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Kasefiah

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Resumo

Quando uma antiga igreja é descoberta no interior do Brasil - construída dois mil anos antes do "descobrimento" - a matemática e criptógrafa Brenda Oliveira é convocada para decifrar símbolos indecifráveis entalhados nas paredes. Ela não esperava encontrar ali o que parece ser um fragmento de um evangelho... supostamente escrito por um ser angelical. O texto fala de uma busca desesperada, atravessando Céus, Terra e Inferno, por um amor perdido entre dimensões. À medida que Aurora desvenda os códigos escondidos, ela se vê perseguida por uma seita silenciosa que há séculos protege esse segredo - e por algo que não pertence a este mundo. Em meio a catedrais enterradas, desertos amaldiçoados e visões que desafiam sua razão, Aurora descobrirá que a verdade que busca não está nos números... mas em seu próprio sangue. Porque às vezes, os anjos não caem... eles se escondem.

Gênero
Mystery
Autor
NIlson
Status
há 8 meses
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1 - A Igreja que Não Deve Existir

O solo tremeu pela última vez ao entardecer, quando o sol se arrastou como um olho de fogo pelo horizonte rachado do sertão. No coração do desabamento, os arqueólogos pararam de respirar por um instante: diante deles, parcialmente soterrado, emergia o frontão de uma igreja... romana. Era impossível. Aquela estrutura de pedra calcária, entalhada com símbolos em aramaico e adornada por um vitral intacto, não apenas desafiava a história — ela a rasgava.

Milhares de quilômetros distantes de qualquer traço do Império, milênios antes de o Brasil ser chamado de Brasil.

E no centro do altar, uma única palavra entalhada em uma língua que só três pessoas no mundo souberam ler. Brenda Oliveira era uma delas. E algo nessa palavra parecia ter sido escrito para ela.

Brenda desceu do helicóptero com os olhos semicerrados contra o vento seco do sertão. O calor vibrava no ar como um sussurro antigo, e o cheiro de poeira misturado a incenso ressecado atingido suas narinas assim que seus pés tocaram o solo rachado. Ela caminhou em silêncio até o grupo de pesquisadores que aguardava junto à entrada escavada.

O arqueólogo-chefe, Dr. Afonso Neves, aplicou com um aperto de mão nervosa.— Você vai querer ver isso com seus próprios olhos, professora. Não sabemos nem por onde começar.

Ela apenas assentiu, já com o olhar fixo no vão escuro que levava até o interior da construção recém-descoberta. Não houve uma curiosidade acadêmica que a trouxe até ali — mas o nome inscrito na última mensagem criptografada enviada pelo Vaticano: “Brenda Oliveira. Codificação em aramaico celeste. Acesso prioritário.”

Ela nunca ouviu falar desse dialeto. Aramaico, sim. Mas... Celeste?

Desceu os degraus improvisados sem trocar mais palavras, mergulhando na escuridão da igreja esquecida. Luzes artificiais tremeluziam nas paredes enquanto cruzava o átrio, o som abafado de seus passos ecoando como batidas de um relógio ancestral. As paredes estavam cobertas de afrescos que pareciam medievais — e ainda assim… alguns mostravam cenas impossíveis: constelações, figuras aladas com olhos múltiplos, um céu dividido em círculos numerados como os anéis de um algoritmo.

No altar, uma pedra negra e polida exibia inscrições em alto relevo. Brenda se aproximou, tocando levemente os traços com os dedos enluvados.

Ao final da sequência de símbolos, um pequeno espaço vazio. Então, uma última palavra:

“Kesefiah.”

Ela recuou um passo. Sentiu o peito apertar.

Não por causa do significado — mas porque essa palavra estava em seus sonhos desde os onze anos. Sempre surgia escrita em fogo sobre o céu noturno, acompanhada de uma melodia que ela nunca conseguiu esquecer. Brenda havia pensado ser loucura. Um fragmento de trauma. Mas ali estava ela… entalhada numa pedra de dois mil anos.

Antes que pudesse reagir, uma das lâmpadas de emergência estalou. A luz falhou por um instante. E por uma fração de segundo, ela viu — refletida na pedra — a imagem de uma figura atrás dela.

Alto. Com asas queimadas. E olhos cheios de saudade.

Quando se virou, não havia ninguém.

Brenda permaneceu imóvel por longos segundos. O silêncio da igreja parecia pesado, como se o próprio ar esperasse sua reação. Ela passou a mão pelo rosto, tentando afastar a visão. Não havia nada ali. Nada… visível.

Afastou-se da pedra e sacou de sua mochila uma lente de aumento com luz polarizada. Aproximou-a da inscrição, registrando cada traço com seu escâner portátil. Os símbolos pareciam pulsar sob a lente, como se reagissem ao toque da luz.Não eram simples letras.Eram fórmulas. Codificações.

Ela gravava os dados em silêncio quando um sussurro a fez congelar:— Kesefiah…

A voz ecoou não da boca de alguém, mas do próprio teto, como se as paredes respirassem.

Brenda se virou com brusquidão, coração acelerado.— Tem alguém aí? — sua voz soou mais fraca do que gostaria.

Nenhuma resposta. Apenas o tilintar de correntes antigas vindo do altar lateral. E então ela o viu: um símbolo esculpido na parede, à meia-altura. Um losango atravessado por uma serpente de duas cabeças, cujos olhos eram compostos por números — números primos.

Brenda prendeu a respiração.Esse símbolo… ela o havia desenhado quando tinha catorze anos. Sem saber por quê.

A lembrança veio vívida. Ela, diante de uma lousa em branco no colégio interno, desenhando compulsivamente o mesmo emblema. Foi levada à psicóloga, aos médicos, até aos padres. Ninguém entendeu.

Agora, ali estava ele. Gravado em pedra com pelo menos dois mil anos.

— Professora Brenda! — transmitiu uma voz, rompendo o transe. Era o arqueólogo, surgindo com urgência pela nave central. — Acabaram de chegar às autoridades do Vaticano. Querem vê-la imediatamente.

Brenda concordou lentamente, mas não tirou os olhos do símbolo até sair da igreja.

Do lado de fora, o céu começava a escurecer. Um homem de meia-idade com batina simples, expressão dura e olhos penetrantes a aguardava ao lado de um veículo preto com placas diplomáticas.— Professora Oliveira?– Sim.— Meu nome é Padre Emílio Vasques. Vim conduzi-la a um local mais... reservado. preciso conversar. Em particular.

Brenda olhou para trás, na direção da igreja soterrada. Tinha uma sensação estranha de que aquela pedra... estava observando.— E sobre o que vamos conversar, padre? — Perguntei, já entrei no veículo.Ele fechou a porta devagar.– Sobre anjos. E sobre você.

O carro arrancou em silêncio, enquanto o último raio de sol desaparecia no sertão. Atrás deles, oculto entre as sombras da igreja, um vulto se moveu. O som metálico de asas queimadas ressoou pelo deserto.

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