Don't Do It
POV: Iris
O primeiro homem a pedir uma das minhas músicas autorais desapareceu antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa. Talvez seja por isso que estou sentindo tudo intensamente demais agora.
Já se passaram dez minutos, e ainda estou pensando nisso.
As luzes parecem sempre brilhantes demais depois de uma apresentação.
Não importa o quão escuro o local seja; assim que saio do palco, tudo fica mais barulhento. Todos os sons que normalmente abafado com a música voltam para mim. As pessoas se aproximam. Meus próprios pensamentos ficam mais altos.
Abaixo-me atrás do divisor perto do palco, meus dedos trabalhando rapidamente para desconectar o cabo da minha guitarra.
Ok. Respira. Foi bom.
Mas o pedido continua se repetindo na minha cabeça.
Tento dizer a mim mesma que não é nada demais; as pessoas pedem músicas o tempo todo. Porém, não consigo acreditar nisso.
Ele pediu pela minha música. Uma autoral. Aquela que a maioria das pessoas aqui não conheceria.
Que tipo de homem em um bar de bairro conhece o catálogo de uma artista indie pequena e pede uma música obscura como se aquilo significasse algo?
Coloco minha guitarra no case e tento não imaginá-lo de novo. Falho. Não consigo evitar pensar nele, no cabelo escuro que ele jogou para trás com os dedos logo antes de caminhar em direção ao palco. Ele era quieto de um jeito que parecia quase calculado, e então ele me deu seu nome: Dom.
Pressiono os lábios e balanço a cabeça. Aos vinte e cinco anos, eu deveria estar acima de surtar por causa de homens misteriosos de bar. Pelo visto, não estou.
Vivienne teria algo a dizer sobre isso. Ela sempre tem. Faço uma nota mental para não contar nada a ela.
As antigas luminárias pendentes dão um brilho fofo a tudo, suavizando o bar de madeira gasta e as mesas desalinhadas em algo bonito. O Bourbon’s tem aquele conforto de lugar vivido. O bar é novo para mim, mas já o adoro.
Meados de maio em Chicago significa que a porta continua abrindo em rajadas de ar fresco, trazendo o barulho da rua e o cheiro de chuva no asfalto. O ambiente está naquele estado intermediário em que a música acabou, mas ninguém está pronto para ir embora ainda.
Quando chego ao balcão do bar, percebo que o local está um pouco mais vazio do que estava quando eu estava me apresentando há alguns minutos. Isso me faz sentir bem, como se houvesse algumas pessoas que ficaram só pela minha música.
Analiso o salão sem parecer que estou analisando.
Ele não está onde estava, sentado no box do canto. Ele não está em lugar nenhum que eu possa ver. A decepção me atinge antes que eu possa decidir se vale a pena.
Sério, por que eu me importo?
Mesmo assim, sento-me em um banco do bar.
“Água, por favor”, digo, apoiando o cotovelo no balcão.
“Ah, querida, água?”, diz Luca, dramático de um jeito que me faz sorrir. “Depois daquele show? Não. De jeito nenhum.”
Eu tinha conhecido Luca alguns dias antes da minha apresentação, quando vim ao bar para garantir que meu equipamento funcionasse com o que eles tinham. Ele era o garçom mais legal que já conheci, e o mais opinativo também. Eu gostava disso nele.
Rio, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Prometo que fico bem com água.”
Ele franze as sobrancelhas e me olha desconfiado. “Tem certeza? Porque eu posso fazer algo para você, garota. O show foi nota dez.”
“Ah, obrigada, mas estou bem com água mesmo”, digo, abrindo um sorriso agora.
“Tá bom”, ele suspira, virando-se para pegar um copo, “mas estou decepcionado.”
Ele desliza a água na minha direção. Dou um gole, então hesito.
Seja normal com isso.
“Ei”, digo, batendo casualmente na borda do copo. “O cara que pediu aquela última música… você o conhece? Ele vem muito aqui?”
Ele congela no meio da limpeza do balcão. Lentamente, ele se vira para me encarar.
“Ah”, ele diz, arrastando a palavra como se estivesse esperando por essa pergunta a vida toda. “Ele.”
Isso me faz querer recuar imediatamente. “Digo, não é como se… só curiosidade. Eu não—”
“Ah, não, não, não”, ele interrompe, balançando a mão. “Todas nós somos curiosas, querida.”
"Nós?”
“Sim, nós”, ele diz, colocando os dois cotovelos no balcão agora, totalmente engajado. “Porque deixa eu te contar uma coisa sobre esse homem.”
Eu me inclino para frente. Ele tem toda a minha atenção.
“Ele entra”, continua Luca, contando nos dedos, “pede um uísque — puro, aliás, como um homem adulto com segredos.”
Eu rio.
“Senta em algum lugar quieto”, ele continua, “ouve quem quer que esteja se apresentando e então? Ele vai embora.”
“Só isso?”, pergunto.
“Só isso”, ele confirma. “A Miriam, com aquela piração espiritual dela, acha que ele é um vampiro”, ele ri, apontando para uma mulher limpando o bar.
Rio por um momento com o pensamento, depois olho para o meu copo. Isso me deixa ainda mais curiosa.
“Qual é, você quer me dizer que você, entre todas as pessoas, não sabe nada sobre ele?”, provoco.
“Nada”, ele repete, encantado com o mistério. “Ele não fala sobre si mesmo. Nem sequer flerta.”
Ele se inclina um pouco mais, baixando a voz. “E de vez em quando”, ele acrescenta, “alguma garota vai até ele...”
Eu já não gosto de onde isso vai dar.
“E tenta”, ele adiciona, levantando as sobrancelhas. “Ah, porra, elas tentam.”
“E?”
“E ele corta”, diz Luca, estalando os dedos. “Educado, mas bem firme. É a vibe ‘te desejo o bem, mas não quero ser incomodado’.”
Isso me deixa confusa por um segundo. Não sei o que esperava que ele dissesse. Talvez eu estivesse procurando algo que fizesse Dom fazer sentido, alguma explicação óbvia para um homem que pede músicas aleatórias de artistas indie e depois desaparece. Luca não me dá uma explicação porque não existe uma. Esse é o verdadeiro problema.
“Querida”, ele continua, endireitando-se, “acho que ele é gay ou algo assim. Não sei, porque não importa o quão bonita a garota seja, tudo o que ele quer é o uísque dele, seu momento musical e depois ele vai embora.”
Olho para a minha água novamente. Isso deveria parecer estranho. Deveria parecer errado: um homem que ninguém conhece, que não fala, que vem e vai de forma quase assustadora. Esse é o tipo de pessoa sobre quem as pessoas te avisam.
Repasso o momento na minha cabeça, a calma da voz dele. Não foi nada complicado, mas, seguindo o estilo da Iris, aqui estou eu pensando demais nisso.
“Você está bem?”, pergunta Luca.
Olho para cima, percebendo que tinha me distraído.
“Sim”, digo, sorrindo para disfarçar. “Só pensando.”
Ele me observa por um segundo, então lança um sorriso lento, entendendo o que está acontecendo.
“Não faça isso”, ele diz. “É assim que começa.”
“Como o quê começa?”
“Curiosidade”, ele responde, num tom cantarolado. “E curiosidade? Ah, ela é uma encrenca.”
Olho ao redor do bar mais uma vez, quase torcendo para que meus olhos estivessem me enganando da primeira vez. Ele não está lá. Luca tem razão; ele realmente simplesmente desaparece.
“Eu não aconselharia nada. É assim que as garotas se dão mal, mas ele vem quase todas as sextas”, ele começa. “Talvez você o veja então.”
Eu concordo com a cabeça.
Ele dá de ombros, convencido. “Mas não venha me assombrar quando aquele episódio de Dateline sair, porque garota, eu te avisei.”
Damos risada, mas, ao olhar para a porta mais uma vez, percebo que não consigo esquecer o que acabou de acontecer.
A questão é: eu sei como as coisas funcionam. Sei exatamente como isso começa. Você nota alguém. Você se pergunta sobre a pessoa. Você se permite perguntar um pouco mais do que deveria. Então, você está mergulhada demais em algo que nunca deveria ter acontecido.
Eu não sei.
Talvez ele volte.
Odeio o fato de já estar reorganizando meu repertório para a próxima sexta-feira, só por precaução.








