Se Você Tivesse Me Escolhido

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Algumas escolhas nos assombram. Outras nos definem. No verão de 1990, Danielle Whitaker achava que conhecia Scott Reynolds. Ela sabia quais músicas ele aumentava no rádio. Sabia que ele era o garoto que sustentava seu olhar por um segundo a mais, o único que a fazia sentir como se o mundo inteiro ficasse em silêncio quando estavam juntos. Ela estava errada. Um beijo em uma fogueira à beira do lago mudou tudo, ou nada, dependendo de quem você perguntasse. Scott seguiu em frente. Danielle aprendeu uma lição que jamais esqueceria: o charme, muitas vezes, não passa de uma bobagem muito bonita. Quatro anos depois, Scott está de volta. O "golden boy" que tinha tudo, perdeu tudo: sua bolsa de estudos no futebol, seu caminho fácil, a garota que ele achou que estaria sempre à espera. Ele está bêbado, à deriva e, finalmente, pronto para crescer. Mas a garota que ele deixou para trás não está esperando. Danielle não é mais a observadora silenciosa que costumava ser. Ela construiu uma vida. Ela é mãe. Ela cansou de garotos que olham para reflexos em vez de pessoas. Quando Scott volta, determinado a conquistar a segunda chance que não merece, Danielle precisa decidir: o garoto que ela amou ainda é o homem parado diante dela? Ambientado no cenário do interior dos Estados Unidos nos anos 90, onde telefones fixos tinham fios que atravessavam corredores, fitas cassete eram cartas de amor e segredos não podiam ser escondidos para sempre, Se Você Tivesse Me Escolhido é uma história doce sobre arrependimento, redenção e o tipo de amor que precisa se quebrar antes de poder cicatrizar. Porque segundas chances não são dadas. Elas são conquistadas.

Status
Completo
Capítulos
22
Classificação
5.0 18 avaliações
Classificação Etária
16+

Effortless

Você já olhou nos olhos de alguém e achou que podia ver a alma da pessoa,

apenas para perceber que ela estava cheia de merda?

Danielle Whitaker já, e isso a pegou totalmente desprevenida.

A fogueira estalou e lançou faíscas no céu denso de julho, com as chamas subindo como se tentassem seguir as estrelas. O lago atrás deles agitava-se com margens escuras e lamacentas, silencioso, mas vigilante, uma paz que eles eram jovens demais para compreender.

Alguém deixou um rádio equilibrado no capô de uma picape, com a antena torta, fazendo uma música country chiada sangrar pela noite. Garth Brooks. Ou Alan Jackson, no cânion não dava para distinguir, mas não importava.

Era verão.

Eles eram livres.

E tudo aquilo era deles.


Scott Reynolds estava de pé, com um pé apoiado em um cooler como se fosse dono da margem.

Ele estava no meio de uma história sobre o técnico Frigs, um lance livre perdido e uma encenação exagerada que deixou Jennifer dobrada de rir, segurando a barriga. Até os rapazes estavam observando-o agora, esperando pela próxima besteira que ele ia soltar.

Scott prosperava naquela pausa, naquele momento antes da risada, quando todos esperavam.

Ele sabia exatamente quanto tempo esticar aquilo.

Ele tinha um jeito impossível de copiar. Leve. Effortless. Como se nunca, em toda a sua vida, tivesse se preocupado com o que saía da sua boca.

O que ela sabia ser mentira.

Como se a atenção não fosse algo que ele buscasse, mas algo que simplesmente o encontrava.

O que era uma mentira.


Danielle o observava do outro lado da fogueira.

As chamas refletiam em seus olhos castanhos, transformando-os em ouro derretido. Fazia com que parecessem mais profundos do que eram. Mais suaves. Gentis, até.

Ela sempre gostou dos olhos dele.

Eram do tipo que significavam algo para uma garota quando mantinham contato por um segundo a mais. Do tipo que faziam você se sentir escolhida quando ele focava em você, caso fosse engraçada. Como se o mundo inteiro tivesse se estreitado, silenciado e se acomodado em algo privado, só para que ele pudesse notar você também.

Como se estivessem só os dois ali.

E talvez esse fosse o truque.


Scott terminou a história com um sorriso que mostrava todos os dentes, e o grupo explodiu em risadas. Alguém o empurrou. Outra pessoa lhe entregou uma cerveja. Ele a pegou com uma mão só, sem olhar.

Effortless. Essa palavra de novo.

Ele escaneou o círculo preguiçosamente, fazendo um inventário de sorrisos e olhares.

E então o seu olhar pousou nela.

Lá estava de novo.

Aquele olhar.

O que parecia um segredo.

Danielle sentiu um frio na barriga, bem leve, do jeito que sempre sentia quando ele a olhava assim. Nada dramático. Não como se ela estivesse desesperada.

Apenas familiar.


Ele inclinou a cabeça em direção a ela.

"Danny", ele chamou por cima da fogueira crepitante, "você lembra disso, né? Quando a Jen chorou porque achou que o técnico ia me deixar no banco?"

Ela sorriu automaticamente. Era memória muscular a essa altura.

"Ela chorou porque você a culpou por ter te distraído. Alguma coisa sobre a vó Na gostar mais dela, então você teve insolação por cortar a grama a semana toda."

Uma onda de risadas se seguiu.

"Viu?", disse Scott, apontando para ela como se ela tivesse provado algo importante. "Ela sabe. Ela estava lá, e a Na gosta mais de mim." Ele apontou para ela como se estivesse gostando da brincadeira, mas fosse fazê-la se arrepender depois.

E essa era a questão sobre o Scott.

Ela estava sempre lá.

Aniversários.

Jogos.

Saídas.

Aulas.

Viagens em família quando ela ia com a prima dele, Jen.

Ela sabia como ele gostava dos ovos. Sabia quais músicas ele aumentava no rádio. Sabia quando ele estava nervoso antes de um grande jogo, porque ele coçava a nuca e fingia que não estava preocupado em ir bem o suficiente para conseguir uma bolsa de estudos.

Ela levava biscoitos para ele quando ela e a avó faziam. Ela sabia que Rocky Road era o favorito dele.

Ela o conhecia.

Ou pelo menos achava que conhecia.


Scott se afastou do círculo e passou entre as cadeiras dobráveis e coolers até parar ao lado dela.

Perto.

Perto o suficiente para que ela pudesse sentir o cheiro da fumaça de pinho impregnado no moletom dele. Perto o suficiente para que, se ela se inclinasse um centímetro, seus ombros se encostariam.

"Você está quieta hoje", ele disse, mais suave agora. "Está com frio?", perguntou ele, percebendo que ela estava segurando o peito.

Por ele, e fez isso. Inclinou-se e roçou o ombro no dele.

"Não, estou apenas ouvindo você."

"A mim?", ele provocou.

Ela deu de ombros. "Você é meio difícil de ignorar."

Ele sorriu com isso, lento, satisfeito, como se tivesse ganhado algo por tê-la feito admitir.

Porque ele não gostava de ser ignorado.

Não por ela.

Não por ninguém.


Danielle já tinha notado isso antes, a mudança sutil quando ela não respondia imediatamente. O jeito que a voz dele ficava um pouco mais alta. O jeito que ele voltava atrás para incluí-la na piada. O jeito que seus olhos buscavam a reação dela primeiro.

Scott gostava de plateia.

E ela sempre lhe deu uma.

Sempre.

Agora ela se perguntava o que ele ganhava com isso, a reação dela... por que ele se importava?


Diante da fogueira, Stephanie Mills riu de algo que Jennifer disse, com um pouco de avidez demais, inclinando-se para trás para tocar o braço de Scott enquanto ria.

Mensagem recebida, território demarcado, Danny bufou e se abraçou com mais força.

Scott não se afastou do toque.

Ele também não encorajou... apenas permitiu, como sempre.

Esse era o seu poder.

Ele viu, tirou rapidamente o moletom e, antes que ela pudesse dizer não, ele já estava colocando sobre a cabeça dela.

"Obrigada", ela murmurou, tentando não respirar tão fundo; a coisa toda cheirava tanto a ele que seus olhos arderam.

Ele girou perfeitamente, redirecionando sua atenção para Stephanie por um breve momento, "Você precisa de alguma coisa? Estamos sendo fofas demais hoje?" Isso a fez corar, então ele olhou de volta para Danielle como se nunca tivesse se virado, como se quisesse dizer: Viu? Ainda sua.

Ainda nossa, seus dedos se curvaram no moletom.

Danielle sentiu uma mudança repentina dentro de si... isso afetou seu corpo inteiro, não apenas seu coração, que ela poderia ter pensado anteriormente ser a fonte.

Não era ciúme.

Não exatamente.

Era consciência.


Ela o viu atuar, viu como ele se alimentava facilmente da energia, como seu tom mudava dependendo de com quem ele falava. Com os rapazes, ele era convencido. Com Stephanie, brincalhão. Com Jennifer, exagerado.

Com ela?

Ele ficava suave.

Mas era o mesmo sorriso. O mesmo ritmo. A mesma pausa ensaiada.

Ela sempre pensou que aquele olhar que ele lhe dava significava algo mais profundo.

Algo mais estável... real.

Mas esta noite, ela notou como ele dava um espelho facilmente para todos os outros.

Não exatamente o que ele fazia por ela, apenas parecido o suficiente para confundi-la.

A mão de Scott roçou seu cotovelo, casual, mas intencional. "Sério? Você está bem?", ele perguntou baixo.

Ela encontrou seus olhos.

Lá estava de novo, aquele foco quase íntimo. Aquele calor.

Como se ela fosse especial.

Como se ela estivesse separada de todas aquelas outras garotas que babavam por ele.

Como se ela fosse a única que realmente o conhecia, e ele concordaria com esse fato.

Independentemente disso, pela primeira vez, Danielle viu como aquilo era de verdade.

Um reflexo.

Scott Reynolds não olhava para as pessoas.

Ele olhava para o que elas lhe davam.

Olhares. Piadas. Elogios.


E quando ele olhava para ela, o que ele via era lealdade. Familiaridade. Uma admiração segura que nunca exigia nada em troca. Apenas proximidade.

Ela tinha confundido olhos suaves, cuidado e, infelizmente, charme com profundidade.

E charme, ela estava começando a perceber, era frequentemente apenas uma bobagem muito bonita.

“Você está no mundo da lua”, disse ele levemente, dando um empurrãozinho nela outra vez. Sem maldade. Mas agora de um jeito mais incisivo.

Como eu disse, ele não gostava quando ela se distraía.

Quando ela parava de alimentar a energia entre eles.

“Eu só estou muito cansada”, disse ela, com os olhos fixos além dele, na direção do lago.

O maxilar dele travou, quase imperceptivelmente. “Cansada de quê?”

Ela quase sorriu com aquilo.

De fingir com você, mas ela não disse isso. Danny nunca era cruel.

Em vez disso, ela desviou o olhar dele, de propósito, para a fogueira, para Jennifer, e para a floresta logo atrás.

“O casamento no sábado, eu venho falando disso há semanas”, disse ela, ainda sem encará-lo. “Tenho trabalhado até tarde todas as noites. Esta era minha única folga, e eu deveria ter ficado em casa.”

E ela sentiu isso.

A mudança sutil.

“Podemos ir embora logo”, disse ele. Scott endireitou a postura após murmurar algo sobre não ter esquecido. Sua voz subiu de tom. Ele voltou para o círculo, mais alto agora, mais expansivo.

Se ela não queria olhá-lo, alguém o faria.

Stephanie se inclinou, apoiando imediatamente o braço no joelho dele.

Claro que ela faria isso.

Danielle permaneceu onde estava.


Ela cruzou os braços, deixando a música envolvê-la, permitindo que a noite se tornasse mais fria. As faíscas da fogueira flutuavam para cima e desapareciam na escuridão, brilhantes por um segundo, e depois sumiam.

Scott riu novamente, com aquele som pleno e confiante, e o grupo se inclinou em direção a ele como uma flor seguindo o sol.

Ela sabia a história de como ele era o único que conseguia dar um mortal para trás saindo do vertedouro, e de como Nate sempre sentia medo, mesmo jogando polo aquático.

Ele lançou um olhar para ela uma vez.

Ela não retribuiu.

Ele continuou falando.

Um segundo depois, olhou de novo.

Desta vez, por mais tempo.

“Danny”, chamou ele, interrompendo sua própria história.

Algumas cabeças se viraram.

Ele não precisava ter chamado a atenção dela daquele jeito.

Mas chamou.

“Está caindo de sono ou o quê?”

O tom foi de brincadeira.

Quase.

Mas havia uma ponta de rispidez ali. Algo como um teste.

Danielle ergueu os olhos lentamente.

“Não.”

A palavra única pairou fria entre os dois.


O círculo silenciou por um breve momento, daquela forma como grupos de amigos fazem quando algo muda, mas ninguém ousa dizer o que é.

O maxilar de Scott tencionou e ele caminhou de volta para ela, oferecendo-lhe uma bebida. Ela recusou com um gesto.

“Você está estranha a noite toda”, disse ele, em voz mais baixa desta vez. Não alto o suficiente para todos ouvirem. Só para ela.

Lá estava, a rachadura se abrindo, de um jeito tão inocente.

Ele não gostava de ser ignorado.

E ela não gostava de ser convocada.

“Eu só não estou com vontade de aplaudir sob comando hoje à noite”, disse ela com calma. “E já ouvi essa história a semana toda. O Nate pode perder a bolsa, você deveria entender isso.”

Stephanie piscou. Danny nunca falava com ninguém daquela maneira.

Jennifer encarou a fogueira como se ela exigisse um estudo profundo de repente.

A boca de Scott se entreabriu um pouco; a surpresa passou pelo seu rosto antes que ele a escondesse com um sorriso.

“Ah.” Ele soltou uma risadinha. “Não sabia que você se importava tanto com o Nate ou que achava que eu precisava de uma placa de aplausos.”

“Você não precisa”, disse ela. “Esse é o ponto.”

O sorriso permaneceu.

Mas, desta vez, não chegou aos olhos dele.


Por um segundo, apenas um segundo, ele pareceu quase… inseguro.

Como se ela tivesse saído de um caminho que ele achava que ambos conheciam, mas quando ele se virou, ela já tinha ido embora.

A fogueira estalou alto atrás deles.

Alguém se mexeu em uma cadeira dobrável por ter rido tanto da imitação que Jennifer fez de um novo comercial de gatos que viu.

Scott olhou para ela de novo, olhou de verdade, e algo mais suave rompeu aquela performance.

“Você é inteligente demais para o seu próprio bem”, disse ele baixinho.

Não foi charmoso.

Não foi suave.

Foi quase constrangedor.

E foi isso que o tornou real.

Danielle piscou.

“O que isso significa?”

Os ombros dele subiram e depois caíram. Um encolher de ombros mínimo que não condizia com sua confiança habitual.

“Significa apenas que…” Ele hesitou, como se as palavras fossem mais difíceis do que deveriam ser. “Talvez eu esteja sendo um idiota.”

A frase poderia ter sido apenas uma cantada.

Mas ele não disse como uma.

Ele não exibiu aquele sorriso.

Ele não ficou olhando para ver quem estava assistindo.

Ele apenas ficou ali, com as mãos nos bolsos, mudando o peso do corpo como se, de repente, se sentisse exposto demais na própria pele.

“Você não precisa fingir que não se importa, quando claramente está chateada”, acrescentou ele, num tom mais suave.

E lá estava.

Não era uma acusação.

Era uma confissão disfarçada de uma.


O peito de Danielle apertou, não porque ele tivesse dito algo romântico.

Mas porque, pela primeira vez na noite toda, ele não estava atuando.

Ele não fazia ideia de como dizer o que sentia sem embrulhar tudo em seu próprio ego.

Não sabia como admitir que, quando ela se afastava, algo dentro dele também perdia o equilíbrio.

Então, ele tentou transformar isso em um defeito dela.

“Eu não sou a pessoa que finge”, disse ela calmamente.

Ele ficou imóvel.

A música no rádio da caminhonete mudou.

Uma brisa soprou do lago, trazendo a fumaça de volta para eles, carregando algo mais frio à medida que a noite avançava.

Scott engoliu em seco.

“Eu não finjo”, disse ele automaticamente.

Mas faltava convicção.

Porque, em algum lugar sob o charme, sob o reflexo de entreter, ele sabia exatamente o que ela queria dizer.

Ele fingia que a atenção dos outros era suficiente.

E, principalmente, fingia que a opinião dela a seu respeito não importava mais do que a de todos os outros somadas.


Do outro lado da fogueira, Stephanie disse algo para quebrar a tensão, precisando da atenção dele. Ela não queria que ele ficasse tanto tempo assim perto de Danny.

Scott não olhou para ela.

Ele ainda estava olhando para Danielle.

Como se tentasse entender quando ela se tornou alguém que ele não conseguia conquistar ou ler automaticamente.

Como se já não conhecesse mais as regras.

E ele odiava isso.

“Esquece”, murmurou ele finalmente.

Ele voltou para o círculo, mais expansivo, mais alto, ligando o charme como se fosse um interruptor.


O ritmo recomeçou como sempre acontecia.

Mas, desta vez, quando ele riu, o som pareceu um pouco forçado demais.

Danielle o observava agora, não com saudade; sempre fora algo mais profundo do que isso.

Não com mágoa; ele jamais a magoaria. Ela sabia disso também.

Mas com clareza.

Porque agora ela via.

A rachadura.

O fio da pá onde algo quase vulnerável jazia antes que ele o enterrasse.

Scott Reynolds não sabia como se importar com intenção.

Ele só sabia se importar de forma barulhenta ou não se importar de jeito nenhum.

Através de piadas e besteiras.


Ele a olhou mais uma vez.

Só conferindo.

Garantindo que ela ainda estava lá.

Ela estava.

Mas não da mesma forma que estava desde que ela tinha oito anos.

Por anos, ela olhou nos olhos dele e achou ter visto algo constante ali.

Nesta noite, percebeu que estivera encarando a si mesma.

A percepção não doeu completamente.

Ainda não.

Apenas resfriou algo dentro dela.

Ela não se sentia mais a escolhida.

Sentiu uma percepção que, ela aprenderia mais tarde, era o começo de tudo.