Capítulo 1
Brianna
Os limpadores de para-brisa não davam conta. A chuva batia no teto com tanta força que ela sentia nos dentes. Cinco horas, ou seis? Ela parou de contar quando os comprimidos perderam o efeito e os tremores começaram. Aquele tipo de tremor que a fazia apertar o volante até os nós dos dedos ficarem brancos, até ela não saber se estava com frio, apavorada ou as duas coisas.
Se ela parasse, pensaria. Se pensasse, lembraria da porta trancada, da agulha, do jeito que o homem que prometera amá-la a olhou quando soube que ela sabia.
Ela nunca tinha ido tão para o norte. Na verdade, nunca tinha saído do estado da Geórgia até aquela noite. O GPS tinha desistido há uma hora, e agora as placas de sinalização não significavam nada. Black Mountain, Old Fort, cidades das quais nunca tinha ouvido falar e com as quais não podia se preocupar. Ela só precisava que a gasolina durasse. Só precisava que a chuva parasse antes que os pneus decidissem que tinham acabado com ela.
O celular vibrou. Ela sabia que não deveria olhar, mas olhou, apenas um relance, apenas um segundo para ver o nome na tela. O nome do qual ela estava fugindo.
Quando ela olhou para cima, os pneus do lado direito já estavam no cascalho. O acostamento apareceu, lama preta e capim de vala passando rápido. Ela puxou o volante para a esquerda, com muita força, rápido demais. A traseira perdeu a aderência. A água agarrou os pneus e, de repente, ela não estava mais dirigindo, estava montada em algo que tinha vontade própria, algo que a queria fora da estrada.
Ela girou. Uma rotação completa, o mundo virando um borrão cinza e verde. Então o acostamento desapareceu, e o carro se acomodou em algo macio e definitivo. A vala. Profunda o suficiente para engolir as rodas. Profunda o suficiente para mantê-la ali.
Por um momento, ela não sabia onde estava. O volante tinha beijado sua testa, não com força, mas o suficiente. Ela tocou a têmpora e tirou os dedos sujos de sangue. Uma linha fina, quente e que já estava diminuindo. Ela encarou, sentiu a pulsação surda atrás dos olhos e pensou: Mova-se. Agora.
Ela empurrou a porta. Abriu com resistência, a lama sugando o metal. Ela saiu para aquela sopa de lama — terra preta, encharcada, faminta. Suas botas afundaram até os tornozelos. Ela tentou se soltar, e a esquerda ficou presa. A bota segurou; seu pé não. Ela puxou de novo, desesperada, e a direita também ficou. Ela ficou ali de meias molhadas, duzentos dólares em couro engolidos pela montanha, e teve vontade de chorar.
“Você está brincando comigo?”, sua voz falhou, alta demais na chuva. “Você está de sacanagem comigo?”
O carro estava se movendo.
Não rápido. Um deslizamento lento e arrastado em direção à escuridão além do acostamento. Ela cambaleou para trás, com os pés afundando na lama, e o viu inclinar. Não era um penhasco — não exatamente —, mas era íngreme o suficiente. Ela nunca conseguiria descer. Nunca alcançaria sua bolsa, sua água, o pouco dinheiro no porta-luvas. Tudo o que lhe restava no mundo estava escorregando para longe.
“Não. Não, não, não—” Ela estendeu a mão como se pudesse impedir, como se suas mãos importassem. “Vamos. Por favor. Eu preciso—”
O carro gemeu, caiu e atingiu o fundo. Distante. Abafado. Final.
“Foda-se!”, ela gritou para a chuva, como se as palavras significassem algo, como se pudessem mudar qualquer coisa.
“Meu celular! Minha bolsa! Tudo—” Ela não conseguia respirar. Não conseguia enxergar. “Tudo. Tudo o que eu tinha. Tudo—”
Ela caiu de joelhos na lama, sem se importar, sem sentir mais o frio. “Não. Não, não, não, isso não... isso não está acontecendo. Isso não está acontecendo de jeito nenhum.”
Ela bateu no chão. Suas palmas das mãos estalaram na terra molhada, e ela soltou um som que não era um grito, não era um soluço, era apenas um som quebrado vindo de um lugar quebrado.
“Eu não consigo. Eu não consigo fazer isso. Eu não—”
Ela ficou ali, tremendo, sangrando, descalça na lama. A chuva não se importava. A montanha não se importava. Ela não tinha nada. Ela não era nada. Apenas uma garota encharcada até os ossos, com um ferimento na cabeça, sozinha em uma estrada que não levava a lugar nenhum.
“Ok”, ela disse para ninguém, para as árvores, para o céu que continuava a desabar. “Ok. Apenas pense, Brianna. Apenas resolva isso.”
Mas ela não conseguia. Ela não conseguia pensar. Ela só conseguia tremer, sentir dor e querer deitar na lama para deixar a chuva cobri-la.
Ela não fez isso.
Ela limpou a testa — sangue e chuva, ela não sabia distinguir — e começou a andar. Um pé, depois o outro. O frio subindo do chão. Ela não olhou para trás, para onde o carro tinha ido. Não olhou para a estrada atrás dela, onde o nome dele ainda brilhava no celular. Talvez fosse melhor ter perdido o aparelho. Talvez agora ele não pudesse rastreá-la.
“Ok”, ela murmurou. “Ok, você está bem. Você está bem. Apenas... apenas continue andando. Um passo. Outro passo. Só isso.”
Seus dentes batiam. Ela mordeu os lábios com força. “Não pense no carro. Não pense no—” Ela não conseguia dizer o nome dele. “Não pense em nada. Apenas ande. Apenas encontre alguém. Qualquer um.”
O asfalto estava quebrado, cheio de buracos, serpenteando para cima entre árvores que se inclinavam. Nenhum carro. Nenhuma luz. Apenas ela, a chuva e a escuridão.
“Alguém tem que morar aqui em cima”, ela disse às árvores. “Alguém tem que ser estúpido o suficiente para viver neste lugar amaldiçoado—”
Ela escorregou, se segurou e continuou. “Tudo bem. Tudo bem. Eu farei isso sozinha. Eu só... vou andar até encontrar algo. Não preciso de ninguém. Não preciso de—”
Ela precisava de alguém.
Ela precisava de roupas secas, um cobertor e alguém para dizer que ela não estava louca, que não estava morrendo.
Ela andou até seus pés ficarem dormentes, até não sentir mais o frio, até começar a imaginar vultos nas árvores: olhos, mãos, ele. Ela balançou a cabeça. Concentrou-se na estrada. Um passo. Outro.
As sombras se moviam. Ela sabia que não, mas elas se moviam. As drogas ainda deviam estar em seu sistema. Ou talvez não estivessem, e fosse apenas ela agora, assustando-se com nada, vendo ameaças em cada galho. Tinham dito que ela era paranoica. Delirante. Que não podia confiar na própria mente. Ela tinha acreditado neles, quase no fim.
Ela sacudiu a cabeça com mais força. Foco. A estrada. Continue andando.
Então ela viu.
Um poste de madeira, quase cinza de tão velho, levemente inclinado. Uma placa, pintada à mão, quase visível na luz fraca do celular:
ESTAÇÃO METEOROLÓGICA MOUNTAIN VIEW 3 MILHAS
Abaixo disso, em letras menores: SEM ACESSO PÚBLICO
Ela riu. O som saiu quebrado. “Sem acesso público. Ótimo. Perfeito.”
Mas era alguma coisa. Três milhas até um prédio. Até um teto. Até alguém que pudesse ter um telefone funcionando, ou um cobertor, ou apenas quatro paredes onde ela pudesse parar de se mexer por cinco minutos do caralho.
Ela virou na estrada de terra.
Era pior que o asfalto, cheia de sulcos, correndo água, seus pés escorregando nas pedras soltas. Ela caiu duas vezes. Levantou duas vezes. Manteve os olhos no chão, nos pés, no próximo passo.
Então as árvores se abriram.
Ela viu através dos galhos: uma única janela, brilhando em amarelo contra o escuro. Quente. Viva. Alguém estava lá em cima.
O trovão ecoou, perto o suficiente para ser sentido no peito. O céu se abriu com mais força, como se tentasse afogá-la antes que ela chegasse.
Ela correu.
A lama agarrou seus pés, puxou-a para baixo, mas ela lutou e continuou. A luz estava mais perto agora, perto o suficiente para ver o contorno de uma cabana através das árvores. Pequena. Sólida. A luz da varanda estava acesa contra a tempestade, como se estivesse esperando por ela.
Então ela chegou à ponte.
Ela surgiu da escuridão com tábuas de madeira, sem corrimão, atravessando algo que ela não conseguia ver, mas podia ouvir. Água corrente. Um riacho que se tornara violento com a chuva. Ela não diminuiu o passo. Suas meias molhadas escorregavam nas tábuas, mas ela continuou, com os braços abertos para manter o equilíbrio, sem olhar para baixo, sem pensar na altura ou em quão velha parecia, ou em como a estrutura inteira tremia sob seu peso.
Ela chegou ao outro lado e não parou. Não olhou para trás.
O trovão soou diretamente acima dela e a chuva redobrou. Ela não conseguia ver. Não conseguia respirar. Apenas correu em direção ao brilho amarelo, com os braços impulsionando, os pulmões ardendo, o corte na testa ardendo com o suor e a chuva.
“Ok”, ela arquejou, diminuindo para um trote, depois para uma caminhada. Seus pulmões estavam em chamas. Seus pés estavam além da dormência — apenas carne batendo no chão molhado. “Ok, sua estúpida—” Ela não conseguia pensar em uma palavra ruim o suficiente. “Sua montanha estúpida. Seu—”
Ela escorregou no cascalho solto, agarrou-se a uma muda de árvore e continuou. “Estou aqui. Eu estou bem aqui. E eu não—” Ela tossiu, cuspiu chuva. “Eu não vou parar. Você está me ouvindo? Eu não vou parar.”
A luz estava mais perto agora. Ela podia ver o contorno de um prédio, pequeno e sólido contra a tempestade. Uma varanda. Um teto. Alguém tinha que estar lá dentro. Alguém com um telefone, ou uma arma, ou apenas uma porta com tranca.
“Por favor”, ela sussurrou. Depois mais alto, porque foda-se, porque o orgulho era para pessoas que não estavam descalças e sangrando em um temporal. “Por favor, esteja em casa. Por favor, esteja—”
Ela atingiu a entrada de cascalho. Mais rápido do que pensava. Mais perto do que imaginava. A cabana estava bem ali, bem na frente dela, a luz da varanda brilhando em amarelo através da chuva.
Mais alguns passos. Apenas mais alguns.
Suas pernas cederam. Não por escorregar, não por tropeçar. Por nada. Por tudo. Seu corpo simplesmente desistiu, horas de adrenalina, abstinência, frio e medo finalmente a alcançando.
Ela se sentiu caindo, sentiu o cascalho subindo ao seu encontro e, então, não sentiu mais nada.


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