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O Espinho na Carne

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Resumo

Jonathan nunca pensou muito sobre o próprio corpo — até perceber que uma parte do corpo de alguém se torna motivo de silêncio, tensão e culpa em um padre que vive sob disciplina rígida. A partir dessa fixação específica e desconcertante, o conto explora como o desejo reprimido encontra caminhos tortos para existir. O Espinho na Carne é uma história sobre fé, repressão e o peso de ser transformado em pecado sem nunca ter feito nada além de existir.

Gênero
Drama
Autor
LexSilvas
Status
Completo
Capítulos
5
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Parte 1: Crise de Fé

31/12/25


Macio. O que é macio? Macio é aquilo que não oferece resistência ao toque, suave, delicado, agradável ao contato. Nada demais, apenas o prazer discreto de sentir a pele ceder sob os dedos.

Mas então por que meu corpo reage? Por que o calor sobe quando minha mão roça a coxa desse rapaz? O toque foi rápido, quase um acidente, mas ficou. Ficou como uma brasa escondida sob a roupa. Quando foi que a conversa sobre a missa de amanhã se desviou para pernas, contusões e eu, cheio de dedos tocando na perna de alguém, tentando disfarçar o arrepio?

— E aí, o que me diz? — pergunta ele curioso. — Consegue sentir a lesão?

— Consigo — respondo, sem graça, a voz mais baixa do que deveria. — Eu estou sentindo.

— Devo procurar um médico?

— Com certeza. Procure imediatamente um especialista.

— Valeu, padre — diz ele sorrindo.

Ele sorri, se afasta devagar, e o espaço que deixa parece mais quente do que antes. O banco de madeira range, o ar da sacristia pesa, e eu fico desconfortável com essa batida que pulsa, lateja, como se o calor tivesse se infiltrado na minha própria pele.

E tudo o que ecoa na minha cabeça são sirenes e violinos. Uma música dissonante, urgente, como se o próprio céu estivesse tentando me alertar do perigo. Eu estou fodido. Com perdão pelo palavrão, Deus… e também pela ereção.

Tá bom. Fui descoberto. Sou mesmo um padre. Jonathan Sullivan. Um herege, diga-se de passagem. Alguém que deveria saber melhor o que quer da vida.

Tenho 33 anos. Já sou padre há pelo menos dois. Não sou mais um adolescente idiota, embora às vezes pareça. A tentação é parte do pacote — você entrega sua vida a Deus e, em troca, abre mão de tudo que possa te gerar o mínimo prazer carnal. Uma troca que em teoria deveria ser justa.

Não ajuda o fato de eu já ter tido experiências com mulheres. Mas um homem? Isso é ridículo. Eu não sou gay. Nem hétero. Nem deveria estar pensando em orientação sexual. Não foi pra isso que eu fiz sete anos de seminário.

E, no entanto, aqui estou.

Com a batina suada grudando nas costas, o colarinho apertado demais, e o corpo reagindo como se tivesse esquecido todos os votos.

Jonathan Sullivan — pele clara marcada por fuligem e cansaço, olhos que carregam mais dúvida do que fé, cabelo escuro e curto, sempre um pouco desalinhado, como se o vento e os pensamentos o bagunçassem por dentro. O rosto tem traços firmes, mas o olhar é brando, quase gentil demais para alguém que deveria ser um bastião da moral. Hoje, ele parece mais um sobrevivente do que um guia espiritual. A luz da sacristia bate forte atrás da orelha, desenhando um halo torto, como se o céu estivesse indeciso sobre canonizá-lo ou expulsá-lo.

E eu continuo aqui, tentando convencer a mim mesmo que tudo isso é só um teste. Só mais uma provação. Só mais uma conversa que não deveria ter virado toque, mas virou.

Só tem duas soluções: ou eu me entrego e conto ao bispo o que houve, ou eu converso com alguém que pode me entender. Talvez?

E esse “pode” é bem subjetivo. Porque ele não é, digamos, uma das pessoas mais equilibradas daqui. Mas é meu melhor amigo desde o seminário. E pode ajudar.

Subo as escadas estreitas que levam à sala atrás da basílica. Dou duas batidas rápidas e, sem esperar resposta, abro a porta.

— Posso entrar? — pergunto. — Você não está ocupado, eu te conheço bem, Tom.

— Isso não quer dizer que você pode me incomodar quando quiser — diz ele, sem levantar os olhos do livro.

Thomas Whitaker.

O que dá pra dizer sobre Tom sem entregar tudo? Que ele já foi casado. Que teve um filho. Que o casamento acabou e o filho faleceu. Que ele encontrou Jesus no meio do luto.

Seria bonito se tivesse sido só isso. Mas a verdade é que ele tentou incendiar a igreja onde o corpo do filho foi velado. Não por ódio a Deus — por raiva do silêncio.

Ele nunca fala disso. Mas eu sei. Eu estava lá quando ele entrou no seminário, pouco depois de mim. E entendi a dor dele. A raiva. O medo.

De certa forma, eram iguais aos meus. Só que meu motivo pra virar padre não envolvia nenhum ato criminoso, foi mais um chamado divino, eu acho.

Tom tem o rosto marcado por noites mal dormidas e lembranças que não cicatrizam. Cabelos ruivos, sempre um pouco bagunçados, como se o vento carregasse os restos de um incêndio que nunca apagou. Os olhos são claros, mas não iluminam — parecem sempre presos entre o que foi e o que não deveria ter sido. Ele veste a batina como quem carrega uma dívida. E fala com a voz de quem já gritou demais por dentro.

Mas é meu amigo. E, hoje, talvez seja o único que pode me ouvir sem julgar.

— Em que posso te ajudar, Jonathan? — pergunta ele. — Está fugindo dos novatos de novo?

— Antes fosse — digo, a voz mais baixa do que deveria. — Eu estou com um problema.

Me aproximo da mesa onde ele organiza alguns papéis. O cheiro de tinta e pó de madeira me dá náusea. Eu encaro sério, tentando não tremer.

— Que problema? — pergunta ele.

Respiro fundo. Quero resumir, sem contexto, sem dar margem para julgamento.

— Eu toquei numa… estátua… e tive uma ereção.

Ele me encara por alguns segundos. Não sei se está tentando entender ou apenas segurar o riso.

— Era da Santa Aurélia da Luz? — pergunta ele.

— Era — minto.

— Eu falei pra eles não colocarem a imagem dela tão perto do banheiro dos homens.

— E o que me diz? — pergunto. — Eu devo contar pro bispo sobre… o meu incidente?

— Por quê? — pergunta ele. — Ereções são comuns. Fisicamente eu acordo com uma todo dia. É a intenção que conta.

— Talvez eu tenha gostado… — digo sem graça. — De ter tocado na coxa dela.

— Era uma estátua de rosto — relembra ele.

— Foi o que eu disse.

— Tocou na coxa de uma estátua que só tem metade do corpo? — pergunta ele.

— Eu confundi. Eu quis dizer nariz.

— Ficou excitado com um nariz? — pergunta ele.

— Foi mais ou menos isso — digo, sentindo o suor escorrer pela nuca.

— Tá legal, Johnny — diz ele. — Não precisa incomodar o bispo por isso. Só não toca mais na coxa do nariz da estátua da santa e vida que segue.

— E se ela voltar querendo que eu a toque?

— Desculpa, o quê?

— Sabe… se ela voltar com aquele sorriso, começar a falar de lesões de futebol, mostrar a perna dela, pedir pra eu tocar onde machucou… e eu não souber dizer não?

— O quê? — pergunta ele, franzindo a testa.

— O que você faria no meu lugar?

Ele suspira, fecha os olhos por um instante tentando tirar algum sentido daquilo.

— Primeiro, espero que não estejamos falando de estátuas. Porque se estivermos, eu vou ter que relatar pros nossos superiores que vão te fazer ir ver um psiquiatra. Segundo… essa estátua só devia querer que você a aconselhasse sobre lesões de futebol. Você não é médico.

— Tem razão.

— Agora vai me dizer que estátua é essa que joga futebol e te faz duvidar da própria sanidade — diz ele. — Está me fazendo duvidar da minha também.

Eu hesito. O silêncio pesa. Depois falo bem baixinho o nome.

— Eu não ouvi — diz o Thomas.

Eu murmuro de novo, olhando ao redor, mesmo sem ninguém por perto.

— Cara, eu não ouvi — insiste ele, se inclinando sobre a mesa.

— Samuel Avery — digo, trincando os dentes.

— O Sammy Avery? — pergunta ele, surpreso. — Você ficou excitado com o Sammy?

Olho ao redor e peço pra ele abaixar a voz.

— Eu pensei que você fosse hétero — diz ele.

— Eu sou hétero — digo rápido. — Ou melhor… eu sou padre. Isso não deveria acontecer.

— Mas aconteceu — diz ele, sorrindo de canto. — Sammy? Isso é sério? Eu sempre achei que ele tinha um bundão.

— Eu sei — digo. — Eu fiquei olhando para aquela bunda quando ele foi embora. Ele me quebrou. Acabou com o meu celibato.

— Bom… nunca ouvi falar do Samuel com outro cara. Mas também nunca vi ele com uma mulher. Deve ser um daqueles assexuais, ou sei lá.

— Assexual ou não, ele me deixou de… — paro antes de me embaraçar mais. — Eu preciso falar com o bispo sobre isso.

Me viro decidido.

— Vai contar o quê pra ele? — pergunta Thomas. — Que seu amiguinho ai debaixo te deixou animado com um macho? Senta aí, Johnny. Isso é bem mais comum do que parece.

— Isso quer dizer o quê? — pergunto me virando de volta pra ele e me sentando, sentindo o coração bater como se fosse explodir.

— Você só está confuso — diz ele, sem levantar os olhos. — O celibato faz isso com as pessoas. Eu fico excitado às vezes com o buraco da tomada. Então para de besteira e segue em frente.

Ele volta a mexer nos papéis, como se nada tivesse acontecido. Eu fico parado, sem saber se estou pecando ou apenas confuso.

— Não acha que não foi nada demais? — pergunto, a voz quase implorando por absolvição.

— Cara, só vai ser algo demais se você ficar pensando nisso — diz ele. — Não se preocupa, isso é bem mais comum do que você imagina. Ereções acontecem o tempo todo. Vai, sei lá, rezar e pedir pra que Deus controle o seu pau.

— E se eu enlouquecer e colocar fogo nas coisas? — pergunto, e imediatamente percebo o absurdo do que acabei de dizer. — Me desculpa por ter trazido isso à tona.

Ele me olha, respira fundo, como quem já ouviu confissões piores.

— Olha, me desculpa mesmo por isso — digo rápido. — Se vai me xingar, eu vou entender.

— Eu não vou te xingar — diz ele, com calma. — Mas eu vou fazer muito pior.

— Ai, por favor não — digo, tentando rir, mas já desconfiando do sorriso malicioso dele. — A Irmã Agnes não.

— Ela está precisando de companhia — diz ele. — Uma hora com ela e o seu pênis não vai subir nunca mais. Vou dizer ao bispo que você mesmo se ofereceu, ele vai gostar disso.

— Por que eles te pediram pra designar as tarefas do monastério essa semana? — pergunto, irritado. — Você sempre abusa do seu poder.

— Fala como se nós homens nunca tivéssemos feito isso antes — diz ele. — Se fosse o contrário você faria o mesmo.

Me levanto e saio da sala, com raiva. Raiva de mim, do Thomas, do maldito Samuel. Maldito porque ele me fez pegar na coxa dele pra sentir a sua lesão.

A Irmã Agnes… ah, a Irmã Agnes. Uma das freiras mais antigas daqui. Ela deve ter uns mil anos, sem brincadeira. Já viu papas, reis, … a Inquisição espanhola?!, e o pior é que adora contar cada detalhe com um entusiasmo que ninguém acompanha. Ela começa um assunto e, quando você acha que entendeu, já está em outro, e depois em mais um, e você ainda tentando decifrar o primeiro.

O Thomas tem razão. Talvez conversar com aquela velha insuportável seja justamente o que eu preciso. Talvez ajudar ela a se trocar para dormir, ouvir suas histórias intermináveis que se arrastam por quilômetros, seja a penitência que me falta.

Mas enquanto penso nisso, o maldito Samuel não sai da minha cabeça. A coxa macia, a pele pálida. Eu imagino — contra a minha vontade — como seria se eu passasse manteiga ali. Ela derreteria? Escorreria? Ficaria mais saborosa? E eu me odeio por pensar nisso.

O corredor da basílica está silencioso, só o som dos meus passos ecoa. O cheiro de incenso misturado ao pó das paredes antigas me sufoca. Eu respiro fundo, tentando expulsar a imagem, mas ela volta, mais forte. Samuel sorrindo, Samuel se afastando, Samuel me quebrando.

E eu, condenado a carregar esse fogo dentro de mim, sem saber se é pecado, loucura ou apenas humanidade.

Ainda pior é a noite. Deitado na minha cama, os pensamentos vêm como ladrões e parecem querer morar ali. Eles não pedem licença, não se calam, não me deixam em paz.

Quase não me deixam dormir. Quase não me deixam pensar em nada além daquilo. A respiração fica curta, o corpo pesado, e cada sombra no teto parece me observar, como se soubesse o que eu escondo.

Eu preciso ser forte. Preciso acreditar que amanhã, com a luz do dia, tudo vai parecer menos urgente, menos proibido.

Mas agora, no silêncio da noite, é como se o quarto inteiro fosse cúmplice da minha fraqueza. O colchão range, o suor escorre, e o nome dele volta, repetido, como uma oração invertida.

Eu não vou sucumbir. Repito isso como um mantra. Eu não vou sucumbir.

E mesmo assim, sinto que já comecei a cair.

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