Prólogo: O Primeiro Verão
**Dez Anos Atrás**
"Você pode colocar aquela caixa no canto", gritou a Dra. Hizon por cima do ombro enquanto entrava em sua nova casa, carregando uma pilha de livros.
Ellie sentou-se na varanda, observando enquanto seus pais esvaziavam o caminhão de mudança que ocupara quase todo o seu dia. Ela olhou para a tinta descascando no corrimão da nova casa e suspirou, sentindo falta dos degraus de concreto do lado de fora do apartamento em São Francisco.
"Ellie, anak ko (minha filha), por favor, ajude a tirar algumas coisas do caminhão", disse sua mãe ao voltar para a porta da frente.
Imelda Hizon era uma mulher baixa e robusta, com olhos gentis e um sorriso ainda mais gentil. Depois de se mudar para os Estados Unidos após a faculdade de medicina, ela conheceu seu marido, Angelo, enquanto trabalhava no Centro Médico da UCSF, onde ele já trabalhava como enfermeiro. Os dois se aproximaram por terem se formado na mesma universidade nas Filipinas e imigrado para os EUA em busca de trabalho.
Ellie frequentemente se perguntava se incomodava seu pai o fato de ter que receber ordens de sua esposa tanto no trabalho quanto em casa. Quando questionado, o Sr. Hizon deixava claro que não apenas amava receber ordens da esposa, como desejava que tivessem se conhecido na faculdade para que pudesse ter começado a obedecê-la mais cedo. Eles eram um par perfeito — algo pelo qual a maioria dos filhos seria grata —, mas para Ellie, aos dez anos, aquelas constantes demonstrações de afeto eram nojentas.
Os pais de Ellie eram amorosos e prestativos, determinados a se distanciar de suas próprias criações. Eles sempre a incentivavam a ser ela mesma e a experimentar atividades extracurriculares diferentes. Ela já havia se matriculado em dança, natação, tênis e piano — atividades nas quais não se destacou em nenhuma. Para compensar a decepção que sentia por ser tão extraordinariamente malsucedida, ela fez de sua missão se destacar academicamente.
Desde que se entendia por gente, Ellie se esforçava para deixar os pais orgulhosos, seguindo os passos de sua mãe. Embora soubesse que eles teriam orgulho independentemente do que ela escolhesse fazer, ela sentia o orgulho extra que eles expressavam silenciosamente sempre que ela dizia que queria ser médica. Sua mãe ficava um pouco mais ereta — tão alta quanto podia, sendo que tinha apenas 1,50 m — e sorria um pouco mais nas festas da comunidade quando outros adultos perguntavam o que Ellie queria ser.
Ellie bufou enquanto se levantava para ajudar seus pais. Ela vasculhou as caixas no caminhão até encontrar a que estava etiquetada como "ELLIE". Tirando uma foto, ela encarou a imagem de três garotas fazendo caretas para a câmera — Ellie no meio, com suas melhores amigas Maya e Chelsea de cada lado. Escrito no verso estavam as palavras: 'Boa sorte, Ellie-bell! Nós te amamos e já sentimos sua falta!'
A realidade de se mudar a centenas de quilômetros de tudo e de todos que ela conhecia começou a bater.
Ela relembrou a conversa que tivera com sua mãe meses antes sobre mudar suas vidas e sair de São Francisco para uma cidade nos arredores de Seattle, Washington, no final do ano letivo. A Dra. Hizon tinha recebido uma oferta de emprego com salário melhor — assim como seu marido — e decidiram que uma mudança de ares seria boa depois de viverem na cidade por tanto tempo. Ambos os pais cresceram em províncias remotas e ansiavam por retornar a uma vida mais tranquila e menos urbana.
Enquanto Ellie arrastava a caixa para fora do caminhão, ela notou seus pais conversando com outro casal — e o que ela presumiu ser o filho deles — no final da entrada da garagem.
A mulher era alta e esguia, o que a fazia parecer ainda mais alta ao lado da mãe petite de Ellie. O homem ao lado dela também era alto e parecia um pouco mais velho que a esposa. Mechas grisalhas percorriam seu cabelo escuro, aumentando seu charme. O garoto tinha quase a mesma altura de Ellie. Sua pele clara tinha o toque mais sutil de um bronzeado de verão, e pequenas sardas estavam espalhadas pelo seu nariz. Seu cabelo loiro-escuro e bagunçado caía logo acima das sobrancelhas, que se levantaram levemente quando seus olhos azuis encontraram os dela.
"Ellie, querida, venha aqui e conheça nossos vizinhos", chamou sua mãe.
Ellie colocou a caixa na grama e caminhou até lá.
"Estes são os Warrens", seu pai acrescentou.
"Ora, mas que gracinha você é!", exclamou a Sra. Warren enquanto Ellie se aproximava.
"Eu sou Angie, este é meu marido Ted, e nosso filho Carson", disse ela, apontando para o garoto.
"Oi", respondeu Ellie com uma voz pequena e tímida.
"Carson tem a sua idade, Ellie. Não é legal? Vocês vão para a mesma escola no outono — e a Angie trabalha lá na secretaria", sua mãe explicou.
Ellie assentiu, mal processando suas palavras.
Ela fez contato visual com Carson e imediatamente se sentiu sem graça. Desviando o olhar rapidamente, ela se concentrou na grama sob seus pés, subitamente decidida a contar as lâminas. Eles ficaram ali sem jeito, evitando contato visual enquanto seus pais continuavam a trocar gentilezas.
Quando ficou claro que a conversa não terminaria tão cedo, Ellie caminhou de volta para a caixa que tinha deixado para trás. Ela a pegou e começou a caminhar em direção à casa.
"Carson, vá ajudar a Ellie a carregar essa caixa! É grande demais para uma menina tão pequena", chamou a Sra. Warren.
Antes que Ellie pudesse protestar, Carson veio caminhando e trotando e pegou a caixa de suas mãos. Sem saber o que fazer, ela olhou de volta para seus pais.
"Está tudo bem, anak, deixe ele te ajudar", chamou sua mãe, já se virando de volta para sua conversa.
Eles caminharam desajeitados para dentro de casa até a sala de estar, onde Ellie pediu a Carson que colocasse a caixa no chão. De onde veio, Ellie tinha feito amizade com garotos na escola, mas, fora isso, ela só passava tempo com Maya e Chelsea. Ela era tão terrivelmente tímida e estranha que não sabia como — ou se — deveria iniciar uma conversa com seu novo vizinho.
Eles ficaram em silêncio por alguns momentos.
"O que é isso?", perguntou Carson, apontando para uma pequena tábua de madeira saindo da caixa.
"Isso é sungka", respondeu Ellie.
"O que é... sungka?", ele perguntou, tentando pronunciar a palavra desconhecida.
Ellie riu do esforço dele, o que lhe rendeu uma pequena carranca e um franzido no nariz que juntou suas sardas.
"É um jogo", ela explicou, cavando na caixa até encontrar um pequeno saco de conchas. "Você quer jogar?"
Ela colocou a tábua no chão e começou a encher cada cavidade com sete conchas.
Carson olhou para aquilo com ceticismo, como se não tivesse certeza de como uma tábua de madeira e conchas poderiam ser um jogo — mas a curiosidade brilhou em sua expressão.
"Claro", ele disse, sentando-se à frente dela.
Ela explicou as regras e apontou as diferentes partes da tábua. Enquanto ele jogava, ela o observava atentamente, segurando o riso quando ele tentava pronunciar a palavra bahay. O nariz dele franzia toda vez que tentava as palavras em tagalo, e um leve rubor subia pelo seu pescoço.
Ellie achou os esforços dele fofos.
Achou *ele* fofo.
E depois do que pareceram horas jogando, rindo e traduzindo palavras em tagalo, ela se pegou pensando:
Espero que Carson Warren e eu nos tornemos amigos.