O labirinto de Papel
Capítulo 1
O Labirinto de Papel
A vida de Clara era medida pelo cheiro de cola de encadernação e o toque delicado do papel pergaminho. Como restauradora na pequena biblioteca de Vila Serena, sua função era curar as feridas do tempo em páginas amareladas. Ela trabalhava no sótão da biblioteca, um refúgio onde o mundo exterior, com sua pressa e ruído, não ousava entrar.
Ela morava no antigo chalé dos avós, na encosta da colina. Era uma casa que rangia com o vento, mas que oferecia a segurança de quatro gerações de história. Todas as manhãs, ela seguia o mesmo ritual: cuidava das violetas na janela, caminhava pela trilha de cascalho e parava no café de Helena antes de se perder entre capas de couro e fios de linho. Clara não buscava aventuras; ela encontrava emoção suficiente nas entrelinhas dos romances que salvava do esquecimento.
Sua existência era como uma encadernação perfeita: firme, funcional e previsível. Aos vinte e dois anos, ela era a peça que mantinha a tradição da cidade viva, sem saber que sua própria história ainda não tinha sido escrita — e que o papel, por mais resistente que pareça, pode queimar com uma única faísca.