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A Queda de Esferus

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Resumo

Como escapar de uma Voz que mora dentro da sua própria mente? Enquanto o planeta Esferus entra em colapso, Danros lidera um êxodo final para salvar seu povo tanto de uma catástrofe global quanto da tirania dos Árbitros. Descubra as origens do Universo "Captive" neste emocionante prequel standalone.

Gênero
Scifi
Autor
YanaMishou
Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
4.0 1 avaliação
Classificação Etária
13+

Fall of Esferus

Fall of Esferus (história de prelúdio de Captive of the Moon)

​Caminhando devagar sobre suas três pernas, que não paravam de se enredar nas dobras do manto, Danros percorreu o longo corredor da nave estelar "Wanderer".

​— É agora — cem tambores ecoavam em sua cabeça.

— É agora, é agora... — a Segunda Voz repetiu de forma desagradável.

Como ele desejava se livrar dela! Por que havia esperado que, assim que escapassem dos Árbitros, essa "função" implantada à força desapareceria? Ou teriam entrado em uma fenda codificada que não passava de uma armadilha?

​— Preciso verificar o centro de controle — disse Danros em voz alta, falando consigo mesmo.

​Desta vez, a Segunda Voz que habitava sua mente ficou em silêncio.

​Ele andou e andou — o corredor, como se enfeitiçado, não dava sinais de ter fim. Centenas de portas à esquerda e à direita observavam seus passos desajeitados em silêncio reprovador.

Ele sabia que atrás de cada uma daquelas portas estavam as pessoas a quem havia prometido uma vida — uma vida nova e feliz em outro planeta. Elas o haviam escolhido, acreditado nele, o seguido. Os últimos Esferians, sobreviventes das catástrofes anômalas em Esferus.

Mesmo através das portas fechadas, Danros sentia os olhares deles, pesados de esperança, e os dois corações em seu peito começaram a disparar numa corrida frenética.

​— E se não tivesse funcionado?...

​A Segunda Voz ficou em silêncio novamente, e isso trouxe um lampejo de esperança. Ela raramente se calava — na maioria das vezes, repetia os pensamentos do hospedeiro ou, com mais frequência, emitia ordens.

A Voz vinha dos próprios Árbitros, mas o cérebro a percebia como se fosse sua. Desobedecê-la era quase impossível.

​Danros parou, apoiando-se na parede do corredor. Seus olhos encontraram uma pequena rachadura, cuidadosamente vedada por alguém com "cola inteligente" azul-escura. Assim como a Grande Fenda... uma memória aterrorizante veio à tona — a agonia de Esferus.

O pequeno planeta violeta, cercado por suas cinco luas, havia queimado diante de seus olhos. Danros tinha certeza: ninguém a bordo daquela nave seria capaz de apagar os eventos daqueles dias finais da memória.

​Primeiro vieram as ondas de terremotos. Por sorte, pouparam as cidades mais vitais e populosas, mas desencadearam um tsunami devastador. As águas de Esferus eram pesadas, e ver uma onda se erguer até os céus — sem limites, sem fim — era algo que gelava o sangue.

Despencando sobre os campos dourados de muff, varrendo aldeias inteiras de agricultores, a água — a mesma água celebrada nas canções folclóricas de Esferus como dadora de vida — agora a tomava de volta. O fundo do mar ficou exposto. Sobre o lodo cinza-escuro, ofegando com os olhos arregalados, jaziam criaturas marinhas — mas a atenção dos Esferians estava fixada na enorme fenda que ameaçava partir o planeta ao meio.

Aquela fenda não podia ser vedada com cola inteligente. Dela, assim como dos Árbitros, a única saída era fugir — e precisavam fazer isso o mais rápido possível.

​Respirando fundo, Danros ergueu o manto e apressou o passo em direção ao tão aguardado ponto de controle.

​— A culpa é dos Árbitros — ele continuou a murmurar para si mesmo. — Tudo isso é culpa deles!

​Danros não tinha certeza se a Segunda Voz havia desaparecido de sua cabeça, mas sabia com toda a certeza que Esferus havia entrado em colapso por causa do clã dominante. Outrora, eram meros entusiastas da tecnologia — e quem em Esferus não amava a tecnologia? Ela curava doenças, construía cidades maravilhosas, e até aquela poderosa nave estelar que usavam para escapar não teria sido construída sem os novos avanços...

Mas não era suficiente para os Árbitros. Foram além, foram fundo. Substituindo metade de seus órgãos internos por mecânica, passaram a se imaginar semideuses, esqueceram as leis da natureza e decidiram reconstruir o mundo do zero. Mas o mundo se recusou...

E assim, rachou.

​Danros soltou uma risada amarga ao lembrar como os Árbitros foram dos primeiros a correr para a nave estelar assim que as coisas pioraram. Como seus rostos, que já haviam perdido a capacidade de expressar emoção, ainda brilhavam com o Auris — a marca na testa dos Esferians, prova de energia no corpo... prova de uma alma. Nos Árbitros, ele brilhava num vermelho intenso e furioso. Aquela cor refletia várias emoções ao mesmo tempo: raiva, medo e agressão.

​— Fugiram que nem ratos! — Danros acelerou o passo.

​A escotilha — a entrada para a ponte principal — já estava à vista. Só mais alguns metros, ele pensou, e de repente parou.

Uma das portas laterais se abriu: uma menina saiu. Um turbilhão de emoções e pensamentos conflitantes o tomou de assalto: Eu disse para não saírem! Por que ela deixou a cabine? É só uma criança, Danros. Acalma-te. Ele já não sabia mais qual voz era qual.

​O Auris em sua testa brilhou com um espectro de cores do arco-íris e logo se apagou. Ele retomou o controle de suas emoções.

​— Olá, Líder Danros — disse a menina timidamente, segurando um brinquedo — um ping rosa de corda. Era rechonchudo, de pernas curtas, coberto de pelo macio.

​— O que você está fazendo aqui, criança? Volte para sua cabine! Onde está sua família?

​— Eu... aqui... isto é para você — ela estendeu o brinquedo para Danros. — E eu não tenho mais família.

​Ele mal conseguiu conter um suspiro pesado ao receber o presente de suas mãos pequenas e quentes.

​— O nome dele é Ruru. Fique com ele. Eu tenho outro — um de verdade. Você vai nos salvar, vai? — A menina sorriu de repente, e seu sorriso pareceu iluminar até as luzes fracas do corredor.

​— Você tem um ping vivo? — A raiva de Danros pela pequena infratora desapareceu por completo.

​— Tenho — ela riu. — Quer ver?

​Por um momento, ele hesitou. Quando dera a ordem para iniciar o embarque, nem havia pensado em salvar animais, pássaros ou peixes... apenas Esferians e água. As lágrimas vieram aos olhos.

Essa menina salvou um ping?! Será que ela foi a única a trazer um animal de estimação?

​Com um suave chiado, outra porta se abriu, depois outra, e mais outra. Os Esferians, cansados de ter medo, saíram com reverências para receber seu Líder escolhido — o ancião do clã militar.

Danros olhou para o seu povo: exaustos, rostos inchados de tanto chorar... e sorrindo. E o mais importante: conduziam pings rosados e zerises fofos; carregavam gaiolas de pássaros, e alguém até trouxe um par de enormes cavalos Esferians cobertos de lã encaracolada — routaks.

​— Vamos conseguir, Líder! — Phadeon se aproximou de Danros. Era robusto, nervudo. Um "normal" — bípede. Havia sido designado para supervisionar o embarque dos sobreviventes.

​Danros ficou parado em silêncio atônito, sem acreditar no que via. Precisava dizer algo, mas as palavras não conseguiam passar pelo nó na garganta. Ele sentiu o Auris brilhar e sabia que parecia um velho fraco e sentimental, não o líder que alguém gostaria de seguir... mas não se importou.

Os sorrisos de mulheres e crianças que ele não conhecia, as mãos dos homens estendidas para um aperto — tudo isso lhe dizia: ele não estava sozinho. Eles haviam saído, desafiando as ordens, para dividir com ele o peso insuportável da responsabilidade. Danros se endireitou e acenou com a cabeça, ainda sem conseguir falar. Os Esferians explodiram em aplausos...

***

​Ele chegou à ponte de controle com a ajuda de Phadeon. Todos os sistemas estavam no verde, e à esquerda do trajeto deles pendia um planeta azul desconhecido.

​— Que beleza... parece Esferus — Phadeon ampliou a imagem no painel cem mil vezes. — Infelizmente, já é habitado... mas é tão bonito!

​— Bonito de verdade — Danros concordou, semicerrando os olhos. — E grande. Tem espaço para todos.

​Ele piscou, colocou a nave estelar em modo furtivo e ajustou o curso — direto para o planeta azul.

​— Tem espaço para todos, tem espaço para todos — a Segunda Voz ecoou de volta como um sussurro frio e gelado.

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