Capítulo 1
2024
‘CUIDADO!’
A voz que gritou enquanto eu tropeçava ao sair do banheiro feminino misturava agressividade e irritação. Meu corpo chocou-se contra o dele com força, fazendo com que o conteúdo do seu copo de cerveja entornasse pela sua camiseta de banda preta e pelo chão.
“Me desculpa...” comecei a pedir perdão, mas minha voz falhou no meio da frase assim que olhei para cima, para além da camiseta encharcada de cerveja, e percebi em quem eu tinha acabado de esbarrar.
Merda!
O momento aconteceu rápido demais. Pareceu um borrão, mas o rosto dele me deixou sóbria instantaneamente.
Como eu não notei antes?
“James!” eu disse, muito mais alto do que pretendia.
Não consegui esconder a surpresa na minha voz.
“Então você voltou?” o tom dele foi seco.
Puto da vida, para ser exata.
Aquilo era uma pergunta ou ele estava dizendo o óbvio?
Não era difícil notar. Ele estava puto. A expressão desagradável estampada em seu rosto dizia tudo.
Deixando a cerveja derramada de lado, ele não estava nada feliz em me ver.
“Posso te pagar outra?” sorri, escolhendo evitar a pergunta dele e oferecer uma bandeira branca.
Era o mínimo que eu podia fazer, levando tudo em consideração.
Eu esperava que ele mandasse eu me foder? Com certeza.
Eu esperava que ele recusasse a oferta de uma bebida de graça? Não exatamente.
Foi um acidente. Qualquer um podia ver isso, mas ele aceitou minha oferta, mesmo assim.
Segui atrás dele, nervosa, enquanto íamos em direção ao bar.
Ficamos lado a lado, esperando sem jeito e em silêncio para sermos atendidos.
Assim que fui atendida, paguei e finalmente estávamos com as bebidas em mãos, aquele deveria ter sido o meu sinal para ir embora.
A bebida dele foi reposta. Minha dívida estava paga, mas talvez eu não estivesse completamente sóbria, como achei antes, quando me vi concordando em ir lá fora fumar um cigarro.
Aquilo foi estúpido por dois motivos.
Primeiro, eu não fumo.
Segundo, eu não precisava passar tempo desnecessário com o James.
Culpo a nostalgia, mas estar ali estava tendo um efeito estranho nos meus sentidos, e eu sabia que nada de bom poderia sair daquilo.
Era estranho estar de volta ali depois de dezessete anos.
Era um dos pubs onde eu bebia na adolescência, e parecia que nada tinha mudado desde então. Inclusive a clientela!
“Não, obrigada,” recusei, dando um gole na minha Coca-Cola antes de colocar o copo em uma mesa de piquenique vazia.
O copo condensado parecia frio contra meus dedos no ar fresco do início de novembro.
“O que te trouxe de volta?” ele perguntou, acendendo seu cigarro antes de dar uma tragada e deixar a fumaça preencher o ar ao nosso redor. “Eu não achei que você voltaria algum dia.”
“Trabalho, na maioria,” respondi.
Observei enquanto ele dava outra tragada no cigarro.
Ele deu um gole na cerveja, e eu o observei alternar entre os dois enquanto ficávamos em silêncio.
“Na maioria?” ele questionou, parecendo insatisfeito com minha resposta.
Era a verdade, na maior parte.
James e eu não éramos mais amigos. Será que ele precisava de detalhes?
Se não fosse pelo incidente da bebida, tenho certeza de que nenhuma palavra teria sido trocada entre nós.
“Eu terminei com meu namorado,” confessei.
Senti-me desconfortável tendo essa conversa com James, enquanto mudava o peso de um pé para o outro, sem jeito.
“Estou de volta ao The Cutting Corner. Estou cobrindo nove meses de licença-maternidade,” sorri, tentando mudar o assunto para algo menos pessoal.
“E depois?” ele questionou, tão seco quanto sempre.
Será que ele estava torcendo para eu dizer que ia embora?
Ele tinha um bom ponto.
Era a mesma pergunta que eu vinha me fazendo.
Pensei que seria fácil voltar.
Uma solução temporária para resolver meus problemas, sem medo de me apegar.
Pensei que seria fácil partir de novo, mas nos dois meses que estou aqui, voltei a me apaixonar pelo lugar todinho.
A parte mais triste? Nada disso era permanente.
Sem o The Cutting Corner, eu não tinha motivo para ficar.
“Nenhum motivo permanente para ficar?” ele perguntou, novamente, como se estivesse ali lendo minha mente.
“Não, a não ser que eu tivesse algo por que ficar,” dei de ombros.
“Adam?” ele cuspiu as palavras.
Ele virou o resto da cerveja e bateu o copo vazio na mesa ao nosso lado.
Havia um toque de amargura por trás das palavras dele.
Era o verdadeiro James falando, ou era o álcool?
Era difícil julgar, mas eu não gostei daquilo.
“Como é?” retruquei, irritada.
Tive dificuldade em segurar minha raiva.
“Admita. Por que mais você voltaria?”
“Eu acabei de te dizer por quê!” falei, lutando para manter a compostura.
Como ele se atreve?
“Quer saber? Eu não vou fazer isso,” aumentei o tom de voz.
Eu não devia satisfações ao James.
Eu não devia nada a ele, então fui embora.
A história se repetiu, e eu queria estar o mais longe possível dali.
Lutei contra as emoções enquanto saía do pub, segurando as lágrimas até estar a uma distância segura.
Ele gritou meu nome, mas me recusei a olhar. Em vez disso, apressei o passo e ignorei sua tentativa embriagada de pedir desculpas enquanto virava a esquina.
Eu finalmente estava fora de vista.
Finalmente pude respirar de novo, mas não consegui mais segurar o choro.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Tentei me concentrar em chegar ao estacionamento enquanto meu corpo começava a tremer por causa do frio.
Parecia incontrolável.
Senti os pelos dos meus braços se arrepiarem.
Senti o frio na espinha percorrer minha pele.
Minha adrenalina começou a baixar.
Ela foi substituída por um calafrio desagradável que se instalou.
A temperatura tinha caído desde que cheguei esta noite, e me arrependi de não ter trazido um casaco.
Senti inveja por não estar mais dentro do pub quente e aconchegante, celebrando o aniversário do meu chefe, e lembrei-me instantaneamente de que deveria avisar um dos meus colegas que fui embora sem avisar.









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