Aniversário
O bolo era de baunilha.
Damien sempre dizia que odiava chocolate; dizia que era muito pesado, demais. Então, Aria ficou na confeitaria por quarenta minutos escolhendo a baunilha certa — baunilha francesa, fava de Madagascar, aquela que cheirava ao próprio calor. Ela pagou sessenta e dois dólares por um bolo pequeno o suficiente para ser íntimo, mas grande o suficiente para ser importante. Ela mesma amarrou uma fita branca em volta da caixa. Suas mãos tremiam um pouco. Não de nervosismo. De empolgação. Essa é a coisa sobre estar apaixonada: faz suas mãos tremerem e você nem se importa.
Ela tinha vinte anos e estava convencida de que já havia encontrado a pessoa com quem passaria o resto da vida.
Damien Cole. Vinte e quatro anos. Um maxilar que parecia esculpido em algo mais duro que osso, olhos tão escuros que engoliam a luz. Ele ria alto, beijava suavemente e a chamava de "bebê" com aquela voz preguiçosa e sonolenta que a fazia sentir como se fosse a única coisa sólida em qualquer cômodo em que estivessem. Dois anos. Eles estavam juntos há dois anos e Aria ainda sentia um frio na barriga toda vez que o nome dele brilhava na tela do celular.
Essa é a parte sobre a qual ninguém te avisa no amor. Ele não chega aos poucos. Ele vem de uma vez só, como uma enchente, e quando você percebe que a água chegou ao seu pescoço, você já esqueceu como era o chão firme.
Ela pegou um táxi para o apartamento dele. O prédio de Damien era daquele tipo com um porteiro que sabia seu nome, pisos de mármore e um elevador que cheirava a cedro e dinheiro. Os pais dele tinham comprado o imóvel para ele. Ele nunca fingiu o contrário, o que era uma das coisas que ela amava nele: aquela honestidade fácil e descarada sobre de onde vinha o dinheiro. Ela amava o jeito como ele circulava pela riqueza como se fosse o clima. Inevitável. Natural.
Ela o amava. Meu Deus, ela o amava tanto que era quase constrangedor.
O porteiro — Marcus — olhou para ela de um jeito estranho quando ela entrou. Só por um segundo. Um brilho nos olhos, algo que ficava entre o reconhecimento e o desconforto. Ela não pensou nada sobre isso. Sorriu para ele. Ergueu a caixa do bolo.
“Aniversário”, disse ela.
Marcus assentiu. Não disse nada. Olhou para as portas do elevador.
Ela deveria ter prestado atenção nisso. Ela sabe disso agora. Mas olhar para trás é apenas crueldade usando um casaco diferente.
O elevador abriu no décimo quarto andar e ela saiu no corredor com sua iluminação baixa e cara, ao som distante de jazz vindo de algum lugar. Damien amava jazz. Coisas antigas de Coltrane, saxofone de fim de noite que preenchia o cômodo como fumaça. Ela aprendeu a amar também, deitada no peito dele nas manhãs de domingo enquanto a cidade se movia do lado de fora das janelas. Ela construiu tantos pequenos amores ao redor dele. Pequenos amores satélites, orbitando o principal.
A porta dele estava entreaberta.
Mal dava para ver. uns dois centímetros, talvez menos. A tranca não tinha fechado.
Ela quase bateu mesmo assim. Quase chamou pelo nome dele. Mas a caixa do bolo estava pesada nas duas mãos, a porta estava logo ali e ela tinha entrado e saído do apartamento dele centenas de vezes; ela até tinha sua própria chave. Então, ela apenas empurrou a porta com o ombro, do jeito de sempre, entrou e disse, com a voz radiante, quente e plena—
“Amor, eu trouxe—”
E então o mundo acabou. Silenciosamente. Sem alarde. Do jeito que as piores coisas sempre acontecem.
* * *
Ela viu as costas dele primeiro.
Ele estava no corredor que ligava a entrada ao quarto, sem camisa, os músculos das costas se movendo sob a pele que ela tinha tocado mil vezes. E na frente dele, pressionada contra a parede com a cabeça inclinada para trás e os dedos entrelaçados no cabelo dele—
Eleanor.
Sua madrasta.
O cérebro de Aria fez algo interessante naquele momento. Ficou muito, muito quieto. Como um rádio perdendo o sinal. Todo o barulho da cidade, o jazz, seu próprio batimento cardíaco — desapareceram. Apenas o silêncio e a imagem à sua frente gravando-se no fundo de seus olhos de uma maneira que ela não conseguiria apagar por anos.
Eleanor tinha quarenta e um anos. Linda daquele jeito esculpido e bem cuidado de mulheres que tratam o corpo como um investimento. Ela estava usando a blusa vermelha que usava no café da manhã naquela manhã. Aria tinha elogiado a blusa no café. Ela tinha dito: "Essa cor fica ótima em você, Eleanor", e Eleanor tinha sorrido com aqueles dentes perfeitos e dito: "Obrigada, querida".
Querida.
A caixa do bolo caiu no chão.
Damien se virou. Os olhos de Eleanor se abriram. Por um segundo enorme e interminável, ninguém se moveu. Os três congelados como em uma pintura, exceto que pinturas não têm isso — não têm o horror específico de ver as duas pessoas em quem você mais confiava no mundo serem pegas no meio de uma traição em um corredor que cheirava a cedro e ao perfume de Damien.
“Aria—” Damien começou.
Ela se virou e saiu pela porta.
Ela não correu. Ela não gritou. Apertou o botão do elevador e ficou ali, com os braços ao lado do corpo e o rosto completamente, absolutamente inexpressivo enquanto esperava. Quando as portas se abriram, ela entrou, observou o corredor diminuir e desaparecer e pensou, com uma clareza que parecia quase cirúrgica—
Eu paguei sessenta e dois dólares por aquele bolo.
E então as portas se fecharam e ela desmoronou.









Dang! I love her already.