Capítulo 1
Capítulo 1
O chiado do chuveiro já tinha parado há muito tempo, deixando para trás apenas o gotejar da torneira e o silêncio profundo que se tornou a trilha sonora do casamento de Lilith Brielle Carter. Ela estava parada na porta do quarto, com um roupão de seda amarrado frouxamente sobre a pele ainda úmida, observando o marido. Devan Emmanuel Carter estava sentado na beira da cama king-size, de costas para ela, seus ombros largos em silhueta contra a luz fraca de um único abajur. Ele rolava a tela do celular, o brilho pálido iluminando um rosto que, para qualquer outra pessoa, era devastadoramente bonito. Para Lilith, era o rosto de um estranho.
Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias disso. De silêncio, de indiferença, de ser apenas uma peça de decoração requintada no museu da vida dele. Ela tinha tentado de tudo: jantares à luz de velas para os quais ele estava ocupado demais, conversas que ele dispensava com um resmungo, buscar por ele no escuro e encontrar apenas um homem virado para o outro lado, um muro de músculos e gelo às suas costas. Ela já o tinha amado um dia, ou pelo menos amado a ideia dele; o homem charmoso e intenso que a tinha arrebatado. Mas esse homem desapareceu no momento em que a tinta secou na certidão de casamento, substituído por este... este carcereiro.
Esta noite, o silêncio parecia diferente. Mais pesado. Ele a pressionava, sufocante. O gotejar da torneira soava como uma contagem regressiva.
"Devan", disse ela. Sua voz era baixa, mas cortou a quietude como uma lâmina.
Ele não levantou os olhos. "Hum?"
Ela respirou fundo para se acalmar, os dedos apertando o batente da porta. "Precisamos conversar."
"Tenho uma chamada de conferência em vinte minutos", disse ele, o polegar ainda movendo a tela. "Pode esperar?"
Não. Não pode.
"Não", disse ela, a voz mais firme agora. "Não pode."
Com isso, ele finalmente olhou para cima. Seus olhos, de um castanho profundo e penetrante, encontraram os dela. Não havia curiosidade neles, nem preocupação. Apenas um leve aborrecimento. Ele deixou o celular de lado e recostou-se, observando-a com o interesse distanciado que alguém dedicaria a uma proposta de negócios pouco interessante. "Fale, então."
Lilith entrou no quarto, seus pés descalços silenciosos sobre o carpete felpudo. Ela parou a poucos passos dele, perto o suficiente para ver a tensão em seu maxilar, mas longe o suficiente para sentir o abismo entre eles. Ela tinha ensaiado isso cem vezes em sua cabeça, mas agora, diante dele, as palavras pareciam desajeitadas, inadequadas.
"Eu não estou feliz, Devan."
Ele ergueu uma sobrancelha, um lampejo de algo — diversão? — cruzando seu rosto. "É mesmo?"
"Este casamento", continuou ela, forçando-se a sustentar seu olhar, "não é um casamento. É uma... uma coexistência. Compartilhamos uma casa, um sobrenome, mas não compartilhamos uma vida. Você não fala comigo. Você não me vê. Eu só estou aqui."
Devan levantou-se lentamente, esticando sua estatura elevada. Ele era imponente, sempre fora. Fazia parte de seu poder. Ele caminhou em direção a ela, não com agressividade, mas com um passo deliberado e medido que a fazia se sentir menor. Ele parou bem na frente dela, tão perto que ela teve de inclinar a cabeça para trás para encará-lo.
"Você está aqui porque é onde pertence", disse ele, sua voz um rosnado baixo. "Você tem tudo o que poderia desejar. Esta casa, os carros, as contas bancárias. O que mais existe?"
"Amor", sussurrou ela, a palavra soando frágil e tola no espaço entre eles. "Cuidado. Companheirismo. Você ao menos sabe qual é minha cor favorita, Devan? O último filme que eu quis ver? O nome da minha melhor amiga?"
Ele a encarou, indiferente. "Eu sei que você é minha esposa. Isso é tudo o que importa."
A simplicidade de sua declaração, a lógica fria e insensível dela, quebrou algo dentro dela. O último fio de esperança ao qual ela se apegava se rompeu. Este não era um homem que pudesse ser alcançado. Este era um homem que definia o amor como posse.
Ela respirou fundo, sua decisão se cristalizando em uma verdade dura e inabalável. "Não. Não é. Isso não é o suficiente para mim. Não tem sido há muito tempo." Ela encontrou seu olhar e, pela primeira vez em um ano, não sentiu medo. Apenas uma determinação cruel. "Eu quero o divórcio, Devan."
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O gotejar da torneira pareceu parar. O ar ficou denso, elétrico. A expressão de Devan não mudou, mas algo se alterou em seus olhos. O leve aborrecimento desapareceu, substituído por um lampejo de algo muito mais perigoso. Uma possessividade profunda e primitiva.
Antes que ela pudesse reagir, a mão dele disparou e fechou-se em torno de seu pulso. Sua pegada era de ferro, os dedos cravando em sua carne. Ele a puxou para frente, e ela tropeçou contra ele, sua mão livre se apoiando no peito sólido dele. Ele a empurrou para trás até que a beirada da escrivaninha, ao pé da cama, atingisse suas coxas, prendendo-a entre a madeira dura e seu corpo implacável.
"Não", disse ele, sua voz baixa e áspera, um contraste gritante com a calma que ele exibia momentos antes. "Você não vai a lugar nenhum. Você vai ficar bem aqui comigo."
Seu rosto estava a centímetros do dela, o hálito quente contra sua pele. Ele abaixou os lábios até a orelha dela, seu sussurro uma carícia venenosa. "Você é minha, Lilith. E eu não vou deixar você ir. Você vai aprender a adorar ser minha."
Sua respiração falhou, mas não foi desejo que contraiu sua garganta, e sim um choque frio e agudo de medo. Este era um lado de Devan que ela só tinha vislumbrado antes, uma sombra que ela sempre preferiu ignorar. Ela pressionou as mãos contra o peito dele, tentando afastá-lo, mas ele era um muro de granito, imóvel.
Mas o medo, tão rápido quanto veio, endureceu em outra coisa. Uma fúria fria como o aço. Esta era a resposta dele. Não uma súplica, não uma promessa de mudança, mas um comando. Uma declaração de propriedade.
Ela parou de empurrar e encontrou seu olhar, seus próprios olhos ardendo com um fogo que ele não via há um ano. "Não, Devan. Eu não vou."
Ele piscou, surpreso com o desafio. Ela aproveitou o momento de hesitação dele para soltar as palavras, os meses de dor e solidão finalmente encontrando sua voz.
"Passei um ano esperando que você se importasse comigo. Um ano esperando que você me amasse da maneira que um marido deveria amar sua esposa. Eu te dei todas as chances, engoli todos os desprezos, me convenci de que você estava apenas ocupado, apenas estressado, que o homem com quem me casei ainda estava em algum lugar lá dentro." Sua voz falhou, mas ela não parou. "E você não estava. Você nunca ao menos tentou."
Ela puxou o pulso e, desta vez, surpreso com a força de suas palavras, a pegada dele relaxou o suficiente para que ela se soltasse. Ela recuou, colocando a escrivaninha entre eles. O maxilar de Devan se travou, suas mãos se fechando em punhos ao lado do corpo, mas ele não se moveu.
"Você só me quer agora porque acha que está me perdendo", disse ela, sua voz ganhando força a cada palavra. "Mas amor não é posse, Devan. Não é controle. Não é uma gaiola. E eu não sou sua."
Ela se virou, pegando sua bolsa na poltrona onde a tinha deixado antes. Ela o ouviu dar um passo à frente, as tábuas do chão rangendo sob seu peso. Mas, desta vez, ela não recuou. Ela se virou para encará-lo, o queixo erguido, seu olhar inabalável.
"Eu estou indo embora. Não porque você está me deixando, mas porque eu estou escolhendo isso. E não há nada que você possa fazer para me impedir."
Ela passou por ele, o coração martelando contra as costelas, um tambor frenético contra o silêncio. Mas seus passos nunca hesitaram. Ela não olhou para trás. Não desta vez. Nunca mais.
Ela estava na metade do caminho para a porta quando a voz dele a parou.
"Você acha que eu não te amo?"
A pergunta estava carregada de descrença, com um tom áspero e amargo. Ela parou, a mão no encosto de uma cadeira. Ela não se virou.
"Você acha que eu não me importo?" continuou ele, a voz subindo. Ela ouviu seus passos, mais lentos desta vez, mais deliberados. Ele não estava atacando; ele estava perseguindo. "Eu te dei tudo! Luxo, conforto, segurança. O que mais você quer?"
Ela se virou então, o maxilar tenso, as mãos cerradas em punhos. Ela encontrou seu olhar flamejante. "Eu queria você, Devan. Não seu dinheiro. Não uma gaiola de ouro. Eu queria um marido que realmente me visse. Que se importasse. Que amasse. Não um homem que me vê como apenas mais um de seus ativos."
O rosto dele ficou vermelho, a raiva transbordando. "Você queria que eu bajulasse você? Que eu te adorasse como uma espécie de deusa? Novidade, Lilith: eu não sou esse tipo de homem." Ele deu mais um passo à frente, sua presença sufocante, sua voz baixando para um rosnado sombrio e possessivo. "Eu sou um homem que pega o que quer. E eu quero você."
Ela não se moveu. Não piscou. Seu pulso batia em seus ouvidos, uma maré rugindo, mas ela manteve sua posição. "E é exatamente por isso que eu estou indo embora."
Algo brilhou nos olhos dele. Confusão, talvez, ou descrença. Mas logo foi engolido por uma onda de fome desesperada. "Eu farei o que for preciso para manter você."
Lilith exalou lentamente, balançando a cabeça. Ela quase sentiu pena dele. Ele realmente não entendia. "Essa é a diferença entre nós, Devan. Amor não é sobre tomar. É sobre dar." Ela passou por ele, sua mão finalmente alcançando o latão frio da maçaneta. "E eu cansei de dar para alguém que nunca deu a mínima para mim."
Ela girou a maçaneta. A porta abriu uma fresta, deixando entrar um pouco do ar frio do corredor.
"Não se afaste de mim, Lilith!" A voz dele rugiu atrás dela, crua e trovejante, sacudindo as próprias paredes. "Você não vai a lugar nenhum!"
Ela ouviu o trovão dos passos dele, sentiu a mudança no ar quando ele avançou. Sua mão disparou, os dedos alcançando, prontos para agarrar, para puxá-la de volta para o mundo dele. Mas antes que ele pudesse tocá-la, ela se virou, os olhos brilhando. Não com medo, mas com algo mais frio. Algo definitivo.
"Tente, Devan. Eu desafio você."
Ele congelou. Sua mão estava a centímetros do braço dela, seu peito arfando, seus olhos selvagens. Ele olhou para ela — realmente olhou para ela — e, pela primeira vez, um lampejo de algo que não fosse raiva cruzou seu rosto. Era a constatação. Ele estava perdendo-a. E, apesar de todo seu poder, todo seu dinheiro, toda sua força bruta, não havia nada que ele pudesse fazer para impedir.
"Você é minha, Lilith..." disse ele, sua voz baixa e rouca, as palavras um fantasma de um comando.
Ela sustentou seu olhar, sua voz suave, mas inabalável. "Eu nunca fui sua."
Com isso, ela se virou, abriu a porta e saiu. Ela não correu. Ela caminhou, a espinha ereta, cada passo uma declaração de liberdade. Ela não ouviu passos atrás dela. Ele apenas ficou ali, ela sabia, afogando-se no silêncio que ela deixou para trás.
Ela estava no topo da escada quando ouviu a porta se abrir com um estrondo novamente.
"Lilith!"
A voz dele estava mais próxima desta vez, mais desesperada. Ela o ouviu na escada, seus passos pesados ganhando terreno. O medo, frio e agudo, finalmente perfurou sua determinação. Ela apressou-se, a mão deslizando pelo corrimão polido. Mas antes que ela pudesse chegar ao final, a mão dele disparou e agarrou seu braço, girando-a.
Ele a puxou dois degraus para cima e, antes que ela pudesse reagir, ela sentiu a parede contra suas costas. Ele a encurralou, seu corpo a mantendo presa, seu aperto nos braços dela implacável. Sua respiração estava irregular, seu rosto contorcido com uma necessidade desesperada e distorcida.
"Eu não me importo", rosnou ele, sua voz um murmúrio baixo e ameaçador contra a pele dela. "Você não vai a lugar nenhum. Você vai ficar bem aqui comigo." Seu corpo pressionou o dela com mais força, prendendo-a. Seus olhos queimavam nos dela. "Você vai aprender a me amar, Lilith. Você vai aprender a me obedecer."
As palavras arderam, cortando o que restava de sua bravata. Ela parou de lutar. O fogo em seus olhos, o brilho desafiador que ela sustentou tão ferozmente, oscilou e diminuiu. O peso do ano, deste momento, da presença esmagadora dele, pressionou-a, ameaçando sufocá-la. Seu corpo ficou imóvel, suas mãos caindo sem vida ao lado do corpo. Ela apenas... parou.
Os dedos de Devan cravavam-se em seus braços como um torno, sua respiração quente e furiosa contra o rosto dela. Então, um lampejo de algo cruzou suas feições. Consciência. Ele olhou para baixo, para onde a segurava, para a brancura de seus nós dos dedos, e sua pegada relaxou, apenas um pouco.
"Não me obrigue a machucar você, Lilith", disse ele, sua voz mais calma, mas ainda assim sombria. Um fio de algo quase como desespero se entrelaçava em suas palavras. "Eu não quero machucar você."
Ela engoliu em seco, seu corpo tremendo, mas não era mais de medo. Era de uma exaustão profunda, uma derrota absoluta. Ela inclinou a cabeça para trás contra a parede, seu olhar desfocado, seus lábios se entreabrindo, mas nenhum som saindo. Ela apenas exalou, um som trêmulo e partido, e seus ombros se curvaram.
"Tudo bem..." ela sussurrou. Sua voz estava oca, vazia. O som da rendição.
Devan a estudou, seu aperto ainda firme, sua expressão mudando de raiva para confusão. Ele esperava mais fogo, mais da luta que tinha acabado de testemunhar. Mas isto? Esta cessação completa de vontade? Isso o perturbava mais do que qualquer desafio dela jamais poderia.
Ele a puxou para mais perto, seus braços envolvendo-a em um gesto que era meio abraço, meio aprisionamento. "Isso", murmurou ele contra o cabelo dela, sua voz suave agora, como se acalmasse um animal assustado. "Apenas aceite."
Mas Lilith não respondeu. Ela era uma boneca nos braços dele, presente, mas ausente. Suas mãos, antes tensas contra o peito dele, jaziam sem vida. Sua respiração era lenta, constante e totalmente vazia. Ele a segurou, esta mulher que ele tinha reivindicado, e por um momento, ele sentiu um lampejo de triunfo. Ele tinha vencido. Ela tinha parado de lutar.
Mas enquanto ele a segurava, um fio frio de dúvida se enrolou em suas entranhas. Ela estava quieta. Quieta demais. Como um pássaro que se chocou contra as barras de sua gaiola tantas vezes que finalmente apenas... parou. Ele queria que ela fosse sua, mas olhando para seus olhos vazios, ele se perguntou se não tinha acabado de quebrar a própria coisa que estava tentando manter.
O pensamento foi fugaz, empurrado de lado por sua necessidade possessiva.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para ela, o maxilar travado. "Não faça isso", rosnou ele, dando-lhe um leve sacolejo. "Não se desconecte de mim, Lilith. Eu quero você presente. Eu quero que você seja minha."
Ele abaixou os lábios até a orelha dela novamente, suas palavras uma afirmação sombria e possessiva. "Você é minha, Lilith. Não se esqueça disso."
Ela não respondeu. Não recuou. Ela apenas respirava. Lento. Constante. Vazio. Ele a observava, procurando por qualquer sinal da mulher que tinha o desafiado a tocá-la apenas alguns minutos antes. Mas tinha desaparecido. Esvaziada. A percepção fez seu maxilar se travar com algo que parecia perturbadoramente com culpa.
Ele empurrou o sentimento para longe. Ele era Devan Carter. Ele não sentia culpa.
"Agora, venha comigo", ordenou ele, sua voz firme. Ele manteve um aperto firme no braço dela, guiando-a para longe da parede e subindo as escadas. Seu estômago deu um nó, mas sua expressão não mudou. Ela olhou para ele, mas não havia nada em seus olhos. Nenhum medo. Nenhum desafio. Absolutamente nada.
Ele a arrastou para frente, de volta para o quarto deles. "Vamos para o quarto", disse ele, sua voz pingando com uma sombria finalidade. "Vou mostrar a você o que significa ser minha."
Ele estava triunfante. Ele achava que tinha vencido. Ele a puxou consigo, sua mente já tecendo uma teia de controle que ele envolveria em torno dela, cada vez mais apertada, até que ela nunca mais pudesse partir.
Ele não notou o brilho no olhar dela, apenas por um segundo, em direção ao abajur de cristal pesado sobre a mesa do corredor. Ele não viu seus olhos traçarem o caminho para a porta atrás dele, agora fechada e aparentemente a quilômetros de distância. Ele não sentiu a mudança sutil na postura dela enquanto seu peso se reajustava, seus músculos se contraindo com uma energia escondida e desesperada.
Ele não viu a tempestade que estava, silenciosa e pacientemente, se formando por trás de seus olhos vazios.
Ela exalou, inclinando a cabeça apenas levemente, sua voz pouco acima de um sussurro — calma, aceitando, mas não derrotada.
"Tudo bem..."
Devan deu um sorriso presunçoso, um lampejo de triunfo em seus olhos escuros. Ele a puxou para mais perto, levando-a em direção ao quarto, acreditando que finalmente tinha quebrado ela.