Capítulo 1
John — Sábado à noite, na minha casa
Quando comprei essa porra de casa — inferno, quando sangrei por ela, quando martelei cada prego e rasguei as palmas das mãos em vigas cheias de farpas porque achei que era isso que o amor significava — eu era mais burro que uma porta. Idiota de amor. Como um moleque iniciante que não fazia ideia de que amor não paga porra nenhuma quando alguém tem fome de algo novo, algo brilhante, algo como aquele babaca do Mateo que vive de shake de proteína.
Dez anos, porra. Dez anos respirando serragem e fibra de vidro, rangendo os dentes até quase acabarem por causa de canos estourados e paredes tortas do caralho, despejando cada gota de suor, sangue e o que restava da minha alma em um sonho que achei que compartilhávamos. Todo sábado martelando, todo domingo lixando, toda semana de trabalho chegando em casa e me arrastando pelo sótão feito um rato, refazendo a fiação porque Carol decidiu que a cozinha precisava de “mais ambiente”. Paredes verde-sálvia — a cor de ervas trituradas que ninguém usa. Um cantinho do café onde o sol podia “beijar” a xícara dela todas as manhãs. A banheira com pés de garra pela qual ela chorava como se fosse um santuário sagrado para a inocência perdida.
E eu? Eu nem gostava dessa merda de subúrbio. Não gostava dos gramados bem cortados, nem daquelas Karens da associação de moradores medindo minha grama com uma régua. Mas eu cerrei os dentes, engoli o orgulho e pensei: é isso que um homem bom faz. É assim que essa porra de amor se parece.
E enquanto eu estava lá fora me arrebentando e vivendo de salário em salário só para manter o sonho dela vivo, aquele filho da puta escorregadio do Mateo estava metendo fundo na minha vida. Aquele babaca, com seus tênis de trilha e seu sorriso de Instagram, comendo a Carol de todos os jeitos possíveis na cama que eu construí. No quarto em que eu suei sangue para rebocar.
Consertei a porra do telhado, remendo por remendo, colocando telhas até minhas mãos sangrarem através das luvas que cheiravam a borracha e arrependimento. Pintei cada parede — ah, não apenas uma vez, mas cada vez que o humor dela oscilava feito uma bola de demolição. “Talvez um azul mais claro, amor.” “Talvez a gente tente cor de ovo, querido.” Como se a tonalidade certa fosse consertar o buraco que crescia no peito dela — e no meu.
Eu ainda conseguia sentir o cheiro da tinta quando caminhava por esses corredores, ainda via os remendos onde trabalhei até as 3 da manhã, passando massa e praguejando baixinho enquanto ela dormia profundamente no colchão que carreguei escada acima sozinho. Provavelmente sonhando com aquele Mateo de merda sussurrando bobagens sobre montanhas, sonhos e o “chamado da natureza” direto no ouvido dela.
Que se dane tudo. Eu amava aquela mulher. E ela amava a versão de mim que inventou na sua cabeça oca e do caralho. O faz-tudo. A carteira. A mão firme para segurar quando a aventura esfriava e ficava entediante.
Agora? Agora eu olho para essas paredes — essas paredes do caralho que sabem mais sobre mim do que qualquer alma viva — e tudo o que vejo é traição pregada em cada viga, embebida em cada tábua, gritando acusações silenciosas através de cada rachadura.
Eu queimei o colchão.
É.
Toquei fogo naquilo no quintal, como se o colchão me devesse sangue e horas extras. Peter e Graham apareceram na metade — cervejas na mão, sem fazer perguntas. Apenas ficaram lá comigo, vendo tudo virar cinzas de poliéster barato e promessas quebradas, me deixando beber, xingar e gritar até ficar rouco, até os vizinhos começarem a olhar pelas janelas, aqueles curiosos do caralho.
Não liguei. Que olhem.
Que olhem essa porra mesmo.
A casa ficou com cheiro de fumaça por uma semana depois disso. Ainda fica, às vezes, quando chove. Entra no gesso, nas saídas de ar. Eu poderia derrubar tudo até os tijolos e ainda sentiria o cheiro — o fedor de algo podre que eu não conseguiria limpar nem se tentasse.
Agora durmo no quarto de hóspedes — aquele cubículo frio que eu costumava chamar de “quartinho da bagunça”, entulhado de lixo e móveis quebrados.
Peguei um colchão velho no Craigslist por cinquenta pratas e joguei no chão. Nem me dei ao trabalho de montar uma base. Qual é a porra do sentido?
Não tem chance nenhuma de eu colocar os pés naquele quarto principal de novo. Não a menos que eu esteja meio bêbado, cambaleando e arrastando as palavras, com os punhos já fechados só de pensar no que me espera atrás daquela porta — o tipo de luta brutal que você só perde para si mesmo. O tipo de luta em que você soca a parede até os nós dos dedos abrirem e, ainda assim, não sangra o suficiente para afogar as imagens que queimam no seu crânio.
Eu não consigo olhar para aquilo.
Não consigo ver aquela cama de carvalho — aquela que eu mesmo construí com minhas duas mãos, passei três noites lixando, envernizando e xingando cada farpa como se fosse uma carta de amor escrita em sangue — sem imaginar a cabeça dela batendo na cabeceira, os dentes mordendo o lábio, os olhos revirando, gemendo por outro homem enquanto eu estava a três mil quilômetros de distância em um Motel 6, comendo sanduíche frio de posto e empilhando contratos só para comprar cada sonho inútil que ela balbuciava dormindo.
Não consigo nem passar pela porta do quarto principal sem sentir meu maxilar travar de um jeito que parece cascalho moendo no meu crânio. Passo por ela e é como se as próprias paredes tremessem e sussurrassem, exalando baforadas quentes da traição dela. O gesso se curva, o ar vibra — os sons molhados de palmada dela sendo comida por algum marombeiro idiota que cheirava a bronzeador artificial e Axe. Sussurros. Risadas. Aquela risadinha baixa e nojenta de uma vadia que esqueceu de quem era o nome na escritura da casa.
Esfreguei os pisos até meus nós dos dedos racharem como fruta madura. Esfreguei até a água ficar da cor de ferrugem e, mesmo assim, o fedor não saía. O fantasma dela ainda se agarrava às frestas do assoalho como mofo.
Pintei cada centímetro de parede que ela já tocou, passando primer e tinta grossa como melaço até meus braços falharem. Cobri cada marca de dedo gordurosa, cada rastro da vida dela que eu podia alcançar, mas a casa ainda tem o cheiro dela. Ainda parece um cemitério construído para otários.
Encaixotei toda a porcaria inútil que ela deixou para trás — aqueles tapetes de ioga horríveis que cheiravam a suor velho e promessas quebradas, as canecas lascadas de “Live Laugh Love” que já pareciam uma piada quando ela comprou, os panfletos de trilha que ela usava para fingir que se importava com “aventura” enquanto apodrecia por dentro — entulhei todo aquele lixo em caixas e joguei na Goodwill, o lugar que mereciam.
Não consertou porra nenhuma.
O fantasma dela ainda está aqui.
Ainda ouço o clique-claque dos saltos estúpidos dela pelo corredor à noite, aquele barulho seco, falso e curto feito para parecer sedutor e brincalhão, lá atrás, quando eu era burro demais para ver que era o som de uma marcha fúnebre.
Ainda ouço ela rindo falso ao telefone, fingindo que sentia minha falta, fingindo que se importava, enquanto sua boceta ainda estava molhada da porra de outro cara.
Ainda sinto aquele cheiro de loção de baunilha barata saindo das paredes do closet como um cadáver apodrecendo atrás do gesso. Doce e rançoso ao mesmo tempo. Não importa quantas vezes eu pinte, não importa quantas velas eu acenda, o cheiro vaza. Não morre. Não vai embora de jeito nenhum.
Não dá para reconstruir sobre a podridão.
Não dá para colocar vigas novas em uma fundação rachada.
Não dá para amar uma mulher que já está procurando a próxima pica para montar enquanto você está por aí quebrando as costas tentando dar o mundo para ela.
E, meu Deus do céu, eu ainda a amava.
Amava como um cachorro cego e raivoso que não sabe a hora de parar de voltar para a bota que chuta suas costelas.
Amava como algum príncipe idiota de conto de fadas que achava que, se ele apenas tentasse mais, se apenas desse mais, ela pararia de olhar através dele como se ele fosse invisível.
A amava tanto que isso me esvaziou, sugou a medula dos meus ossos e me deixou lá, sorrindo como um idiota, enquanto ela empacotava a alma e entregava de bandeja para algum troglodita de esquina, com bíceps e uma frase motivacional mal feita tatuada nas costelas.
A única salvação — se é que se pode chamar assim — foi quando a mentira finalmente se rasgou e derramou toda sobre o meu chão. Quando eu peguei ela e o Mateo no meio da foda nos lençóis que eu comprei, na cama que eu fiz, no quarto pelo qual eu sangrei.
E Graham — Graham já estava lá antes mesmo de a porta bater atrás daquela vadia.
Sem hesitação.
Sem discursos.
Apenas aquele filho da puta frio, de olhos de tubarão e terno Armani, se movendo como um homem que sente cheiro de sangue na água.
Ele resolveu o divórcio como se fosse uma execução. Gélido. Cirúrgico. Lindo para caralho.
Garantiu que ela não saísse nem com uma farpa minha. Nem a casa. Nem a caminhonete. Nem um centavo de pensão.
Assinado, selado e entregue — direto para o inferno.
Carol ficou parada na entrada da garagem, o rosto uma bagunça de catarro e manchas, agarrada às suas calças de ioga caras e seus sonhos ridículos e despedaçados enfiados em uma mala, parecendo a mendiga mais triste do mundo. Chorando. Soluçando. Agindo como se ela fosse a vítima, como se não tivesse sido ela quem puxou o pino da granada e deu risada enquanto os estilhaços rasgavam nós dois.
Não consegui nem olhar para ela.
Não aguentei aquele choramingo patético na voz dela, os soluços engasgados, como se isso fosse costurar as peças de volta depois que ela usou uma motosserra no que construímos.
Ela não ganhou uma segunda chance.
Ela não ganhou uma lágrima.
Ela não ganhou porra nenhuma.
Graham garantiu que cada prego, cada viga, cada telha pela qual eu me matei de trabalhar continuasse sendo meu. Garantiu que a única coisa com que ela saiu foi com as costas doendo de tanto carregar a própria culpa até o meio-fio.
Ela teve sorte de eu não ter incendiado a casa inteira atrás dela, só para garantir que ela nunca mais sentisse nem o cheiro da vida que jogou fora.
E eu?
Eu ainda estou aqui.
Ainda respirando as cinzas.
Ainda dormindo no quarto de hóspedes feito um fantasma que não consegue parar de assombrar o próprio corpo.
Ainda rangendo os dentes toda vez que o vento faz a porta do quarto principal ranger.
Ainda desejando ter queimado tudo. Cada pedacinho.
Agora eu trabalho.
Trabalho feito um cachorro com as costas quebradas e um desejo de morte. Trabalho até as bolhas estourarem e sangrarem através das luvas, até meus joelhos estalarem e o mundo virar um longo rosnado de pó de gesso e marteladas. Principalmente só para sair dessa casa. Dessas paredes que sussurram, gemem e rangem e respiram quando não estou olhando — como se estivessem vivas, como se lembrassem, como se estivessem me vendo apodrecer por dentro com um sorriso.
Acordo toda santa manhã naquele colchão de bosta que peguei no Craigslist por cinquenta pratas e metade da minha dignidade. Cheira a espuma barata e casamentos fracassados, jogado direto sobre o assoalho torto, como o último prego no caixão de qualquer piada que a vida achou que estava pregando em mim.
Sem base de cama.
Sem criado-mudo.
Sem luminárias.
Sem fotos.
Sem porra de esperança.
Apenas quatro paredes imundas e um chão que range quando você respira com força, uma placa de colchão caída que cheira como se tivesse pertencido a um mendigo que morreu engasgado no próprio vômito. Toda vez que minhas costas estalam quando saio de lá, isso me lembra que isso não é uma vida — é uma sentença. Vinte anos de prisão pelo crime de acreditar em alguém que me via apenas como um degrau.
Como qualquer merda que eu consiga engolir entre um trabalho e outro — sanduíches de posto embrulhados em plástico engordurado, hambúrgueres de drive-thru que têm gosto de depressão e papelão. Na metade das vezes, nem me dou ao trabalho de esquentar a porra da comida. Só rasgo a embalagem com os dentes e empurro aquela gororoba sem gosto garganta abaixo enquanto minhas botas ainda estão cobertas pela sujeira de outra pessoa, ainda chutando serragem no piso alheio, construindo o sonho de outro alguém.
E cerveja.
Sempre essa porra de cerveja.
Cerveja quente, cor de mijo, de prateleira barata, empilhada em pirâmides bagunçadas na geladeira como um altar patético para o meu próprio desprezo. Packs de seis, de doze, que se dane, qualquer coisa barata o suficiente para abafar o barulho por algumas horas. Comprada naquela lojinha de esquina que cheira a mijo de gato e lares destruídos, cuidada por um infeliz de olhar morto que nem pede mais meu RG, porque sabe que a única coisa que estou matando é a mim mesmo.
Empilhar as latas. Abrir. Sentir o lodo amargo rasgar um buraco na minha garganta.
Nunca anestesia o suficiente.
Nunca chega nem perto.
Trabalhar.
Beber.
Apagar de vez.
Acordar e fazer tudo de novo como um boneco de carne sem cérebro que esqueceu como querer outra coisa.
Sem planos.
Sem porra de futuro.
Ninguém esperando.
Ninguém checando se eu passo pela porta ou se eu fico estirado em algum trecho solitário de estrada para os corvos limparem os ossos.
Só eu.
Eu e os fantasmas de cada decisão errada que já tomei, batendo, rosnando e arranhando dentro da minha cabeça, raspando suas unhas ensanguentadas nas paredes do meu crânio até eu querer enfiar minha testa na parede só para ouvir alguma coisa estalar, alguma coisa quebrar que não esteja já quebrada.
E na maioria dos dias?
Na maioria dos dias, acho que mereço essa porra.
Mereço cada respiração dolorosa que tem gosto de ferrugem e cigarro.
Mereço cada nó do dedo quebrado, cada costela fraturada, cada blecaute regado a uísque onde acordo me perguntando se, talvez, essa seja a noite em que meu coração para de se incomodar em bater.
Mereço isso porque só um idiota cego, babaca e capacho se apaixona por uma mulher que já estava com um pé na porta.
Já tinha ido embora pela metade.
Já estava ajoelhada para o próximo filho da puta que mostrasse um sorriso e um músculo.
Eu construí um reino para ela, e ela entregou as chaves para o primeiro idiota sorridente que prometeu “aventura”.
E eu?
Eu fiquei.
Eu fiquei e apodreci.
Eu fiquei e construí um mausoléu de sangue, madeira e esperança, só para dormir como um rato em uma cama caída e sonhar com uma vida que nunca, porra, existiu para começo de conversa.