1 | O Estranho
1 | O Estranho
Laine
O ar da noite grudava na minha pele como cera derretida — espesso, pesado, com cheiro de concreto úmido, gasolina e tabaco barato.
Eu o puxei para os pulmões, esperando que isso acalmasse o tremor nas minhas mãos.
Não adiantou.
Meus saltos estalavam contra o asfalto rachado, o som ecoando pelo beco vazio. Alto demais. Afiado demais. Como se alguém estivesse seguindo meus passos, apenas um segundo atrás de mim.
Ava deveria me encontrar aqui. Pela entrada dos fundos, ela havia escrito.
Então... nada.
Suas mensagens pararam. Minhas ligações não foram atendidas. O aplicativo de navegação travou, me mostrando como um ponto piscante dentro de um bloco cinza. Sem ruas. Sem pontos de referência.
Sem saída.
Eu parei.
Os prédios abandonados pairavam ao meu redor, suas janelas como bocas negras, vazias e observadoras.
Ninguém. Nenhum movimento.
Silencioso demais. Mesmo para uma parte esquecida da cidade como esta.
Eu soltei o ar, acelerei o passo, virei a esquina —
— e dei de cara com alguém.
O fôlego sumiu da minha garganta.
Ele estava parado, quase engolido pela sombra, como se ela lhe pertencesse. Alto. Ombros largos. Vestido de preto. Algo perigoso emanava dele — predador. O tipo de ameaça que você sente na pele antes que seu cérebro consiga assimilar.
Recuei cambaleando. Meu coração batia contra as costelas.
"Perdida, gata?" A voz dele era baixa, rústica.
Não era uma pergunta. Era uma afirmação.
Engoli em seco, forçando-me a dar mais um passo para trás.
"E-eu estou procurando uma amiga", disse calmamente, odiando o jeito que minha voz tremia.
Ele deu um passo à frente, entrando na luz fraca de um poste.
Maçãs do rosto marcadas. Olhos escuros. Sem qualquer calor. Um homem que não sorria, a menos que tivesse um propósito. Até agora, a curva de sua boca parecia uma lâmina.
"Uma amiga", ele repetiu lentamente, saboreando a palavra. "Lugar estranho para encontrar uma."
Um suor frio escorreu pela minha espinha. Tentei explicar — qualquer coisa —, mas as palavras se embolaram e morreram na minha garganta.
Ele se inclinou para mais perto.
Seu perfume me envolveu — madeira, couro, amargura. Intenso. Envolvente. Como uma armadilha se fechando.
Meus dedos tremiam. Pressionei as mãos contra o corpo, tentando esconder.
A mão dele tocou meu queixo, erguendo meu rosto.
Quase gentil.
Mas por baixo disso — controle. Poder real. Um poder perigoso.
"Nome", disse ele.
Uma ordem.
"L-Laine", sussurrei.
"Laine." Ele repetiu lentamente, memorizando. "Bom."
Um carro preto encostou atrás de nós sem fazer barulho. Metal polido engolindo os reflexos de neon. Uma porta se abriu.
O pânico me atingiu em cheio.
"Eu não vou entrar —" comecei.
Ele olhou para mim.
E eu parei.
Não havia escolha em seus olhos. Apenas inevitabilidade.
Caminhei em direção ao carro, como se guiada por uma mão invisível.
O interior cheirava a couro, madeira cara e gasolina. Espaçoso — mas parecia apertado, saturado com a autoridade de outra pessoa. Deslizei para o canto mais afastado, respirando curto, tentando me encolher.
Ele sentou ao meu lado.
O motorista usava um terno escuro. Ele não se virou. Não piscou. Como se fizesse parte da própria máquina.
"Remi", disse o homem ao meu lado, seco. "Para que você saiba quem está fazendo as perguntas."
O nome ficou guardado na minha memória.
Remi descansou o braço no encosto do banco, perto do meu rosto. Perto demais. Certo demais. Então, ele afastou uma mecha solta do meu cabelo — aquela atrás da qual eu estava me escondendo.
"Por que você estava lá, Laine?" Sua voz permanecia calma, cada palavra exercendo pressão. "Em um beco onde o dinheiro costuma trocar de mãos."
Pisquei.
Dinheiro? Do que ele estava falando?
"Eu estava procurando a Ava", disse, sem fôlego. "Ela parou de responder. Eu não sabia para onde ir. Eu só... me perdi."
Ele se inclinou, sua respiração queimando minha orelha.
"Uma amiga", murmurou. "Em um lugar onde as pessoas compram e vendem mercadorias. Interessante."
Meu peito apertou. Eu não entendia em que tinha me metido — mas sabia que aquilo não era por acaso.
"Eu não sabia de nada!" As palavras escaparam de mim. "Eu juro."
Ele me estudou. Por um longo tempo.
Seu olhar parecia me abrir, procurando por mentiras sob minha pele.
"Gata", sua voz suavizou de um jeito perigoso, "se você estiver mentindo para mim..."
Ele não terminou a frase.
"...você vai se arrepender."
Fechei os punhos.
"Não estou mentindo", disse, agora com a voz mais firme.
Um lampejo passou por seus olhos. Interesse real. Que sumiu tão rápido quanto veio.
Ele se recostou abruptamente e bateu a palma da mão no assento — um sinal.
"Vamos verificar."
O motorista acelerou.
O carro avançou com tudo. Luzes de boates e ruas passavam rápido pela janela — outro mundo. Um lugar onde as pessoas riam, dançavam, viviam.
E eu estava sendo levada para outro lugar.
Vi meu reflexo no vidro.
Olhos arregalados, apavorados. Lábios pálidos.
E entendi uma coisa com uma clareza aterrorizante.
Minha vida tinha acabado de sair do seu caminho habitual.
E não havia como voltar atrás.
Bem, você entraria no carro do Remi? 💫
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