📖 CAPÍTULO 1 — A mulher que não foi convidada
A primeira coisa que Adrian Voss notou sobre ela —
foi que ela não pertencia àquele lugar. Não do jeito óbvio. Não como as mulheres que chegavam aos eventos dele vestidas demais e preparadas demais, desesperadas para serem lembradas por pessoas que esqueciam rostos antes mesmo da sobremesa ser servida. Não como os investidores que sorriam rápido demais. Ou os políticos que riam alto demais. Ou as socialites que flutuavam pelos salões fingindo que a proximidade com o poder significava que elas mesmas o possuíam.
Não.
Ela não pertencia àquele lugar por escolha. E isso a tornava perigosa imediatamente. Adrian observava o salão de gala do mezanino, uma das mãos apoiada levemente no corrimão escuro enquanto as conversas se moviam abaixo dele como um ruído controlado. Tudo naquela noite fora planejado com precisão. A iluminação. A disposição das mesas. O fluxo de convidados. A rotatividade da segurança. Até a música fora selecionada para manter uma atmosfera psicológica específica: conforto caro. Previsibilidade. Controle. Seu olhar percorria o salão mecanicamente, catalogando detalhes automaticamente. Potenciais alianças. Potenciais ameaças. Potenciais problemas. Então, ele a viu. E todo o ritmo do salão mudou. Sutilmente. Mas o suficiente. Do outro lado do salão, Elena Marlowe sentiu isso instantaneamente.
Aquela pressão quase imperceptível no ar. A sensação de atenção travando nela como uma força física. Não reaja. Não se vire. Apenas respire. Ela manteve sua postura firme, os ombros relaxados sob o tecido escuro e elegante de seu vestido, o olhar fixo logo além da multidão em movimento. Em qualquer lugar, menos nele. Porque ela já sabia o que aconteceria se olhasse diretamente para Adrian Voss. Pessoas como ele notavam fraqueza. E, naquela noite, Elena não podia se dar ao luxo de ser notada de forma alguma. Infelizmente — já era tarde demais. Acima dela, Adrian inclinou a cabeça levemente.
“Quem é ela?”
Marcus não hesitou.
“Não está na lista.”
Só isso já mudava tudo. Porque, no mundo de Adrian, nada acontecia por acaso. Especialmente dentro do prédio dele. O que significava: ou ela era extremamente imprudente, ou extremamente importante. Nenhuma das possibilidades o interessava tanto quanto deveria. Elena exalou lentamente. Lento demais. Controlado demais. Você está sendo observada. A sensação não era desconhecida. Ela passara anos sentindo olhares sobre si. Rastreada. Esperada. Procurada. Mas aquilo parecia diferente. Mais aguçado. Mais próximo. Como um perigo parado logo atrás dela, em vez de em algum lugar distante. Passos se aproximaram. É claro que se aproximaram. Elena fechou os olhos brevemente, recuperando o fôlego antes de se virar. Ele era mais alto de perto. Essa foi a primeira coisa que ela notou.
A segunda — foi o quão imóvel ele estava. Não relaxado. Controlado. Cada movimento parecia intencional. Medido. Como se nada ao redor dele acontecesse sem permissão.
“Você não está na lista.”
Sem saudação. Sem apresentação. Direto. Elena quase sorriu.
“Parece um problema para a sua equipe.”
Por meio segundo, algo brilhou na expressão de Adrian. Não exatamente surpresa. Interesse. A maioria das pessoas ficava nervosa perto dele. Ela ficava mais afiada. Interessante. Adrian a estudava abertamente agora. Não casualmente. Com precisão.
“Você não está aqui por acaso”, disse ele.
Não foi dito como uma pergunta. Elena sustentou seu olhar por tempo suficiente para tornar o momento perigoso. Então, inclinou-se ligeiramente para mais perto.
“Se eles me tirarem deste salão…”
Sua voz baixou sob a música orquestral que flutuava pelo salão de baile.
“…você vai ter um problema muito maior.”
Aquilo capturou toda a atenção dele.
“Explique.”
Ela hesitou. Não de forma teatral. Estratégica.
“Eles me seguiram.”
Silêncio. Não confusão. Reconhecimento. Adrian não se virou para as saídas. Não vasculhou o salão. Não reagiu visivelmente de forma alguma. O que, de alguma forma, deixou Elena mais inquieta do que o pânico teria feito.
“Quantos?”, perguntou ele calmamente.
“O suficiente.”
Intencionalmente vaga. Um vislumbre de movimento perto da entrada do salão chamou a atenção de Adrian imediatamente. Fácil de ignorar. Ele não ignorava nada.
“Fique onde está”, disse ele.
Elena ergueu uma sobrancelha.
“Isso não soa como uma opção.”
“Não é.”
Algo perigosamente próximo da irritação passou pelo rosto dela.
“Você sempre dá ordens tão rápido assim?”
“Sim.”
“As pessoas costumam obedecer?”
“Sim.”
Elena soltou o ar suavemente.
“…Infelizmente.”
Aquilo quase pareceu diversão. Quase. Então Adrian se moveu. Não de forma agressiva. Não com pressa. Mas com o tipo de certeza que fazia as pessoas inconscientemente abrirem caminho para ele sem entender o porquê. Sua mão pousou levemente na parte baixa das costas de Elena. Guiando. Controlada. Quente o suficiente para ser uma distração. Elena enrijeceu instantaneamente.
“O que você está fazendo?”, ela murmurou.
“Resolvendo o seu problema.”
“Isso não é reconfortante.”
“Não é para ser.”
Claro que não era. Ele a guiou de volta para o centro do salão de baile. O pior local possível. O menos protegido. O mais visível.
“Você está falando sério agora?”, ela sussurrou bruscamente.
“Sim.”
“Porque isso parece o oposto de se esconder.”
“É.”
Aquilo a parou. Elena olhou para ele completamente então.
“…O quê?”
Adrian inclinou-se um pouco mais perto.
“As pessoas não procuram pelo que já tem dono.”
O estômago dela afundou imediatamente.
“Não faça isso.”
“Tarde demais.”
Então ele parou de andar. Diretamente no centro do salão. A atenção mudou sutilmente ao redor deles. Não dramaticamente. Mas o suficiente. Sempre o suficiente.
“Você está gostando disso”, murmurou Elena.
“Ainda não.”
Essa resposta absolutamente não ajudou.
“Adrian.”
A voz atrás deles era suave. Polida. Perigosamente calma. Adrian se virou levemente.
“Daniel.”
O nome soou estranho. Não caloroso. Não hostil. Medido. Elena se virou cuidadosamente. Daniel Morgan parecia exatamente o tipo de homem em quem as pessoas confiavam rápido demais. Terno elegante. Postura controlada. Expressão perfeitamente neutra. Mas seus olhos — seus olhos mudaram no momento em que pousaram nela. Reconhecimento. Não curiosidade. Não atração. Reconhecimento. E, de repente, o pulso de Elena disparou forte o suficiente para doer.
— E quem — perguntou Daniel, de forma leve — é esta?
Adrian não hesitou.
— Elena.
Apenas o nome dela. Nada mais. Daniel sorriu de leve.
— Apenas Elena?
Passou-se um instante.
— Que misterioso.
Elena forçou um pequeno sorriso.
— Já me chamaram de coisas piores.
O olhar de Daniel permaneceu nela por tempo demais.
— Tenho certeza de que sim.
Algo na maneira como ele disse isso pareceu errado. Sutil. Mas profundamente errado.
— Elena — disse Adrian, em voz baixa.
Ela virou-se levemente para ele.
— Fique perto.
Ela quase riu.
— Isso não soa como uma opção.
— Não é.
— Você sempre fala assim?
— Sim.
— …Que infelicidade.
Novamente, aquele quase divertimento. Novamente, algo que sumiu rápido demais para se confiar. Daniel observou a troca de palavras atentamente. Agora, estava interessado.
— Você está cheio de surpresas esta noite — disse ele a Adrian.
Adrian não respondeu. O que Elena estava aprendendo rapidamente: era uma resposta. Daniel recuou eventualmente. Mas não foi embora. Nunca se afastou totalmente. E Elena não conseguiu respirar direito até que ele desaparecesse na multidão.
— Ele sabe de alguma coisa — disse ela calmamente.
— Sim.
A cabeça dela girou em direção a Adrian.
— É só isso? Sim?
Adrian olhou para ela com firmeza.
— Ele sabe de alguma coisa — repetiu ele, calmamente.
— Não de tudo.
— E você está bem com isso?
Uma pausa.
— Não.
Pelo menos aquilo soou honesto. Elena cruzou os braços com força.
— Você não está levando isso a sério.
Adrian aproximou-se novamente. Perto demais.
— Estou — disse ele, em voz baixa.
— Você está entendendo a situação errado.
— Então explique.
— Com prazer.
A mão dele voltou para as costas dela. Mais firme desta vez. Como uma âncora.
— Você entrou no meu prédio — disse ele,
trouxe ameaças desconhecidas com você,
e atraiu a atenção de alguém que não se move sem motivo. O olhar dele tornou-se mais intenso.
— E você acha que isso é algo que eu ignoro?
Elena sustentou o olhar dele sem vacilar.
— Bom — murmurou ele.
— Porque não é.
Passou-se um instante.
— O que significa — continuou Adrian,
— que você não é mais um problema que eu elimino.
Ela prendeu a respiração.
— Você é um problema que eu gerencio.
Aí estava. Frio. Preciso. Honesto. Elena encarou-o.
— E o que exatamente "me gerenciar" envolve?
— Vamos oficializar isso.
O estômago dela revirou na hora.
— Não.
— Sim.
— Você nem perguntou—
— Você não tem tempo para eu perguntar.
Silêncio. Porque ambos sabiam que ele estava certo.
— Você quer proteção — continuou Adrian, calmamente.
— Você quer que eles parem de te seguir.
Uma pausa.
— Você quer que o que quer que esteja fugindo permaneça enterrado.
Elena não disse nada. Porque ele não estava errado.
— Em troca — disse ele,
— você fica onde eu possa te ver.
— Isso não é um acordo.
— Não — respondeu Adrian, calmamente.
— É uma vantagem.
Elena olhou para ele, incrédula.
— Isso é loucura.
— Possivelmente.
Um instante.
— Ainda assim, vai acontecer.
Ela soltou o ar bruscamente.
— Eu não pertenço a você.
Adrian assentiu uma vez.
— Correto.
Então, em voz baixa:
— Mas você vai fingir que pertence.
O coração dela disparou violentamente.
— Por quanto tempo?
A resposta dele veio na hora.
— Até eu decidir que você não vale mais o risco.
Frio. Controlado. Final. E, de alguma forma, isso deveria tê-la aterrorizado mais do que aconteceu. Em vez disso, Elena viu-se estudando-o. Tentando entender por que um homem construído inteiramente de controle parecia quase aliviado por estar tão perto do perigo.
— Você pode dizer não — disse Adrian, baixinho.
Aquilo a surpreendeu.
— Mas se o fizer…
Um instante.
— Você sai daqui sozinha.
O peito dela apertou-se.
— E eles vão seguir você.
O silêncio instalou-se pesadamente entre eles. Porque ambos entenderam: aquilo não era, na verdade, uma escolha.
— …Tudo bem — disse Elena, por fim.
Adrian não reagiu visivelmente. Mas algo mudou sutilmente em sua postura. Vitória. Não gritada, mas real.
— Os termos podem ser negociados depois — acrescentou ela, rapidamente.
— Eles serão.
Uma pausa.
— Começando agora.
E em algum lugar sob a música, sob a multidão, sob a tensão impossível que crescia entre eles — Elena percebeu algo profundamente perigoso. Pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu mais segura ao lado dele do que em qualquer outro lugar na sala. O que provavelmente significava que ela tinha acabado de cometer um erro catastrófico.

