Capítulo 1: O medo aparece primeiro
Vibe: Breath — Fleurie | In the Woods Somewhere — Hozier | Same Old Song — Two Feet
Escuridão.
Uma gota cai — e o eco viaja longe, muito longe.
— Acorde.
— Corra.
— AGORA.
Elara abriu os olhos.
A luz mal passava pelas cortinas pesadas. As formas ao seu redor estavam lentamente ganhando contorno, revelando o que era familiar — cortinas com bordados dourados, o tapete macio e vermelho-escuro, os móveis de madeira entalhada. O mesmo que nos aposentos do palácio. O perfume de rosas vinha das pétalas secas na tigela de prata sobre a mesa. Ele sempre colocava rosas ali. Dizia que ela as amava.
Ela não conseguia se lembrar se um dia amou.
Não se sentou imediatamente. Apenas ficou ali, olhando para o teto — para as rachaduras finas no gesso que ela conhecia de cor. Dezoito. Ela as contara nas noites em que o sono não vinha.
Este era o seu quarto. Não.
Sua gaiola.
Ela fechou os olhos. Apenas uma forma borrada restou do sonho, repleta de luz solar.
/“Luz. Era mais claro no jardim naquela época...”/
Ele estava parado atrás dela. Ela sentiu antes de sua mão pousar em seu ombro — levemente, quase com gentileza. Um gesto reservado estritamente para o que já lhe pertencia.
/“Elara, Elara, onde você está...”/ — uma voz, fina e assustada. Não era a dele. Era de outra pessoa.
Ela não conseguia se lembrar de quem era.
Ela abriu os olhos novamente. Silêncio.
/“Quieto demais.”/
Eles nunca a deixavam sozinha. Sempre passos, constantes e metódicos, atrás da porta. Sempre a voz da criada através da grade às seis. Sempre o cheiro do chá que ela odiava, mas que ele dizia ser bom para ela.
Agora — nada.
Ela se sentou lentamente. Primeiro — endireitar a coluna, ombros para trás, queixo levemente erguido. Pronta. Anos. Anos da mesma manhã. Ela caminhou até o guarda-roupa e o abriu.
Os vestidos pendurados em ordem perfeita — azul-escuro, bordô, cinza, amarelo, verde. Seda com bordados dourados na bainha, bonitos demais para uma masmorra, bonitos demais para ela.
/“Uma princesa não se veste como uma prisioneira,”/ — ele dissera uma vez, quando ela pediu algo mais simples.
Ela nunca mais pediu.
Sua mão passou pelos tecidos e parou no verde. O mesmo de sempre.
/“Esta cor combina com você,”/ — sua voz, calma. Ele sempre falava com calma quando queria que ela se lembrasse de algo.
Ela vestiu o verde.
/“Por que você fez isso...?”/
Ela não respondeu. Apenas abotoou os botões — todos os doze, um por um. Foi até a grade na parte superior da porta. Inspirou, para gritar... e congelou.
A porta estava aberta. Não escancarada — aberta a largura de uma mão, no máximo duas. Sem explicação.
O ferrolho fora puxado, apenas um pouco. Alguém fizera aquilo, mas não ousara abrir a porta mais do que aquilo.
Nunca. Dez anos — nunca.
Elara não se moveu. Ela encarou aquela fresta de escuridão no corredor e sentiu o sufocamento apertar sua garganta. Não medo, não. Pior. As paredes começaram a pressioná-la, e a escuridão parecia sugar o ar do quarto, dos seus pulmões. Tudo dentro dela tornou-se mais pesado.
/“Volte.”/
Vire-se. Deite-se. Espere que ele venha e explique.
Lá dentro era quente. Comida servida. Não havia o que decidir — apenas obedecer.
Seus dedos apertaram o tecido do vestido.
/“O medo aparece primeiro. Esconda-o.”/
Ela respirou fundo. Seu coração estava disparado, o sangue batendo seu ritmo em seus ouvidos, nas têmporas, nas pontas dos dedos.
Ela deu um passo. Para frente.
O corredor a recebeu com frio e cheiro de pedra úmida.
E resina.
Ela parou antes de entender o porquê.
As tochas nas paredes estavam apagadas. A luz que vinha da porta aberta alcançava apenas doze passos à frente. Além disso — escuridão total. As solas finas de seus sapatos deixavam o frio da pedra passar imediatamente.
/“Tola.”/
Ela sabia disso, mas voltar significava parar. E parar significava pensar.
Uma bifurcação. Direita — o caminho de onde eles sempre vinham. Mais claro ali, cheiro de lareira, pessoas. Ele.
Esquerda — escuridão e uma corrente de ar fria zumbindo em algum lugar bem abaixo. Aguda, assobiando.
/“Se você parar de se mover, já estará morta.”/
Ela virou à esquerda.
A passagem estreitou-se gradualmente — a princípio de forma imperceptível, depois as paredes começaram a pressionar seus ombros. Ela manteve as palmas das mãos contra elas para se equilibrar. A pedra era úmida e áspera, arranhando sua pele, mas ela não parou.
Então, a passagem terminou em um desmoronamento.
Pedras, madeira, terra — amontoados de forma irregular, como se tivessem colapsado há muito tempo, sem intenção. Mas o ar vinha de algum lugar. Ela sentiu em sua bochecha — um fio fino de frio.
/“E se ele me encontrar aqui...”/
Ela começou a tatear com as mãos. A pedra do topo. Moveu-a — com dificuldade, a pedra relutante. Uma segunda. O vão aumentou a largura de uma palma.
Ela passou por ele.
Do outro lado, era mais estreito, sem chão. Seus pés deslizaram em algo solto; raízes pressionavam seus lados. A escuridão tornou-se absoluta. Ela se moveu pelo tato, a terra ficando mais fria, o ar carregado de umidade.
/“Se eu ficar — ele vai me encontrar...”/
Mas não havia como voltar. Seu corpo estava preso — apertado, desajeitado, o único caminho era para frente. O pânico bateu sem aviso, quente e sem sentido. Seu coração vacilou.
/“Por que saí...? Ele ficará com raiva de novo. Preciso voltar.”/
Mas voltar — não havia para onde.
/“Ele virá logo, verá que sumi e me tirará daqui. Só preciso esperar.”/
...e por um momento aquilo soou como alívio
...e imediatamente — horror por isso ter vindo à mente.
/“Não. Ele não pode me encontrar.”/
O ar estava ficando viciado. Cada respiração vinha com mais dificuldade. Suas mãos tremiam pelo esforço, mas seu corpo estava enfraquecendo. Seu corpo se recusava a obedecer, congelando antes que sua mente registrasse o perigo. Seus pensamentos ficaram turvos.
/“Mova-se.”/
Ela fechou os olhos com força, forçou-se a seguir em frente, suas unhas raspando contra o barro. Seus dedos encontraram algo mais macio — terra, não pedra. Ela começou a cavar. Suas unhas quebraram, suas palmas queimaram, terra caía em seu rosto, em sua boca — amarga, mineral.
Então — uma fresta. Uma tira fina, não de escuridão — de uma escuridão diferente. Menos sufocante.
Sua mão atravessou.
A abertura aumentou lentamente, e ela forçou a passagem, empurrando a terra para trás. Uma toca sob as raízes de alguma árvore velha. Terra, musgo, folhas apodrecendo. Real. Vivo. Aquele ar substituiu a doçura sufocante das rosas em seus pulmões. Ar de verdade — úmido, frio — a preencheu finalmente.
Ela estava fora.
Uma luz forte atingiu seus olhos. A luz do dia cinzenta, mas depois da escuridão, cortou como uma lâmina. Ela pressionou a mão contra o rosto e ajoelhou-se na terra por um tempo, olhos cobertos.
Lentamente ela baixou a mão. Intensa demais. Exposta demais.
Ela se levantou, mantendo a postura, mas sua cabeça girava. Encostou-se em uma árvore e fechou os olhos. No momento em que começou a cair no sono, a voz cortou novamente:
— CORRA.
Seus olhos se abriram num salto. Sua respiração ficou mais rápida.
/“Não agora... Continue se movendo.”/
Floresta. Não — uma cerca, e além dela, a floresta. E atrás dela, vasta e fria — um edifício. A linha familiar do telhado. A torre. Ela não pensou. Virou as costas para tudo aquilo e caminhou na direção oposta.
O chão sob seus pés era irregular — pedras, raízes, grama úmida. O vestido de seda verde arrastava-se pela lama, prendendo-se em galhos. Seu rosto e suas mãos estavam cobertos de barro, seu cabelo emaranhado com grama — não restava nada da elegância do antigo palácio.
Ela ouviu vozes antes de vê-los.
“...eles insistem novamente que você envie seus cavaleiros para uma varredura.”
A voz de um homem, nivelada.
“Quero recusar nesta temporada. Você sabe que a floresta atrás do ducado tem visto um aumento na atividade de monstros.”
“Mas e se isso se tornar um decreto imperial?”
“Vamos voltar para a residência e discutir isso lá.”
As vozes vinham de trás das árvores. Elara pressionou-se contra um tronco, mergulhando na sombra. Dois homens passaram. Um mais alto, de cabelos escuros; o outro loiro, esguio. Caminhavam sem pressa em direção a uma carruagem onde um cocheiro aguardava.
Ela poderia ter passado por eles.
/“Você sobrevive enquanto for útil.“/
Elara endireitou os ombros. Limpou o rosto com as palmas das mãos — não adiantou nada, apenas espalhou mais a sujeira. Colocou as mãos atrás das costas para que eles não vissem o tremor. E sorriu.
“Com licença!.. Olá! Vocês poderiam me levar até a cidade?”
Sua voz saiu mais firme do que ela esperava. Quase natural.
/“Elara, o medo aparece primeiro. Esconda-o.“/
Diante dos homens estava uma garota em um vestido de seda com bordados dourados — suja de terra da cabeça aos pés. Cabelo cor de prata lunar, emaranhado, com fios de grama. Olhos calmos — calmos demais para o estado em que se encontrava.
Um deles olhou duas vezes. Ignorou o vestido. Ignorou a sujeira. O cabelo. Apenas um segundo de hesitação — então ele desviou o olhar.
O outro já havia aberto a boca — Elara viu seus ombros se tencionarem. Ele estava prestes a mandá-la embora. Ela conhecia aquele tom. Mas o de olhos violeta o deteve com um único movimento de mão. E olhou para ela. Não para o vestido, não para a sujeira — direto em seus olhos.
“Claro”, disse ele com compostura. “Aqui está minha carruagem. Pode entrar.”
Ela agradeceu e passou por eles. Sentiu o olhar dele em suas costas. Elara subiu os degraus de metal, fechou a porta e acomodou-se no assento. Macio, estofado em veludo azul-escuro. O ar ao seu redor cheirava a madeira e cera.
Lá fora, os dois homens conversavam — baixo e rápido.
Alan não conseguia acreditar no que estava ouvindo e já se preparava para objetar que não podiam simplesmente recolher uma desconhecida.
“Christopher, será mesmo ela? Então precisamos chamar a guarda!”
“Alan, isso seria um erro.”
O Duque não elevou a voz, mas falava mais rápido do que o habitual. Seu olhar não deixava a carruagem — aquela fresta entre a cortina e a moldura onde o tecido verde acabara de desaparecer.
“Ela sabia onde estava. Bem ao lado do palácio, sua casa. E ainda assim pediu para ser levada embora.”
Alan franziu a testa.
“Você acha... que ela esteve aqui o tempo todo? No palácio?”
O Duque não respondeu. Seu olhar moveu-se para os grandes portões. Uma troca de turno estava começando lá — a guarda mudava de posição. Uma rotação de rotina, mas, para um olho treinado a notar detalhes, havia uma tensão não natural em seus movimentos.
“Alan, vamos sair daqui primeiro. Muitos olhos. Teremos muita sorte se ninguém nos notou.”
Alan deu um aceno curto e subiu primeiro.
Lá dentro, estava quieto. E escuro.
A garota já havia se encolhido no canto mais distante da porta — suas costas pressionadas contra o estofado, a cortina do lado oposto movida apenas o suficiente para deixar uma fresta. Seus olhos estavam fechados. Sua respiração, uniforme.
Como se estivesse dormindo.
Alan olhou para ela. Depois para a janela, e de volta para ela. Ele não sabia o que fazer com aquilo. Lá fora, o Duque ainda falava calmamente com o cocheiro — sua voz nivelada, sem pressa, como se nada tivesse acontecido. Alan apertou as mãos sobre os joelhos.
/“Christopher, o que você está fazendo...“/
Então — uma voz.
“Duque Esterg.”
Calma, medida, quase preguiçosa.
“Você ainda não partiu? Algo o deteve?”
Dentro da carruagem, o ar preso em seus pulmões não desacelerou — parou por completo.
Os olhos de Elara se abriram bruscamente, mas ela não se moveu. Nem um músculo. Apenas suas pupilas se dilataram, repentinas como um golpe. Suas mãos subiram à boca por conta própria — palma pressionada com força contra os lábios, pressionada até doer. Som significava morte.
Era ele.
Dez anos. Dez anos e aquela voz sempre soara da mesma forma — nivelada, calma, jamais alterada. Ela aprendera a temer exatamente esse tom. Não a raiva. A calma.
/“Não se mova.“/
/“O movimento te entrega.“/
Ela se moveu mais profundamente para o canto, lentamente, milímetro a milímetro, seus cotovelos não deixando o estofado. Suas costas encontraram a parede. A sombra no canto — a única coisa que havia ali.
Ela olhou para o homem à sua frente. Automaticamente, sem pensar.
Ele estava sentado ereto. Mãos nos joelhos. Ombros levemente levantados — uma tensão da qual ele provavelmente nem estava ciente. Ele não estava olhando para ela. Olhava pela janela.
/“Ele não está me entregando.“/
Ainda não.
Lá fora, passos tornaram-se mais claros. Não uma pessoa — várias. Firmes, com um eco metálico. A guarda estava se espalhando; Elara sentiu apenas pelo som, através do estofado da carruagem.
Christopher olhou para cima. Caminhando em direção a eles estava o Príncipe Herdeiro. Cabelo preto, um casaco escuro de peito único sem ornamentos excessivos — ele nunca se importara com excessos. Atrás dele, quatro homens espalharam-se pelo perímetro e vasculharam o terreno sistematicamente.
Eles estavam procurando por algo.
/“Caçando quem causou o caos da manhã? Talvez.“/
Mas o Duque sabia — o Príncipe não aparecia pessoalmente para incidentes menores. Apenas quando queria verificar algo por si mesmo.
Christopher inclinou a cabeça.
“Vossa Alteza, Príncipe Herdeiro.”
Firme, sem pressa.
“Fiquei retido no escritório do chanceler. Assuntos da propriedade — você sabe como essas coisas são.”
“Sei, sim.”
Erebus sorriu levemente. Apenas o canto da boca, nada mais.
“Você é generoso com seu povo, Duque. Até concede títulos.” Uma pausa — breve, calculada. “E imediatamente um casamento. Curioso qual seria a pressa.”
O Duque nada disse. Os dedos descansando na moldura de madeira da porta tencionaram-se — por um segundo, não mais. Ele relaxou a mão imediatamente.
Elara não podia ver seu rosto. Mas ela sentiu.
O Príncipe deu um passo. Ele contornou para a frente, sem pressa. Pelo lado dos cavalos — onde nada podia ser visto através da cortina. A carruagem estava escura, fechada. Mas daquele ângulo, através da pequena abertura entre os painéis, ele podia ver direto para dentro. Ele podia vê-la.
Seu coração disparou.
/“O medo aparece primeiro.“/
/“Esconda-o.“/
Ela pressionou as pálpebras com força. Concentrou-se em sua respiração — uniforme, lenta, como no sono. Suas unhas cravaram nas palmas das mãos.
“Duque...”
A voz — mais próxima. Muito mais próxima do que deveria estar. Quase na lateral da carruagem.
Quase ao lado dela. A dois passos de distância. Talvez menos.
O silêncio se estendeu. Elara não respirou.
“Você notou algo... incomum por aqui?”





