Salt in the Air
Callie
O Pacífico tinha um cheiro diferente do Golfo, de alguma forma mais penetrante. Como se o oceano aqui tivesse suas próprias opiniões.
Em casa, no Mississippi, o ar era denso. A umidade se enfiava na pele como se pretendesse ficar por um bom tempo. Ela te envolvia, pesada e familiar, um tipo de abraço que nem perguntava se você queria aquilo. Mas aqui em Marina del Rey, a brisa chegava fresca e salgada. Era honesta de um jeito que me fazia sentir notada e, ao mesmo tempo, um pouco exposta.
O que, tudo bem. Provavelmente eu merecia.
Joguei a alça da minha câmera no ombro e caminhei pelas docas, com minhas sandálias batendo suavemente contra as tábuas queimadas pelo sol. A madeira estava gasta e lisa, marcada por incontáveis estranhos que passaram por ali antes de mim. Os barcos balançavam preguiçosamente em suas vagas, com as cordas rangendo no ritmo de alguém sussurrando "vá devagar", e a água batia gentilmente nos cascos em uma língua que eu ainda não falava. Pelicanos estavam empoleirados como velhos rabugentos julgando a todos, com seus bicos pesados enfiados em penas que pareciam ter visto coisas demais.
Era para ser algo relaxante.
Uma "pausa forçada", como meu editor, Max, chamava.
"Você não tira férias desde o Egg Bowl, três anos atrás", ele disse, debruçado na minha mesa como se a gravidade não se aplicasse a ele, com aquele charuto apagado preso entre os dentes como se estivesse segurando o rosto dele no lugar. "Vá para algum lugar quente. Tire fotos de qualquer coisa que não seja chuteira, gramado ou banco de reservas. Descanse."
Eu disse a ele que estava bem. Ele respondeu que meu olho tremia quando eu mentia. Então, ele mesmo reservou meus voos, me enviou uma foto do Airbnb que alugou e ameaçou mudar a senha do meu laptop se eu abrisse o servidor da redação. Ele falava sério. Max era meu editor desde que eu era estagiária com uma câmera simples e sonhos de cobrir as Olimpíadas. Às vezes, ele me conhecia melhor do que eu mesma.
Então, ali estava eu, caminhando por uma marina na Califórnia, tentando lembrar como era minha vida quando ela não era medida por placares finais e prazos, quando meu valor não estava ligado a capturar o momento perfeito na base ou o gol da vitória nos acréscimos.
Tentando não pensar no fato de que, um ano atrás, eu deveria ter me casado.
Não vá por esse caminho ainda. Apenas respire.
Mas respirar estava mais difícil do que antes. Em alguns dias, parecia que eu precisava lembrar meus pulmões de como fazer isso, como se eles tivessem esquecido o ritmo entre inspirar e expirar. Como se, entre o altar e o aeroporto, eu tivesse perdido o automatismo de estar viva.
Uma gaivota gritou lá no alto como se tivesse uma vingança pessoal contra a paz. Faz sentido.
Levantei minha câmera por puro hábito e apontei para a água, onde a luz do sol brilhava na superfície como vidro espalhado. Um casal passou remando em pranchas iguais, rindo, com as mãos se tocando enquanto se moviam. Suas vozes ecoavam pela água, despreocupadas, tranquilas; o tipo de intimidade fácil que costumava aquecer meu peito e que, agora, só me fazia doer.
Tirei uma foto. Algo puxou no meu peito. Não era inveja. Apenas a distância entre onde eu estava e onde achei que estaria a essa altura.
Um ano atrás, eu estava planejando uma lua de mel, pesquisando praias ou cabanas nas montanhas, fazendo listas de lugares para fotografar com Matt ao meu lado, com o braço dele em volta da minha cintura enquanto olhávamos sites de viagem no laptop dele. Nós falávamos sobre isso há anos. Sobre para onde iríamos quando finalmente tivéssemos tempo, quando a temporada acabasse, quando a vida desacelerasse o suficiente para podermos respirar juntos.
Em vez disso, eu estava ali sozinha. Matt estava em Chicago, provavelmente treinando arremessos ou dando entrevistas, vivendo a vida que ele escolheu em vez de mim.
Mudei de posição, encontrei um ângulo melhor: a proa de um veleiro elegante contra o céu, com as linhas do mastro cortando o azul com precisão. A composição estava perfeita. A luz era dourada e complacente. Meus dedos se moveram automaticamente, memória muscular de milhares de jogos, milhares de momentos capturados através das lentes.
Clique.
"Ei!"
A voz surgiu do nada. Áspera, irritada, cortando a manhã pacífica como uma faca na seda. Abaixei a câmera, assustada, com o coração batendo forte contra as costelas.
Um homem estava algumas vagas adiante, usando óculos escuros, com o cabelo escuro bagunçado que parecia ter brigado com o vento a manhã toda. Uma camiseta estava colada em ombros largos, o tecido esticado sobre músculos que sugeriam que ele passava mais tempo trabalhando do que posando. Uma mão segurava o corrimão de um veleiro com tamanha força que seus nós dos dedos estavam brancos.
Ele me encarava como se tivesse me pegado cometendo um crime em vez de tirar fotos. Como se eu tivesse alcançado o interior do peito dele e arrancado algo privado. Como se eu fosse a mais recente de uma longa lista de pessoas que tiraram algo dele sem pedir.
"Você poderia pedir, sabe?", ele disse, com a voz rouca e irritada. "Ou a privacidade é opcional quando alguém tem um barco bonito?"
Ok. Uau. O comitê de boas-vindas estava animadinho hoje.
Pisquei, tentando processar a mudança repentina de uma manhã pacífica para um confronto. "Eu não estava fotografando você."
O maxilar dele travou, um músculo saltando sob a pele que parecia não ter dormido o suficiente ultimamente. "Claro que não."
"Estou falando sério." Levantei um pouco a câmera. "Eu estava tirando fotos da marina. A luz está boa."
Ele bufou como se tivesse ouvido todas as mentiras do mundo e aquela fosse a que ele menos gostava. Como se ele já tivesse sido queimado antes, repetidamente, por pessoas que diziam exatamente o que eu tinha acabado de dizer.
"Essa câmera grita paparazzi."
A palavra me atingiu como um tapa que eu não esperava. Não porque fosse um insulto — já tinham me chamado de coisas piores treinadores furiosos e alvos decepcionados. Mas por causa da crueza na voz dele. O jeito que ele disse aquilo, como se fosse uma arma usada contra ele muitas vezes.
Eu ri, um riso curto e surpreso, mais por reflexo do que por humor. "Paparazzi? Olha, meu chapa, se eu fosse paparazzi, você veria uma lente teleobjetiva e ouviria meu editor respirando ofegante no meu ouvido. Eu estaria escondida atrás de uma lixeira, não aqui em plena luz do dia com uma câmera que custa mais que o meu carro."
Ele não riu. Seus óculos escuros escondiam os olhos, mas tudo em sua postura dizia que ele não acreditava. Ombros tensos para frente, peso equilibrado como se estivesse pronto para se mover, para lutar, para correr. Como se ele passasse tempo demais esperando pelo pior.
Respirei fundo, com a paciência se esgotando. "Eu não sou paparazzi. Nem quem quer que você ache que eu sou. Estou de férias."
"Certo", ele murmurou. "E eu sou apenas um cara que odeia câmeras e coincidências."
Eu estreitei os olhos para ele. Algo na voz dele me soou familiar, como se eu tivesse ouvido em um filme ou entrevista uma vez. E agora que eu estava olhando, ele tinha aquele estilo galã de Hollywood. Maxilar esculpido na teimosia, ombros construídos como se ele tivesse pegado academia por acidente em cada papel de filme. O tipo de rosto que estampava mil artigos de opinião e manchetes de blogs de fofoca.
Ah.
Então tudo fez sentido.
Paul Merritt.
Ator. Estrela em ascensão. Recentemente fotografado fugindo de um tapete vermelho como se devesse dinheiro a ele. Rumores diziam que ele era "difícil", um repórter o chamou de "alérgico à fama", o que, sinceramente, parecia justo até agora. Eu tinha visto o rosto dele em capas de revistas em filas de supermercado, em pôsteres fora de cinemas que eu nunca tinha tempo de visitar, ao fundo de segmentos de notícias de entretenimento que eu via pela metade enquanto editava fotos às 2 da manhã.
Bem, fantástico.
Max teria um ataque se soubesse que eu esbarrei com alguém de Hollywood tão rápido. Ele provavelmente exigiria que eu conseguisse uma entrevista exclusiva, ou pelo menos uma foto espontânea para a edição de domingo. Ainda bem que ele não sabia. Ainda bem que eu não era aquela pessoa, a que via cada encontro como uma história em potencial, cada estranho como um possível alvo.
Antes que eu pudesse dizer que o reconhecia, ou decidir se deveria, estabilizei minha voz.
"Olha, eu não estou aqui por você. Não estou te seguindo. Eu nem sabia quem você era",
Não diga famoso. Não alimente o ego dele.
"apenas um cara do barco."
Muito bem, Callie. Material para o Pulitzer.
A boca dele quase deu um solavanco. Irritado ou divertido, difícil dizer.
"Um cara do barco", ele repetiu.
"É." Fiz um gesto sem jeito. "Apenas um homem comum do barco, fazendo coisas de barco."
Um momento de silêncio.
Então, inesperadamente, uma expiração suave. Quase um riso. Quase.
"Você não é daqui", ele disse.
"Foi o sotaque ou as sandálias?"
"Ambos."
"Starkville, Mississippi", eu disse. "E antes que pergunte: sim, eu sei que chocalhos fazem barulho. Sim, eu odeio Ole Miss. E sim, eu consigo dirigir na neve. Tecnicamente."
Os ombros dele relaxaram um pouco. Bom. Progresso.
Ele acenou para minha câmera. "Então, o que você fotografa, se não eu?"
"Esportes", eu disse. "Beisebol, principalmente. Algum futebol americano de ensino médio. Qualquer jogo que precise de uma lente."
As palavras saíram automaticamente, do mesmo jeito que vinham há anos quando as pessoas perguntavam o que eu fazia. Mas desta vez, elas pareceram diferentes. Ocas, de alguma forma. Como se eu estivesse descrevendo uma vida que costumava ter, uma pessoa que eu costumava ser.
Ele inclinou a cabeça levemente, com os óculos escuros pegando a luz do sol. "Então você está trabalhando. Férias são só um disfarce."
"Não", eu disse, e a palavra pareceu mais pesada do que deveria, como se carregasse mais do que sua parte de peso. "Estou realmente de férias. Forçadas. Aparentemente, me matar de trabalhar não é um traço de personalidade."
"E, ainda assim." Ele olhou para a câmera que ainda pendia no meu quadril, do jeito que sempre fazia, como uma extensão do meu corpo que eu não conseguia deixar de lado.
"É memória muscular", eu disse. "Como respirar. Ou se preparar para um impacto."
Algo mudou na postura dele, não muito, mas o suficiente. Como se ele entendesse exatamente o que eu queria dizer. Como se ele soubesse o que era ter seu corpo lembrando de coisas que sua mente queria esquecer.
Ele olhou para mim então e algo suavizou. Apenas o suficiente para me deixar saber que ele estava realmente me vendo, não apenas outra ameaça, outra câmera, outra pessoa tentando tirar algo dele.
"É", ele disse baixinho. "Eu entendo isso."
"Desculpe", ele disse finalmente. "Tive muita gente tirando fotos ultimamente."
"Parece exaustivo."
Ele hesitou, então estendeu a mão. "Paul Merritt."
"Callie Gordon." Ele tinha aquele tipo de aperto de mão que dizia que ele foi criado para olhar as pessoas nos olhos quando se desculpa. Firme, mas não esmagador; confiante, mas não agressivo. O tipo de aperto de mão de quem fala sério.
"Mississippi?", ele perguntou.
"Starkville", eu respondi. "Mississippi. Nasci e cresci lá."
Um canto da boca dele subiu. "Duluth. Minnesota."
"Ah, então você entende o inverno."
"Inverno, sim. Umidade, não." Ele sorriu então, e isso me atingiu em cheio no peito, inesperado e injusto. O tipo de sorriso que faz você querer sorrir de volta mesmo quando não quer, que te faz esquecer por um segundo por que você estava protegendo seu coração em primeiro lugar.
Tentei não sorrir de volta. "Eu estava tirando fotos do pier, Duluth. Não do seu precioso barco."
O nome Second Wind cintilava em tinta prateada ao longo da popa, pegando a luz da manhã de um jeito que o fazia parecer quase vivo. "Quer saber", ele disse, coçando a nuca, um gesto que parecia mais vulnerável do que deveria, "se você estivesse, eu quase te perdoaria."
"Aposto que ele fica bem em fotos", eu digo com um leve dar de ombros, tentando manter minha voz leve, mesmo com algo apertando meu peito.
"Era a frase do meu pai", ele acrescentou baixinho, e o jeito que ele disse isso, como se fosse algo precioso, fez minha respiração falhar. "Dizia que um dia ruim sempre tinha um segundo fôlego em algum lugar. Você só precisava esperar por ele."
Não sei por que isso se alojou no meu peito, mas aconteceu. Talvez porque eu ainda estivesse esperando o meu. Talvez porque em alguns dias, parecia que eu estava esperando desde a manhã em que Matt ligou, desde o momento em que minha vida se dividiu em antes e depois, desde o segundo em que percebi que alguns segundos fôlegos nunca vinham.
"Boa filosofia", consegui dizer, com a voz mal firme.
"Bom homem", Paul disse, e pela primeira vez, ele soou completamente real. Sem máscara e quase gentil. Como se ele estivesse me deixando ver algo que não mostrava a muitas pessoas.
Uma gaivota voou baixo, quebrando o momento. Ele limpou a garganta, ajustando o aperto na corda.
"Só… tome cuidado com câmeras por aqui", ele disse, não mais irritado agora. "As pessoas ficam ariscas."
"Claramente", murmurei.
Ele quase sorriu. "Essa foi a versão educada."
"Imaginei."
Outra pausa, mais suave agora.
"Vou ficar fora do seu caminho", eu disse. "Você fica fora do meu enquadramento."
"Aquele não foi meu melhor momento", ele admitiu, com a voz mais baixa. "Desculpe."
Dei de ombros. "Já tive dias piores."
Ele hesitou, então acenou uma vez. Uma pequena trégua.
Enquanto eu me afastava, ele chamou: "Ei."
Eu me virei, surpresa com o quanto eu queria continuar andando e o quanto eu queria voltar.
"Qual é o nome completo? Callie."
Não era tanto uma pergunta, mas curiosidade. Como se ele estivesse arquivando detalhes sobre mim do mesmo jeito que eu arquivava detalhes sobre as pessoas que fotografava, as pequenas coisas que as tornavam reais.
Eu pisquei. "Calíope."
As sobrancelhas dele subiram. "A musa."
Eu bufei. "Deixe-me adivinhar. Formado em Letras?"
"Professor", ele corrigiu. "Antes de tudo isso." A boca dele se puxou de um lado. "Férias, hein?"
"Estou tentando", eu disse, e a palavra pareceu mais honesta do que eu pretendia.
Ele acenou para a água. "Um bom lugar para começar."
Deixei-o lá, com a luz do sol nas ondas, a mão ainda descansando no corrimão como se não tivesse certeza se pertencia à terra ou ao mar. Como se ele estivesse tão perdido quanto eu, apenas melhor em esconder isso.
E por mais que eu não quisesse outra história agora, eu já sabia que me lembraria do jeito que ele disse "Calíope".
Como se ele visse em mim algo que valesse a pena lembrar.
Caminhei de volta para o Airbnb com minha câmera ainda pendurada pesada no quadril, a luz da manhã parecendo diferente agora. Mais quente, de alguma forma. Menos honesta, talvez, mas mais complacente.
E pela primeira vez em três meses, me perguntei se talvez, só talvez, existisse uma versão da minha vida em que a história ainda não tivesse acabado.









I love it already, even though you made her a State fan.. 😉
LOL! My dad went to State back in the 60s.