Capítulo 1 – O Lugar Errado para a Esperança
Jennifer Miller detestava as segundas-feiras.
Não por causa de acordar cedo.
Nem pela escola em si.
Mas porque as segundas significavam voltar a um lugar onde ela nunca sentiu que pertencia.
O ônibus estava lotado.
Lotado demais.
Ela ficou perto do fundo, uma mão segurando o cano de metal frio e a outra apertando a mochila contra o peito. Vozes preenchiam o espaço ao redor — risadas, conversas, música vazando de fones de ouvido — tudo se misturando em um ruído que pressionava seus pensamentos.
Jennifer mantinha o olhar baixo.
Essa era a regra número um.
Não chamar atenção.
Não olhar para ninguém.
Não dar motivos.
“Cuidado aí.”
Ela sentiu o empurrão antes mesmo de assimilar.
Seu ombro esbarrou em alguém e ela recuou na hora. “Desculpa.”
Mesmo não tendo sido culpa dela.
Essa era a regra número dois.
Peça desculpas sempre.
Mesmo quando não deveria ser necessário.
O garoto em quem ela esbarrou olhou para ela como se ela tivesse feito algo ofensivo só por existir. “Sério, dá pra parar?”
Jennifer assentiu rapidamente. “Tá. Desculpa.”
De novo.
Ele revirou os olhos e virou as costas.
O peito dela apertou.
Mais dez minutos.
Depois a escola.
Depois, sobreviver.
A Westwood High já estava barulhenta quando ela entrou.
Sempre estava.
Armários batiam, pessoas gritavam pelos corredores, risadas ecoavam por toda parte. Grupos se formavam naturalmente, como se todos já soubessem onde se encaixavam.
Jennifer não sabia.
Ela entrou e hesitou por um segundo.
Foi um erro.
“Perdida de novo?”
A voz veio da esquerda.
Ácida. Familiar.
Jennifer não precisava olhar.
Megan.
Claro que era a Megan.
Jennifer fingiu que não ouviu e continuou andando.
Regra número três.
Ignore.
Mesmo quando dói.
“Estou falando com você.”
Mais perto agora.
Jennifer parou.
Lentamente, ela se virou.
Megan estava lá com seu grupo habitual, toda autoconfiante e com sorrisos perfeitos, como se nunca tivessem duvidado de si mesmas um dia na vida. O tipo de gente que fazia os outros se sentirem pequenos só de estarem por perto.
“O que você quer?”, Jennifer perguntou baixo.
Megan inclinou a cabeça. “Nossa. Você realmente respondeu.”
Jennifer não disse nada.
Era mais seguro.
Megan se aproximou. “Sabe que o pessoal fala de você, né?”
O estômago de Jennifer embrulhou.
Claro que falavam.
Ela não precisava ouvir em voz alta.
“Eu não ligo”, disse Jennifer.
As palavras surpreenderam até ela mesma.
Megan piscou.
“O quê?”
Jennifer engoliu em seco.
Seu coração disparou agora.
Mas ela não desviou o olhar.
“Eu disse que não ligo.”
Não foi alto.
Mas também não foi fraco.
E por um breve segundo...
Megan não soube o que dizer.
Então, ela riu.
“Ah, que fofa.”
As outras acompanharam.
Jennifer sentiu a queimação familiar no peito, aquela mistura de vergonha e raiva que ela nunca sabia bem como lidar.
“Vamos nessa”, disse Megan, já virando as costas. “Isso está um tédio.”
E, de repente...
tinha acabado.
Jennifer ficou ali, sozinha de novo.
Mas algo parecia... diferente.
Não melhor.
Não exatamente.
Apenas...
não tão pequena quanto antes.
O dia se arrastou.
As aulas se confundiram. As palavras não fixavam. O tempo passava de um jeito estranho — rápido e devagar ao mesmo tempo.
Até o último tempo.
Educação Física.
O lugar que Jennifer menos gostava no mundo.
Ela puxou o capuz do moletom mais para perto do corpo ao entrar na quadra, já sentindo o peso de olhares que ela nem tinha confirmado se estavam ali.
“Façam duplas!”
Claro.
Jennifer ficou onde estava.
Esperando.
Torcendo.
Talvez dessa vez ninguém notasse.
Sempre notavam.
“Jennifer, vá se juntar a um grupo.”
O peito dela apertou.
Ela olhou em volta.
Todo mundo já tinha companhia.
Claro que tinham.
Ela respirou fundo.
Então...
“Ei. Aqui.”
A voz era familiar.
Ryan.
Seu irmão.
O alívio se misturou com irritação na hora.
Ela caminhou até ele.
E então ela viu...
Dean.
De pé ao lado dele.
E, de repente...
tudo pareceu diferente.
Seu coração disparou sem nenhum motivo que ela quisesse admitir.
“Vamos lá”, disse Ryan. “Ou está com medo?”
Jennifer revirou os olhos levemente. “Muito engraçado.”
Ela se aproximou.
Para mais perto deles.
Para mais perto dele.
Dean não disse nada de início.
Mas, quando ela chegou perto...
ele olhou para ela.
Não de relance.
Não casualmente.
Ele realmente olhou.
E algo naquilo a fez hesitar.
Não era o tipo de olhar a que ela estava acostumada.
Não parecia julgamento.
Não parecia diversão.
Parecia... firme.
Como se ele não estivesse tentando desviar o olhar.
“Você está bem?”, perguntou Dean baixinho.
Jennifer piscou.
Pega de surpresa.
Por que ele perguntaria aquilo?
“Tô”, ela disse rápido.
Rápido demais.
Ele assentiu.
Mas seus olhos permaneceram nela por apenas um segundo a mais.
E aquilo...
aquilo era o problema.
Porque, pela primeira vez em muito tempo...
Jennifer não se sentiu invisível.
E ela não sabia se aquilo era algo bom...
ou o início de algo perigoso.