Lâminas da Aurora - Ruptura - Livro 2

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Resumo

Ele domina o gelo. Joga sujo. E não abre espaço para ninguém em seu caminho—exceto ela. Lennox ergueu muros de um passado do qual não consegue escapar, e uma vida que mal consegue sobreviver. Declan é o caos embrulhado em músculos e intensidade, o tipo de homem capaz de destruir tudo—ou salvar. Quando seus mundos colidem, faíscas voam, segredos se desfazem e o desejo se torna perigoso. Em um jogo onde as apostas são altas e cada movimento é calculado, a única coisa desprotegida são seus corações. Mas eles conseguirão sobreviver ao choque—ou a queda os destruirá?

Status
Completo
Capítulos
24
Classificação
5.0 2 avaliações
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

Declan Storm

Os Hurricanes perderam tarde, e os Blades avançaram para a Final da Copa. Depois, levaram o título.

Eu disse a mim mesmo que estava feliz por eles. Besteira. Eu estava com inveja.

O jogo doze foi a noite em que tudo deu errado. A noite em que acertei Knox Callahan e o deixei com uma concussão feia o suficiente para mandá-lo pro hospital.

Se foi uma jogada limpa ou não, ainda pesa no meu estômago como uma pedra.

Todo mundo disse a mesma coisa. Limpa. Legal. Faz parte do jogo. Não importava. Porque eu sabia que tinha um nível a mais que não precisava usar, e usei mesmo assim.

Eu patinei mais forte. Bati nele com mais força. Quis deixar claro. E deixei. Só que não do jeito que eu aguentaria viver com isso.

Fui ao hospital depois me sentindo um lixo. Knox não me culpou. Não olhou pra mim com raiva. Se é que fez alguma coisa, me tratou melhor do que eu merecia.

Isso só piorou as coisas. Muito pior.

Algumas noites depois, eu e uns caras do time saímos pra desopilar, beber um pouco, esquecer a temporada, esquecer a derrota, esquecer tudo.

Não adiantou. Porque, por mais alto que o bar estivesse, por mais doses que chegassem à mesa, eu ainda via aquela jogada toda vez que piscava.

Toda vez que fechava os olhos, via de novo—Knox batendo no vidro, o corpo caindo de um jeito errado, o gelo parecendo alto e silencioso ao mesmo tempo.

Então peguei um Uber. Não pensei. Não planejei. Acabei em um bar a uns oito quilômetros da arena dos Blades. Um daqueles lugares lotados de torcedores deles—camisas do time, vozes altas, gente ainda curtindo a vitória que eu não conseguia engolir.

Provavelmente o pior lugar onde eu podia ter ido. Ou exatamente onde eu merecia estar.

Entrei mesmo assim, o barulho me acertando como um murro. Pedi algo forte. Depois outro. Tentei afogar aquilo—aquela imagem, a culpa, o peito apertado como se meus pulmões não coubessem mais dentro de mim.

Não adiantou. Nada resolvia. Até que ela apareceu. Não vi quando entrou, talvez já estivesse lá, eu nem tinha percebido. Nem ligava.

Só senti ela—como se o ar tivesse mudado, algo mais afiado cortando a névoa na minha cabeça.

Loira alta. Nada de moleza. Nada de doce. Tinha algo estranho nela, do melhor e do pior jeito—como se estivesse se segurando só na força de vontade e na atitude.

Quebrada. Igual a mim. Nossos olhares se cruzaram por meio segundo, e não foi nada suave ou devagar.

Foi na lata. Pesado. Como se os dois soubessem exatamente o que o outro estava procurando.

Sem nomes. Sem perguntas. Só um acordo mudo.

Ela ergueu o queixo em direção ao corredor, como se estivesse me desafiando a seguir. E eu fui. Sem hesitar.

Porque, pela primeira vez desde a jogada, minha cabeça ficou quieta.

A porta do banheiro mal tinha fechado e a tensão já estourou. Nada de delicadeza, nada de preliminares—só calor, frustração e duas pessoas tentando fugir do que as perseguia.

Não era sobre ela. Não era sobre mim. Era sobre não sentir mais nada por alguns minutos.

E, por aquele curto tempo… funcionou. Acabou tão rápido quanto começou. Sem suavidade. Sem demora.

Só duas pessoas recuperando o fôlego num espaço que, de repente, parecia pequeno demais de novo.

Ela deu um passo atrás primeiro. Claro que deu.

Passou a mão pelo cabelo, já colocando distância entre nós, como se o que acabara de acontecer não pudesse segui-la porta afora.

Eu me encostei na pia, o peito ainda subindo rápido demais, olhando pra ela como se tentasse memorizar algo que não tinha direito de guardar.

Ela me pegou olhando de novo.

Dessa vez, os lábios dela se contraíram—só um pouco. Não era um sorriso. Nem perto disso.

“Não transforme isso em algo que não é”, disse ela, a voz rouca, mas firme.

Soltei um suspiro baixo, passando a mão no queixo. “Não estava planejando.”

“Ótimo.” Ela passou por mim, o ombro roçando no meu só o suficiente pra sentir. Só o suficiente pra ficar marcado.

Eu devia ter perguntado o nome dela.

Esse pensamento doeu mais do que deveria.

Mas tinha algo nela—no jeito como se segurava com arestas afiadas e zero paciência—que me dizia que ela não ia dar mesmo.

Ou pior… ela daria, e isso ia significar alguma coisa.

E nenhum de nós estava ali pra isso. Então não perguntei. E ela não ofereceu.

A porta se fechou atrás dela, e, num instante, o silêncio acabou. Substituído pelo barulho do bar, a música, as vozes—tudo voltando como se nada tivesse acontecido.

Mas tinha acontecido.

Um segundo depois, me afastei da pia, joguei água fria no rosto e encarei meu reflexo no espelho.

O mesmo cara. A mesma culpa pesando no peito.

Só… temporariamente enterrada sob outra coisa. Saí de lá não muito depois. Não procurei por ela. Não precisava.

Porque eu já sabia que tipo de garota ela era.

O tipo que você não encontra duas vezes.

Saí daquele bar sem olhar pra trás. Não precisava.

Algumas coisas são melhores quando ficam exatamente onde aconteceram—sem nomes, sem laços, sem chance de esbarrar nelas de novo. Só um momento que você enterra no meio do resto e finge que não significou porra nenhuma.

Era o que eu dizia a mim mesmo, pelo menos.

Não me impediu de pensar nela.

Não de um jeito romântico, nada disso. Era o jeito dela. A forma como me olhava, como se já tivesse decidido quanto eu valia—e não era muito. O jeito como carregava algo pesado sem deixar que isso a atrasasse.

Parecia… familiar. Familiar demais.

Passei a maior parte da minha carreira jogando como se tivesse algo a provar. Todo turno, toda jogada, todo maldito jogo. Como se, se eu não fosse mais duro que o próximo cara, perderia meu lugar. Perderia minha vantagem. Perderia tudo pelo que lutei.

Naquela noite? Eu provei. Só que não do jeito que queria.

A liga seguiu em frente rápido. Sempre segue. Novos jogos, novas manchetes, novos jogadores fazendo nome. Knox se recuperou. Voltou pro gelo. Porra, ele até ganhou a Copa.

Enquanto isso, eu ainda estava preso naquela jogada. Ainda repassando. Ainda me perguntando se podia ter recuado, se devia.

Mas é assim que esse jogo funciona—hesitação te bota no banco. Arrependimento não muda o resultado. Ou você vive com o que fez, ou não dura.

Então enterrei aquilo. Apareci nos treinos. Mantive a cabeça baixa. Joguei meu jogo. Levei pancadas, devolvi na mesma moeda. Fiz tudo o que tinha que fazer.

Não tornou as coisas mais fáceis. Porque, por mais jogos que passassem, por mais tempo que colocasse entre mim e aquela noite, aquilo nunca foi embora de verdade.

Só… se acomodou. Ficou ali, debaixo da pele, quieto, mas constante.

E de vez em quando, algo trazia aquilo de volta à tona.

Um replay. Um comentário de um companheiro de time. Ou pior—meus próprios pensamentos quando as coisas ficavam quietas demais.

Era quando ela também aparecia.

Cabelo loiro. Boca afiada. Aquela expressão nos olhos, como se não confiasse no mundo e não ligasse pra quem soubesse.

Nunca soube o nome dela. Nunca mais a vi. Só uma noite. Um momento. E, de alguma forma, ela ficou.

Talvez porque tivesse aparecido bem quando tudo estava desmoronando.

Ou talvez porque ela parecia tão destruída quanto eu me sentia.

Não importava. Ela tinha ido embora. E eu tinha coisas maiores pra lidar.

Como o fato de que os Hurricanes estavam começando a me olhar diferente.

Eu sentia antes mesmo de alguém dizer alguma coisa.

Menos tempo de gelo. Mais tensão no vestiário. Técnicos falando pelas minhas costas em vez de comigo. Eu não era burro.

Essa liga não espera você resolver seus problemas.

Ou você produz, ou vira descartável.

E eu estava começando a parecer bem descartável.

A ligação veio algumas semanas depois do fim da temporada.

Não demorou. Também não veio com muita explicação.

Só uma conversa rápida com a diretoria, algumas palavras sobre “direção” e “necessidades do time”, e então—

Era isso. Eu tinha sido trocado. Pros Blades. De todos os times da liga… tinha que ser eles. O time de Knox Callahan.

O mesmo vestiário. O mesmo gelo. O mesmo lugar onde eu já tinha me destacado do pior jeito possível.

Fiquei ali depois que a ligação acabou, o celular ainda na mão, deixando aquilo assentar.

Um recomeço, eles chamaram. Uma chance de me provar em outro lugar. Tá. Não parecia um recomeço.

Parecia voltar direto pro único lugar de onde eu não conseguia fugir.

De volta à jogada. De volta à culpa. De volta a tudo que eu achava que tinha conseguido enterrar.

Me recostei na cadeira, olhando pro teto, o maxilar travado.

“Tá bom”, murmurei pro cômodo vazio.

Se era assim que ia ser…

Então eu ia lidar com isso do único jeito que sabia.

Cabeça baixa. Sem hesitação.

Sem olhar pra trás. O que eu não sabia— O que eu não podia saber—

Era que entrar naquele vestiário não ia me colocar cara a cara com Knox de novo… Ia me colocar cara a cara com ela.