Adult Day
Emma
Fazer dezoito anos em Eidolon deveria ser como ganhar uma coroa.
É isso que o feed diz. É isso que os banners dizem. É isso que a voz suave da estação repete por todos os corredores, como uma canção de ninar feita para manter todo mundo dócil.
As luzes da minha unidade mudam para tons cerimoniais às 06:00, sem que eu precise tocar em nada. Os painéis do teto brilham em um dourado quente que deixa minha pele mais lisa no espelho. A janela falsa troca o campo de estrelas por uma paleta de nascer do sol que não existe fora da estação. Rosa, pêssego e branco suave, como se um planeta que eu nunca toquei estivesse tentando me seduzir.
As saídas de ar liberam um aroma sincronizado com a mudança da luz. Cítrico e baunilha. Fresco e doce. Como uma padaria que nunca queimou nada. Como um lar que nunca ouviu gritos.
É lindo.
Esse é o problema.
A beleza é como eles vestem o controle.
Sento-me na beira da cama e encaro minhas mãos. Elas parecem as mesmas. Minhas unhas estão curtas e limpas. Meus dedos estão firmes. Eu deveria me sentir mais velha hoje. Diferente. Como se uma chave tivesse sido virada.
Em vez disso, sinto como se estivesse esperando por uma agulha.
Meu tablet acende com uma notificação alegre que tenta transformar meu estômago em empolgação.
FELIZ ADULT DAY, EMMA COLLINS!
CRONOGRAMA DE HOJE: ORIENTAÇÃO DO IMPLANTE, SERVIÇOS DE PAREAMENTO, SALÃO CÍVICO
LEMBRETE: HIDRATE-SE E DESCANSE. SEU FUTURO COMEÇA AGORA.
Meu futuro começa agora.
A frase está em todos os lugares hoje. Nas telas públicas do corredor. Nos banners dos patrocinadores. Nas embalagens de presente que as pessoas carregam como se estivessem levando oferendas a um templo.
Meu futuro começa agora.
Não gosto de como isso soa.
Levanto-me e vou até o espelho porque preciso de provas de que ainda sou eu. O espelho reconhece meu rosto e pisca uma pequena saudação no canto.
OLÁ, EMMA. VOCÊ ESTÁ RADIANTE.
Eu não estou radiante. Estou com cara de quem dormiu mal a semana toda e está tentando fingir que a náusea é empolgação. Meus olhos estão alertas demais. Minha boca está tensa demais. Levanto uma mão e toco a pele atrás da orelha, onde o implante vai ficar.
Está liso agora. Normal. Intocado.
Pressiono um pouco mais forte do que o necessário, como se a pressão pudesse me fazer ter coragem.
Não faça disso algo maior do que é, digo a mim mesma. Todo mundo faz. Todo mundo sobrevive. Todo mundo segue a vida.
A verdade é que eu não sei se todo mundo sobrevive.
A propaganda da estação diz que ninguém morre por causa dos implantes. Diz que é seguro. Diz que o procedimento é indolor. Diz que o implante é um presente, um guia, uma celebração da independência adulta.
A estação não diz o que acontece com as pessoas que recusam.
A estação não fala sobre aqueles que desaparecem do feed.
Desvio o olhar do espelho antes que eu comece a entrar em parafuso. Visto-me com as roupas neutras e adequadas para câmeras que o Salão Cívico prefere. Uma blusa creme simples. Calças cinzas. Cabelo puxado para trás para que a área atrás da minha orelha fique visível. Não é obrigatório, mas já vi como a equipe olha para quem aparece desleixado. É como se você já estivesse provando que não consegue seguir as regras.
Como metade de uma barra nutritiva e não sinto nada além de giz e açúcar. Meu estômago se revira mesmo assim. Bebo água até minha garganta doer.
Às 07:00, minha porta emite um sinal sonoro.
Eu não pulo. De verdade. Mas meu corpo tenta.
A voz do interfone é brilhante, com um tom humano e animada demais.
"Cidadã Collins, bom dia. Você tem uma visita. Juno Hale. Devo conceder acesso?"
Juno.
Meu peito relaxa um pouco, depois aperta de novo. Alívio e pavor entrelaçados.
"Sim", digo. Minha voz soa normal. Pratico ser normal como se fosse uma habilidade.
A porta desliza abrindo-se.
Juno entra como um nascer do sol. Não porque ela está calma. Mas porque ela está determinada a parecer calma. Ela está vestindo azul claro, um vestido que parece pertencer a uma cerimônia. Seu cabelo está cacheado e preso para trás. Seus lábios estão brilhantes. Seu sorriso é radiante o suficiente para cegar qualquer um que não a conheça bem.
Eu a conheço bem.
Suas mãos estão tremendo.
"Feliz Adult Day", diz ela, ofegante, como se tivesse corrido até aqui. "Você está incrível."
"Estou com cara de quem vai vomitar", digo.
Juno ri alto demais, depois para. "Não, não está. Você está... você está parecendo você. Isso é bom."
Seus olhos passam pela minha orelha e depois desviam. Ela engole em seco.
"Você está bem?", pergunto.
"Estou ótima", ela mente na hora, depois acrescenta: "Estou apenas empolgada."
Empolgada. Essa é a palavra que devemos usar.
Empolgada é mais seguro do que apavorada.
Juno cruza o espaço e segura minhas mãos. Suas palmas estão frias. Seu aperto é firme demais.
"Nós vamos ficar bem", diz ela. "É uma celebração. Todo mundo diz que é uma celebração."
"Todo mundo diz muitas coisas", murmuro.
Ela aperta com mais força. "Não faça isso."
"Não faça o quê?"
"Não faça parecer que..." Ela para de falar, com os olhos correndo pelos cantos da minha unidade como se esperasse que as câmeras piscassem para ela. "Só não faça."
Essa é a primeira vez hoje que algo dentro de mim se acalma com clareza.
Juno está com medo de ser ouvida na minha própria casa.
Mantenho meu rosto sereno. Mantenho meu tom leve. "Ok", digo. "Nada de comentários sombrios. Apenas alegria."
Juno sorri com alívio, como se eu a tivesse salvado de algo. Ela solta minhas mãos e dá uma volta, depois para na janela falsa.
"Olha", diz ela, apontando. "Eles fizeram o nascer do sol ficar extra bonito."
"Tenho certeza de que o nascer do sol está emocionado", respondo.
Juno se vira, me dando um olhar que é metade aviso, metade súplica.
Eu suavizo. "É bonito", admito.
É. As cores são tão suaves que parecem estar irritando meus nervos. Como uma canção de ninar sendo forçada nos meus ouvidos.
Juno respira fundo e endireita os ombros. "Ok. Devemos ir cedo", diz ela. "Pegar bons lugares. Evitar filas."
"Bons lugares para o meu implante", digo.
Ela ri de novo, mais contida desta vez. "Para a Orientação. Para a cerimônia."
Cerimônia. Essa palavra de novo.
Pego minha bolsa. Verifico minha pulseira de identificação e o convite do Salão Cívico que chegou semana passada, gravado e lindo como um convite de casamento. Odeio como ele é bonito. Odeio como ele faz meu medo parecer infantil. Como se, se algo estiver envolto em veludo, não puder ser perigoso.
Entramos no corredor.
O corredor fora da minha unidade está mais brilhante que o normal. Os painéis de luz foram ajustados para um calor reconfortante. O chão está recém-polido, refletindo nossas pernas enquanto andamos. Confetes de RA flutuam em espirais lentas acima de nossas cabeças, dissolvendo-se antes de nos tocar.
O logotipo de um patrocinador flutua perto do teto.
Eidolon Biotech. Construímos Seu Melhor Futuro.
Juno inclina a cabeça para cima, com os olhos brilhando. "Não é lindo?"
"É barulhento", digo.
O implante ainda não está em mim e a estação parece estar pressionando as bordas do meu crânio. Como se estivesse zumbindo no ar.
Chegamos ao portão de trânsito.
O portão lê nossos IDs e emite um sinal.
BEM-VINDOS, CIDADÃOS ADULTOS.
Uma varredura suave passa pela minha pele, checando a biometria. Sinto como um toque gelado descendo pela minha espinha. O portão abre.
O pod está esperando. É elegante, limpo e cheira levemente a frutas cítricas e metal. Tudo cheira a frutas cítricas hoje, como se a estação estivesse tentando adoçar o ar para que ninguém sinta o gosto do medo.
Dentro do pod, uma tela exibe uma montagem de casais sorridentes.
Compatibilidade é harmonia.
Harmonia é sobrevivência.
Parear é amar.
Juno assiste como se fosse uma escritura sagrada. Ela se inclina perto de mim, sussurrando: "Minha prima disse que o primeiro sinal é a melhor parte."
"O sinal", repito.
"Sim", diz ela. "O momento em que você sente. Como uma faísca. Como... como destino."
Meu estômago se aperta.
O pod desliza para frente. O zumbido da estação torna-se uma vibração constante sob o chão. As paredes exibem cenas editadas dos espaços públicos de Eidolon. Jardins. Mercados. Casais rindo. Crianças correndo. Tudo perfeito. Tudo controlado.
Encaro o reflexo do meu rosto na faixa escura de vidro entre as telas. Meus olhos parecem alertas demais. Minha boca parece estar se preparando para um impacto.
Juno me empurra com o ombro. "Pare de ficar com essa cara de que vai brigar com a estação", ela sussurra.
"Eu não estou", sussurro de volta.
É mentira. Não porque eu tenha um plano. Mas porque meu corpo inteiro tem resistido desde que acordei.
O pod atraca no Salão Cívico.
As portas deslizam abrindo-se e uma onda de ruído entra. Música. Anúncios. Uma multidão densa, cheia de perfume, empolgação e corações demais batendo rápido.
O Salão Cívico é uma catedral de controle. Paredes brancas que brilham suavemente. Pisos polidos. Telas altas exibindo pares sorridentes e slogans em letras douradas.
Fogos de artifício de RA explodem acima do átrio central, silenciosos, mas deslumbrantes. A multidão aplaude mesmo assim, como se som fosse necessário.
Sigo Juno através do fluxo de corpos.
Todos estão vestidos como se fosse um feriado. Brancos. Tons pastéis. Toques metálicos. As pessoas seguram pacotes de presente em caixas de veludo. Pais seguram seus filhos como se estivessem prestes a entregá-los a algo sagrado.
Talvez estejam.
Uma voz da estação preenche o salão, quente e orgulhosa.
"Bem-vindos, Cidadãos Adultos. Hoje vocês entram em conexão. Hoje vocês entram em estabilidade. Por favor, sigam para os Serviços de Implante para o procedimento agendado."
A mão de Juno encontra a minha novamente. Seu aperto é forte.
Caminhamos em direção à ala de Implantes.
Quanto mais perto chegamos, mais o ar muda. Os banners dos patrocinadores diminuem. Os confetes de RA desaparecem. A iluminação fica mais branca, mais nítida. Os cheiros se resumem a esterilizante e metal.
Os sorrisos neste corredor são diferentes. Menos empolgados. Mais treinados.
Um robô-conselheiro fica perto da entrada, seu rosto projetado com traços humanos suaves e olhos gentis que nunca piscam direito.
"Bem-vindos", diz ele. "Ficar nervoso é comum. Por favor, lembrem-se de respirar. O dia de hoje é um presente."
Juno acena para ele como se aquilo fosse um conforto.
Eu aceno também, porque não sou estúpida.
Fazemos o check-in em um quiosque. Meu nome aparece imediatamente.
EMMA COLLINS. PROCEDIMENTO DE IMPLANTE. LINK DA ESTAÇÃO.
Meu estômago dá um solavanco. O quiosque imprime uma pulseira fina para prender no meu pulso. A pulseira está quente quando toca minha pele, como se já estivesse me conhecendo.
Juno também recebe a pulseira dela. Ela levanta o pulso para me mostrar, sorrindo como se fossem joias de amizade combinando.
"Estamos realmente fazendo isso", ela sussurra.
Eu quero dizer: Não, isso está fazendo a gente.
Mas não digo. Eu sorrio. Eu pratico a alegria.
Eles nos levam para uma sala de espera que parece um spa. Cadeiras macias. Iluminação quente. Telas exibindo cenas relaxantes de oceano, o que é ridículo, já que ninguém em Eidolon jamais esteve diante de um oceano real.
Uma mulher de branco passa com um tablet e um sorriso perfeito. "Se alguém tiver perguntas, por favor, faça", diz ela.
Ninguém faz perguntas.
Um garoto à minha frente balança o joelho com tanta força que a cadeira treme. Sua mãe acaricia seu cabelo e sussurra: "Está tudo bem. É amor."
Uma garota por perto chora baixinho, limpando as lágrimas como se tivesse vergonha delas. Sua amiga fica dizendo: "Está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem", como se a repetição tornasse a frase verdadeira.
Sento-me com as mãos entrelaçadas no colo e tento engolir meu próprio batimento cardíaco.
Juno se inclina para perto. "Você acha que eles já sabem nossos pares?", ela sussurra.
"É claro que sabem", sussurro de volta.
Ela ri nervosamente. "Não, eu quero dizer, você acha que já foi, tipo, designado? Ou o implante que escolhe?"
"O sistema escolhe", digo. "O implante apenas te informa."
Juno faz uma careta. "Isso soa tão... frio."
"É frio", digo, depois suavizo rapidamente quando seus olhos se arregalam. "Quero dizer, é ciência. Certo? A ciência é... objetiva."
Juno relaxa. "Sim. Exatamente. Objetiva. Isso é bom."
Olho para a tela relaxante do oceano e penso em como a objetividade é apenas mais uma fantasia para o controle.
Um sinal sonoro soa. Uma tela na parede mostra nomes.
EMMA COLLINS. SALA 3.