Capítulo 1: Contando Histórias do Passado
POV de Renae
Dias atuais…Ano de 2040
As tábuas do piso rangiam sob meus pés enquanto eu andava de um lado para o outro, um hábito que sempre denunciava meu nervosismo. O que eu deveria dizer a ela? Sussurrei para o ar vazio.
Minha filha, Araana, estava esperando na sala de estar. Aos dezessete anos, ela tinha uma fome de histórias que parecia nunca ser saciada. Olhei para a porta, dividida entre o conforto das velhas lendas e a vulnerabilidade da verdade. Devo contar a ela um conto de fadas? Ou deveria finalmente revelar a verdade sobre quem eu costumava ser?
Respirei fundo, ajeitei o cabelo e entrei na claridade da sala.
"Era uma vez", comecei, minha voz diminuindo enquanto eu testava, "existia uma..."
"Ah, não! Isso de novo não, mãe!", Araana interrompeu, o nariz franzindo daquela maneira brincalhona e teimosa que ela tinha desde criança. "Por favor, chega de 'era uma vez'."
Fingi uma aparência de profunda ofensa, pressionando a mão contra o peito. "O quê? Minhas histórias são clássicos! O que há de errado com elas?"
"Tudo!", ela riu, inclinando-se para frente. "Elas são seguras demais. Eu quero algo real. Me conte uma história sobre você. Me conte como era quando você tinha dezessete anos."
A palavra dezessete me atingiu como uma onda física. Uma onda de calor — metade nostalgia, metade dor — floresceu em meu peito. Olhei para ela, realmente olhei para ela, e vi o reflexo de uma garota que eu costumava conhecer.
Devo?, eu me perguntei. Os doces, as comédias, os amargos e os segredos no meio disso tudo? Assenti lentamente, mais para mim mesma do que para ela. Era hora.
"No meu tempo...", comecei, as datas já se formando atrás dos meus olhos como tinta em uma página. "Era a primeira semana de setembro de 2015. Eu tinha exatamente a sua idade. E é aí que a história de verdade começa."
Deixei o silêncio se prolongar, observando o jeito que ela se encolheu no sofá, com os olhos fixos em mim como se eu estivesse prestes a entregar-lhe um mapa do tesouro.
Lá fora, o sol da tarde se inclinava baixo pela janela, pintando o ambiente em um dourado cor de mel. Por um momento, o cheiro do presente desapareceu, substituído pelo fantasma da grama recém-cortada e pelo ar úmido e elétrico de um verão que já se foi há muito tempo.
Um leve sorriso tocou meus lábios. Eu podia ver agora: os portões imponentes da universidade, o borrão aterrorizante do primeiro dia e o toque de algo mágico esperando logo ali na esquina.
Minha voz ficou firme, os fios do passado começando a se desenrolar.
"Era uma terça-feira", sussurrei, "e eu não fazia ideia de que meu mundo estava prestes a mudar..."
Flashback de Renae para o passado... 25 anos atrás...
Ano de 2015, setembro....
A transição foi instantânea. O cheiro da minha sala de estar desapareceu, substituído pelo aroma de couro caro de carro e pelo ar úmido e expectante de uma manhã de verão.
Aos dezessete anos, minha casa sempre parecia grande demais. Meus pais eram fantasmas em suas próprias vidas, assombrados por reuniões de negócios e agendas sociais que nunca pareciam incluir a mim.
Minhas únicas âncoras eram Anna, minha babá — a guardiã dos meus segredos — e Jerry. Meu irmãozinho tinha apenas oito anos na época, um menino doce e nerd com óculos grandes demais que sempre escorregavam pelo seu nariz. Senti falta do seu sorriso banguela enquanto eu ficava parada diante do meu espelho, com o coração um "emaranhado de nervos".
Como é a aparência de um estudante universitário? Rolei a tela do meu iPad, olhando blogs de moda, tentando encontrar uma versão de "mim" que se encaixasse nesse novo mundo. Finalmente, peguei minhas chaves, sussurrei um rápido
"Foco, Renae", para o meu reflexo, e fui para a garagem. Passei pelo jardim — nossa "selva colorida" de 350 plantas que Anna, Jerry e eu cultivamos com tanto trabalho — e dirigi em direção ao meu futuro.
Quando cheguei ao campus, não encontrei uma biblioteca silenciosa. Encontrei uma explosão de cores.
Faixas agitavam-se na brisa e a música batia forte no ar. Parecia menos uma escola e mais um festival.
"Tem... uma festa hoje?", perguntei a um estudante encostado em uma parede de tijolos.
Ele soltou uma risada amigável. "Você deve ser nova. Sou Michael, do segundo ano." Ele apontou para o nome gravado no meu chaveiro. "E você é a Renae, certo?"
"Primeiro dia", admiti, com a voz baixa. "Pode me chamar de Ree."
"Bem-vinda ao 'Carnival of Virtual Games', Ree", Michael explicou, com os olhos brilhando. "Empresas de jogos tomam conta do campus todo ano. Eles até buscam por dois vencedores — um menino e uma menina — para competir profissionalmente. Você se interessa?"
Hesitei. Eu tinha ouvido os céticos chamarem os jogos de distração, um "desperdício de tempo", mas, parada ali no sol, parecia algo mais. Algo emocionante.
Então, o ar pareceu mudar.
Um homem caminhou pelo meio da multidão, e foi como se a música tivesse diminuído. Ele era alto, marcante, com uma aura que fazia as garotas que flertavam ao seu redor parecerem apenas ruído estático. Ele nem sequer olhou na direção delas. Só de vê-lo, meu coração falhou uma batida — uma dor estranha e aguda que eu não sabia nomear.
"Aquele é o dono de uma das gigantes dos jogos", Michael sussurrou com um sorriso sugestivo.
Meu pulso tamborilava contra minhas costelas. Foco, repreendi a mim mesma. Você está aqui por causa da ciência da computação, não por causa de estranhos bonitos. "Você não está enganando ninguém", Michael provocou, notando meu olhar distraído. "Onde sua mente foi parar?"
"Para a floresta", brinquei, e compartilhamos uma risada que quebrou a tensão.
Quando cheguei à minha primeira aula, o mundo parecia menor e mais gentil. Uma garota chamada Tiara me chamou com um sorriso caloroso, e nosso professor, Andrew Fredrickson, começou a falar. Ele era jovem, brilhante, e enquanto falava sobre os mistérios dos códigos, percebi que eu não estava apenas começando uma graduação.
Eu estava começando uma aventura que nunca imaginei que aconteceria....
De volta ao presente…
Olhei para Araana, que estava sentada em silêncio, com os olhos pesados de expectativa. Sorri, pronta para continuar, mas o cansaço da memória pediu uma pausa gentil. "E foi assim que começou", disse suavemente.
O ambiente mergulhou em uma calma serena, uma ponte entre o passado e o presente. Esta era a história que eu prometi contar.