Capítulo 1
Eu nunca tinha me perguntado se era diferente das outras crianças. Eu era uma criança como qualquer outra. Era nisso que eu acreditava. Era isso que eu sentia. Eu não tinha como saber o contrário.
Foi preciso um banquinho de madeira pequeno, a Michette e um dia de final de primavera para eu entender.
Eu não devia ter mais de cinco anos.
É estranho como não me lembro claramente de rostos ou de palavras exatas, mas lembro do gosto das cerejas. Tão vividamente que, às vezes, sinto como se pudesse senti-lo agora, no céu da boca — doce e levemente áspero, com o caroço duro pressionando entre os dentes. Depois daquilo, nunca mais gostei de cerejas. Ou talvez não tenham sido as cerejas que mudaram.
Era maio. A cerejeira no quintal estava cheia, densa, como se não conseguisse mais se conter. Sentamos embaixo dela, empoleiradas em um banquinho de três pernas feito pelo velho Ispas, beliscando a fruta como dois pardais insaciáveis.
O vestido que eu usava pertencia à Michette. Já estava velho para ela, mas, para mim, era o vestido mais bonito que eu já tinha tido. Eu gostava tanto dele que nunca me passou pela cabeça que pudesse significar algo além de beleza. Eu ainda não sabia a diferença entre "meu" e "deixado para trás por outra pessoa".
Michette ria. Ela sempre ria, com a cabeça jogada para trás, falando rápido, como se tivesse medo de não ter tempo para dizer tudo. Ela me contava sobre Paris, sobre vestidos de renda e chocolate.
— Eu vou fugir para lá, você vai ver — ela tinha me dito na noite anterior. — Vou me casar com um príncipe e só comer chocolate.
Eu acreditei nela. Acreditei em tudo o que ela disse.
Não sei como o jogo começou. Só me lembro do momento em que ela colocou o banquinho de cozinha branco e pequeno na minha cabeça — redondo, com a borda lisa.
— Espera só para ver como fica em você! — ela disse, rindo.
Eu ri também.
No começo, era apenas uma brincadeira. Depois, ela tentou tirar.
Não saía.
Ela puxou de novo. Senti apertar, pressionando minhas têmporas, como se a pele do meu couro cabeludo estivesse sendo levantada junto com a madeira.
Eu gritei.
Foi então que ela parou. Ela olhou para mim.
Seus olhos se arregalaram, subitamente esvaziados da risada.
— Espera... só espera...
Ela tentou de novo, com mais força desta vez. A dor subiu como uma chama. Eu gritei novamente.
E então ela correu.
Ela correu sem dizer uma palavra, sem olhar para trás, como se não fosse eu que tivesse ficado ali com o banquinho entalado na cabeça, mas algo de que ela precisava escapar.
Fiquei sozinha.
Eu puxei também, com as duas mãos. Mas parecia que eu arrancaria minha cabeça junto com ele. A dor era tão grande que eu não conseguia mais entender nada. Era como se eu não estivesse mais lá — apenas a dor existia.
Comecei a chorar.
Não sei quanto tempo fiquei assim. Talvez alguns segundos. Talvez mais. Então eu corri.
Eu sabia que não podia ir ao terraço quando a Sra. Lena tinha convidados. Eu sabia muito bem disso. Mas, naquele momento, nada do que eu sabia parecia importar mais.
Eu invadi o local.
Havia sombra debaixo da videira. A Sra. Lena estava sentada à mesa com duas amigas, vestindo vestidos de voile finos, servindo geleia e café. Tudo estava calmo, composto, como uma fotografia.
Michette estava lá, ao lado da mãe, empoleirada na ponta da cadeira.
Parei por um momento na entrada e então disparei:
— Sra. Lena, por favor, me ajude!
Não sei como eu estava. Só conseguia sentir as lágrimas escorrendo, que eu não conseguia respirar direito por causa do muco e aquele banquinho desgraçado pressionando minha cabeça como um castigo.
A Sra. Lena levantou-se lentamente, com um movimento que continha mais preocupação com o vestido do que comigo, e antes de olhar para mim, ela lançou um olhar — quase imperceptível — para as amigas, como se precisasse medir a reação delas.
Só então ela voltou os olhos para mim e, naquele instante, senti pela primeira vez uma certeza aguda e lúcida: ela não me via de verdade, seu olhar atravessava-me e pousava em algum outro lugar, onde eu não existia.
— Luludi — ela disse lentamente, enfatizando cada sílaba. — O que você está fazendo aqui?
Dei um passo à frente, movida mais pela dor do que pela coragem, sentindo o banquinho pressionar cada vez mais minhas têmporas.
— Eu estou... estou presa... não consigo tirar...
— O que você está fazendo aqui? — ela repetiu, mais firme desta vez, virando-se levemente para as outras mulheres, como se pedisse aprovação. — Você não sabe que sua laia não é permitida aqui?
Suas palavras não penetraram em mim de uma vez; passaram por mim como um ruído distante, sobrepostas à dor na minha cabeça. A Sra. Lena tinha sido, no máximo, indiferente comigo — ela nunca tinha me dado a impressão de ser cruel.
— A Michette colocou em mim — eu disse, sentindo minha voz começar a falhar. — Por favor, eu não consigo tirar.
Ela não desviou o olhar para a filha enquanto falava comigo.
— Michette, minha querida, ela não está mentindo? Você não brinca com ciganos.
Virei a cabeça com dificuldade.
Michette olhava para mim, imóvel, e por um momento — não mais do que uma batida de coração — acreditei que ela fosse rir e contar a verdade, que pularia da cadeira e viria até mim, como sempre fazia quando brincávamos.
— É verdade, mamãe — ela disse.
Isso foi tudo.
Naquele momento, a dor recuou para longe, lá atrás, como se abrisse espaço para algo mais — mais frio, mais profundo — que encheu meu peito.
— Michette, não minta mais — eu disse suavemente, sem reconhecer minha própria voz.
Não sei onde encontrei coragem para dizer aquilo.
A Sra. Lena caminhou em minha direção e, à medida que se aproximava, parecia-me que ela crescia, erguendo-se sobre mim como uma sombra pesada sob a qual não restava mais espaço para mim.
Não consegui dizer mais nada.
Ela me bateu.
Não sei como ela encontrou aquele espaço estreito entre a madeira e minha bochecha, mas sua palma desceu firme e quente, e no momento em que me tocou, senti minha pele arder, como se tivesse deixado uma marca que nunca, jamais desapareceria.
Foi a primeira vez que ela me bateu.
— Sua mentirosinha! — ela disse, com a voz cortante. — Cigana suja! Você ousa dizer que minha filha está mentindo?
Eu não conseguia mais chorar — ou talvez ainda estivesse chorando, mas o choro não tinha som, não tinha lágrimas, como se tivesse ficado preso em algum lugar dentro de mim, incapaz de sair.
— Ispas! — ela chamou.
Ele apareceu quase instantaneamente, de algum lugar que eu não tinha notado, como se estivesse ali o tempo todo, esperando — o velho Ispas, com os ombros levemente curvados, o andar calmo, como um homem acostumado a ser convocado para todas as coisas pequenas e pesadas do quintal.
— Leve embora essa pequena peste cigana! Não quero vê-la nunca mais!
Então, virando-se para Michette, com a voz subitamente suave, alterada:
— Viu só, minha querida? É por isso que não é bom se misturar com eles. Olhe só para eles — como esquecem a mão que os alimenta.
Depois, sua expressão mudou novamente e, franzindo a testa para Ispas, ela disse com um tom cortante:
— Se você não mantiver suas pequenas ciganas na linha, eu manterei. Já tem gente demais aqui, comendo de graça. Entendeu?
Ispas murmurou um "sim" em seu bigode.
E então, pela primeira vez, entendi que Ispas também era cigano. Que ele era como eu. Ou que eu era como ele.
Era isso que eu era?
Ispas era velho, de pele escura e quase sempre cheirava a trabalho.
Era isso que eu era?
Não ouvi o resto.
O velho Ispas me segurou sem uma palavra e me levantou, e por um momento fiquei suspensa ali, minha cabeça pesada por causa do banquinho, minha bochecha ardendo, sentindo o mundo se afastar de mim sem exatamente se soltar.
Eu não lutei.
Não restava mais nada por que lutar.
Só então entendi que algumas pessoas valem menos do que as outras — e que isso começa desde o início, sem que você saiba, sem que você escolha.