Pedaços de Luz Roubada

A primeira máquina que consertei na vida foi um rádio que não tinha a menor condição de voltar a funcionar.
Ele estava em pedaços sobre a nossa mesa da cozinha, com a carcaça de plástico rachada ao meio e a antena torta, como um dedo quebrado. Minha mãe o tinha arremessado contra a parede três noites antes, quando a energia acabou de novo e a estática parou de ser barulhenta o suficiente para abafar o choro dela.
Eu tinha nove anos.
Jovem demais para saber o que estava fazendo.
Velho o suficiente para acreditar que conseguiria descobrir mesmo assim.
O trailer estava escuro, exceto pela lanterna equilibrada entre meu ombro e o maxilar, enquanto eu mexia nas entranhas do rádio com uma faca de manteiga e uma chave de fenda que roubei da garagem do Sr. Hargrove, nosso vizinho.
Lá fora, a chuva batia no telhado com força suficiente para fazer as paredes finas tremerem. A água vazava pela moldura da janela da cozinha em gotas lentas e irregulares, acumulando-se em uma panela de sopa enferrujada que minha mãe colocara embaixo dela meses atrás.
Nada naquele trailer era consertado de verdade.
Nem a fiação.
Nem o encanamento.
Nem nós.
“Carter?”
A voz da June veio baixinho debaixo da mesa.
Eu olhei para baixo.
Ela estava encolhida ali embaixo, num casulo de cobertores, com os joelhos puxados contra o peito. Seis anos de idade. Descalça. O cabelo loiro embaraçado ao redor do rosto.
Os blecautes a assustavam.
Tudo a assustava naquela época.
“Estou consertando”, eu disse a ela.
“Você disse isso antes.”
“Desta vez é sério.”
“Você não sabe como.”
Voltei a olhar para os fios espalhados sobre a mesa.
Talvez eu não soubesse.
Mas as máquinas faziam sentido para mim de um jeito que as pessoas nunca fizeram. Máquinas seguiam padrões. Entradas. Saídas. Lógica. Se algo quebrava, havia um motivo para isso.
As pessoas quebravam sem motivo nenhum.
“Eu sei o suficiente”, murmurei.
Do fim do corredor vinha o som abafado da minha mãe chorando no travesseiro. Ou dormindo. Às vezes, os sons se misturavam.
June rastejou para a frente até que seu queixo descansasse no meu joelho.
“A mamãe diz que você desmonta as coisas porque acha que é mais esperto que todo mundo.”
“A mamãe fala umas coisas estranhas quando está cansada.”
“Ela está sempre cansada.”
Aquilo pesou no escuro entre nós.
June puxava um fio solto do cobertor enrolado em seus ombros. Suas unhas estavam roídas até o sabugo de novo. Ela só fazia isso quando estava ansiosa.
“Você acha que a energia volta hoje à noite?”, ela sussurrou.
“Provavelmente.”
“Você está mentindo.”
“Tá bom. Provavelmente não.”
Ela suspirou dramaticamente, o que me fez sorrir apesar de mim mesmo.
“Nós vamos morrer neste trailer”, ela anunciou. Ela dizia isso o tempo todo, e toda vez meu peito doía. Eu não gostava quando ela falava esse tipo de coisa.
“Com certeza não vamos.”
“E se um urso nos comer?”
“Um urso não vai subir em um trailer durante uma tempestade.”
“E se for um urso muito determinado?”
Eu soltei uma risadinha.
“Existem lanches mais fáceis do que nós.”
June sorriu então, de repente, com um brilho que mudou o ambiente por um segundo.
Essa era a June.
Ela conseguia transformar a miséria em piada antes que você percebesse que ela estava sofrendo.
Anos depois, entendi que o humor era seu instinto de sobrevivência.
Enrolei dois fios um no outro e empurrei as pilhas de volta para o lugar.
O rádio chiou.
June ofegou.
A estática explodiu no alto-falante antes que a voz de um homem cortasse a cozinha de repente.
“...o alerta de tempestade continua em vigor…”
Meu peito apertou tanto que quase doeu.
O rádio funcionou por uns seis segundos antes de morrer de novo.
Mas June olhou para mim como se eu tivesse feito um passe de mágica.
“Você consertou.”
“Quase.”
“Você fez ele falar.”
Dei de ombros como se não fosse nada demais, embora um calor tivesse se espalhado pelo meu peito tão rápido que me assustou.
Porque, por seis segundos, eu mudei alguma coisa.
Eu peguei uma coisa quebrada e a forcei a voltar para o mundo.
Aquele sentimento nunca me deixou depois disso.
“Você vai construir robôs um dia”, disse June, com naturalidade.
Eu ri. “Por que robôs?”
“Porque inventores normais são chatos.”
“Isso soa cientificamente preciso.”
“Você provavelmente vai ser rico também.”
“Definitivamente não.”
“Você poderia me comprar um daqueles trampolins gigantes.”
“Um trampolim inteiro?”, provoquei levemente.
“Com a rede em volta.”
“Nossa. Você está sonhando alto hoje.”
June sorriu, sonolenta, e depois disse baixinho: “Você não me deixaria aqui se ficasse rico, né?”
A pergunta me fez pausar com os fios do rádio na mão. Franzi a testa, olhando para ele.
“Eu não deixaria.”
“Promete?”
“Sim.”
“Promete de dedinho?”
Revirei os olhos. “Qual é a diferença?”
“Uma promessa normal significa talvez. Uma promessa de dedinho significa para sempre.”
Existem momentos na vida que a gente não percebe que se tornaram permanentes até anos depois.
Aquele foi um deles.
A tempestade lá fora suavizou para uma chuva constante enquanto June esperava pela minha resposta com uma fé absoluta escrita em seu rosto.
Fé, como se eu fosse maior que aquela cidade.
Maior que a pobreza.
Maior que todas as coisas que lentamente esmagavam nossa mãe de dentro para fora.
Eu não merecia aquele tipo de fé.
Mas eu queria merecer.
“Super promessa”, disse eu baixinho.
June sorriu como se tivesse acabado de receber a própria certeza.
Ninguém deveria confiar em outra pessoa tão completamente.
A chuva lá fora finalmente diminuiu o suficiente para que o silêncio se instalasse no trailer, e June puxou a minha manga.
“Podemos sair?”
“É meia-noite.”
“E daí?”
“E daí que crianças normais estão dormindo.”
“Normal é chato”, disse June, com os olhos bem abertos e implorando.
Alguns minutos depois, saímos descalços na grama molhada, carregando um pote de vidro entre nós.
O ar do Oregon cheirava a úmido, frio e vida após a tempestade. Os pinheiros ao redor do nosso trailer se moviam suavemente ao vento enquanto pequenos lampejos de ouro piscavam pelo campo.
Vagalumes.
June esqueceu de sentir medo no segundo em que os viu.
Ela correu descalça pela grama, rindo enquanto eu a observava, caso ela escorregasse.
“Pega alguns, Carter”, ela gritou, com um sorriso radiante no rosto enquanto girava, as mãos levantadas entre os lampejos de ouro ao redor dela.
Sorri suavemente, observando-a, e depois caminhei para fazer o que ela pediu.
Peguei três vagalumes e os prendi cuidadosamente dentro do pote.
June o segurou com as duas mãos como se fosse algo sagrado.
“Eles são lindos”, ela sussurrou.
“São insetos.”
“Não.” Ela franziu a testa para mim. “Eles são pequenos pedaços de luz roubada.”
O brilho iluminava seu rosto suavemente.
Lembro-me de pensar que ela parecia frágil.
Como algo que o mundo eventualmente quebraria se eu não fosse cuidadoso o suficiente.
“Você acha que a luz lembra de onde veio?”, ela perguntou baixinho.
Essa pergunta me seguiu pela vida toda.
Eu não sabia disso na época.
Não sabia que aquela frase se tornaria a base de cada coisa terrível que eu acabaria construindo.
Olhei para minha irmãzinha parada no escuro, segurando luz moribunda em suas mãos, e disse a ela a única coisa que eu sempre quis acreditar.
“Eu vou dar um jeito.”
Ela sorriu para mim como se eu pudesse salvar o mundo.
Esse era o problema.
June sempre acreditava em mim.
E eu nunca aprendi a sobreviver ao fato de decepcioná-la.


This first chapter is a really good start to the story. I love the brother/sister interaction. ❤️😺
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ ❤️❤️❤️❤️❤️
😭 I'm balling my eyes out. What a beautifully sad first chapter Jen!x