Back To You
A primeira vez que o vi de novo, ele olhou para mim como se eu tivesse arruinado a vida dele.
Talvez eu tivesse.
O pensamento pesou no peito de Elena enquanto ela permanecia paralisada na beira do canteiro de obras. O zumbido das máquinas e o som distante de metal batendo foram se transformando em um eco abafado e sem sentido. Por um momento, o mundo se resumiu apenas aos dois — dez anos de silêncio desmoronando em um único suspiro sufocante.
De todas as pessoas que ela imaginou encontrar ao voltar para Brookvale, Noah Blake não era a primeira da lista.
E, ainda assim, de alguma forma, ele era o único que importava.
A cidade não tinha mudado muito. Ela ainda carregava aquele charme quieto e teimoso, com prédios de tijolos desgastados alinhando as ruas e fachadas familiares resistindo, como se o tempo os tivesse esquecido. Até o ar parecia o mesmo, tingido com algo suave e nostálgico, como memórias que se recusavam a desaparecer.
Era ali que eles tinham se apaixonado.
E era ali, ao que tudo indicava, que tudo tinha voltado para assombrá-la.
“Você está atrasada.”
A voz dele cortou o silêncio, baixa e controlada, com uma nota cortante o suficiente para fazer o pulso dela falhar.
Elena engoliu em seco, forçando os pés a se moverem, embora cada instinto lhe dissesse para dar meia-volta e ir embora antes que aquilo se tornasse algo que ela não conseguisse lidar. “Trânsito”, disse ela, com o tom mais firme do que realmente sentia. “As estradas estão mais estreitas do que eu me lembrava.”
Uma pausa.
Então: “Elas não mudaram.”
É claro que não mudaram.
Foi uma afirmação simples, mas caiu como uma acusação.
Você mudou.
Ela ergueu o olhar para ele então, e qualquer resquício de fôlego que ela conseguira reunir escapou de uma só vez.
Noah tinha mudado.
O garoto de que ela se lembrava — aquele de traços suaves, risada fácil e olhos que costumavam olhar para ela como se ela fosse o centro do seu mundo — tinha ido embora. Em seu lugar, estava um homem esculpido em algo mais rígido. Seus ombros estavam mais largos agora, seu corpo preenchido por uma força silenciosa que se mostrava na maneira como ele se mantinha, firme e inabalável. Suas mangas estavam arregaçadas, revelando antebraços fortes marcados levemente pelo tempo e pelo trabalho, com veias traçando caminhos sob a pele.
O rosto dele também tinha ficado mais marcado; o maxilar mais definido, as feições mais marcantes de um jeito que o tornava impossível de ignorar.
E então, havia os olhos dele.
Os mesmos.
E, ainda assim, não eram.
Eles estavam mais frios agora, fixos nela com uma intensidade que fazia o peito dela apertar e tornava impossível desviar o olhar.
Meu Deus, ele estava...
Mais gato.
Não havia outra palavra para isso, não importa o quanto ela tentasse disfarçar com algo mais apropriado. Noah Blake tinha se tornado o tipo de homem que as pessoas notam sem ele precisar fazer esforço, o tipo que comandava a atenção sem pedir. E, parada ali sob o sol forte da tarde, com poeira girando levemente no ar entre eles, Elena percebeu com uma clareza desoladora que não conseguia parar de olhá-lo.
Ela odiava isso.
Odiava como seu corpo reagia antes que sua mente pudesse processar. Odiava como dez anos não tinham feito nada para apagar o efeito que ele causava nela.
“Você está encarando.”
Um calor subiu pelo pescoço dela, mas ela não desviou o olhar. “Você está diferente.”
O canto da boca dele se moveu levemente, mas não havia calor ali. “As pessoas mudam.”
Outra acusação.
Outra verdade com a qual ela não podia discutir.
Elena ajustou a pasta em suas mãos, tentando se concentrar em algo prático, algo que a lembrasse do porquê de estar ali. Trabalho. Era só isso que deveria ser.
Ela estava ali como a gerente de projeto responsável pela revitalização do antigo centro comunitário — um contrato que sua empresa tinha conquistado após meses de negociações.
E Noah Blake?
Ele era o empreiteiro principal; é claro que tinha que ser.
O destino, ao que parecia, tinha um senso de humor cruel.
“Quando disseram que a Blake Construction cuidaria da obra”, ela disse com cuidado, “não imaginei que fosse você.”
O olhar dele não suavizou. Se algo, ficou mais frio. “Teria mudado alguma coisa?”
Sim.
Tudo.
Mas Elena apenas balançou a cabeça. “Não. É só... inesperado.”
O silêncio se estendeu entre eles, denso com tudo o que nenhum dos dois estava disposto a dizer.
Dez anos atrás, eles tinham quinze anos.
Quinze anos e perdidamente apaixonados, daquele jeito que só o primeiro amor permite: intenso, consumista e com a certeza de que duraria para sempre. Elena lembrava daqueles dias com uma clareza dolorosa. As tardes roubadas perto do lago, as risadas quietas, o jeito que ele segurava a mão dela como se soltar não fosse uma opção.
E então...
O dia em que tudo acabou.
Ela lembrava disso ainda mais vividamente, talvez porque repassasse a cena com frequência demais.
Seu pai tinha chegado em casa com a notícia como se fosse algo para se comemorar. Um novo emprego. Uma vida melhor. Uma mudança para a cidade grande que mudaria tudo.
E tinha mudado.
Ela não tinha tido escolha.
Não houve tempo para uma despedida decente. Nenhuma chance de sentar com Noah e explicar, de dizer a ele que ir embora não era o que ela queria. Em vez disso, ela fez a única coisa que conseguiu pensar: enviou sua amiga, Lila, para encontrá-lo. Para dizer a ele que ela estava partindo. Para dizer que ela voltaria.
Para dizer a ele tudo o que ela mesma não conseguia falar.
Depois disso, ela escreveu.
Cartas, no início — tantas que não dava para contar. Páginas cheias de palavras que ela esperava que chegassem até ele, que explicassem o que ela não podia pessoalmente. Quando essas ficaram sem resposta, ela tentou mensagens através de qualquer pessoa que ainda morasse na cidade, através de qualquer conexão possível, e enviou várias mensagens de texto.
Nada, nem uma única resposta.
Eventualmente, o silêncio se tornou uma resposta, então ela parou de escrever.
Parou de esperar.
Seguiu em frente — ou, pelo menos, disse a si mesma que tinha seguido.
E, ainda assim, quando sua empresa lhe passou o contrato de Brookvale semanas atrás, o primeiro pensamento que cruzou sua mente não foi sobre o projeto.
Foi ele.
Um tipo silencioso e perigoso de esperança que ela não tinha tido coragem de nomear.
Ela imaginou encontrá-lo. Perguntou-se o que diria. Se ele sorriria, se eles ririam de como eram jovens.
Ela não tinha imaginado isto.
Estar aqui, com ele olhando para ela como se ela tivesse feito algo imperdoável.
“Você parece o mesmo”, ela disse, antes que pudesse se conter.
A expressão dele não mudou. “Você não.”
As palavras pesaram mais do que ela esperava.
Elena respirou fundo, endireitando os ombros. “Bem”, disse ela, forçando profissionalismo no tom, “temos um projeto para cumprir.”
Era só isso que precisava ser.
Nada além disso.
O olhar dele demorou sobre ela por mais um momento, como se estivesse pesando algo, decidindo algo do qual ela não fazia parte.
Então, ele deu um passo atrás.
“Certo”, disse ele, com o tom seco. “Vamos ao trabalho.”
Assim, de repente, o momento se quebrou.
Mas a tensão não desapareceu.
E, enquanto Elena o seguia para dentro do canteiro, o peso do olhar que ele lançara antes se acomodou ainda mais fundo em seu peito.
Como se ela tivesse arruinado a vida dele.
Talvez ela tivesse.
Mas, observando a postura rígida de seus ombros e a distância que ele mantinha entre os dois, uma coisa tornou-se dolorosamente clara —
Ele não tinha apenas a esquecido.
Ele estava furioso.








