Escândalo no Festival da Primavera
O ar gélido do fim do inverno trazia o cheiro de lenha queimada e grãos fermentados, aromas familiares que, para Freya Stirling, geralmente significavam conforto e lar. Naquela noite, porém, tinham cheiro de obrigação.
Ela se encolheu mais na sombra entre dois fardos enormes de feno, apertando uma garrafa de cerâmica contra o peito. Dali, podia ver as tochas do festival pintando a praça com um tom quente e bruxuleante de ouro, e ouvir os violinos começando outra música. Podia ver a Mãe Harriss rondando os limites da multidão, com seu filho mais novo a tiracolo como um cão de caça.
“Freya? Freya Stirling, onde aquela garota se meteu?”
Freya prendeu a respiração. A voz da Sra. Harriss ecoava como o grasnado de um corvo por cima da música.
Três dias. Fazia três dias que sua mãe a sentara no escritório da cervejaria e expusera seu futuro como quem lista ingredientes para uma receita. A propriedade abandonada dos Stirling, dez milhas ao norte da cidade. Solo bom. Água boa. Perfeito para cevada e milho. Eles lhe dariam tudo o que precisava: ferramentas, sementes, um par de cavalos, um punhado de galinhas, três cabras leiteiras e madeira suficiente para cercas e reparos. Freya cultivaria e desenvolveria estoques de grãos para as operações de destilação e fabricação da família Stirling.
Tudo o que ela precisava eram maridos.
“Está na hora, querida”, dissera a mãe, sem maldade. “Você tem idade para começar seu próprio lar. Aprendeu o ofício. Tem cabeça boa para o cultivo. A família precisa expandir nossas terras e precisamos de mais cevada plantada. É hora de você construir algo seu.”
Seu próprio lar. Como se uma propriedade a dez milhas de distância, em pleno território zumbi, com um punhado de homens que mal conhecia, pudesse algum dia parecer dela.
A notícia se espalhou pela cidade mais rápido que a Febre Zumbi. Freya Stirling ia arranjar maridos. Ela vinha de uma família respeitável, tinha uma aparência decente e dentes em bom estado. Sabia atirar bem, conhecia o caminho de um alambique e, segundo os mexericos, era a mulher mais casável da cidade. Freya tentava não pensar em quem estava fazendo a avaliação. Toda mãe com filhos solteiros de repente descobrira negócios urgentes com a família Stirling.
Daí o motivo: esconder-se atrás de fardos de feno no festival Breaking Winter’s Back enquanto a Mãe Harriss a caçava como um sabujo matrimonial.
“Procurando alguém?”
Freya quase derrubou sua garrafa. Daniel Goss surgiu da escuridão do outro lado dos fardos, movendo-se com a calma de quem está acostumado com patrulhas. Ele sorriu com o susto dela, depois olhou além do feno para as luzes do festival.
“Harriss”, murmurou Freya. “Com reforços.”
“Ah.” O sorriso de Daniel se alargou. Ele estava corado, notou ela, com as bochechas quentes de um jeito que sugeria que andara bebendo. Sua camisa estava meio aberta, apesar do frio do início da primavera, com a gola solta ao redor do pescoço. “A grande caça ao marido. Fiquei sabendo. Meus pêsames.”
Eles se conheciam, é claro. Todos em Carbon se conheciam. Daniel e seus irmãos, Mattias e Edwin, eram figuras constantes na guarnição, e a família Goss tinha um histórico triste. Ambos os pais foram mortos no surto de 71, deixando a mãe para dividir apenas duas pensões entre sete filhos. Os três irmãos mais velhos já haviam se casado com a família Marsh em um acordo coletivo, mas Daniel e seus irmãos... Bem. Eles não eram exatamente bons partidos. Pouca riqueza, sem pais e, pior de tudo, sem nenhuma irmã em idade de casar para trocar. Na fronteira, irmãos casam juntos ou não casam. Todo mundo sabia disso.
O que fazia de Daniel Goss uma companhia perfeitamente segura para uma mulher tentando evitar complicações matrimoniais.
“O que você está fazendo aqui atrás?” perguntou Freya, arrastando-se para abrir espaço enquanto Daniel se acomodava ao lado dela.
“Evitando minha mãe, na verdade.” Ele tirou uma garrafa de dentro da jaqueta, uísque barato da destilaria Bitter Creek, rio acima. Concorrência. “Ela tem opiniões sobre como eu gasto meu soldo.”
“Ela sabe que você esteve no bordel?”
O rubor de Daniel aumentou. “Como você...”
“Eu imagino. Você estava pensando no bordel, decidiu que não podia pagar e comprou esse uísque barato só para sentir que gastou seu dinheiro com *alguma coisa*.”
Ele riu, surpreso e genuíno. “Porra. Você é observadora.”
“Eu sou uma Stirling. Trabalho em um alambique desde que eu tinha essa altura.” Ela fez um gesto vago com o braço. “Eu sei o que homens fazem com o dinheiro deles.” Freya levantou sua própria garrafa. “Troco com você. Essa aqui é da boa.”
Os olhos de Daniel brilharam com apreciação genuína ao reconhecer o rótulo da família Stirling. “Isso sim é o que eu chamo de troca justa.”
Eles trocaram as garrafas. Freya deu um gole no uísque de Bitter Creek e fez uma careta. “Deus, isso é forte demais.”
“É por isso que eu estava querendo um upgrade.” Daniel tomou um gole do destilado dos Stirling e suspirou de prazer. “Isso sim é civilizado. Trabalho da sua mãe?”
“Meu, na verdade. Nova receita. Cevada defumada.”
“Você fez isso?” Daniel olhou para a garrafa com um novo respeito. “Droga, Freya. Isso é muito bom.”
O elogio a aqueceu mais do que o uísque. Freya tomou outro gole, que desceu mais facilmente desta vez. Eles ficaram em um silêncio agradável por um momento, ouvindo os sons do festival passarem por eles como uma maré.
“Sabe”, disse Daniel por fim, com a voz suave e levemente arrastada, “você pode encostar a cabeça aqui. Se quiser.” Ele mexeu o ombro em um convite, abrindo espaço ao lado dele. Foi um gesto casual, amigável, o tipo de oferta que se faz a um companheiro em uma longa noite de vigília.
Freya hesitou apenas um momento antes de se inclinar contra o calor dele. Ele era sólido, reconfortante, e cheirava a uísque, couro e óleo de arma.
“Você está nervosa com isso?” perguntou ele calmamente.
“Assumir uma propriedade? Casar? Ficar longe da família, da cidade e da guarnição? Estou apavorada”, admitiu Freya. A palavra saiu mais fácil do que ela esperava. “A antiga propriedade Stirling fica a dez milhas daqui. Não é um território zumbi profundo, mas ainda é meio dia de viagem até a cidade. E eu deveria simplesmente... me mudar para lá com quantos homens minha mãe escolher para mim e começar a cultivar e produzir para os alambiques como se não fosse nada? Estou absolutamente apavorada.” Ela tomou outro gole da garrafa.
“Isso é barra pesada.”
“E... o casamento. Eu tenho que casar. É, eu finalmente vou ter maridos. Mas.” Ela suspirou. “Droga. Eu não sei COMO. E, de repente, estarei casada com várias pessoas. Homens que mal conheço. Homens que vão esperar...” Ela fez gestos vagos, sem conseguir articular o emaranhado de expectativas, obrigações e intimidades físicas que o casamento implicava.
“Ei.” A voz de Daniel tornou-se gentil. “Se serve de consolo? Qualquer homem que ficar com você terá sorte. Você é inteligente, é habilidosa, você é...” Ele pausou, parecendo reconsiderar as palavras. “Você é um partidão, Freya. De verdade. Um grupo de irmãos teria muita sorte se fosse escolhido.”
Ela se virou para olhar para ele. Seu rosto estava muito próximo, os olhos castanhos quentes um pouco desfocados pela bebida. Por impulso, ela estendeu a mão e tocou a bochecha dele. A pele dele estava quente, levemente áspera pela barba por fazer.
Ela suspirou. “Bem, eu certamente não me sinto corajosa nem inteligente. Uma parte de mim queria poder ficar em casa com minha família e... não fazer nada disso.”
“Tudo bem, Freya. Você vai se sair bem. Você sabe que vai”, disse Daniel, arrastando as palavras.
Ela recostou a cabeça no ombro dele e eles ficaram assim por um tempo, passando a garrafa de um lado para o outro. Os violinos tocaram uma música, depois outra. O barulho do festival parecia desaparecer, deixando apenas os dois em seu pequeno canto de escuridão.
Minutos se passaram, talvez mais. O uísque a aqueceu de dentro para fora, soltando o nó de ansiedade que vivia em seu peito há dias. A presença de Daniel era confortável e descomplicada.
“Sabe”, disse ela, ecoando o tom dele, “você pode colocar sua mão aqui. Se quiser.”
Ela guiou a mão dele até sua cintura, logo acima do quadril. Isso não era inofensivo. Ela sabia disso. Mas fez mesmo assim. Sentiu os dedos dele flexionarem, incertos, e então se acomodarem com uma pressão suave.
Eles ficaram assim, a mão dele quente em sua cintura, a cabeça dela ainda contra o ombro dele. Ela conseguia sentir o batimento cardíaco dele onde sua bochecha estava encostada no peito dele. Estável, depois mais rápido. O polegar dele se moveu sobre o quadril, um pequeno círculo que ela não tinha certeza se ele sabia que estava fazendo. O calor floresceu entre eles como o uísque no estômago. Lento, espalhando-se, inegável.
“Freya”, disse Daniel, e sua voz estava suave. “Você está bêbada.”
“Você também está.”
“Estou falando sério. Você não quer...”
Ela virou o rosto e o beijou. Cortou os protestos dele com a boca na dele, provando fumaça, uísque e surpresa. Por um batimento cardíaco, ele ficou paralisado, depois a beijou de volta, uma mão subindo para segurar a nuca dela enquanto a outra apertava sua cintura.
Não era nada como Freya imaginara que beijar seria. Era bagunçado, urgente, com língua demais e pouco ar. Ela não se importou.
Ela se afastou, sem fôlego, mal acreditando que fora tão ousada. Eles se encararam na luz fraca.
“Cristo”, sussurrou ele. “Não deveríamos...”
Ela o beijou novamente, mais fundo desta vez, mais decidida. A mão dele se prendeu no cabelo dela e ela soltou um som de aprovação. Suas próprias mãos encontraram os ombros dele, agarrando-se para manter o equilíbrio enquanto o mundo girava um pouco. Quando se separaram de novo, o peito dele subia e descia rapidamente.
“Freya, se alguém vir, se isso der errado”, disse ele baixinho, “não vai dar errado apenas para mim.”
Ela mudou o peso, um joelho subindo sobre o colo dele. Foi estranho no início, a cabeça girando e o equilíbrio falhando, com as mãos dele a segurando pelos quadris para estabilizá-la. Então ela se acomodou montada nele, de frente, perto o suficiente para ver a barba rala no maxilar dele.
“Porra”, ele sibilou. “Freya, nós... Cristo, a gente realmente não pode...” As mãos dele tremiam onde seguravam os quadris dela. “Devemos parar.”
“Você quer parar?” ela perguntou.
As mãos dele apertaram os quadris dela. “Não!” Então ele fechou os olhos com força. “Sim. Droga. Eu não sei. Você não é nenhuma garota de bordel num vestido apertado.” Ele abriu os olhos de novo. “Se alguém nos pegar, eu estou morto, você sabe disso, não sabe?”
Mas as mãos dele permaneceram nos quadris dela, apertando ainda mais.
Ela o beijou novamente. Ele soltou um gemido contra a boca dela, um som desesperado, e a beijou de volta como um homem prestes a se afogar.
Ela girou os quadris de forma experimental, apenas um pequeno movimento.
"Freya", ele arfou. "Freya, nós realmente não deveríamos..."
Mas as mãos dele já se moviam, firmando-se nos quadris dela, com os dedos se contraindo como se ele não pudesse se conter.
"Isso é... você não pode..." As palavras dele se perderam em incoerência quando ela fez de novo, girando os quadris em um círculo lento e deliberado. Ele estava duro agora sob ela, a prova daquele desejo inconfundível, apesar das roupas.
As mãos dele subiram dos quadris dela, deslizando por baixo da barra da camisa para encontrar a pele quente. Os dedos dele traçaram suas costelas, seus lados, mapeando a curva de sua cintura com algo que parecia maravilha. O toque era gentil e hesitante, como se ele mal pudesse acreditar que lhe era permitido.
Ela rebolou contra ele novamente e ele gemeu, seus quadris dando um solavanco involuntário. A saliência dele pressionou contra a boceta dela e a sensação a fez arfar.
"Freya, por favor", ele arfou contra a boca dela. "Se alguém vir..."
Ela o beijou novamente, engolindo seus protestos. As mãos dele encontraram os seios dela, acariciando através do tecido da camisola, e Freya ouviu a si mesma emitir um som que nunca tinha feito antes, algo entre um suspiro e um gemido.
Isso. Era disso que todo o alvoroço se tratava. Esse calor, essa pressão, essa necessidade desesperada por mais, mais, mais...
Os quadris de Daniel deram um solavanco novamente, mais forte desta vez. As mãos dele estavam dentro da camisa dela agora, contra a pele nua. Ela mexeu nos botões restantes da camisa dele, desesperada para sentir seu peito, seu batimento cardíaco. Quando suas palmas encontraram a pele quente e os músculos sólidos por baixo, Daniel gemeu.
"Você é tão gostoso", ela sussurrou contra a boca dele. "Eu quero..."
Ela nem tinha certeza do que queria, apenas que precisava de mais dele. Precisava tocá-lo, senti-lo, entender o que todo aquele calor e desejo significavam. Sua mão desceu entre eles, encontrando a frente da calça dele. Ela podia senti-lo tensionado contra o tecido, duro e quente.
"Freya, não", ele arfou. "Eu não posso... se você me tocar, eu vou..."
Mas os quadris dele empurraram contra o toque dela, traindo suas palavras.
A curiosidade a consumiu, curiosidade e desejo, além da coragem aquecida por uísque para agir sobre ambos. Ela desfez botões suficientes da braguilha dele para deslizar a mão para dentro, tateando através das camadas até encontrar a pele nua.
O calor a chocou primeiro. Depois, a textura sedosa sobre a dureza rígida, a mistura contraditória de seda e aço. Ela envolveu os dedos ao redor dele experimentalmente, fascinada pelo peso, pelo jeito que ele pulsava contra sua palma.
O corpo inteiro de Daniel ficou rígido sob ela. Quando ela acariciou para cima, ele soltou um som interrompido e suas mãos se fecharam na cintura dela.
"Oh Deus, Freya, eu vou..."
Uma mão como ferro se prendeu ao braço de Freya e a puxou para trás.
Ela teve um momento de desorientação ao ver o rosto chocado de Daniel, suas mãos alcançando-a, então ela estava no ar. Ela atingiu o chão com força suficiente para perder o fôlego, poeira de feno explodindo ao redor dela.
A Goss-Mother Clara estava de pé sobre ela, o peito arfando, o rosto distorcido com algo entre fúria e horror. A mulher mais velha tinha ombros largos devido a anos de trabalho militar, e ela tinha acabado de jogar Freya como um saco de grãos.
"O que diabos você pensa que está fazendo?" A voz da Goss-Mother poderia remover tinta. "Tire as mãos do meu filho!"
Daniel se levantou rapidamente, mexendo na braguilha, tentando se recompor com dedos que pareciam não funcionar. "Mãe, eu posso explicar..."
"Explicar?" Goss-Mother Clara virou-se para ele. "O que há para explicar? Eu posso ver o que aconteceu perfeitamente bem!"
Freya tentou se sentar, dizer algo, mas a voz de sua mãe cortou o caos como um chicote.
"Clara. Afaste-se da minha filha."
A mãe de Freya emergiu da escuridão entre os fardos de feno como um anjo vingador. Atrás dela, os frequentadores do festival materializavam-se das sombras, atraídos pela comoção.
"Sua filha acabou de colocar as mãos no pau do meu garoto!" A voz da Goss-Mother tremia. "Não ouse me dizer para me afastar quando é ela quem..."
"Eu não me importo se ela estava cavalgando ele com a bunda de fora na praça da cidade", disse a Stirling-Mother, com a voz como gelo. "Ele colocou as mãos em uma filha dos Stirling. Você vai recuar. Agora."
Por um momento, as duas mulheres se encararam como lobos disputando território. Então, os ombros da Goss-Mother caíram levemente. Ela recuou, embora seus olhos nunca tenham deixado Daniel.
Stirling-Mother Alexia moveu-se até Freya, ajudando-a a se levantar com uma gentileza surpreendente. Então, sua expressão endureceu novamente.
"Xerife!" ela chamou, a voz ecoando pela praça do festival. "Xerife Brennan, preciso de você aqui!"
"Senhora, isso não é necessário..." Daniel começou.
"Você não tem permissão para falar", disse a Stirling-Mother secamente. "Você teve sua chance de mostrar bom senso e contenção, e falhou. Xerife!"
O xerife Brennan atravessou a multidão crescente, com a mão no coldre. Ele avaliou a cena com um olhar rápido: Freya desgrenhada e coberta de poeira de feno, Daniel com a camisa ainda entreaberta, ambas as mães paradas como combatentes, e um círculo de testemunhas assistindo avidamente.
"Qual é o problema aqui?"
"Este homem", disse a Stirling-Mother Alexia, com a voz carregada para garantir que as testemunhas ouvissem cada palavra, "este animal colocou as mãos na minha filha. Comprometeu-a. Em um festival público. Com testemunhas."
"Ela me beijou!" Daniel protestou. "Eu tentei impedi-la, eu disse a ela que não deveríamos..."
"Você é um homem adulto", disse a Stirling-Mother. "Você conhece as regras. Deveria ter se afastado."
"Senhora", disse o xerife Brennan cuidadosamente, "se a garota iniciou..."
"Você está sugerindo que minha filha é uma meretriz, xerife?" A voz da Stirling-Mother poderia congelar fogo. "Que ela sai por aí assediando homens em festivais? Ou você está sugerindo que um homem da família Goss, criado por pais militares, não teve o autocontrole para recusar as investidas de uma garota bêbada?"
O maxilar do xerife Brennan tensionou-se. Ele olhou para Daniel, depois para a multidão, e então de volta para a Stirling-Mother. Ele já sabia como aquilo teria que terminar.
"Daniel Goss", disse ele pesadamente, "estou prendendo você por atentado ao pudor e por comprometer uma mulher respeitável."
"O quê?" O rosto de Daniel ficou branco. "Xerife, você não pode..."
"Eu posso e estou fazendo. Mãos atrás das costas."
"Clara!" A voz da Goss-Mother falhou. "Você conhece meu filho. Você sabe que ele não..."
"O que eu sei", disse a Stirling-Mother, "é que há duas dúzias de testemunhas que viram seu filho com as mãos na minha filha. O que eu sei é que a lei é clara. O que eu sei é que a reputação da minha família não será destruída porque um soldado não conseguiu manter seu pau dentro das calças."
O xerife Brennan puxou as mãos de Daniel para trás, prendendo-as com eficiência treinada. Daniel não resistiu, mas seus olhos encontraram os de Freya através do espaço entre eles.
"Sinto muito", disse ele baixinho. "Freya, eu sinto muito."
Então a multidão se abriu enquanto quatro homens chegavam como uma tempestade. Os pais Stirling. Todos os quatro.
Papa John chegou primeiro, com as mãos fechadas em punhos. Papa Marcus e Papa Will ladeavam-no como basalto. Papa Thomas trouxe a retaguarda com uma espécie de fúria resignada e silenciosa que era, de alguma forma, mais aterrorizante do que gritar.
Freya queria protestar, queria explicar que ela tinha começado tudo, que Daniel tinha tentado impedi-la, que aquilo tudo estava errado. Mas a mão de Papa Thomas em seu ombro era como uma algema, e a expressão de sua mãe prometia consequências se ela falasse.
Então ela permaneceu em silêncio enquanto o xerife levava Daniel embora através da multidão do festival. Permaneceu em silêncio enquanto dois homens surgiam das sombras, movendo-se em direção à mãe e ao irmão preso.
Mattias Goss parecia ter sido esculpido em pedra. Seu rosto estava completamente inexpressivo enquanto ele observava seu irmão sendo levado algemado. Edwin Goss parecia que ia vomitar. Recém-chegado dos estudos no Leste, seu rosto juvenil estava pálido sob a luz das tochas.
Ambos os irmãos se viraram para olhar para Freya enquanto passavam. A expressão de Mattias não mudou, mas seus olhos a rastrearam com a avaliação fria de um exame tático. O olhar de Edwin encontrou o dela com uma espécie de reconhecimento vazio, como se ele já tivesse visto esse padrão antes e soubesse exatamente como terminaria.
Atrás deles, a Goss-Mother Clara tropeçava pela multidão. Ela se movia como uma mulher debaixo d'água, lenta e instável. Quando ela alcançou o xerife, sua mão foi para o ombro de Daniel — não para contê-lo, apenas para tocar, como se precisasse confirmar que ele ainda estava neste mundo.
Os olhos dela encontraram os de Freya. Não havia raiva lá, apenas o olhar vazio de uma mulher que já tinha enterrado dois maridos e estava agora vendo seu filho ser levado para um destino que ela não podia controlar. Uma mulher que sobreviveu ao surto, à viuvez, à pobreza, e estava agora enfrentando a destruição do futuro de seus filhos.
Três homens estavam silhuetados sob a luz das tochas. Mattias com seu rosto de pedra e olhos calculistas. Edwin com seu horror doentio e reconhecimento vazio. Daniel com a cabeça baixa e ombros curvados, desaparecendo na escuridão entre o xerife e seus irmãos.
A mão da Goss-Mother caiu do ombro de Daniel.
O estômago de Freya virou gelo.
Ela entendeu, naquele momento, exatamente o que tinha feito. Não apenas com Daniel. Com todos eles.
A multidão murmurava e sussurrava, já construindo a narrativa que seguiria os irmãos Goss pelo resto de suas vidas. Já calculando o custo social da associação.
Os olhos da Goss-Mother permaneceram fixos nos de Freya. Sem acusar, apenas testemunhando o momento em que o futuro de sua família morreu.
A mão de Papa Thomas apertou o ombro de Freya.
"Para casa", ele disse calmamente. "Agora."