembro do que aconteceu depois. Não de verdade, não claramente. Apenas frio, apenas escuridão, apenas vazio. O tipo que nunca vai embora.
Era meu terceiro aniversário. O dia que nunca vou recordar por completo; o dia que ninguém me deixará esquecer por completo.