UM DIA TARDE DEMAIS

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Resumo

Mary Josephine Lisalle esperou quatro anos pelo retorno de seu escolhido, James Wilks, da guerra. Eles foram feitos um para o outro, mas o destino interveio. Quando ele finalmente retorna, o tempo mudou tudo. E segundas chances não vêm facilmente... especialmente quando existe outro homem.

Status
Completo
Capítulos
35
Classificação
5.0 1 avaliação
Classificação Etária
16+

18 de janeiro de 1865: Uma Proposta

Fevereiro pousou sua mão pesada sobre Lexington, Missouri, cobrindo os campos de branco e paralisando o movimento do rio, como se a guerra tivesse congelado não apenas os homens, mas também as perspectivas.

Em uma estação como esta, as decisões são tomadas menos por desejo e mais pela lenta pressão das circunstâncias.

Mary Jo vivia com uma esperança silenciosa, daquelas que não se dizem em voz alta por medo de serem contrariadas.

Seu pai, Edward Lisalle, ficou parado no batente da porta por tempo suficiente para que o frio o seguisse. Ele mantinha a mão apoiada na madeira, como se a própria casa pudesse tombar sem ele.

Seu casaco cheirava levemente a lama do rio e fumaça de lenha, com a barra gasta e brilhante de tanto que ele roçava naquele mesmo batente.

A filha ergueu os olhos do cesto de costura, assustada com a solenidade em sua postura. Ele não falou logo de imediato; ele nunca o fazia. Deixou o silêncio se instalar — tornar-se o caminho pelo qual ela teria que seguir.

“Mary Jo”, disse ele por fim, com a voz baixa, quase como se pedisse desculpas, como se fosse ler para ela uma previsão do tempo que ele não poderia mudar. “O mundo não está parado esperando. O tempo tem consequências. Você já tem vinte e cinco anos. Uma boa idade, mas já passou da época em que a maioria dos homens procura uma esposa. Você sabe disso tão bem quanto eu. Os homens foram todos embora, servindo em ambos os exércitos, e não sabemos por quanto tempo.”

Mary Jo ficou imóvel, observando-o.

“Sua vida não pode ficar suspensa para sempre. O tempo seguiu em frente, mesmo que a sua esperança por James não tenha feito o mesmo.”

Novamente, Mary Jo observou e esperou.

“Recebi uma visita esta manhã”, disse ele.

Ela piscou, com a agulha parada no ar. “Uma visita?”

Ele assentiu, entrando e fechando a porta com a delicadeza de um homem que sabe que o barulho destrói muito mais do que o silêncio jamais destruiria. “Mitch Williams.”

Sua respiração falhou. Edward viu isso. Ele sempre via tudo.

“Ele veio tratar de um assunto de… consequência”, continuou ele, acomodando-se na cadeira à frente dela.

Ele cruzou as mãos longas, da maneira que um pastor faria antes de proferir uma escritura indesejada. “Ele pediu… permissão para se casar com você.”

A agulha escapou de seus dedos.

Em casas como a deles, notícias desse tipo raramente chegavam como uma pergunta. Chegavam como as estações do ano — lentamente, inevitavelmente e sem se importar com os desejos daqueles que precisavam vivê-las.

Seu rosto não mudou, mas seus lábios ficaram brancos — como os de alguém que recebeu um golpe fulminante sem aviso e que nem percebeu o que aconteceu.

Seus traços estavam tão parados enquanto ela encarava Edward que ele assumiu, sem questionar, que ela estava apenas surpresa.

Seu pai não se moveu para pegar a agulha. Ele a observou com aquela paciência grave e tingida de tristeza que se tornou a marca dos pais em tempo de guerra. “Eu sei que é repentino”, disse ele. “Mas a rapidez é como as coisas funcionam agora. O mundo não espera por nenhum de nós.”

Ela balançou a cabeça, mal conseguindo respirar. “Mas… James…”

“James?” Edward ergueu a mão, não para silenciá-la, mas para suavizar o impacto. “Minha querida… não tivemos nenhuma notícia de James Wilks em quatro anos. Quatro.”

Sua voz afinou, como a corda de um violino esticada demais. “Se ele estivesse vivo… teria dado um jeito de mandar notícias. Nem que fosse um bilhete. Mas não temos nem sequer um rumor.”

Mary Jo olhou para o assoalho, como se as tábuas pudessem contradizê-lo.

O quarto ao seu redor trazia as marcas de um lar enfrentando seu quarto ano de guerra. O tapete trançado estava gasto onde botas haviam passado por muitas estações; a mesa de nogueira exibia uma mancha pálida onde uma chaleira quente ficara por tempo demais.

Tudo no ambiente tinha um ar de que era usado muito além de seu tempo de vida, pois nada novo podia ser obtido.

Seu olhar vagou até o daguerreótipo de seu irmão, George, sobre a lareira — seu uniforme cinza ainda impecável, seus olhos ainda brilhantes, como se não soubessem da bala que o encontraria meses depois.

A guerra o levara sem cerimônia; levaria suas escolhas com a mesma frieza.

Ela se recostou, encolhendo um pé sob a cadeira.

Seu coração falhou no peito; uma sensação de desastre a pressionava. Havia dor e perplexidade em seu rosto, a perplexidade de uma mulher cuja fé sempre a guiara, mas que agora, vivendo apenas de esperança, estava diante da aspereza da vida.

Ela teria que se casar com Mitch Williams.

Mitch, o melhor amigo de James — mas não o dela.

Mitch sempre achava que era mais inteligente do que qualquer um, e talvez fosse. Mas casar-se com ele significava uma vida sendo interrompida, tolerada e convencida a ficar em silêncio.

Uma vida de ordens.

Não de amor.

O jeito como ele interceptava perguntas feitas a ela e as respondia por conta própria, como se ela nem estivesse lá.

E que tipo de pai Mitch seria?

Edward inclinou-se para frente, com os cotovelos nos joelhos, da forma como ele faz quando está prestes a dizer uma verdade que ninguém quer ouvir.

“Filha… o cemitério está cheio de homens disponíveis. Mais de cem homens só desta cidade. Rapazes com quem você cresceu. Homens que dançaram nas suas festas da colheita. Não resta viva uma alma com menos de quarenta e cinco anos, além de Mitch.”

Ele deixou que isso pesasse, como a fumaça de charuto de que aqueles homens acima de quarenta e cinco anos tanto fediam.

“Você não tem outras propostas”, disse ele. “Não há mais ninguém, Mary Jo. Não agora. O que um dia imaginamos ser real seguiu o caminho dos barcos a vapor — coisas bonitas, mas que não se veem por aqui há muitos meses.”

Ele continuou. “A guerra dizimou as fileiras da esperança tão certamente quanto dizimou as fileiras dos homens. Precisamos escolher a partir do que resta, não do que imaginávamos no passado.”

Ela se sentiu enrijecer. É nesses instantes que o futuro de uma jovem muda de eixo, embora o movimento seja sutil demais para ser sentido a princípio.

Mary Jo, que vivera vinte e cinco anos acreditando que a felicidade era algo natural, agora se via confrontada com a aritmética da sobrevivência.

Ela engoliu em seco. “Mitch só pede isso porque o Exército o quer.”

“Sim”, disse Edward simplesmente, pesando cada palavra antes que saísse de sua boca. “E porque ele precisa de alguém sob sua dependência para evitar ser recrutado pelo Exército da União. Mas necessidade não é pecado. Não em tempos como estes.”

Mary Jo não respondeu.

Mitch.

Ah, não podia ser verdade! Seu pai estava enganado. James não podia, de jeito nenhum, estar morto. Ele voltaria. Ela esperaria por ele. Não havia nenhuma notícia, nenhuma carta provando que ele estava morto.

Edward pausou, estudando o rosto dela. Sua mão apertou o braço da cadeira, como se ele se preparasse para a próxima verdade.

“Mitch é um homem… constante, com uma excelente posição como contador na casa de navegação local. Um futuro com o qual você pode contar. E ele sempre teve apreço tanto por você quanto por James, sempre desejou o melhor para ambos.”

“Sim… Mitch sempre foi constante.”

Constante em fingir uma coragem que nunca possuiu.

Constante em sumir de vista sempre que o perigo chegava a menos de um quilômetro dele.

Ele é um homem que ensinaria seu filho a se esconder e sua filha a se calar. Ele é o último homem no mundo com quem eu poderia ser convencida a me casar.

Seu coração endureceu.

Lá fora, ouviu-se o som distante e fúnebre de um sino, o rio Missouri seguindo lento e escuro sob sua camada de gelo, carregando a memória de cada soldado de Lexington que o atravessou e não retornou.

Nomes que incluíam o de James Wilks.

Ela reuniu forças para insistir no contrário.

Não. Aquele sorriso, aquela risada, aquele estrondo profundo em sua voz como um gato grande ronronando. Não, ele não poderia estar morto. Deus não deixaria isso acontecer. “Se James estivesse morto, a Confederação teria anunciado.”

Ela tinha passado por cada jornal impresso sobre cada batalha que listava os mortos — milhares — às vezes duas ou três vezes, e o nome dele nunca estava neles.

O rosto de Edward assumiu aquele olhar vazio, comum aos homens que passaram quatro anos esperando por notícias que nunca chegaram.

“Minha querida, os desaparecidos em combate nunca são listados como mortos”, suspirou ele, relutante. “A vida de uma mulher não é feita no brilho da paixão, Mary Jo, mas no longo crepúsculo que se segue. A paixão se consome; a confiabilidade mantém um teto sobre a cabeça da gente. Mitch oferece isso.”

“Eu escolho acreditar que James está vivo.”

“Você pode escolher acreditar, mas isso não torna a coisa real. Você pode esperar, sim. Pode manter a fé em um fantasma. Mas os anos não manterão a fé em você.”

Os olhos de Mary Jo dispararam.

Ninguém poderia estar apaixonada por Mitch.

Ah, ele era bonito o suficiente, uma figura decente, mas não havia nada de caloroso nele. Ele calculava o amor como calculava livros-razão, onde os ativos e os passivos sempre se equilibravam.

E ela nem o via há meses — sempre escondido dos comissários de alistamento.

Ele não aparecia em Lexington há mais de duas vezes desde a festa que deu no ano passado em Wild Oaks.

Não, Mitch não podia acreditar que ela estivesse apaixonada por ele, porque — ah, ela não podia estar enganada — porque ela estava apaixonada por James! James era quem ela amava — e Mitch sabia disso!

Os olhos de Mary Jo brilharam. “Mas eu amo o James.”

A voz de Edward suavizou para um sussurro. “E James te amou o suficiente para não te prender à viuvez antes que os votos fossem trocados. Aquela foi a escolha dele, e uma boa escolha. Esta aqui…”

Ele gesticulou para a janela, para o mundo congelado, a cidade esvaziada pela guerra, a longa estrada de anos pela frente. “Esta é a sua. Você pode envelhecer aqui e esperar… ou pode seguir em frente.”

Ele recostou-se na cadeira, deixando que o peso do momento repousasse onde deveria. “Minha filha… a vida não nos dá as combinações que sonhamos. Apenas as combinações com as quais podemos viver. E Mitch Williams é um homem com quem você poderia viver.”

Mitch Williams não deixara pegadas na neve lá fora ao visitar seu pai — ele viera mais cedo pelos fundos, como os homens que evitam os comissários de alistamento aprendem a fazer.

A própria ausência dele na cidade nestes últimos meses tornou-se uma espécie de presença, um lembrete do alcance da guerra até mesmo nos esconderijos onde os homens tentavam escapar dela.

Era uma das ironias que a vida reserva aos jovens: a constância de Mary Jo, que um dia poderia ter sido considerada uma virtude, agora servia apenas para estreitar seu caminho.

“Eu não gosto dele.”

Uma lufada de vento sacudiu a vidraça, espalhando um punhado de granizo contra o vidro — lembretes pequenos e afiados de que o mundo lá fora não se importava nada com as esperanças de uma mulher solteira.

Seu pai respirou fundo, percebendo sua relutância.

“Mitch não é o homem que você sonhou. Sonhos raramente são os homens com quem nos casamos. Mas ele é um homem que o mundo deixou para você. E o mundo não está inclinado a lhe deixar outro.”

Mary Jo olhou para o nada, sentindo algo dentro de si esfriar, como se James tivesse acabado de morrer em seu coração, e não em um campo de batalha.

“Quando?”

“Ele deve se apresentar à junta de alistamento em três dias, prazo em que já deve estar casado. Se você não consentir, ele encontrará outra que o fará. E ele não terá que procurar muito longe nem por muito tempo.”

Não. Ele não teria. Ele tinha uma centena de viúvas e mulheres solteiras sem propostas para escolher, e ele tinha suas virtudes.

Ela conseguiria suportar um casamento sem amor, desde que fosse um lar cheio de calor, e não de medo.

O que ela não suportaria seria um pai que ensinasse seus filhos a se esconderem do perigo — ou pior, que os expusesse a ele.

O vento soprou novamente, mais forte desta vez, como se o próprio clima estivesse impaciente com sua hesitação. Nunca lhe ocorrera que o amor pudesse ser um luxo, como tecido importado ou açúcar, disponível apenas em anos em que o mundo não estivesse se queimando em cinzas.

O vento esperava pela sua decisão. Pela primeira vez, ela viu que sua escolha moldaria não apenas sua vida, mas a vida que seus filhos conheceriam e quem eles seriam ensinados a admirar.