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Avery
O problema de ser filha do técnico é que todo mundo acha que isso significa que eu sei seguir regras.
Eu sei.
Essa é a pior parte. Eu as conheço tão bem que se tornaram uma segunda pele, um conjunto de diretrizes invisíveis de como existir sem causar confusão. Consigo senti-las antes mesmo de alguém dizer algo em voz alta — um peso fantasma sobre meus ombros que mantém minha postura ereta e minha boca fechada.
*Não envergonhe seu pai.*
*Não chegue perto demais dos jogadores.*
*Não dê motivos para as pessoas falarem de você.*
Em uma cidade que respira futebol americano universitário, meu pai é menos um homem e mais uma divindade local. Isso faz de mim sua principal discípula. Passei vinte e um anos sendo a garota que nunca comete erros. Não sou vista tropeçando em festas às três da manhã. Não choro em banheiros públicos. E, certamente, não beijo garotos atrás de bares de beira de estrada nem faço nada que possa fazer o celular do meu pai tocar antes da primeira xícara de café.
Seja esperta. Seja cuidadosa. Seja boazinha.
Fui "boazinha" por tanto tempo que, às vezes, me pergunto se ainda é uma escolha ou apenas memória muscular — do mesmo jeito que um quarterback sabe que a proteção está falhando sem precisar olhar.
O que provavelmente explica por que deixei Sloane me convencer a vestir isto.
Vejo meu reflexo no espelho do corredor: uma minissaia preta que termina no meio da coxa, botas de camurça até o joelho e uma blusa com um decote que faria meu pai olhar para o teto e pedir a Deus por uma linha ofensiva melhor. É ousado. "Não sou eu". É exatamente o que preciso.
Uma hora depois, estou deixando ela me arrastar para um barzinho fora do campus chamado *The Lineup*. O ar lá dentro é um coquetel espesso e úmido de cerveja derramada, perfume barato e o tipo de má decisão sobre a qual meu pai vem me avisando desde que cheguei à puberdade.
"Isso é um erro", digo a ela, com a voz mal conseguindo ser ouvida sobre o riff de uma música de rock que está alta demais para as dez da noite.
Sloane nem olha para mim. Ela está ocupada demais verificando o brilho labial no reflexo de um letreiro neon da Budweiser. "Não é um erro, Ave. É desenvolvimento de personagem. Você é estática demais. Precisa de uma reviravolta na trama."
"Não preciso de uma reviravolta. Tenho uma prova de psicologia do desenvolvimento na segunda-feira."
"Você tem uma emergência de vida social hoje à noite." Ela fecha seu estojo de maquiagem e se vira, seus cachos escuros balançando nos ombros. Suas argolas douradas captam a luz vermelha do bar, fazendo-a parecer uma sereia. "Você tem vinte e um anos. Tem permissão para estar em um bar. Pode tomar uma bebida que não seja sidra espumante em um jantar de arrecadação de fundos."
"Eu sei disso", murmuro, ajeitando a alça da minha bolsa.
"Então pare de imaginar a cara de decepção do seu pai pairando sobre você como um fantasma temático de futebol. Só por esta noite, você não é a filha do técnico Brooks. Você é apenas... você."
O segurança, um cara com um pescoço do tamanho da minha cintura, confere nossas identidades e nos libera. No segundo em que cruzamos a porta, o grave rola sob meus pés, pesado e quente, vibrando através do assoalho como um pulso. O bar está lotado. É um mar de gente — estudantes, moradores locais, garotas de vestido de seda, caras de polo amassada.
E, pela primeira vez na minha vida, ninguém olha para mim.
Na verdade, ninguém.
No campus, sou um espetáculo. Sou a garota que cresceu nos túneis dos estádios e tinha metade do departamento atlético acariciando sua cabeça como se fosse propriedade do time. Aqui, no caos avermelhado e à meia-luz, sou apenas uma garota de saia preta. Sem sobrenome. Sem histórico. Sem expectativas.
Por um suspiro longo e trêmulo, permito-me aproveitar isso.
"Viu?", Sloane bate o ombro no meu. "Você já está se curando."
"Estou parada na porta, Sloane. Não vamos chamar o Vaticano para um milagre ainda."
Nos esprememos pela multidão em direção ao bar. Alguém derrama algo grudento perto das minhas botas; outra pessoa grita por tequila sobre a minha cabeça. O barman parece que está acordado desde o governo Ford e só continua vivo pelas gorjetas.
Sloane pede algo rosa que parece letal. Eu peço uma vodca com cranberry, porque, mesmo quando tento me rebelar, escolho uma bebida que parece que deveria estar em um boletim de saúde.
"Isso tem gosto de alguém que mentiu para um cranberry", faço careta após o primeiro gole.
"Esse é o gosto da liberdade, gata", Sloane ri, pegando minha mão e me puxando para uma mesa alta perto da beira da pista de dança improvisada. "Agora, relaxa. Ninguém aqui sabe quem você é."
"Esse é o único motivo pelo qual ainda não corri para a saída."
Na primeira hora, realmente funciona. Bebo devagar, deixando o álcool suavizar as arestas da minha ansiedade. Danço com Sloane quando toca uma música com uma batida forte, perdendo-me no anonimato da multidão. Rio quando ela faz contato visual dramático com um cara perto da jukebox e sussurra que ele parece que "definitivamente tem uma cobra de estimação".
Estou bem. Estou normal. Não estou pensando no fato de que o time treina às sete da manhã e metade dos jogadores provavelmente está lá fora no escuro fazendo algo que daria um derrame no meu pai.
Então, a porta da frente abre.
E porque o universo tem um senso de ironia cruel, Wyatt Hayes entra.
A atmosfera no bar não se quebra, mas muda. É um deslocamento sutil de ar, como um predador entrando em um bebedouro. A música continua, mas as cabeças começam a virar em uma onda em câmera lenta.
É impossível não notar Wyatt Hayes. Mesmo que meu pai não passasse metade da vida gritando o nome dele — seja em elogios ou em fúria pura e genuína — eu o conheceria. Todos o conhecem. Ele é o tipo de cara que o campus transformou em folclore antes mesmo de ele terminar o primeiro ano. Talentoso demais para ficar no banco, imprudente demais para ser confiável e bonito demais, daquele jeito afiado e perigoso que faz as pessoas o perdoarem antes mesmo de ele pedir desculpas.
Ele é alto, com uma força explosiva e magra que o futebol não apenas lhe deu — parece que o moldou como uma arma. Um boné preto virado para trás esconde seu cabelo escuro, e uma sombra de barba define um maxilar que parece esculpido em granito. Há um hematoma roxo recente perto da maçã do rosto e um pequeno corte no lábio inferior.
Meu pai o chama de *talentoso* quando fala com olheiros. Ele o chama de *problema* quando fala comigo.
Wyatt entra com Jace e Brady — outros dois titulares. Jace é largo e sério, já parecendo calcular o dinheiro da fiança que eles podem precisar. Brady está sorrindo, o tipo de cara que daria um jeito de festejar durante um desastre natural.
Wyatt não escaneia o ambiente. Ele não precisa. Ele simplesmente existe, e o local se orienta ao redor dele.
Viro-me imediatamente, encarando a condensação no meu copo.
"Isso foi sutil", diz Sloane, com os olhos fixos na porta.
"Não vou fazer isso. Estamos indo embora."
"Fazer o quê? Acabamos de chegar."
"Ele joga para o meu pai, Sloane. Ele é uma audiência disciplinar ambulante."
"Ele é um símbolo sexual ambulante, Avery. Olha aquelas maçãs do rosto. Daria para acender um fósforo nelas."
"Meu pai diz que o Wyatt vai para a NFL ou para a prisão estadual. Ele não tem certeza de qual vai acontecer primeiro."
Arrisco um olhar por cima do ombro. Erro. Wyatt está encostado no bar, com um cotovelo apoiado na madeira. Ele está rindo de algo que o barman disse — uma expressão preguiçosa e afiada que diz que ele sabe exatamente o tamanho do problema que é e não se importa. Uma loira em um vestido justo já está deslizando para a órbita dele, mordendo o lábio como se estivesse lendo um roteiro.
Olho de volta para Sloane, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. "Ele não pode me ver aqui. Se ele contar para os rapazes, e chegar aos ouvidos do meu pai..."
"Ele nem sabe quem você é, Ave. Você nunca foi ao centro de treinamento quando eles estão praticando. Você é só uma garota em um bar."
"Uma garota em um bar usando uma saia que mostra aproximadamente quatro quilômetros de perna."
"Exatamente. Pare de ser filha de técnico e comece a ser uma jovem de vinte e um anos."
Eu tento. Realmente tento. Fico por mais uma hora, mas o zumbido relaxado em minhas veias sumiu, substituído por uma voltagem baixa de percepção. Posso senti-lo no ambiente. Ele é uma estrela negra, puxando tudo para perto de si.
Então, alguém esbarra em mim. Com força.
Minha vodca com cranberry transborda pela borda, espirrando frio e vermelho na minha clavícula e encharcando o tecido da minha blusa.
"Sério?", suspiro, dando um passo para trás.
O cara que me atingiu é alto, com um corte de cabelo que custou mais que minhas botas e um sorriso de fraternidade que não chega aos olhos. Ele me olha de cima a baixo, seu olhar demorando no meu peito um segundo a mais.
"Foi mal, gata", diz ele, a voz pingando um charme falso e oleoso.
"Não me chame de gata", respondo rispidamente, limpando minha pele com um guardanapo. Sinto um arrepio pelo jeito que ele me olha.
"Ih, ela tem mordida", diz ele para os amigos, que estão rindo atrás dele. Ele se aproxima, invadindo meu espaço pessoal. "Deixa eu te pagar outra. Algo mais forte."
"Não, obrigada. Estou bem."
"Qual é. Não seja assim. Só estou tentando ser legal." Ele se aproxima, sua mão fechando ao redor do meu pulso. Não é um aperto violento, mas é firme. Controlador.
"Me solta", digo, minha voz firme apesar da descarga de adrenalina.
Sloane intervém, os olhos faiscando. "Ela disse que não, seu babaca. Cai fora."
O cara a ignora, inclinando-se para mim. "Relaxa, gata. Só estou conversando com você."
"Ela te mandou sair."
A voz é baixa, rouca, e corta o ruído do bar como uma lâmina.
O aperto do cara no meu pulso afrouxa enquanto ele se vira. Não preciso olhar para saber quem é. Aquela voz viveu no fundo da minha vida através do viva-voz do meu pai por três anos.
Wyatt Hayes está parado a um metro de distância. Ele segura uma garrafa de cerveja pelo gargalo, sua expressão completamente vazia. Mas seus olhos — escuros e predatórios — estão fixos na mão do cara.
"Isso não é com você, Hayes", o cara da fraternidade resmunga, embora já esteja recuando.
Wyatt inclina a cabeça para o lado, um movimento lento e perigoso. "Engraçado. Parece que pode ser."
O cara tenta salvar a própria pele, olhando para a multidão que começou a ficar quieta. "Tanto faz. Ela é uma vadia mesmo."
Wyatt não grita. Ele não avança. Ele apenas coloca sua cerveja na mesa e dá um passo lento à frente. Cada músculo em seu corpo está tenso. "Diz isso de novo. Não entendi direito."
O cara empalidece, murmura algo incoerente e desaparece na multidão como se estivesse sendo perseguido por um fantasma.
O silêncio paira em nosso pequeno canto por um momento. Estou paralisada, meu coração fazendo ginástica. Wyatt volta seu olhar para mim. De perto, ele é devastador. Seus olhos são de um cinza tempestuoso, contornados por cílios longos demais para um homem que passa seus domingos batendo nas pessoas.
"Você está bem?", ele pergunta.
"Eu tinha a situação sob controle", digo, minha voz um pouco mais ofegante do que eu gostaria.
Sua boca se contrai. O corte no lábio se abre um pouco, uma gota de sangue aparecendo. "Não foi isso que eu perguntei."
"Estou bem. Obrigada."
Ele olha para o meu pulso — a pele está levemente avermelhada onde o cara me segurou — e então seus olhos sobem para o meu rosto. Ele permanece ali, me estudando com uma intensidade aterrorizante.
"Você é a primeira garota nesta cidade que não desmaiou depois que eu fiz o papel de herói", diz ele, sua voz baixando uma oitava.
"Talvez eu não goste da rotina de 'assustador, protetor e futuro criminoso'", respondo, recuperando o equilíbrio.
Wyatt solta uma risada. É um som rico e genuíno que faz meu estômago dar um nó. "Um futuro criminoso? Essa é nova."
"É precisa."
"É mesmo?" Ele se inclina, tão perto que posso sentir o cheiro refrescante de cerveja e algo como madeira de cedro e chuva. "E o que é você, então? Além de uma garota esperta demais para este bar?"
"Estou indo embora", digo, pegando o braço de Sloane.
"Você não me deu seu nome", ele chama enquanto começo a puxá-la para longe.
Não olho para trás. Não posso. Se eu olhar, tenho medo de ficar. "Ótimo! Continue assim!"
Saímos para o ar da noite, o silêncio da rua sendo um choque para o sistema. Minha pele ainda vibra onde o olhar dele me tocou.
"Avery", diz Sloane, sua voz cheia de admiração enquanto esperamos pelo nosso Uber. "Você tem noção do que acabou de acontecer?"
"Não aconteceu nada. Um jogador quase brigou. É uma terça-feira comum para ele."
"Não", Sloane sorri, os olhos brilhando. "Você acabou de conhecer a má influência dos seus sonhos. E ele não olhou para você como a filha do técnico Brooks."
Olho para as janelas escuras do bar. Ainda consigo ver sua silhueta através do vidro, parado onde o deixei. Ele está me observando.
"Não", sussurro, mais para mim mesma do que para ela. "Ele olhou para mim como se eu fosse um problema que ele quisesse resolver."
E, pela primeira vez na minha vida, não quero seguir as regras.