Prólogo
Um mês após salvarem a cidade de North Hollywood e muitos civis inocentes, os Savage Saints tinham um problema.
Tínhamos nos tornado os vilões de Los Angeles.
Logo após o ocorrido, em vez de entenderem o que tinha acontecido e reconhecerem que caras como Splitter e eu tínhamos intervindo para impedir que os Devil’s Mercenaries causassem mais danos, a imprensa e o público simplesmente viram um tiroteio com um monte de gente em motos e concluíram que os MCs tinham virado MGs — gangues de motociclistas. Eles nem se deram ao trabalho de investigar por que aparecemos; viram apenas os fatos externos: todos andávamos de moto, usávamos coletes e muitos de nós éramos cobertos de tatuagens.
Só recorremos à violência para evitar uma violência ainda mais cruel. Ao contrário do que meu tamanho e minha postura sugeriam, eu não gostava de guerra. Eu tinha visto a verdadeira guerra de perto, e não havia a menor possibilidade de eu querer que alguém do clube tivesse que passar por isso. Guerra era o que a humanidade fazia quando a comunicação falhava. Com a minha experiência, meu trabalho era tentar abrir canais de comunicação.
Mas, até agora, isso tinha falhado.
“O que você tem para nós, BK?”
Todos os olhares se voltaram para mim na nossa reunião. O presidente do clube, Trace, estava sentado à minha esquerda, fumando um cigarro. À minha direita, fechando o círculo até Trace, estavam Sensei, Sword, Mafia, Krispy e Splitter — o homem que muitos consideravam responsável pelo tiroteio em North Hollywood. Eles não entendem. Eles nunca se dão ao trabalho de perceber que o homem que chegou em segundo raramente é o que começou a confusão.
“Nada bom”, eu disse por trás dos meus óculos escuros.
Eu não gostava de falar muito, especialmente perto dos membros do clube. Tínhamos problemas sérios para resolver, e quanto mais as pessoas enrolavam, mais tempo perdíamos.
“Ok, bem, o que nós tentamos?”, perguntou Sensei. “Com certeza fizemos alguma coisa que funcionou, não?”
“Pedimos uma parada, pedimos serviço comunitário. Rejeitado em ambos os casos.”
Deixei por isso mesmo enquanto o silêncio pairava sobre a sala. Eu tinha muitas ideias na cabeça, é claro — a mais notável delas sendo que precisávamos
fazer com que as autoridades de North Hollywood e Green Hills se envolvessem diretamente para que pudéssemos começar uma conversa. Não adiantava tentar chegar ao público quando membros da câmara municipal e funcionários do legislativo espalhavam histórias sobre como um novo prospect do nosso clube foi pego urinando em público numa terça-feira à noite.
Mas o lance de ser um fuzileiro naval era que você era treinado apenas para responder à pergunta feita e nada mais. Pelo menos, foi o que eu aprendi. Funcionava muito bem quando eu era interrogado pela polícia e por autoridades federais, e funcionava muito bem quando se tratava de cumprir meus deveres como Sargento de Armas.
O que eu lutava para admitir, até para mim mesmo, no entanto, era que isso tornava coisas como relacionamentos e namoro extraordinariamente difíceis. Eu simplesmente não conseguia me abrir e revelar mais do que estava na minha cabeça naqueles momentos. Eu tinha um pressentimento terrível de que, se alguém visse o pesadelo que estava constantemente acontecendo dentro da minha mente, eles iam querer acabar com o meu sofrimento por uma questão de misericórdia.
Infelizmente, eles não seriam os únicos a pensar assim.
“Que ideias nós temos, BK?”, disse Splitter. “Eu não resgatei a Amber só para um bando de paparazzi babacas ficarem tirando sarro da gente nos noticiários e terem isso reforçado por um bando de vizinhos de merda.”
“E você não fez”, disse Trace para acalmar o, às vezes, superemocional Splitter, antes de passar a bola para mim.
“Precisamos ir às prefeituras”, eu disse, atraindo olhares arregalados e surpresos que ignorei. “Convencemos o governo de que somos gente boa, então as pessoas vão entrar na linha.”
Acho que todo mundo no clube visualizou naquele momento meus quase dois metros de altura e cento e quinze quilos entrando com meu colete, óculos escuros e colar, sentando na frente de todos e ditando como as coisas seriam. Era uma imagem divertida, e eu não ignorava como meu tamanho poderia ser usado a meu favor, mas aquilo também me subestimava grosseiramente.
Mas, para falar a verdade, era assim que eu gostava. Eu não queria que ninguém tivesse uma medida correta a meu respeito, e isso valia até para os membros dos Savage Saints. Todo mundo achava que eu era puro músculo, e eu fazia o possível para manter essa imagem. Mas poucos — talvez Trace, talvez Sensei — tinham a verdadeira noção da inteligência que eu tinha por trás desse corpo tamanho NFL.
“Desculpe, você vai explodir eles?”, disse Krispy rindo. “Você acha que consegue convencer um bando de políticos engomadinhos de que somos gente boa? Isso parece um ótimo jeito de nos fazerem odiar ainda mais!”
“Não é a pior ideia”, disse Trace. “Nós realmente não expandimos nosso alcance além de Green Hills—”
“Com um excelente motivo!”, disse Splitter. “Somos um fucking moto clube, Trace, não a Sociedade Protetora dos Animais! Não podemos simplesmente entrar numa cidade nova em nossas motos e achar que as pessoas vão nos receber de braços abertos!”
A tensão estava aumentando na sala e, como de costume, eu apenas recuei e deixei acontecer. Se virasse briga, ninguém ali tinha meu porte para separar. O mais próximo era provavelmente Sword, mas ele era uns quinze anos mais velho que eu. Splitter também era grande, mas não era treinado em combate corpo a corpo como eu.
“Nenhum de nós perguntou ao BK o que ele planeja fazer nessas reuniões na prefeitura”, disse Trace lentamente, tentando acalmar a sala para igualar ao seu ritmo. “Então, BK, você poderia explicar melhor o seu pensamento?”
“Claro”, eu disse, garantindo que estava sentado com a postura ereta. “Convencer as cidades a fazerem um trabalho conjunto. Podemos patrocinar uma iniciativa. Podemos fazer um evento de caridade. Podemos ajudar a organizar um desfile.”
Algumas risadinhas surgiram, mas o olhar severo de Trace as interrompeu.
“Qualquer coisa que fizermos para mostrar que gostamos de Green Hills e de North Hollywood já será bom.”
“De fato”, disse Trace. “Tenho que ser honesto, porém, BK. Por mais que eu goste da ideia, o Krispy tem um ponto. Muitos desses políticos vão se cagar de medo se virem você entrando pela porta. Eles vão te julgar imediatamente.”
Eu queria muito interromper naquele momento e explicar que poderia ser assim pelo primeiro meio segundo, mas não duraria mais do que isso. Mas, como muitos outros hábitos que eu tinha, aprendi nos Fuzileiros que você não ousava interromper o líder. Era um ótimo jeito de acabar no chão ou ser rebaixado.
Assim que tive certeza de que ninguém ia me interromper, continuei.
“Discordo, senhor”, eu disse. “Será mais poderoso se eles começarem assim e depois mudarem de ideia. Um homem que muda de opinião costuma ser mais zeloso do que aquele que sempre acreditou em algo.”
Vi várias expressões de surpresa e até alguns sorrisos pelo que eu tinha dito. Eu sou mais inteligente do que as pessoas pensam. Eu não queria dar o braço a torcer, no entanto, então mantive minha expressão neutra.
“Bem, no final das contas, BK, você está encarregado de limpar nossa imagem, então se você acha que vai funcionar, eu digo que vá em frente”, disse Trace. “Mas nos mantenha informados, por favor.”
“Sim”, eu disse.
A reunião passou então para alguns outros tópicos muito mais leves, notadamente sobre como, no ritmo que os caras estavam arrumando namoradas, logo teriam que dar uma festa de despedida para os seus dias de solteiro. Eu bufei em um momento — o mais perto que cheguei de rir em público — mas foi o tipo de coisa que mais doeu. Eu não era incapaz de amar, mas…
Com tudo o que eu tinha passado, com tudo o que sabia sobre a vida e com o trauma do meu passado, eu não via como poderia amar de novo. Eu podia fazer sexo, claro, mas estar apaixonado?
Nem ferrando.
Graças a Deus todo mundo assume que fico quieto porque sou sempre quieto.
Pouco tempo depois, Trace bateu o martelo, sinalizando o fim da reunião. Assim que me certifiquei de que todos tinham ido embora e que nenhuma briga aconteceria, fui até minha moto enorme, dei partida no motor e acelerei para o meu próximo destino.
A reunião na prefeitura de North Hollywood.
* * *
Em todo o meu tempo como consultora de marketing e proprietária da minha empresa, a MWM Solutions, eu nunca tinha aceitado uma entidade governamental como cliente.
Mas, dado tudo o que North Hollywood — e, por extensão, a cidade de Los Angeles — tinha passado no último mês, eu não podia culpá-los por me contratarem, ou qualquer consultor de marketing, na verdade. Era o tipo de cenário de pesadelo que apenas algumas dúzias de pessoas no mundo provavelmente tinham experiência, e dessas poucas dúzias, talvez dez também tivessem o treinamento e a compreensão adequados de como as relações públicas funcionavam para lidar com isso da melhor forma.
Eu não tinha experiência em lidar com um tiroteio público, mas em minha carreira trabalhando em diversas empresas, de associada de marketing a diretora de marketing, eu tinha visto quase todo outro tipo de cenário e tinha confiança de que poderia entregar algo de valor para a cidade.
Foi assim que, naquele dia, o prefeito de North Hollywood me apresentou ao conselho, um grupo de oito pessoas ao todo, para explicar o que precisavam fazer para recuperar a confiança do público.
“A primeira coisa a entender é que, queiram ou não, os cidadãos vão acreditar que a cidade está tomada pelo crime”, eu disse. “Vocês podem mostrar todas as estatísticas que quiserem sobre como North Hollywood é mais pacífica que, digamos, Santa Monica, mas a história agora é que North Hollywood é o lugar onde o crime acontece. Como resultado, todos vocês, independentemente de onde se posicionam no espectro político, precisam começar a prometer que serão duros contra o crime.”
Eu gostava de começar minhas reuniões com algo que sabia que incomodaria alguém no grupo, nem que fosse apenas porque isso fazia as pessoas sentarem e prestarem atenção rapidamente. Alguns dos membros mais liberais do conselho ouviriam a frase “duro contra o crime” e a associariam imediatamente a um estado autoritário, mas esse não era nem de longe o meu objetivo. Eu já tinha dito coisas que irritaram todos os tipos de pessoas antes; o objetivo não era provocar ou zombar, mas chamar a atenção do indivíduo.
Era nisso que o marketing se resumia, afinal: como você cria uma mensagem convincente o suficiente para que a pessoa que você quer que te ouça realmente o faça?
“Isso significa que vocês precisarão se comprometer a fazer coisas como arrecadar dinheiro para a polícia, impor toques de recolher, aplicar penas com mais rigor, e assim por diante.”
“Se me permitem”, disse um homem branco mais velho, com uma barba longa, quase grande o suficiente para tocar na base da mesa. “Essas propostas não levantarão preocupações sobre haver ‘coisa demais’?”
Era óbvio, pelas aspas feitas com os dedos e pelo tom que ele adotou, que ele achava que eu tinha pisado em um terreno fora da minha área de especialidade. Ele deu um sorriso presunçoso, recostou-se na cadeira e até cruzou as pernas, a apenas um passo de colocá-las em cima da mesa.
Felizmente, eu sabia outra coisa sobre uma boa reunião de marketing:
— não bastava mostrar a eles por que o consumidor, ou o civil, neste
caso, apreciaria e notaria o marketing. Eu também precisava apresentar por que isso beneficiaria o profissional de marketing; caso contrário, qual era o sentido? De que servia a atenção se a atenção não era o que o profissional de marketing queria?
“É inteiramente possível que, após um longo período de tempo, quando o tiroteio se tornar menos uma memória emocional e mais uma nota de rodapé histórica nesta cidade, que sim, preocupações sejam levantadas”, eu disse calmamente, mantendo minhas mãos ao lado do corpo. “Mas no curto prazo, entre agora e o ciclo eleitoral daqui a um ano?”
Eu não precisei dizer mais nada. As expressões nos rostos de todos me disseram o suficiente. Um político não teme nada mais do que não ser reeleito. Ser derrotado nas urnas por não ter reprimido o crime o suficiente, mesmo para os mais progressistas, não era algo que qualquer um deles estivesse disposto a enfrentar.
“Entendido”, disse o homem, com a voz tão baixa que não tenho certeza se teria ouvido se o ar-condicionado não estivesse ligado.
“Eu entendo a preocupação”, eu disse, demonstrando um pouco de empatia na esperança de me conectar melhor com o cliente. “Mas tenham em mente que, agora, estamos falando de uma estratégia para o próximo ano. Qualquer coisa além disso é nos pedir para formular um plano para eventos que não podem ser previstos. Isso não é um filme ou um lançamento de produto; isso é uma questão governamental.”
“Entendo, eu só...”
Mas eu me esforcei para ouvir o homem barbudo, porque lá fora, um barulho preenchia o ar, o que parecia quase ironicamente sombrio, considerando o motivo pelo qual estávamos ali em primeiro lugar.
O som de uma motocicleta se aproximando da prefeitura.
Ficou cada vez mais alto, até que o barulho foi tão intenso que nenhum de nós fingiu continuar conversando. Nós apenas esperamos até que o som parasse. Achei tudo quase engraçado, mas os políticos certamente não acharam.
Na verdade, pelo que parecia, os políticos estavam quase se mijando de medo. Se eu tivesse visto seus rostos em particular, sem gravadores, talvez eu tivesse soltado alguns palavrões para tirá-los daquele estupor do caralho.
Em público, no entanto? Eu estava determinado a falar menos palavrões e ser mais profissional que o papa no Natal.
“Enfim”, eu disse. “Aquilo lá fora, esse som que vocês acabaram de ouvir? Quero que pensem em como os cidadãos se sentem agora quando ouvem isso.”
Tive a tentação de apontar o medo deles; pelo menos eles não achariam difícil se identificar com o que os cidadãos sentiriam em relação à motocicleta. Mas fazer isso seria quase como zombar deles, provocá-los por sentirem medo. E dado que ainda faltava um pouco para termos um relacionamento profissional de verdade, algo em que a MWM Solutions realmente tivesse um contrato com o governo, eu queria manter as coisas o mais amigáveis e leves possível.
“Se vocês não acham que isso não é incentivo suficiente para ser duro contra o crime, então estou feliz em realizar pesquisas. No entanto...”
Minha voz silenciou quando, na sala dos fundos, vi um homem enorme, com provavelmente mais de dois metros de altura, com braços que pareciam bolas de boliche, um peitoral feito para competições de Homem Mais Forte do Mundo e um rosto severo que parecia pertencer a um policial, entrar.
Exceto que esse obviamente não era um policial. Ele usava uma camisa sem mangas, jeans rasgados, óculos escuros e uma jaqueta sem mangas que exibia o símbolo de algum tipo de gangue de motoqueiros... acho que é gangue. Eu tinha ouvido dizer que eles usavam um nome diferente, mas dado o que aconteceu aqui um mês atrás, era difícil imaginar que esses motoqueiros... seja lá o que forem, não fossem violentos e encrenqueiros.
“Posso ajudar?” perguntou uma mulher do conselho.
A mulher parecia tão ansiosa que era como se o próprio diabo tivesse acabado de entrar.
“Isso é uma reunião pública, certo?” Droga. É mesmo. Tecnicamente falando... “Estou aqui para a reunião pública.”
Eu não vi motivo para ignorar o elefante na sala, especialmente quando o tal elefante era a razão de todos estarem morrendo de medo de sair às ruas. Não abordar o problema era como ignorar o medo que todos sentiam.
“O que você veio fazer aqui, motoqueiro?” eu disse.
Eu não fui cáustico, mas certamente não fui amigável. Eu disse “motoqueiro” como se esse fosse o nome dele.
“É BK”, ele disse com uma voz grossa. “E vim para consertar as coisas.” “Ah é?” eu disse, arqueando uma sobrancelha, esperando que ele explicasse. Mas, em vez disso, ficamos sentados em silêncio.
Por um longo tempo.
Por um tempo muito longo.
Por um tempo muito, muito, muito desconfortavelmente longo.
“E como você pretende consertar as coisas?” eu disse, cruzando os braços. O homem deu de ombros.
“Esperando entender vocês primeiro”, ele disse. “Depois vamos apresentar uma solução.”
Ok, ele está deliberadamente nos enrolando. Esse motoqueiro não teria aparecido sem ter algo a dizer.
“Você quer uma solução?” eu disse, sem me dar ao trabalho de esconder meu aborrecimento. “Então você pode sair. Você já causou problemas suficientes nesta cidade, e eu não vou deixar você entrar aqui e intimidar ninguém.”
O homem, que não se deu ao trabalho de tirar os óculos escuros, continuou me encarando. Houve uma parte de mim que sentiu como se estivesse encarando o Exterminador, tão frio e sem emoção. Foi um pouco aterrorizante, até mesmo para alguém como eu, que não se assustava facilmente.
“Se quiséssemos causar problemas”, ele disse, “você acha que eu viria?”
A declaração, embora tivesse um fundo de verdade, não ia me convencer.
me.
“Eu sei como vocês trabalham”, eu disse. “Vá embora. Vocês são odiados em Los Angeles.
A melhor coisa que você pode fazer, se não quer causar problemas? Mude-se para outro condado. Vá para outra parte da Califórnia. E não volte mais.”
O homem cruzou os braços, suspirou e então se levantou — muito, muito lentamente, como se estivesse nos desafiando a pedir que ele se apressasse em sair dali.
“Reserve um tempo para pesquisar, aprenda a diferença entre um Saint e um Merc”, ele disse, palavras que eu não entendi. “Esta não é minha última vez aqui.”
Com isso, o homem enorme saiu — mas não antes de tirar um tempo para olhar para cada pessoa na sala, como se estivesse avisando que a retribuição estava próxima.
A última pessoa para quem ele olhou fui eu, e eu só desejei poder vê-lo sem seus óculos escuros.
Eu queria que ele soubesse que, não importa o quanto ele me encarasse, eu não seria intimidado. Se ele queria se esconder atrás de óculos escuros, que assim fosse.
Mas eu não ia deixar a imagem da cidade ser atropelada por um bando de motoqueiros fora da lei e marginais.