Capítulo 1 Grimaldi
O dia amanheceu estranho.
O sol brilhava forte demais para um céu tão silencioso. O ar estava pesado - denso a ponto de quase sufocar. O tempo parecia se arrastar com uma lentidão incômoda, como se hesitasse em avançar.
Nem os pássaros cantavam
O silêncio não era comum. Era... avisado.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Algo estava errado.
Não era paranoia. Não era drama artístico. Era instinto. E meu instinto raramente falha.
Algo devastador estava prestes a acontecer.
Fecho os olhos com força e balanço a cabeça.
- Bloqueio criativo - murmuro para mim mesma.
Estou há semanas sem conseguir pintar nada que preste. Talvez minha mente esteja criando tempestades onde não existem. Talvez eu esteja apenas cansada. Sensível. Dramática.
Ou talvez o universo esteja sussurrando algo que eu ainda não consigo entender.
Levanto da cama abruptamente, como se ficar ali fosse pior. Sigo direto para o banheiro. Preciso lavar essa sensação.
A água quente cai sobre mim, escorrendo pelos ombros, pelas costas, levando embora - ao menos por alguns segundos - aquela tensão invisível. Fecho os olhos e me forço a imaginar algo bonito.
Uma cachoeira.
Uma clareira aberta.
Árvores em tons de verde musgo e verde-claro cercando a água cristalina que despenca com força e graça. A luz atravessa as folhas, criando reflexos dourados na superfície.
É perfeito.
Puro.
Intocado.
Mas então, por um instante - rápido demais - a água cristalina da minha imaginação escurece.
Como se estivesse manchada.
Abro os olhos abruptamente, o coração acelerado.
Estou ficando louca.
Saio do banho e encaro meu reflexo no espelho embaçado. Limpo o vapor com a mão.
Minha pele está avermelhada pela água quente. O contraste com meus cabelos ruivos acobreados é intenso. Meus olhos violetas parecem mais escuros hoje. Mais profundos.
Mais atentos.
Sempre dizem que sou diferente. Exótica. Marcante. Palavras que soam como elogio, mas pesam como aviso.
Nunca gostei de chamar atenção.
E, ainda assim, sempre fui impossível de ignorar.
Escolho roupas confortáveis - calça de alfaiataria bege estilo jogger, blusa branca leve, sapatilhas neutras. Discreta. Controlada. Normal.
Eu preciso que hoje seja normal.
Desço as escadas e o cheiro de café fresco me envolve. O som baixo de risadas ecoa pela sala de jantar.
E então eu os vejo.
Meu pai, com sua postura segura e olhar verde-musgo fixo na minha mãe como se ela fosse a única mulher no mundo. Minha mãe, com os cabelos ruivos como os meus e olhos azul-safira brilhando enquanto ri de algo que ele sussurrou.
Eles sempre foram assim.
Amor fácil. Amor leve. Amor inteiro.
É perfeito.
Perfeito demais.
Um pensamento atravessa minha mente como uma lâmina:
Tudo que é perfeito demais... quebra.
- Qual o motivo do sorriso, filha? - minha mãe pergunta, percebendo meu olhar.
Sorrio de volta. Automático.
- Eu só estava pensando na sorte que vocês dois têm... - digo suavemente. - E se algum dia eu vou ter isso também.
Meu pai troca um olhar rápido com minha mãe.
Rápido demais.
Quase imperceptível.
Mas eu vejo.
E naquele instante, o mal pressentimento volta.
Mais forte.
Como se estivesse apenas esperando.