Capítulo 1
A música pulsava pelo corpo de Sara, um ritmo que lhe fazia esquecer os últimos meses de esforço e noites em claro a terminar o mestrado. Entre luzes estroboscópicas e risadas altas, ela ria com Madalena e Ana Rita.
— Vou só à casa de banho e volto já! — gritei por cima do som para as minhas amigas.
— Tens a certeza, Sara? — perguntou Ana Rita, preocupada.
— Sim, claro. Não preciso de babysitters — ri-me. — Divirtam-se, eu volto já, não te preocupes que não me demoro.
Afastei-me do grupo e dirigi-me à casa de banho. Enquanto retocava o batom em frente ao espelho, comecei a ouvir gemidos vindos de uma das cabines e aproximei-me devagar.
Aí… sim. Isso, não pares, Nuno — gemia a rapariga por detrás da porta. Ela nem sussurrava, gritava para todos ouvirem.
— Porra, Nuno! Isso… isso! Mmmmmm, vai mais depressa, oh sim, aí mesmo. Diz-me, diz que eu sou muito melhor que a Sara, melhor que todas as que já tiveste.
Não podia crer no que estava a ouvir. Fiquei em choque, paralisada, as mãos trémulas a tapar a boca. O Nuno nem hesitou em responder:
— Aí sim, amor… Hum… és muito… melhor… que ela! — disse, ofegante. — Bem melhor que to…
Não consegui aguentar mais. A porta estava entreaberta e dava para ver praticamente tudo. Com raiva, dei um pontapé com todas as forças naquela maldita porta.
— Mas que merda está a ser isto! — berrei.
— Sara… — disse o Nuno, a vestir-se às pressas. — Olha, não é o que estás a pensar!
— A pensar eu? Eu só penso no que os meus olhos e ouvidos veem — gritei. — Há quanto tempo isto dura?
— Ouve, eu posso explicar — disse, tentando tocar-me.
— Não encostes um dedo a mim, percebes? Tenho nojo de ti. Sai da minha frente!
Ele pôs-se entre mim e a porta de saída.
— Sara, espera! Não vás, deixa-me explicar — agarrou o meu braço.
Cheia de raiva, puxei o braço com força.
— Ouve-me, Nuno. Acabou-se tudo entre nós. Não quero que sequer voltes a aparecer à minha frente, percebes? — mandei-lhe um murro bem no nariz. Ele agarrou-se imediatamente ao nariz a sangrar, e eu passei por ele a correr, só queria sair dali.
De repente, esbarrei em alguém super musculado.
Não podia ser… tinha que ser logo nele? Logo agora? — pensei para mim.
— Sara, és tu? O que se passa? Estás a chorar? Quem te magoou? Diz-me, eu vou-lhe partir os dentes! — disse Francisco, o melhor amigo do meu irmão do meio.
— Não se passa nada, deixa-me em paz. Já estou de saída — tentei passar por ele, rezando para que me deixasse ir.
Mas ele puxou-me gentilmente pelo braço, e quando me puxou para o peito dele e me abraçou… não aguentei mais e desmoronei.