Capítulo 1
O táxi custou cinquenta e duas libras. Eu observo os números subirem no taxímetro enquanto serpenteamos por estradas estreitas. Elas são cercadas por sebes tão perfeitas que poderiam ter sido aparadas com tesourinha de unha. Isso equivale a três turnos na lanchonete, ou quase isso. É o equivalente a uma semana de comida, se você souber fazer render. Essa é a diferença entre comer e não comer quando você sai do sistema de adoção sem nada.
E também já era. Já foi gasto. A bolsa cobre as mensalidades e a acomodação, mas chegar até aqui? Isso ficou por minha conta.
Tenho cinco libras na minha conta corrente e outras quarenta e duas em dinheiro. Quarenta e sete libras no total em meu nome. Isso até a mesada da bolsa cair daqui a duas semanas.
Já sobrevivi com menos.
As sebes dão lugar a muros de pedra. E então, lá está ele: o Blackthorne College.
— Puta merda — o taxista murmura. Ele não está errado.
Gótico não é bem a palavra. O prédio se ergue de jardins bem cuidados como algo sonhado por alguém com mais dinheiro do que juízo. É todo feito de pedra cinza, com arcos pontiagudos e janelas tão altas que você precisaria de uma escada para limpá-las. A hera sobe pelas paredes em padrões elegantes. Até as plantas aqui sabem o seu lugar.
Quatro prédios separados cercam um pátio central, cada um bem distinto. Eu os reconheço pelas fotos do site: Blackthorne House ao norte, Ashford House a leste, Thornfield a oeste e Ravenswood ao sul. As quatro famílias fundadoras têm seus nomes esculpidos na pedra acima de cada entrada. As letras têm mais de meio metro de altura.
O legado em sentido literal.
— Qual deles, querida?
— Blackthorne House. — O prédio principal. Atribuído à família fundadora mais antiga. É onde Kit Webb de Sunderland, estudante universitária de primeira geração, deve morar pelos próximos três anos. Ela tem 47 libras no nome e tudo o que possui cabe em uma mala surrada.
Eu consegui.
O pensamento me pega desprevenida. Eu realmente consegui. Saí do sistema de adoção, do quartinho que cheirava a mofo e decepção, saí de Sunderland por completo. Cheguei aqui, onde a poda da cerca viva provavelmente custa mais do que eu ganhei em um ano.
O motorista encosta na entrada principal. Alguns estudantes perambulam por ali. A maioria é mais velha, chegando cedo como eu. As roupas deles não gritam riqueza, elas sussurram. Suéteres de caxemira e jeans de grife que parecem desleixados de um jeito calculado. E sapatos que provavelmente custam o que eu pagava de aluguel por mês.
Conto o valor da corrida em notas e moedas. Adiciono uma gorjeta de duas libras porque minha mãe me educou bem, mesmo que não tenha me educado por muito tempo. O motorista olha para o dinheiro como se ele fosse mordê-lo.
— Tem certeza, querida?
— Está tudo aí.
— Eu quis dizer... tem certeza de que você deveria estar aqui?
Eu encaro os olhos dele. Olhos gentis, na verdade. Ele provavelmente acha que está me fazendo um favor. Apontando que cometi um erro antes que seja tarde demais.
— Bolsa de estudos integral — eu digo. — A Bolsa Ashford.
Algo pisca no rosto dele. Surpresa, talvez.
— Bem, então. Boa sorte para você.
Pego minha mala no porta-malas com tudo o que possuo lá dentro e vou em direção à entrada. Os degraus de pedra estão gastos no centro. São duzentos anos de pés caminhando pelo mesmo caminho. Caminhos de legado. Caminhos das famílias fundadoras.
Agora meus pés também andam por ele.
O hall de entrada me tira o fôlego.
Os tetos abobadados. Os painéis de madeira escura. Há até um lustre do tamanho do meu antigo quarto pendurado por correntes de ferro. Grandes retratos adornam as paredes, com homens e mulheres em trajes históricos olhando para baixo. As expressões deles variam de severas a vagamente decepcionadas. O chão tem quadrados de mármore preto e branco como um tabuleiro de xadrez. Tenho o pensamento louco e repentino de que sou um peão sendo colocado em posição.
Uma mulher na casa dos cinquenta anos se aproxima com uma prancheta na mão. O sorriso dela é profissional, mas caloroso. — Bem-vinda a Blackthorne. Nome?
— Katherine Webb. Eu sou...
— A ganhadora da Bolsa Ashford, sim. — O sorriso dela se ilumina. — Parabéns, Katherine. Essa é uma bolsa extremamente disputada. Você deve ser muito talentosa.
Devo ser desesperada, isso sim. Mas aceito ser chamada de talentosa.
— Obrigada.
Ela consulta a prancheta. — Você está na Blackthorne House, terceiro andar. Quarto 3C. Alguém vai lhe mostrar o caminho em breve. Por enquanto, gostaria de se juntar aos outros na sala comunal? — Ela aponta para uma porta à esquerda. — Vamos reunir todos os alunos do primeiro ano para uma orientação às quatro horas. Mas tem chá e biscoitos enquanto você espera.
A sala comunal é enorme, com tetos altos e janelas grandes que dão para os jardins. Os móveis parecem antigos, mas de alguma forma ainda são confortáveis. Cerca de uma dúzia de estudantes já está aqui, espalhados em pequenos grupos. Eu saco a dinâmica social na hora. Vejo quem está à vontade e quem está nervoso. Vejo quem finge estar à vontade enquanto, na verdade, está nervoso.
A maioria deles parece à vontade.
Vou para a mesa do chá porque estou realmente com sede. E também porque isso me dá algo para fazer com as mãos. Os biscoitos são de verdade, do tipo caro. Leibniz de chocolate. Eu como três e não sinto vergonha nenhuma disso.
— Bolsista?
Eu me viro. Um rapaz alto, de talvez dezenove anos, tem um sorriso fácil e roupas que sussurram dinheiro antigo. Cabelos escuros e olhos castanhos calorosos. Ele tem o tipo de rosto que provavelmente o livrava de problemas na escola.
— É tão óbvio assim? — Eu franzo a testa. Não que eu já não achasse isso. Você não pode fingir riqueza de gerações.
— Você é a única que está realmente comendo os biscoitos. — O sorriso dele se alarga. — Marcus Ravenswood. Segundo ano.
Ravenswood. Uma das famílias fundadoras. É claro que ele é.
— Kit Webb.
— A Bolsa Ashford, que genial. Parabéns. — Ele diz como se estivesse sendo sincero, não como o motorista de táxi. — O que está achando até agora?
— Grande — digo com honestidade. — E parece caro.
Ele ri. — Avaliação justa. Fica menos intimidante quando você aprende onde tudo fica. Falando nisso, você é da engenharia ou dos negócios?
— Engenharia. Sistemas de energia sustentável.
— Excelente escolha. A Professora Whitmore é brilhante, você vai adorá-la. — Ele faz uma pausa e olha para a porta. — Aviso de amigo: a orientação inclui um jantar hoje à noite. Formal. Então, se você tiver algo adequado nessa mala...
Eu tenho uma roupa decente. Calças pretas da Primark e uma blusa branca de brechó. Eu a passei com cuidado antes de fazer as malas. Vai servir.
— Obrigada pelo aviso.
— De nada. Ah, e Kit? — Ele hesita. — Existem as regras oficiais e existe como as coisas realmente funcionam aqui. Não é bem a mesma coisa.
Antes que eu possa perguntar o que ele quer dizer, uma garota de cabelos loiros aparece ao seu lado. Ela tem uma voz que poderia cortar vidro.
— Marcus, querido, pare de monopolizar a bolsista. Todos nós queremos conhecê-la.
Ela é linda daquele jeito natural que vem com dinheiro e genética. E provavelmente uma rotina de cuidados com a pele que custa mais do que meu orçamento semanal de comida. O sorriso dela não chega aos olhos.
— Georgiana Thornfield — ela diz, estendendo a mão como se estivesse me fazendo um favor. — É um prazer conhecê-la. A Bolsa Ashford, que generoso da parte deles. Você deve estar muito grata.
Lá vem.
— Muito grata — eu digo, imitando o sorriso dela. — Prazer em conhecê-la.
— De onde você disse que era?
— Sunderland.
— Ah. — A expressão dela muda para algo entre pena e satisfação. — Que... nortista. Bem, tenho certeza de que você vai se enturmar no final. Se precisar de ajuda para lidar com as coisas, roupas certas ou a maneira adequada de fazer tudo. Me avise. Sempre fico feliz em ajudar os menos favorecidos.
Marcus aperta o maxilar. — Georgiana.
— O quê? Estou sendo gentil. — Ela se vira para mim, com suas garras afiadas enroladas em caxemira. — Vejo você no jantar, Katherine.
Ela se afasta, deixando um rastro de perfume caro. Percebo que nunca falei o meu nome para ela. Pelo visto, a máquina de fofocas já está funcionando há algum tempo.
— Não ligue para ela — Marcus diz baixinho. — Ela é assim com todo mundo.
— Não, ela não é. — Eu encaro seus olhos. — Ela é assim com bolsistas do norte que não pertencem a este lugar. Eu entendo. Está tudo bem.
— Não está tudo bem.
— É suportável. — Termino meu chá. — Obrigada pelo aviso, Marcus.
Passo a próxima hora desfazendo as malas no meu quarto. É pequeno, mas limpo, com uma cama de solteiro, escrivaninha, guarda-roupa e uma janela com vista para o pátio. É maior que o meu quartinho antigo. Mais silencioso também. Guardo minhas roupas e ligo meu notebook novo e chique fornecido pela bolsa de estudos na mesa. Coloco a foto da minha mãe na mesa de cabeceira.
Emma Webb, aos vinte e três anos, sorrindo para a câmera comigo no colo. Eu devia ter uns quatro anos antes que as coisas ficassem ruins. Antes das drogas, antes da overdose.
— Consegui, mãe — sussurro para a foto. — Universidade de verdade e tudo o mais.
Ela não responde. Ela nunca responde.
Às quatro horas, a orientação começa. O Reitor, Dr. Sebastian Aldridge, faz um discurso sobre excelência e legado, além do privilégio de estudar no Blackthorne. Os olhos dele passam por mim quando ele menciona o "generoso programa de bolsas de estudo que permite que alunos talentosos de todas as origens se juntem à nossa comunidade."
Então ele menciona o 'programa de mentoria exclusivo' que junta alunos do primeiro ano com alunos do segundo ano de famílias fundadoras. 'Uma oportunidade inestimável de networking', ele chama. 'Uma chance de aprender o jeito Blackthorne diretamente com aqueles que representam nossas tradições.'
Algo na maneira como ele diz isso faz minha pele arrepiar. Mas eu provavelmente estou apenas paranoica.
Às seis horas, somos levados para o refeitório para o jantar formal de boas-vindas.
O salão é algo de filme. Longas mesas de madeira se estendem por todo o comprimento da sala. Os tetos são altos e têm vigas expostas. Há mais retratos de figuras históricas de aparência severa. Uma mesa alta fica em um estrado no fundo, onde os professores se sentam.
Encontro um lugar perto do meio e observo enquanto a sala se enche. Há estudantes em trajes formais e o falatório ecoa nas paredes de pedra. Sou absurdamente grata pelas minhas calças da Primark e pela blusa de brechó. Mesmo que sejam as coisas mais baratas do lugar.
Então eu o vejo.
Ele está no fundo, conversando com um professor. Eu o noto do jeito que você nota um alarme de incêndio: imediato, visceral e impossível de ignorar.
Alto. Cabelo escuro que cai levemente sobre os olhos, como se ele não se importasse em cortá-lo direito. Traços fortes, do tipo que sairiam bem em fotos. Roupas caras usadas com desleixo. Ele é lindo de um jeito perigoso, como algo selvagem que aprendeu a usar terno.
Então ele levanta o olhar, e eu vejo seus olhos. Azul-acinzentados, frios como a água do Mar do Norte. O tipo de olhos que avaliam seu valor e acham que você não é o suficiente. O tipo de olhos que veem tudo e não se importam com nada.
Ele está entediado. Completamente e totalmente entediado. Olhando para a sala como se já tivesse visto tudo isso antes e não tivesse gostado. O olhar dele passa pelos alunos de forma desdenhosa, até pousar em mim.
Algo muda em sua expressão. Não é calor, nada desse tipo. Interesse, talvez. Avaliação. Ele percebe que eu o vejo, e um canto de sua boca se ergue de leve. Depois ele desvia o olhar, já entediado de novo.
Meu coração está batendo forte e rápido, e eu não sei o porquê. Lutar ou fugir, provavelmente. Aquele olhar foi como ser encurralada por um predador que está decidindo se você vale a pena a caçada.
— Aquele é Raphael Ashford — alguém sussurra ao meu lado. É uma garota de pele escura e olhos bondosos que havia se apresentado mais cedo como Amara. — Segundo ano do mestrado. A família dele é dona de metade de Londres, basicamente. Sabe, os banqueiros Ashford?
Eu não sei, mas aceno com a cabeça mesmo assim.
— Um puta babaca, pelo visto — Amara continua. — Mas lindo e rico o suficiente para se safar disso.
Eu o observo tomar seu lugar na mesa alta. Claro que ele está na mesa alta. E algo frio se instala no meu peito. Não é medo, exatamente. É mais como reconhecimento.
Eu sei como é o perigo. Cresci com ele, em formas diferentes. E Raphael Ashford, lindo e entediado, olhando para o mundo como se este lhe devesse algo, é perigoso.
O Reitor se levanta para fazer outro discurso. Eu deveria ouvir, mas ainda estou pensando naqueles olhos azul-acinzentados. Naquele olhar avaliador.
— E agora — diz o Reitor —, umas boas-vindas especiais à nossa bolsista, que se junta a nós através da generosidade de nossas famílias fundadoras. A vencedora da Bolsa Ashford deste ano, Katherine Webb, traz credenciais acadêmicas excepcionais de... — ele faz uma pausa muito leve — Sunderland Academy.
Alguns risinhos pela sala. A Sunderland Academy é uma escola pública financiada pelo Estado. Fica em uma das áreas mais pobres do Nordeste.
Mantenho meu rosto neutro. Fodam-se eles.
— Katherine se junta a nós para estudar engenharia, e estamos encantados em tê-la.
Aplausos educados. Alguns olhares curiosos. O sorriso de Georgiana do outro lado da mesa é cheio de dentes.
Da mesa alta, Raphael Ashford me observa com aqueles olhos frios. Ele ainda está entediado e me avaliando. Eu encaro seu olhar. Não desvio o olhar. Depois de um momento, ele desvia com um pequeno sorriso insuportável. Ele pega a taça de vinho e bebe. Depois, desvia o olhar como se eu não valesse seu tempo ou atenção.
Bom. Está ótimo. Perfeito, na verdade.
Não estou aqui por causa dele, da Georgiana ou de mais ninguém. Estou aqui pelo diploma e pelas perspectivas de emprego. Pela vida que a educação pode comprar. Três anos e estarei livre. Três anos mantendo a cabeça baixa e trabalhando duro. E provando que eu pertenço a este lugar, mesmo que eles achem que não.
Três anos. Posso sobreviver a qualquer coisa por três anos.
O jantar se arrasta, prato após prato, com discursos e brindes em abundância. Eu sorrio educadamente e respondo a perguntas sobre meu passado de forma vagamente cuidadosa. Eu me esquivo e mudo de assunto como aprendi nos lares adotivos. Ninguém se importa de verdade, afinal. Sou a bolsista do Norte, a caixinha de verificação de diversidade. Sou a história comovente sobre mobilidade e oportunidade.
Às dez horas, estou exausta. Não tanto pelo dia, mas pela atuação constante. Pela mudança de comportamento e a navegação cuidadosa em águas sociais que eu mal entendo. Saio de fininho enquanto as pessoas ainda estão bebendo e rindo. Depois, volto para o meu quarto na Blackthorne House.
Meu notebook está na escrivaninha. Eu deveria desfazer as últimas coisas, pendurar minha jaqueta e me preparar para a programação de amanhã. Em vez disso, sento na cama e fico olhando para a foto da minha mãe.
— Estou aqui — eu digo a ela. Digo a mim mesma, na verdade. — Primeiro dia concluído. Cheguei até aqui.
Três anos parecem um tempo incrivelmente longo e, quem sabe, talvez suportável.
Coloco o pijama e escovo os dentes no banheiro compartilhado no corredor. Quando eu volto. A papelada da bolsa ainda está na minha mesa. São duzentas páginas de termos e condições que eu assinei sem ler direito. Porque quem lê contratos de bolsa de estudos direito quando se está desesperada e grata? Quando você não consegue acreditar na própria sorte?
Eu deveria ler agora. Eu deveria revisar tudo com cuidado e entender com o que concordei.
Amanhã, digo a mim mesma. Amanhã lerei direito.
Esta noite eu só estou cansada.
Apago a luz e deito no escuro. Fico ouvindo os passos no corredor e risadas distantes. Ouço os sons de estudantes ricos se acomodando em suas vidas ricas na sua faculdade rica.
E eu penso nos olhos frios azul-acinzentados me olhando como se eu pudesse ser interessante.
Como se valesse a pena reparar em mim.