Capítulo 1 – Emelia
Espiei pelo olho mágico enquanto meu vizinho enfiava a chave na fechadura do apartamento dele. O aro de metal frio pressionou um círculo na pele ao redor do meu olho, e o mundo se resumiu àquela visão minúscula e distorcida dele — a única visão que eu realmente me permitia ter. O corredor lá fora estava escuro e parado, aquele tipo de silêncio que fazia cada barulhinho parecer amplificado. Em algum lugar do corredor, o aquecedor antigo do prédio zumbia e batia, espalhando um calor que nunca chegava a atingir o chão.
Suas costas largas preenchiam o enquadramento, uma parede de músculos em movimento vestida com uma camiseta que grudava nele exatamente onde fazia minha imaginação se desviar. Ele a usava como se não fosse nada, apenas algodão e linha, embora o tempo ainda carregasse um frio de inverno que passava pelas paredes finas e por baixo da porta. O ar no meu apartamento estava gelado contra meus braços nus, e eu estremeci, mas não por causa da temperatura.
Tatuagens serpenteavam por baixo das mangas, tinta preta em linhas nítidas cobrindo tudo até os pulsos. Na visão distorcida do olho mágico, elas pareciam quase vivas, sombras retorcidas sobre sua pele bronzeada, arqueando-se quando ele contraía os antebraços para girar a chave. Eu nunca conseguia distinguir os desenhos completos daquela distância e ângulo, apenas pedaços de asas, formas geométricas, curvas que sugeriam algo perigoso e lindo.
Ele girou a chave; o clique soou alto no corredor silencioso, nítido e definitivo. O som minúsculo atravessou a porta de metal e atingiu meu peito. Percebi que eu estava prendendo a respiração, com os pulmões apertados e os ombros tensos, e soltei um suspiro trêmulo que embaçou o olho mágico por um segundo. Minha visão ficou borrada, depois clareou.
Ele congelou.
Cada centímetro dele ficou subitamente imóvel, como um predador que sente um cheiro no ar. Os pequenos músculos em seus ombros se contraíram. A chave ainda estava na fechadura. O ar do meu lado da porta pareceu mais pesado, como se algo invisível tivesse mudado entre nós, mesmo que ele nem soubesse que existia um “nós”.
Então, ele virou a cabeça, olhando diretamente para mim por cima do ombro.
Meu coração bateu contra minhas costelas com tanta força que realmente doeu. Eu já sabia que os olhos dele eram de um verde profundo. Eu os tinha memorizado das vezes em que passamos pelo corredor, de cada olhar roubado que consegui captar pelo canto do olho, das suas fotos online, onde ele nunca sorria de verdade, mas sempre parecia saber algo que você não sabia. Eu já o tinha espionado antes, mais vezes do que gostaria de admitir — tanto por esse olho mágico quanto pela tela do meu celular. Mas aqueles momentos sempre pareceram... seguros. Distantes. Como assistir a um filme.
Isso parecia estar na beira de algo real, algo afiado.
Minha pele formigou enquanto ele observava o olho mágico. O pequeno círculo de vidro subitamente pareceu fino demais, claro demais. Não ousei me mexer. Se eu fizesse isso, ele poderia saber que eu estava ali. Era ridículo — eu sabia que era ridículo —, mas o medo e a emoção se misturavam no meu estômago até que eu não conseguia distinguir qual era qual.
Minhas palmas começaram a suar onde estavam apoiadas na porta enquanto o momento se prolongava, com seu olhar vigilante. Eu podia ouvir minha própria respiração, curta e ofegante, e o zumbido fraco das luzes do corredor. O cheiro de produto de limpeza com limão subia do piso de madeira do meu lado, misturando-se ao cheiro leve e reconfortante de café que ainda pairava desde aquela manhã. O mundo encolheu para o círculo de seus olhos e o som da minha pulsação martelando em meus ouvidos.
Finalmente, ele deu um sorriso de lado, seus lábios carnudos se curvando antes que ele se virasse e entrasse em seu apartamento. Aquela pequena curva de sua boca me atingiu como um toque físico — provocador, cúmplice, secreto. Ele bateu a porta atrás de si, o som pesado reverberando pelas paredes e direto para os meus ossos.
Recuei e esfreguei as mãos na minha calça de pijama, tentando limpar o suor e o tremor dos meus dedos. O tecido era macio e gasto, o algodão roçando nas minhas palmas em uma sensação familiar e reconfortante. Meus joelhos pareciam ter esquecido como ser joelhos. Puxei o ar, depois outro fôlego.
Puta que pariu.
Será que ele sabia que eu estava lá?
A pergunta ecoou na minha cabeça, atravessando cada brecha da minha compostura. Ele tinha ouvido minha respiração? Visto o vulto de movimento no olho mágico? Ou aquele sorriso foi apenas uma coincidência, sua expressão habitual de meio deboche que eu tinha visto cem vezes quando ele passava por alguém com sua câmera pendurada no ombro?
Eu o observava há meses, desde que ele se mudou, bem no feriado de Ação de Graças. Ainda me lembro daquele dia: eu carregando uma torta de abóbora barata escada acima, ele carregando caixas marcadas com pincel atômico, o maxilar cerrado, o cabelo caindo nos olhos. Havia um vento frio cortando através da porta do saguão toda vez que ela abria, e ele passava por ele como se não fosse nada, como se o frio não pudesse tocá-lo.
Mas eu sempre fui cuidadosa, nunca cruzando o olhar dele nas poucas ocasiões em que nos encontrávamos no corredor ou no saguão. Eu tinha aperfeiçoado a arte de fingir que não sabia exatamente qual era o som dos seus passos, que eles não faziam meu estômago dar voltas toda vez que se aproximavam. Eu era tímida demais para realmente olhar para ele, muito menos falar com ele.
Virei-me e dei os poucos passos até meu sofá antes de me afundar nele, as almofadas suspirando sob meu peso, e arrastei meu laptop da mesa de centro. O plástico estava frio sob a ponta dos dedos enquanto eu o abria. O brilho da tela banhava o quarto em um azul pálido, fazendo minha pequena sala parecer ainda menor, como se o mundo tivesse encolhido para aquele retângulo de luz e a dor no meu peito.
Fui para o Instagram dele, com os dedos se movendo no automático, perguntando-me se ele tinha postado algo novo na última hora. Nada. O mesmo feed de paisagens urbanas melancólicas, comentários sarcásticos ocasionais e comentários sobre o trabalho de outros fotógrafos olhavam de volta para mim.
Havia duas fotos novas — ambas de modelos que ele, sem dúvida, tinha fotografado durante a manhã. Elas eram perfeitas, deitadas em uma cama vestindo apenas sutiã e calcinha, enquanto olhavam com luxúria para a câmera. Os lençóis ao redor delas pareciam impossivelmente macios, um mar bagunçado de branco e cinza que emoldurava sua pele lisa. O cabelo estava arrumado artisticamente, os lábios entreabertos, os olhos pesados e confiantes. Lucas as tinha capturado como se fosse impossível desviar o olhar.
Minha garganta apertou. Olhando para o meu corpo com curvas, completamente desprovido de qualquer tatuagem ou algo extraordinário, percebi pela milionésima vez que eu não tinha chance com Lucas. Pelo menos, não no mundo real. Não fora da minha imaginação, onde eu podia roteirizar conversas, finais e beijos sem nunca arriscar a humilhação da realidade.
Ele era definido e magro, com cabelos escuros e olhos verdes profundos. Sua sobrancelha perfurada e sua moto só acrescentavam ao seu mistério. Eu tinha ouvido o ronco daquela moto através da porta aberta do saguão, sentido o cheiro fraco de gasolina e couro nas noites em que ele chegava tarde. Ele era intensamente lindo, intocável. Mais do que isso, ele era um artista com uma reputação de peso por sua habilidade de tirar fotos incríveis. Eu o tinha pesquisado no Google mais de uma vez — ok, muitas vezes — e visto seu nome ligado a revistas, campanhas, um mundo tão distante do meu que poderia muito bem ser outro planeta.
Sem mencionar que ele tinha um passado sombrio. Essa parte era mais boato do que fato, retalhos de conversas ouvidas dos vizinhos na lavanderia, referências vagas em entrevistas antigas quando ele dizia coisas como “na época em que eu ainda estava resolvendo minhas merdas” e “eu nem sempre morei aqui”. Palavras que sugeriam sombras.
Meu passado era entediante e provavelmente faria um homem como Lucas Taylor cair no sono. Nada de infância dramática, nada de rebeldia selvagem, apenas uma garota quieta que lia demais, anotava demais nas aulas e vivia mais na própria cabeça do que no mundo real. A coisa mais escandalosa que eu já tinha feito talvez fosse isso — ficar na minha porta, observando meu vizinho como uma Jane Eyre moderna, espiando o homem sombrio no sótão. Exceto que eu era a pessoa no sótão.
As modelos sensuais olhavam de volta para mim na tela, mas, na verdade, elas estavam olhando para Lucas, para seu corpo incrível e olhos inteligentes. Elas eram o tipo de mulher que podia se inclinar e dizer o nome dele na escuridão e tê-lo respondendo sem hesitação. Eu era o tipo de mulher que ficava à espreita atrás da porta e reprisava momentos de três segundos como se fossem cenas épicas.
Fechei o laptop e me recostei, o tecido do sofá áspero contra a parte de trás dos meus braços. Lancei um olhar furioso para o teto, como se ele tivesse criado Lucas pessoalmente e depois o jogado diretamente do outro lado do corredor como se fosse uma piada cósmica. A luz do teto zumbia suavemente. Lá fora, em algum lugar, uma sirene uivou e desapareceu.
“Esquece isso”, resmunguei para mim mesma. Eu vinha tentando me livrar da minha obsessão pelo vizinho há meses. Ainda não tinha funcionado.
Chequei meu celular. O visor de horas brilhava para mim, impiedoso.
Merda.
Eu ia chegar atrasada para a aula.
A adrenalina mudou de marcha dentro de mim, saindo de Lucas e indo em direção à ameaça muito real de ser chamada a atenção pelo meu professor. Levantei-me rapidamente do sofá e fui para o quarto, o chão frio e levemente arenoso sob meus pés descalços. Uma pilha de roupa suja ameaçava cair da cesta no canto, e o cheiro fraco de amaciante pairava no ar.
Vesti uma camiseta preta, minha armadura básica, coloquei uma calça jeans que abraçava meus quadris e peguei um par de botas de cano alto. O raspar do zíper soou alto no quarto pequeno enquanto eu o puxava. Depois de escovar os dentes e o cabelo com movimentos rápidos e praticados, vi meu reflexo no espelho do banheiro — bochechas coradas, olhos castanhos arregalados, cabelo um pouco bagunçado pelos meus dedos. Meu coração ainda batia rápido demais, um eco remanescente de olhos verdes e um sorriso provocador.
“Para de pensar nele”, sussurrei para mim mesma. Meu reflexo não parecia convencido.
Peguei minha jaqueta e minha bolsa, a alça gasta familiar contra a palma da minha mão. O peso dos meus livros puxava meu ombro, mas eu mal sentia. Minha mente já estava no meio do corredor, imaginando esbarrar nele, imaginando não esbarrar nele, e sem saber o que seria pior.
Saí disparada pela porta, as dobradiças velhas protestando com um rangido. O ar do corredor estava mais frio que o do meu apartamento, tingido com o cheiro de poeira e do jantar de alguém. Bati a porta atrás de mim, o som ecoando pelo corredor, e me virei para trancá-la, com os dedos tropeçando na fechadura na minha pressa.
“Oi.”
A palavra caiu no espaço atrás de mim como uma pedra jogada em uma água parada.
Olhei para cima lentamente, os pelos da minha nuca ficando em pé. O corredor minúsculo parecia estreitar, as paredes beges se fechando um centímetro, dois centímetros. Minha respiração travou na garganta.
Ele estava atrás de mim.
Lucas estava no corredor.
Atrás de mim.
Falando comigo.
Ai meu Deus.
O metal frio da minha chave cravou nos meus dedos. Fiquei encarando minha porta, congelada no lugar. Há quanto tempo ele estava ali parado? Segundos, minutos, horas? Eu não fazia ideia. O tempo parecia ter saído do eixo, cada momento se alongando demais e colapsando em si mesmo ao mesmo tempo.
Forcei-me a respirar, puxando ar para pulmões que não pareciam mais saber como funcionar. O perfume da colônia dele — limpo, marcante, com algo mais escuro por baixo — flutuou até mim, envolvendo meus sentidos. Minha mão pairou perto da tranca. Meu coração tentou sair do meu peito.
E, pela primeira vez desde que ele se mudou, eu não estava atrás do olho mágico. Eu estava exposta, pega em campo aberto, sem nenhum lugar para me esconder.