Capítulo 1 - A Troca
O gráfico de distribuição de notas brilhava na tela de projeção como um ataque pessoal.
Evelyn Parker encarou a segunda barra mais alta — a dela — e sentiu o estômago revirar. Ela tirou 97. Uma nota excelente para qualquer padrão razoável. Mas a única barra que subia um pouco mais, aquele pequeno e convencido 99 no topo da curva, pertencia a Nathan Cole.
É claro que pertencia.
O professor Hendricks continuava falando sobre o nível de dificuldade da prova, dizendo o quanto estava impressionado com o desempenho geral da turma, mas Evelyn mal o ouvia. Seus dedos apertavam a caneta com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. Ela tinha plena e dolorosa consciência de que Nathan estava três fileiras à frente e dois assentos para o lado, com a cabeça escura debruçada sobre as anotações, como se não tivesse acabado de roubar seu primeiro lugar pela terceira vez neste semestre.
Terceira vez.
Ela tinha mantido o primeiro lugar em Biologia Molecular durante todo o primeiro ano. Ela tinha conquistado isso — noites em claro na biblioteca, plantões de dúvidas toda semana, grupos de estudo que ela mesma organizava. Então, Nathan Cole foi transferido no início do segundo ano e, de repente, Evelyn estava lutando por migalhas.
A pior parte? Ele fazia tudo parecer fácil. Sem esforço visível, sem estresse, apenas um brilho natural em um corpo de quase dois metros e um rosto que deixava metade do campus aos seus pés. Mesmo agora, enquanto o professor Hendricks os dispensava, Nathan reunia suas coisas com uma precisão calma, cada movimento controlado e deliberado.
Evelyn jogou seu laptop na mochila com muito menos elegância.
“Dia difícil?”
Ela olhou para cima e viu sua melhor amiga, Riley, sentando-se ao seu lado com as sobrancelhas arqueadas de um jeito sugestivo.
“Tirei 97”, disse Evelyn, sem ânimo.
“Ah, não. Um 97. Será que você vai sobreviver?”
“Riley…”
“Deixa eu adivinhar. O Garoto de Ouro tirou 99?” Riley esticou o pescoço para ver Nathan saindo do anfiteatro, seguido por sua órbita habitual de admiradores. “Sinceramente, não sei por que você está preocupada. Você ainda vai entrar em qualquer pós-graduação que quiser. Seu histórico escolar é absurdo.”
“Não é sobre a pós-graduação.” Evelyn levantou-se, jogando a mochila no ombro. “É sobre… eu não sei. É uma questão de princípio.”
“O princípio de alguém ser um pouco melhor que você em química orgânica?”
“Biologia molecular. E ele não é melhor, ele só é…” Ela parou, frustrada consigo mesma por estar discutindo isso. “Esquece.”
Riley passou o braço pelo dela enquanto caminhavam para a saída. “Sabe do que você precisa? De uma noite fora. Vai ter uma festa na Sigma Chi…”
“Nem pensar.”
“— com bar aberto e vários caras gatinhos que adorariam te ajudar a esquecer seu nêmesis acadêmico.”
“Tenho um relatório de laboratório para entregar na segunda-feira.”
“É quinta-feira, Evelyn. Você tem quatro dias.” Riley apertou o braço dela. “Vamos lá. Viva um pouco. Nathan Cole não vai explodir só porque você foi a uma festa.”
Evelyn abriu a boca para argumentar, mas viu Nathan atravessando o pátio. Ele tinha parado para falar com alguém — uma garota loira da aula deles, que tocava no braço dele e ria de algo que ele disse. Ele sorriu de volta, de forma educada, porém distante, a mesma expressão neutra que ele usava em todas as interações sociais que Evelyn já tinha presenciado.
Meu Deus, até o sorriso dele era perfeito.
“Tudo bem”, ela ouviu a si mesma dizer. “Uma hora. Mas vou embora no segundo em que ficar estranho.”
O rosto de Riley se iluminou. “Isso! Ok, venha para cá às oito e nós vamos…”
“Na verdade, podemos deixar para amanhã? Eu realmente preciso trabalhar nesse relatório de laboratório e quero adiantar algumas leituras na biblioteca hoje à noite.”
Riley suspirou de forma dramática. “Você é impossível. Mas tudo bem. Amanhã. E você não tem permissão para furar.”
“Eu não vou furar”, prometeu Evelyn, já planejando mentalmente sua noite: biblioteca até as nove e, depois, voltar para o apartamento para mais duas horas de trabalho antes de dormir.
Ela era a própria definição de disciplina.
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A biblioteca de ciências estava quase vazia às oito e meia, exatamente como Evelyn gostava. Ela tinha escolhido seu lugar de sempre no terceiro andar — mesa de canto, boa iluminação, silêncio perfeito. Seu relatório de laboratório estava ganhando forma e ela já tinha terminado a leitura para o seminário da semana que vem.
Ela estava pegando seu café quando o notou.
Nathan Cole. Duas mesas à frente, perfeitamente posicionado em sua visão periférica como uma espécie de assombração acadêmica.
É claro. Porque, aparentemente, o universo decidiu que ela não podia ter sequer uma noite sem ser lembrada do seu segundo lugar.
Ele estava com o laptop aberto e fones de ouvido com cancelamento de ruído, completamente absorto no que quer que estivesse fazendo. Seu perfil era irritantemente perfeito — maxilar forte, cabelo escuro que parecia arrumado sem esforço, apesar de provavelmente não ter tido trabalho nenhum, aquele tipo de intensidade focada que fazia as pessoas pararem e olharem.
Evelyn forçou-se a desviar o olhar. Ela não ia passar a noite obcecada por Nathan Cole. Ela tinha trabalho a fazer.
Uma hora depois, seus olhos começaram a lacrimejar. Ela estava encarando o mesmo parágrafo há dez minutos e seu café tinha esfriado. Hora de parar.
Evelyn levantou-se, alongando os ombros rígidos, e começou a juntar suas coisas. Ela estava colocando o laptop na mochila quando sentiu um movimento por perto.
Nathan também estava guardando as coisas, apenas duas mesas à frente. É claro que estava. Porque, aparentemente, eles tinham o mesmo cronograma até na hora de ir embora.
Ela manteve a cabeça baixa, determinada a não fazer contato visual, enquanto enfiava seus cadernos na mochila. Colocou o celular no bolso da jaqueta. Com o copo de café na mão, ela se virou para as lixeiras —
E deu de cara com Nathan Cole.
O impacto a fez tropeçar para trás. O copo de café voou de sua mão, a mochila escorregou do ombro e o celular caiu no chão. A mochila de Nathan também atingiu o chão; seu laptop e cadernos se espalharam, e seu celular deslizou pelo piso, parando bem ao lado do dela.
“Merda”, Evelyn sussurrou, caindo de joelhos. “Sinto muito, eu não vi…”
“Tudo bem.” Nathan já estava agachado, pegando suas coisas com movimentos rápidos e eficientes.
Eles esticaram a mão para pegar os celulares ao mesmo tempo. Evelyn pegou o que estava mais perto — capa preta, elegante — e o enfiou no bolso sem olhar. Seu rosto estava ardendo. É claro. É claro que ela tinha que literalmente trombar com Nathan Cole.
“Desculpe”, ela murmurou novamente, colocando os cadernos de volta na mochila.
Nathan não disse nada, já de pé, com a mochila guardada. Ele deu um aceno breve — quase imperceptível — e saiu em direção às escadas.
Evelyn sentou-se sobre os calcanhares, a humilhação tomando conta dela. Perfeito. Simplesmente perfeito.
Ela pegou o copo de café de onde ele tinha rolado, jogou na lixeira de reciclagem e foi para a saída.
Só quando estava lá fora, no ar frio da noite, ela tirou o celular do bolso para ver as horas.
Capa preta. Minimalista. Elegante.
Sem ouro rosa. Sem porta-cartão da biblioteca.
Seu coração parou.
“Ah, não”, ela sussurrou.
Ela girou, olhando de volta para a entrada da biblioteca, mas Nathan já tinha ido embora. Provavelmente já estava do outro lado do pátio a essa altura.
Ótimo. Isso é ótimo. Ela precisava do celular — seu alarme estava definido para uma sessão de estudos de manhã cedo, todas as suas anotações estavam sincronizadas lá e Deus sabe mais o quê. Ela apertou o botão de ligar, esperando talvez poder ligar para ele, alcançá-lo antes que fosse longe demais —
O celular em sua mão vibrou.
Depois vibrou de novo.
E de novo.
Evelyn encarou a tela enquanto as notificações chegavam, uma atrás da outra, todas do mesmo aplicativo. Um ícone preto simples com um botão de "play" branco que ela não reconheceu.
VidFlare: @ShadowKnight postou um novo vídeo
VidFlare: *u/MidnightSiren comentou: “tão gostoso 🔥🔥”
VidFlare: u/DesireDemon comentou: “solta mais um”
VidFlare: u/LateNightViewer comentou: “como você é real?”
VidFlare: Seu vídeo ‘Midnight Thoughts’ atingiu 15 mil visualizações
O fôlego dela falhou.
VidFlare. Ela já tinha ouvido falar — sussurros, menções em artigos sobre criação de conteúdo e plataformas online. Era um daqueles serviços de assinatura. O tipo onde as pessoas postavam… conteúdo adulto.
Isso tinha que ser um erro. A conta de outra pessoa conectada ao celular de Nathan, talvez. Um amigo pegando o aparelho dele emprestado. Qualquer coisa, menos —
Outra notificação apareceu.
VidFlare: Seus ganhos esta semana: $3.847*
As mãos de Evelyn tremiam.
Ela não deveria olhar. Ela absolutamente não deveria olhar. A coisa certa a fazer era desligar o celular, encontrar Nathan imediatamente, devolvê-lo com um pedido de desculpas e fingir que não tinha visto nada.
Mas seu polegar já estava se movendo.
Deslizando para cima. Abrindo o aplicativo.
O perfil carregou: @ShadowKnight. Sem rosto. Apenas uma silhueta escura onde a foto de perfil deveria estar. Mas os números eram inconfundíveis: 52,8 mil seguidores. Centenas de vídeos. Comentários na casa dos milhares.
O vídeo mais recente tinha sido postado há duas horas.
A imagem de visualização mostrava um tronco — magro, definido, filmado do pescoço para baixo em uma sombra artística. O título dizia: “Tarde da noite. Quem está acordado?”
O coração de Evelyn batia tão forte que ela podia ouvi-lo em seus ouvidos.
Ela clicou.
O vídeo carregou. Sem rosto, cuidadosamente enquadrado das clavículas para baixo. Lençóis caros — cinza-escuro, tecido de alta qualidade. Iluminação baixa que lançava tudo em uma sombra íntima. E então uma mão — dedos longos, movimentos controlados — deslizando por um abdômen definido, mais para baixo, envolvendo seu pau.
O fôlego de Evelyn sumiu.
O vídeo continuou. Sua mão se movia em ritmos lentos e deliberados, para cima e para baixo, um ritmo calmo e confiante. O som estava ligado — ela podia ouvir agora, respirações suaves que se tornavam mais pesadas, um gemido baixo que enviou um calor por todo o seu corpo.
Aquele era Nathan. Aquele era Nathan Cole. Se tocando. Filmando isso. Postando para milhares de estranhos assistirem.
O ritmo dele aumentou, sua respiração mais irregular agora, e Evelyn não conseguia desviar o olhar. O abdômen dele se tensionava a cada movimento, os quadris se movendo levemente contra aqueles lençóis caros, e então um gemido suave — baixo, mas inequivocamente o dele —
Ela saiu do vídeo com as mãos trêmulas e rolou para baixo no perfil dele.
Mais vídeos. Tantos vídeos. Dezenas de miniaturas, cada uma mais explícita que a anterior. Títulos que faziam seu rosto arder: “Preciso disso.” “Não consigo dormir.” “Pensando em você.” Cada um com milhares de visualizações. Milhares de comentários. Pessoas implorando por mais, chamando-o de perfeito, dizendo coisas que faziam o estômago de Evelyn revirar.
Uma porta abriu em algum lugar no primeiro andar.
A cabeça de Evelyn deu um solavanco, o coração martelando.
Passos. Ecoando na escadaria. Ficando mais perto.
Ela continuou rolando, incapaz de parar, com os olhos arregalados. Um vídeo tinha 30 mil visualizações. Outro tinha mais de 500 comentários. Ele fazia isso há meses. Talvez há mais tempo.
Os passos chegaram ao patamar do segundo andar.
Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou o celular. Ela rolou mais rápido — mais vídeos, mais provas de que Nathan Cole tinha uma vida secreta inteira que ninguém conhecia. Que ela não deveria saber.
Os passos chegaram ao terceiro andar.
“A biblioteca fecha em cinco minutos!”, a voz do zelador chamou.
Evelyn bloqueou o celular tão rápido que quase o deixou cair, seu rosto ardendo, seu corpo inteiro tomado por algo entre o horror e a excitação que ela absolutamente se recusava a nomear.
Ela enfiou o celular no fundo do bolso e olhou para cima exatamente quando o zelador apareceu no topo da escada, seu carrinho de limpeza fazendo barulho ao lado dele.
“Guardando as coisas?”, ele perguntou de forma gentil.
“Sim — é, já estou indo.” A voz dela saiu estrangulada.
Ela pegou a mochila com as mãos trêmulas e caminhou para as escadas com pernas instáveis, mal conseguindo um aceno ao passar por ele.
Lá fora, o ar noturno atingiu sua pele quente como um choque. Ela caminhou rápido pelo pátio, sua mente girando, o celular de Nathan sendo um peso ardente em seu bolso.
Nathan Cole — o frio, intocável e perfeito Nathan Cole — tinha uma conta secreta onde milhares de pessoas pagavam para vê-lo se masturbar. Onde ele se exibia. Onde ele gemia e gozava para estranhos, mantendo-se completamente anônimo.
Onde ele tinha postado centenas de vídeos.
Onde ele ganhava quase quatro mil dólares por semana fazendo isso.
Em algum lugar do campus, Nathan Cole estava com o celular dela.
E amanhã, ela teria que encará-lo.
Amanhã, ela teria que olhar nos olhos dele e fingir que não tinha acabado de vê-lo perder o controle na câmera. Fingir que não tinha visto meses da vida secreta dele.
As mãos de Evelyn ainda tremiam quando ela chegou ao seu apartamento.
Nada nunca mais seria o mesmo.