PRÓLOGO
POV CECÍLIA
“Corre, pequena! Corre!”
“Estou correndo!” respondo, ofegante, a terra úmida grudando entre os dedos dos pés descalços.
“Você é lenta.”
“Não sou!” Dou uma risada e disparo até a velha mangueira do quintal, espantando os pássaros que bicavam o canteiro de flores. Escondo-me atrás do tronco grosso, tentando conter o riso.
“Mais para a esquerda.” A voz de Athena desliza dentro da minha cabeça, macia como sempre, do jeito que só eu consigo ouvir. “Ela vai te encontrar.”
“Não vai, não!” sussurro, apertando as mãos contra a casca áspera da árvore, segurando o riso.
“Cecília, vamos, meu amor, você vai se atrasar.” Ouço a mamãe me chamando de repente, bem atrás de mim. Ela sempre descobre meus esconderijos.
Cruzo os braços, batendo o pé no chão.
“Você é péssima em esconde-esconde, Athena.”
“Eu falei para ir mais rápido”, ela rebate, quase ofendida, e eu rio de novo, mas o riso morre quando vejo o rosto da mamãe.
“Cecília...” ela pergunta, devagar, do jeito que pergunta quando já sabe a resposta e não quer ouvir. “Com quem você está falando?”
“Com a Athena.”
O sorriso dela se apaga. Sempre se apaga quando eu digo esse nome, como se a palavra a deixasse triste. Ela segura minha mão com força — forte demais — e por baixo da pele sinto o tremor que ela tenta esconder.
“Vamos. Está quase na hora da sua consulta.”
No carro, ninguém fala comigo. William dirige com as duas mãos presas ao volante, os olhos fixos na estrada como se ela pudesse fugir se ele piscasse. Encosto a testa no vidro frio e observo as árvores passarem, borradas, e espero Athena comentar alguma coisa — ela sempre comenta tudo — mas ela também está quieta.
Isso nunca acontece.
O consultório do Dr. Phil cheira a livros velhos e a um perfume de baunilha que sai de uma velinha na estante. Ele tem um bigode engraçado que levanta quando ri, e um passarinho de cristal pendurado na janela que, quando o sol bate certo, espalha um arco-íris pequeno na parede — hoje ele está bem no meio do meu desenho.
Desenho a Athena. Sempre desenho a Athena, mesmo sem saber muito bem que forma dar a ela — então ela vira um risco de luz, um contorno que só eu entendo.
Depois de um tempo, o doutor me manda esperar do lado de fora. A porta fica, sem querer, um pouco entreaberta, permitindo que as vozes escapem pela fresta.
“Doutor... ela está pior.” A voz da mamãe treme numa palavra e quebra na seguinte. “Ela continua conversando com... com ela.”
De repente, todos ficam quietos.
“Os exames descartam outras possibilidades”, diz o Dr. Phil, e cada palavra sai devagar, como se ele estivesse escolhendo onde pisar.
William solta o ar pelo nariz, um som que nunca ouvi ele fazer.
“Então o senhor tem certeza?”
“Infelizmente. Tudo indica esquizofrenia de início precoce.”
Esquizofrenia. Repito a palavra baixinho, só para sentir o formato dela na boca. É comprida e afiada nas pontas. Será que isso dói?
“Os remédios não estão funcionando”, a mamãe lamenta, e a voz dela já não parece mais voz, parece só ar tentando sair. “Nós já tentamos tudo!”
“Ainda não tudo.” Ouço papéis sendo manuseados. “Existe um estudo experimental.”
A mamãe começa a chorar baixinho, do jeito que ela chora quando não quer que eu ouça.
“Ela só tem oito anos...”
“O do Instituto Harven?” William pergunta, e alguma coisa na voz dele muda quando diz esse nome. Fica mais dura. Mais rápida.
“Sim. Embora ainda esteja em fase de testes.”
Outro silêncio. A cadeira do meu padrasto range quando ele se inclina para a frente.
“Acho que chegamos a um ponto em que vale a pena considerar qualquer possibilidade.”
Não entendo metade do que eles dizem. Não sei o que é um “estudo experimental”, nem por que o nome Harven faz o ar da sala mudar de temperatura. Mas sinto — do jeito que só sinto quando algo está muito errado — Athena se encolher no fundo da minha cabeça, pequena, como se estivesse tentando caber num espaço menor do que ela.
“Athena?“, chamo, baixinho, quase sem mover os lábios.
Nada.
Pela primeira vez desde que me lembro de existir, ela não responde. E o silêncio dela é mais alto do que qualquer grito que eu já tenha ouvido.
Aperto o desenho amassado contra o peito.
“Athena.” chamo.
“Pequena...”
A voz volta, mas errada. Trêmula. Pequena do jeito que nunca foi.
“Athena não sente medo. Athena não sabe o que é medo.”
“Cecília.”
Ela nunca diz meu nome, nem uma vez.
“Você precisa fugir.”
Meu estômago vira do avesso.
“Foge, Cecília. Foge!”








