ELA SALVOU O HOMEM ERRADO

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Resumo

ELA SALVOU O HOMEM ERRADO Elara Vale achava que a pior coisa que veria naquela noite seria um motoqueiro agonizante, sangrando sob as luzes quebradas de um parque de diversões abandonado. Ela estava errada. O homem que ela salvou estava marcado para morrer pela própria gangue após ser traído pelo irmão que o enviou em uma missão suicida. Caçado pela cidade por assassinos que ostentam o mesmo símbolo queimado em sua pele, ele se torna o único erro do qual Elara não consegue se afastar. Mas, quanto mais ela mergulha no mundo violento dele, mais coisas impossíveis começam a acontecer. Vozes sussurram dentro de salas trancadas. Pessoas que se acreditava estarem mortas há muito tempo ainda se lembram do nome dela. E, escondido sob a cidade, jaz um experimento secreto chamado Protocolo Sol — um pesadelo capaz de preservar a consciência humana após a morte. Quando Elara descobre que algo antigo e perigoso vive dentro de sua mente desde a infância, a sobrevivência se torna impossível. Porque a mulher dentro dela se lembra de tudo. Agora, gangues, sobreviventes e uma rede clandestina esquecida estão dispostos a matar por ela... ou a adorá-la. E o homem por quem Elara está se apaixonando? Ele pode ser a única pessoa que sabe o que ela realmente é. No fim, ela enfrentará uma escolha que nenhum ser humano deveria ter que fazer: Salvar a si mesma... Ou tornar-se imortal.

Gênero
Romance
Autor
Pseudonym
Status
Completo
Capítulos
33
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

CHAPTER 1 : The Call That Shouldn’t Exist

O turno da noite deveria terminar tranquilamente, e só isso já bastava para deixar Elara Voss inquieta. A tranquilidade nunca durava no seu mundo — não aquela que se estendia demais, nem aquela que fazia a cidade parecer prender a respiração. Sentada ao volante da sua ambulância, com o motor funcionando em marcha lenta sob ela, ela se viu observando a rua vazia à frente com um foco que não parecia tédio, mas antecipação, como se algo invisível já tivesse decidido que ela não voltaria para casa no horário combinado.




O relógio digital no painel marcava 02:17 a.m. Sua luz azul fria refletia fracamente no para-brisa. Por motivos que ela não sabia explicar, ela checou o horário novamente segundos depois, quase esperando que o tempo tivesse avançado ou retrocedido sem que ela notasse. A quietude lá fora não parecia um fluxo normal de tempo; parecia estagnada, suspensa, como o momento antes de algo se quebrar.



Ela buscou seu café, agora morno e amargo, e tomou um pequeno gole por hábito, não por necessidade. Sua mente vagou para casa — para o apartamento silencioso onde seu marido estaria dormindo ou fingindo que estava, para as conversas que eles não tinham, para a distância que crescera entre eles de forma tão gradual que parecia natural. Até que noites como esta a lembravam de quão distantes eles realmente tinham se tornado.

O rádio chiou.



Não foi o tom de alerta de costume, nem o bipe estruturado que precedia as instruções da central. Foi uma explosão crua e irregular de estática que atraiu sua atenção tão bruscamente que ela quase derrubou a xícara. Aquele som não pertencia a nenhum sistema em que ela confiasse; soava como interferência, como algo forçando passagem.




"Central?", ela disse imediatamente, deixando a xícara de lado e pegando o receptor. Sua voz estava firme, mesmo com o pulso começando a acelerar, pois o treinamento assumiu o controle antes que o medo pudesse.

A resposta não veio da central.



"...socorro..."




A palavra veio fraturada, arrastada pela estática, como se tivesse sido puxada de um lugar para onde sinais não deveriam viajar. E, por baixo dela, havia algo mais: uma respiração irregular e úmida, do tipo que vem de pulmões lutando para acompanhar a perda de sangue.



Elara sentou-se mais ereta, cada nervo em seu corpo se aguçando de uma vez.



"Senhor, preciso que continue na linha", ela disse, já alcançando o tablet montado ao seu lado. Seus dedos se moviam rapidamente para rastrear o sinal recebido, embora algo no fundo da sua mente já a avisasse que não seria tão simples.



"Diga-me sua localização. Você está ferido?"



Houve uma pausa, não vazia, mas pesada, preenchida por um leve gemido metálico ao fundo, como algo grande mudando de lugar sob pressão, seguido por uma inspiração aguda que se transformou em um som quieto e dolorido.




"...tiro...", a voz conseguiu articular.

O aperto de Elara no receptor se intensificou.

"Quantas vezes?", ela perguntou, com o tom controlado e preciso. Detalhes importavam, e a clareza salvava vidas, mesmo quando tudo parecia incerto.

Outra pausa.




Desta vez, mais longa.

Como se contar doesse.

"...três..."




Três tiros.

Provável perda severa de sangue.

Crítico em termos de tempo.




Seu treinamento se moveu mais rápido que seus pensamentos agora, já calculando pontos de pressão, danos internos e janelas de sobrevivência — mas nada disso importava se ela não pudesse alcançá-lo.



"Preciso da sua localização", ela repetiu, mais ríspida agora, superando a inquietação que se instalava em seu peito, pois algo naquela ligação não se alinhava aos procedimentos, às expectativas ou a nada que ela reconhecesse como normal. "Olhe ao seu redor. Diga-me o que vê."



A linha chiou novamente, mais alto desta vez, e por um momento ela pensou que o tinha perdido — mas então sua voz retornou, mais fraca, como se a força que lhe restava estivesse escorregando.



"...luzes...", ele disse, e a palavra pareceu estranha, deslocada.

"Postes de luz?", ela insistiu. "Prédios? Estradas?"

Um som fraco surgiu — algo parecido com uma risada, mas sem humor, sem energia, apenas um eco oco de algo que poderia ter sido descrença.

"...não... não essas...", ele sussurrou.

Elara franziu a testa, olhando para seu tablet novamente enquanto o sistema lutava para fixar a chamada. O sinal oscilava entre nós desconhecidos, saltando como se não pertencesse a lugar nenhum onde tentava se conectar.

"Então que tipo de luzes?", ela perguntou, com a voz mais baixa agora, mais focada, porque a resposta importava de maneiras que ela ainda não conseguia explicar.

Houve um longo trecho de estática.

Então, quase inaudível —

"...sol..."

A palavra permaneceu no ar entre eles, frágil e incompleta. E antes que Elara pudesse perguntar o que ele queria dizer — antes que pudesse insistir em qualquer descrição estranha que ele tentava dar —

Um disparo de arma de fogo explodiu na linha.

Não distante.

Não abafado.

Perto o suficiente para que ela ouvisse o eco, agudo e imediato, seguido por um som engasgado que foi interrompido abruptamente.

Elara congelou. Seu coração bateu tão forte contra as costelas que sua respiração falhou, porque aquilo não era mais apenas uma emergência — era violência, ativa e imediata, desenrolando-se em tempo real na outra ponta de uma conexão que não deveria existir.

"Senhor!", ela gritou, inclinando-se para frente como se a proximidade pudesse de alguma forma encurtar a distância entre eles. "Você ainda está aí? Consegue me ouvir?"

Houve um som.

Úmido.

Tenso.

"...não...", ele tentou, a palavra se desfazendo antes de se formar completamente.

"Não o quê?", ela exigiu, a urgência tornando seu tom mais incisivo. "Não se mexer? Não—"

"...eles armaram para mim..."

As palavras soaram de forma diferente desta vez, mais pesadas, mais claras apesar da fraqueza por trás delas. Carregavam um significado que não tinha nada a ver com confusão, mas tudo a ver com a constatação. Elara sentiu algo frio se instalar na base de sua espinha.

"Quem armou?", ela perguntou, sua voz mais baixa agora, mais firme, pois o pânico não ajudaria a ele, não a ajudaria, nem faria aquilo ter sentido. "Quem armou para você?"

Um motor distante rugiu fracamente na linha.

Depois outro.

E mais outro.

Aproximando-se cada vez mais.

"Eles estão voltando", sussurrou ele, e desta vez o medo era inconfundível.

Os olhos de Elara voltaram para o tablet enquanto o sistema finalmente respondia. Ele funcionava com dificuldade, tentando resolver coordenadas através de camadas de interferência que não faziam sentido algum.

"Escute-me", disse ela, forçando a calma em cada palavra. "Você precisa ficar acordado. Pressione os ferimentos, se puder. Eu vou te encontrar, mas preciso que continue falando comigo. Você entendeu?"

Não houve resposta imediata.

Apenas a respiração.

Mais lenta agora.

Mais fraca.

"...não deveria ter ligado...", murmurou ele, quase para si mesmo.

O peito de Elara apertou.

"Você fez a coisa certa", disse ela com firmeza, mesmo sentindo uma ponta de dúvida. Nada daquilo parecia correto: nem o sinal, nem o momento, nem o fato de ter chegado diretamente até ela sem passar pela central.

"Eu não liguei para a central", disse ele de repente. As palavras foram mais cortantes do que qualquer coisa que ele tivesse dito antes, atravessando a estática com uma clareza perturbadora.

Elara ficou imóvel.

"...o quê?", perguntou ela.

"Eu liguei para você", disse ele. Pela primeira vez desde o início da ligação, havia algo diferente em sua voz: algo deliberado, algo escolhido.

Um calafrio percorreu o corpo dela.

"Como?", perguntou, a pergunta escapando antes que pudesse impedi-la. Não havia protocolo para aquilo, nem explicação que fizesse sentido dentro dos sistemas que ela conhecia.

A linha chiou violentamente.

Então—

Silêncio.

Completo.

Absoluto.

Elara encarou o receptor, esperando que o sinal voltasse, que o sistema se corrigisse ou que qualquer coisa ancorasse o que acabara de acontecer à realidade. Mas nada veio: nem tom de desconexão, nem erro de sistema, apenas a ausência vazia de uma chamada que deveria ter deixado algum rastro.

Seu tablet apitou suavemente.

Coordenadas bloqueadas.

Ela olhou para baixo.

E sentiu sua respiração falhar.

A localização pulsava na tela, firme e inegável agora, mapeada claramente no limite da cidade, onde as ruas davam lugar a algo mais antigo, algo esquecido.

O parque de diversões abandonado.

Ela não pensava naquele lugar há anos.

Ninguém pensava.

Ele havia sido fechado após um acidente — oficialmente, pelo menos — mas rumores persistiam: histórias de coisas que não faziam sentido, fechamentos que ocorreram rápido demais e explicações superficiais demais.

E agora—

Alguém estava sangrando lá.

Esperando.

Seu celular vibrou bruscamente no bolso, quebrando o momento com uma súbita intensidade que a fez recuar. Ela o puxou quase automaticamente, seus olhos captando o nome na tela antes que pudesse decidir se queria ver.

Ethan.

Seu marido.

A firmeza familiar do nome parecia fora de lugar diante do caos crescendo em sua mente, como uma lembrança de uma vida que existia paralelamente àquela, mas que já não se cruzava da mesma maneira de antes.

O celular tocou.

E tocou.

E tocou.

Ela não atendeu.

Seu olhar voltou para as coordenadas, para o marcador piscando que representava um homem que havia sido baleado três vezes, que de alguma forma ligara diretamente para ela, que dissera ter sido vítima de uma armação e que sussurrara sobre um sol no meio da noite.

Seu polegar pairou sobre a ignição.

O protocolo dizia que ela deveria avisar a base.

Esperar por reforços.

Deixar a polícia cuidar disso.

Mas o rádio ainda estava morto.

A chamada não havia passado pelo sistema.

E em algum lugar lá fora—

O tempo dele estava acabando.

O telefone parou de tocar.

Então começou de novo.

Insistente.

Exigente.

Ela o silenciou.

Sua mão fechou-se ao redor da chave.

Por um momento, ela não se moveu. O peso da decisão parecia maior do que deveria, porque aquela não era apenas mais uma chamada, não era apenas mais um paciente — era algo diferente, algo que já tinha provado não seguir as regras das quais ela dependia para se manter segura.

Ela girou a chave.

O motor rugiu, alto na quietude, trazendo-a de volta a algo real, algo tangível, mesmo quando todo o resto parecia estar escapando para algo desconhecido.

E assim que ela engatou a marcha—

O rádio chiou novamente.

Fraco.

Baixo.

Mas vivo.

"...não deixe que eles...", a voz surgiu, mal conseguindo se manter.

Elara congelou.

"...ouçam você...", terminou ele, as palavras dissolvendo-se em estática quase assim que foram formadas.

Um som veio em seguida.

Perto.

Perto demais.

Não era a dele.

Outra voz.

Clara.

Fria.

Divertida.

"Bem", disse o estranho, como se comentasse algo levemente interessante, "você é mais difícil de matar do que eu pensava."

Elara perdeu o fôlego.

"...por favor...", sussurrou a primeira voz, desaparecendo rápido, escapando do alcance.

Houve uma pausa.

Uma mudança no ar que ela quase podia sentir através da linha.

O clique inconfundível de uma arma sendo engatilhada.

E então—

Silêncio.

Sem estática.

Sem interferência.

Apenas a ausência.

Desta vez, quando a conexão caiu, ela não voltou.

Nem tentou.

Tinha acabado.

Elara não percebeu que estava apertando o volante até que seus dedos começassem a doer. A tensão em suas mãos espelhava a tensão que se enrolava firmemente em seu peito, pois em algum lugar entre a primeira palavra e o silêncio final, algo havia mudado de uma forma que ela não podia desfazer.

Aquilo não era apenas uma emergência.

Era um aviso.

Ou uma armadilha.

Ou ambos.

Seus olhos ergueram-se lentamente para a estrada escura à frente, para a direção que as coordenadas apontavam, para o lugar onde a cidade terminava e algo mais começava.

E ao pressionar o pé levemente no acelerador, sentindo a ambulância começar a se mover, ela entendeu uma coisa com uma clareza que não deixava espaço para dúvidas.

Se ela dirigisse até lá—

Não estaria apenas respondendo a um chamado.

Ela estaria entrando em algo que já sabia o seu nome.