Capítulo 1 ~ Dove
“Você chegou.”
Dove deu uma olhada no celular e esticou o braço para desligar o GPS. Ela estava grata por tê-lo, porque, caso contrário, nunca teria encontrado aquele lugar. Uma casa isolada nos arredores de uma cidadezinha escondida nas montanhas do Colorado. Já era um milagre estar no GPS.
A casa diante dela, emoldurada pelo para-brisa, pertencia ao seu avô. Ela... parecia um desastre prestes a acontecer.
“Sério?” ela disse para si mesma, como se duvidar em voz alta pudesse mudar a realidade. Disseram-lhe para esperar uma casa charmosa de estilo artesanal. O que ela viu foi uma casa de campo simples, muito deteriorada e que não correspondia em nada à sua definição de “charmosa”.
Com um suspiro, Dove saiu do carro para dar uma olhada melhor. Folhas de outono cobriam o quintal e entupiam as calhas da casa. A tinta azul-clara do revestimento estava desbotada e descascando. Teias de aranha e pedaços de ninhos velhos de vespas agarravam-se às janelas sujas. Os degraus da varanda rangiam enquanto ela subia, e ela teve uma imagem horrível da madeira cedendo sob seus pés. Ela quebraria o tornozelo na queda! Que merda, quando foi a última vez que ela tomou uma vacina contra tétano?
Felizmente, os degraus do vovô não desabaram. A varanda parecia tão desgastada quanto o resto da casa e estava vazia, exceto por duas cadeiras. A porta de tela rangeu quando ela a abriu. Ela pretendia apenas segurá-la aberta com o quadril enquanto pegava a chave da casa na bolsa, mas, depois de encarar a porta velha por um minuto, ela torceu o nariz e desistiu. Suas roupas eram boas demais para ficarem roçando naquela porta de tela imunda.
Ela a deixou bater, o que aconteceu com um estalo alto, e começou a revirar a bolsa. Talvez ela não devesse ser tão crítica com o lugar. Ela tinha acabado de ganhá-la. O telefonema veio do nada. Seu avô faleceu e, como ele não deixou testamento, sua propriedade e seus bens foram passados para ela.
Mas o que ela deveria fazer com aquela casa no meio do nada? Ela morava na cidade de Nova York, pelo amor de Deus! Não havia a menor chance de ela largar tudo aquilo para morar no fim do mundo. Quanto mais cedo terminasse tudo por ali e voltasse para casa, melhor.
Se ao menos ela conseguisse encontrar a chave da casa.
“Ugh, onde está?” ela suspirou. Ah, espera. Ah, é, ela tinha colocado no porta-luvas para guardar. Ela odiava quando fazia isso. Colocar algo em um “lugar seguro” para esquecer completamente depois. Ela revirou os olhos para si mesma, soltou um bufo que aliviou sua tensão e voltou para o carro.
Os degraus da varanda também não a devoraram na descida.
Ela foi para o lado do passageiro e estava abrindo a porta quando ouviu algo que soava distintamente como o relincho de um cavalo. Ela se animou e deu uma olhada em volta. Lá estava novamente. Sim, aquilo era totalmente um cavalo.
Isso não foi uma surpresa completa. Ela sabia que a propriedade vinha com um estábulo. O vovô criava cavalos para viver. Ela só não esperava que os cavalos ainda estivessem lá. Isso não era, tipo, maus-tratos a animais ou algo assim? Ela pensou que alguém oficial teria vindo buscá-los até que a família do vovô pudesse fazer algo a respeito. Como o Estado ou a PETA ou qualquer coisa do tipo. Claramente, ela não fazia ideia de como aquilo funcionava.
Uma preocupação repentina tomou conta dela, pensando que as pobres criaturas estavam morrendo de fome. Dove não era amante de cavalos. Ela nunca tinha montado em um. Para ser sincera, eles a assustavam. Mas isso não significava que ela queria que eles sofressem!
Ela jogou a bolsa no banco do passageiro e correu para encontrar a fonte daquele relincho. Onde diabos ficava o estábulo? Não era visível da entrada. Ela notou uma estrada, contornando o lado da casa. Era uma estrada de terra, úmida e meio lamacenta por causa de uma chuva recente de outono. Caminhar por ali com suas botas de cano curto super bonitas a fez hesitar por um momento.
Droga, mas e os cavalos?
Rangendo os dentes, ela começou a descer a estrada e tentou ao máximo evitar os pontos de lama. Estava tão focada no chão que nem notou o estábulo até que ele ficasse totalmente à vista à sua frente. Ela olhou para cima e lá estava ele, parecendo um grande celeiro vermelho, tão deteriorado quanto a casa.
As portas do estábulo estavam abertas, revelando uma fileira de baias de um lado e de outro, com um espaço amplo no meio. Ela não conseguia ver nenhum cavalo de onde estava, mas podia ouvi-los mais claramente agora.
Ela deu um pulo e parou onde estava. Tinha alguém no estábulo.
O vovô morava sozinho. Não deveria haver ninguém na propriedade dele. Na propriedade dela. Quem era aquele homem? Fosse quem fosse, ele não parecia tê-la notado. Ele segurava uma vassoura e varria o que parecia ser palha suja pelo chão do estábulo.
Bem, ela precisava descobrir quem era aquele cara, não precisava? Parecia que ele estava fazendo tarefas domésticas, então provavelmente não era um caipira assassino psicopata como nos filmes. Ela endireitou a postura, mantendo-se ereta com a confiança de alguém que deveria estar ali, e se aproximou das portas abertas do estábulo.
À medida que chegava mais perto, ela conseguiu ver o homem melhor e... caramba. Ele não era caipira nenhum. Ele era um pedaço de mau caminho! Ele era alto, facilmente passava de um metro e oitenta. Sua camisa de mangas compridas estava dobrada até os cotovelos, exibindo seus antebraços musculosos. Pela forma como o resto da camisa abraçava seu corpo, ela podia dizer que seu porte largo provavelmente era de puro músculo. Seu cabelo castanho-escuro era longo, caindo sobre os ombros, e combinava com sua barba espessa. Tudo nele parecia forte e rústico. Ela nunca teria pensado que homem da montanha e sexy combinavam, mas, nossa, como ele provou que ela estava errada.
E agora lá estava ela, boquiaberta como uma boba. Ela saiu do transe e lembrou-se do que pretendia fazer.
“Com licença,” ela disse, entrando no estábulo. “Quem é você?”
O bonitão parou com a vassoura e olhou para ela, notando-a pela primeira vez. Sua expressão era difícil de ler.
“O nome é Burley Johnson, senhorita,” o homem respondeu, e até sua voz era atraente. Será que estava mais quente dentro do estábulo ou era apenas ela?